"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

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MINHAS PÉROLAS

terça-feira, 5 de setembro de 2023

Ensaio Teológico I(27) O Avesso do Medo: A Sabedoria como Convite e o Silêncio do Tirano

 


domingo, 3 de setembro de 2023

Ensaio Teológico I(26) A compaixão como expressão da sabedoria cristã ("Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender." — Nelson Mandela, Long Walk to Freedom)

 


quinta-feira, 31 de agosto de 2023

Ensaio Teológico I(25) A compreensão da condição humana como base para a ética cristã

 




terça-feira, 29 de agosto de 2023

Ensaio Teológico I(24) Convites, Discernimento e a Busca pela Verdade

 




domingo, 27 de agosto de 2023

Ensaio Teológico I(23) Além dos Velhos Padrões: O Convite que a Sabedoria Nunca Retira

 




Ensaio Teológico I(23) Além dos Velhos Padrões: O Convite que a Sabedoria Nunca Retira

Por Claudeci  Ferreira de Andrade

Há uma cena em Provérbios 1 que poucos se detêm para imaginar em toda a sua força visual. A Sabedoria não está confinada a um salão fechado, reservado a iniciados; ela está nas ruas, nas praças, no cruzamento mais movimentado da cidade, levantando a voz (Pv 1:20-21). É uma figura que grita justamente onde o barulho é maior, que escolhe os lugares por onde as pessoas passam sem parar, porque sabe que quem mais precisa ouvi-la é, quase sempre, quem nunca pensou em procurá-la.

Essa imagem me parece o ponto de partida mais honesto para refletir sobre o chamado à sabedoria. Não se trata de um convite exclusivo para poucos privilegiados, mas de um apelo urgente lançado em meio ao trânsito caótico da vida comum.

E há alguém nesse trânsito que conheço muito bem. Nem preciso lhe dar um nome, porque cada leitor acabará reconhecendo um pouco de si nessa figura. É o homem ou a mulher que ouviu o chamado e decidiu, sem drama nem declaração formal, simplesmente seguir adiante. Não por desprezar a sabedoria ou por optar conscientemente pela insensatez, mas pela pressa, pelo hábito, pela força centrípeta dos velhos padrões, que exercem um poder quase invisível e, muitas vezes, maior do que qualquer novidade — mesmo quando essa novidade promete uma vida melhor.

É exatamente essa pessoa que Provérbios 29:1 descreve com uma sobriedade quase desconcertante: "aquele que endurece a cerviz depois de muitas repreensões será destruído repentinamente, sem remédio." Não é uma ameaça; é um diagnóstico. O endurecimento raramente acontece de uma só vez. Ele se forma em camadas. Cada recusa acrescenta uma película quase imperceptível, até que a voz que ecoa do lado de fora já não consegue mais atravessar o coração.

O que a Sabedoria oferece àquele que decide parar e escutar não é um catálogo de regras nem um manual de comportamento. Ela oferece algo muito mais difícil de explicar e infinitamente mais precioso de receber: discernimento interior. A capacidade de enxergar a realidade com uma clareza que os próprios desejos, por si sós, jamais permitiriam. Ao escrever aos romanos, Paulo descreve essa mudança com uma linguagem quase corporal: "não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente" (Rm 12:2). O verbo grego original — metamorphoō — é o mesmo que dá origem à palavra metamorfose. Não se trata de um retoque superficial, mas de uma transformação que acontece de dentro para fora.

Essa transformação encontra seu fundamento mais profundo quando Colossenses 2:3 revela que em Cristo "estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento." A Senhora Sabedoria que clamava nas ruas em Provérbios não é apenas uma bela figura poética; ela antecipa uma realidade que o Novo Testamento finalmente revela: Jesus Cristo, a Sabedoria encarnada (1Co 1:30). Nesse horizonte, buscar sabedoria deixa de significar a busca por um conjunto de princípios corretos. Significa buscar uma pessoa. E essa diferença muda absolutamente tudo, porque princípios podem orientar nossas escolhas, mas apenas uma pessoa nos conhece profundamente e pode transformar quem somos.

Talvez por isso Paulo ore pelos efésios com palavras que merecem ser lidas sem pressa. Elas revelam o que realmente está em jogo quando a sabedoria é acolhida: "peço que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos conceda espírito de sabedoria e de revelação no pleno conhecimento dele, iluminados os olhos do vosso coração" (Ef 1:17-18). A expressão é extraordinária: os olhos do coração. Não basta uma mente bem informada; é preciso um coração capaz de enxergar. É exatamente a esse tipo de visão que a Sabedoria nos convida: não ao simples acúmulo de informações, mas à abertura de uma percepção que, sem a ação de Deus, permanece fechada.

Quando essa percepção desperta, nasce também uma oportunidade de transformação. A convicção que ela produz exige uma resposta. Resistir a ela — rejeitar aquilo que já foi visto com clareza — é, talvez, a única maneira de desperdiçar um convite que a própria Sabedoria fez questão de anunciar nos lugares mais públicos da existência. Ela continua nas ruas. Continua levantando a voz. Continua esperando.

Sócrates afirmou que a verdadeira sabedoria começa quando reconhecemos a própria ignorância. É, sem dúvida, um excelente ponto de partida. Mas, Provérbios, Paulo e Colossenses apontam para um horizonte ainda mais amplo. A sabedoria não termina no reconhecimento da ignorância; ela apenas começa ali. Depois, segue por um caminho que nenhuma filosofia humana conseguiu abrir sozinha. É o caminho que conduz a uma voz que ainda ecoa nos cruzamentos da vida, que ainda espera nos altos das colinas e que continua chamando, um a um, aqueles que passam apressados sem sequer levantar os olhos.

A pergunta, portanto, não é se o convite foi feito. A pergunta é outra: será que hoje, finalmente, vamos parar?