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MINHAS PÉROLAS

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

O Reflexo nas Mãos: Evolução, Estrogênio e o Futuro da Educação (“A evolução não se faz apenas com garras e dentes, mas com a capacidade de cuidar e compreender.” — Frans de Waal)

 



O Reflexo nas Mãos: Evolução, Estrogênio e o Futuro da Educação (“A evolução não se faz apenas com garras e dentes, mas com a capacidade de cuidar e compreender.” — Frans de Waal)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Naquela manhã, enquanto o café ainda filtrava lentamente, reparei nas minhas mãos apoiadas sobre a mesa. Sempre as considerei instrumentos práticos — servem para escrever, gesticular, contar moedas, folhear livros. Nada além disso. No entanto, meus olhos se detiveram na diferença quase imperceptível entre o indicador e o anelar. Recordei, então, a pesquisa que lera dias antes: o comprimento dos dedos pode guardar pistas silenciosas sobre quem fomos antes mesmo de nascer.

Há certa poesia nisso. Costumamos imaginar a evolução humana como uma sucessão de grandes conquistas — o fogo, a roda, a escrita — mas talvez parte dessa história esteja inscrita discretamente na proporção 2D:4D de nossas mãos. O professor John Manning, da Universidade de Swansea, dedicou anos ao estudo dessa relação entre o dedo indicador e o anelar. Segundo suas investigações, essa proporção reflete o equilíbrio hormonal ao qual o feto é exposto no primeiro trimestre da gestação: maior presença de estrogênio tende a alongar o indicador; predominância de testosterona favorece o anelar.

O que mais me chamou a atenção, porém, foi outro dado. Em um estudo com 225 recém-nascidos — 100 meninos e 125 meninas — verificou-se que, entre os meninos, proporções mais altas (indicando maior exposição pré-natal ao estrogênio) estavam associadas a maior circunferência craniana, medida fortemente correlacionada ao tamanho do cérebro e, mais tarde, a indicadores de desempenho cognitivo. Entre as meninas, essa relação não se manifestou da mesma maneira.

Manning evoca, nesse contexto, a hipótese do “macaco estrogenizado”, segundo a qual o aumento do cérebro humano ocorreu paralelamente a uma feminização gradual do esqueleto ao longo da evolução. O ganho cognitivo, entretanto, pode ter trazido custos biológicos: maior predisposição masculina a problemas cardiovasculares, infertilidade e transtornos psiquiátricos. Como se a natureza tivesse operado uma troca silenciosa — mais capacidade cerebral, menor robustez física tradicional.

Ao fechar o artigo, minha memória me levou à sala dos professores da escola onde lecionei por tantos anos. A presença feminina ali é amplamente majoritária. Os poucos homens que permanecem frequentemente revelam modos mais delicados, sensibilidade apurada, paciência constante. Não o digo como crítica, mas como observação cotidiana. O magistério, sobretudo na educação básica, consolidou-se como um espaço em que escuta, empatia e cuidado — traços culturalmente associados ao feminino — deixaram de ser diferenciais e tornaram-se requisitos essenciais.

Se aceitarmos que, segundo a pesquisa, cérebros maiores em homens podem estar ligados a maior influência estrogênica pré-natal, e que a docência exige intenso exercício intelectual e estabilidade emocional, é possível supor que tenderão a permanecer no sistema educacional aqueles indivíduos — mulheres e homens com traços mais “feminilizados” — cujo perfil favoreça habilidades cognitivas refinadas, comunicação sensível e adaptação emocional. Não se trata de estabelecer determinismos, mas de perceber a convergência entre dados científicos e transformações sociais já visíveis.

Além disso, os custos biológicos associados a determinadas proporções hormonais podem influenciar a permanência de certos perfis ao longo da vida profissional. Se a evolução privilegiou cérebros maiores, ainda que à custa de alguma vulnerabilidade, é plausível imaginar que prosperarão nos ambientes educacionais aqueles com maior equilíbrio cognitivo e emocional.

Contudo, ao observar novamente minhas mãos, compreendi o risco de reduzir o humano a índices anatômicos. Somos mais que proporções digitais: somos escolhas, circunstâncias e vocações. A biologia pode sugerir tendências; a cultura, porém, redefine destinos. Talvez o futuro da educação se torne cada vez mais feminino — não apenas em número, mas em sensibilidade. E isso talvez não represente perda alguma, mas um amadurecimento coletivo.

Se o preço de cérebros maiores foi uma lenta feminização da espécie, talvez estejamos apenas presenciando o desdobramento dessa longa história evolutiva. No fim, o que sustenta uma sala de aula não é a força do braço, mas a delicadeza da escuta. E, ao contemplar minhas mãos, percebi que a evolução pode ter moldado nossos ossos — mas é a consciência que decide o rumo que lhes damos.


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Como professor de sociologia, vejo que esse texto é um material riquíssimo para discutirmos temas como natureza versus cultura, gênero, trabalho e a própria evolução das instituições sociais. O texto nos convida a sair do senso comum e olhar para a biologia não como um destino fatalista, mas como um pano de fundo para nossas construções sociais. Aqui estão 5 questões discursivas, elaboradas com uma linguagem acessível para estudantes do Ensino Médio, focadas no desenvolvimento do pensamento crítico:


Questão 1

O texto menciona a proporção entre os dedos (2D:4D) como um reflexo de hormônios no período gestacional. De acordo com o autor, como essa característica biológica pode estar relacionada ao desenvolvimento cerebral e cognitivo nos homens?

Questão 2

O autor utiliza o termo “macaco estrogenizado” para explicar uma hipótese evolutiva. Explique, com suas palavras, o que seria essa "troca silenciosa" feita pela natureza: o que a espécie humana teria "ganhado" e o que teria "perdido" nesse processo?

Questão 3

Ao observar a sala dos professores, o autor percebe que o magistério é um espaço majoritariamente feminino ou de homens com traços mais sensíveis. Por que habilidades como a "escuta" e a "empatia" tornaram-se requisitos essenciais na educação básica moderna, superando a ideia de força ou autoridade física?

Questão 4

A sociologia frequentemente discute o Determinismo Biológico (a ideia de que nossa biologia define totalmente quem somos). Como o autor do texto se posiciona em relação a isso no parágrafo em que diz: "A biologia pode sugerir tendências; a cultura, porém, redefine destinos"?

Questão 5

A epígrafe de Frans de Waal afirma que a evolução também se faz com a "capacidade de cuidar". Relacione essa frase com a conclusão do texto, discutindo por que a "feminização" da educação pode ser vista como um "amadurecimento coletivo" da nossa sociedade.

Dica para o Professor:

Ao corrigir essas questões, busque avaliar se o aluno compreendeu que o texto não está dizendo que "homens não podem ser professores", mas sim que o perfil exigido pela sociedade atual para a educação valoriza traços de cuidado e inteligência emocional, que o autor associa a uma trajetória evolutiva específica.

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