O Soneto e o Estilhaço: TODA AULA É UM ASSÉDIO MORAL ("À beira da estrada Com o pelo tão sedoso O cachorro morto". — Paulo Franchetti)
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Naquele tempo, tentaram me vender um vocabulário elegante para atravessar o caos: empatia, cooperação, resiliência… palavras lisas, de cartaz de corredor, que soam bem — até você encostar na realidade. Porque, na prática, o que a gente tinha era silêncio de tela, câmera desligada e um cansaço que não cabia em manual nenhum. Mesmo assim, a gente insistia — ou fingia insistir — que existia um “nós” inteiro, esperando a hora de voltar. E voltou.
“Oba!” — pensei. E pensei mesmo, com aquele entusiasmo meio forçado, meio necessário, como quem precisa acreditar para não desabar. As aulas presenciais estavam de volta. O cheiro da sala, o arrastar das cadeiras, o corpo ali, de verdade… tudo parecia pedir recomeço. Soava bonito. Quase redentor. Mas, convenhamos, todo esporte de contato cobra seu preço — e alguém sempre sente o impacto.
Comigo, não demorou. Na primeira semana, propus algo simples: um soneto. Nada além do básico — forma clássica, rima ABBA/CDC/DCD, aquele esqueleto antigo que ainda sustenta muita coisa viva. Queria ver o fundamento respirando de novo. Queria, talvez, resgatar um acordo silencioso entre ensinar e aprender. Mas o acordo… já não existia.
O choque veio seco. Durante a discussão, fui ameaçado com um processo por assédio moral. Motivo? Não aceitar outro formato. A aluna, firme, disse que fez “do seu jeito”, porque era “seu ponto de vista”, a forma que ela sabia fazer. E ali — sem drama, sem alarde — alguma coisa cedeu. Senti-me obrigado a aceitar. Assinei o visto. Cumpri o rito. Mas, por dentro, ficou claro: não dava mais para contar com ninguém. Simples assim.
Não teve grito, nem cena. Só aquele silêncio pesado de quem percebe, tarde demais, que o chão mudou. Como se o velho contrato — aquele pacto implícito de que havia forma, critério, direção — tivesse sido rasgado ali, na minha frente, sem aviso, sem pudor.
E o que mais pesa nem é a discordância. É a repetição. Aquela sensação incômoda de retorno — não ao ponto de partida, mas ao erro reciclado, agora com discurso bonito. Um ciclo que se fecha sobre si mesmo. Ou, dizendo como é: o cachorro que retorna ao vômito.
Porque, sim, autonomia importa. Sempre importou. Mas, autonomia sem forma não é liberdade — é desordem bem embalada. E ensinar, por mais que tentem suavizar, ainda exige contorno. Ainda exige limite. Ainda exige alguém disposto a dizer: “por aqui, não”. Ou exigia.
Saí da sala com o soneto intacto no papel — e em cacos na prática. E foi ali que entendi: o retorno, depois do distanciamento pela a Covid-19, não era reencontro. Era colisão. Nesse caso, não foi o meu caso.
-*/-*/-**/-*/-*/-*/-*/-*/-/-*/-*/-*/-*/-/-*/-*/-*/
Olá! Como seu professor de Sociologia, fico muito entusiasmado com esse texto. Ele toca em um ponto nevrálgico da nossa disciplina: a crise das instituições e a quebra do pacto social dentro da escola. O texto nos mostra que a educação não é apenas transmitir conteúdo, mas um "contrato" de convivência e respeito a normas comuns. Quando cada um decide criar sua própria regra baseada apenas no "ponto de vista" individual, o que acontece com o coletivo? Aqui estão 5 questões discursivas para pensarmos juntos:
1. A Quebra do Pacto Pedagógico
O texto fala sobre um "pacto implícito" que foi rasgado. Na sociologia, as instituições funcionam baseadas em regras e papéis sociais definidos. Quando um aluno ameaça um professor por exigir o cumprimento de uma norma técnica (como a forma de um soneto), como isso afeta a autoridade pedagógica e a confiança necessária para o aprendizado?
2. Individualismo vs. Critério Coletivo
A aluna argumenta que fez "do seu jeito" e que era o "seu ponto de vista". Pensando na vida em sociedade, o que acontece quando os desejos individuais se sobrepõem às regras técnicas ou sociais? É possível existir ciência ou arte se não houver critérios comuns que todos aceitem seguir?
3. Autonomia ou Desordem?
O narrador afirma: "Autonomia sem forma não é liberdade — é desordem bem embalada". Explique, com suas palavras, a diferença sociológica entre ser um indivíduo autônomo (que pensa por si) e ser alguém que ignora as normas sociais e coletivas em nome de uma vontade própria.
4. A Escola como Campo de Conflito
O autor descreve o retorno às aulas não como um reencontro, mas como uma "colisão". Como as tensões sociais — como o uso do sistema jurídico (ameaça de processo) para resolver conflitos de sala de aula — transformam a escola em um campo de disputa de poder em vez de um espaço de cooperação?
5. A Banalização dos Conceitos Sociais
No início, o texto critica palavras como "empatia" e "resiliência" como sendo apenas "palavras lisas de cartaz". Por que, muitas vezes, os discursos oficiais das instituições parecem distantes da realidade vivida pelos professores e alunos no dia a dia? Como esse vazio entre o "discurso" e a "prática" gera o cansaço mencionado no texto?
Dica do Professor:
Reparem que o texto termina de forma intrigante: "Nesse caso, não foi o meu caso". Ele sugere que, embora o conflito tenha acontecido, o professor mantém sua integridade intelectual, mesmo que em silêncio. Ao responder, pensem: o que mantém uma sociedade unida quando as pessoas param de concordar sobre o que é certo ou errado?
.jpg)

Nenhum comentário:
Postar um comentário