O ESPERTALHÃO USURPADOR ou INTERVENTOR: O Equilibrista de Vidro ("Quem chega do nada com mãos cheias de estratégias, sairá para o nada de mãos vazias! Antes de estragar o plano de Deus." — CiFA)
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Existe um tipo de habilidade que, de tão bem lapidada, acaba cegando quem a ostenta. É a arte do “espertalhão” — aquele que entra em qualquer ambiente já com um repertório inteiro de estratégias na manga, como se a vida fosse um tabuleiro de xadrez e as peças, meros objetos sem alma. Chega de repente, mãos cheias de planos, convicto de que pode driblar o invisível, esquecendo — ou fingindo esquecer — que o destino cobra caro de quem tenta passar por cima das regras que não se veem.
Lembro de um diretor escolar que cruzou meu caminho. Apareceu durante uma intervenção, lado a lado com o poder, pisando firme — como quem conhece, de cor e salteado, a gramática das conveniências. Era eficiente, disso não dá pra duvidar. Sob sua gestão, tudo funcionava como um relógio: preciso, rígido, quase militar. Mas, ainda assim, havia algo ali… um certo incômodo no olhar. Uma pressa em se provar essencial, um brilho meio febril de quem acredita, no fundo, que o mundo gira ao redor do próprio carimbo.
Como já alertava Simone de Beauvoir, o homem sério demais pode ser perigoso — não demora muito para acreditar que sua verdade é régua universal. E ele era exatamente esse tipo. Só que a tirania, muitas vezes, não passa de uma armadura pesada vestida por quem tem medo de cair. Por trás daquela performance impecável, o que se insinuava era o desgaste: o cansaço de quem tenta controlar o que, no fim das contas, nunca esteve sob controle.
E o desfecho… bem, não teve estrondo nem plateia. Veio manso, quase constrangedor: o silêncio de uma sala vazia. Porque os ventos — ah, os ventos — sempre mudam. E quando mudaram, levaram junto as certezas dele. Suas estratégias, antes tão sólidas, se desfizeram como castelos de areia à beira da maré. Vi aquele homem partir sem drama, sem vilania — só menor, mais humano, carregando um peso que ninguém via. Doeu. Doeu porque não havia para onde voltar. Ele nunca tinha plantado raízes, só pavimentado caminhos para si mesmo.
Aquilo ficou comigo. Fez pensar nessa coisa delicada que é caminhar pela vida. Existe algo maior — chame de Deus, de Universo, de Ordem Natural, tanto faz — que não se dobra a planilhas nem a espertezas. E, de vez em quando, a realidade vem e lembra: a nossa medida não está na altura do palco que a gente ergue, mas na consciência de que somos pequenos diante do que não entendemos.
Talvez o ponto não seja controlar, mas se alinhar. Soltar um pouco o leme, sabe? Abrir as mãos em vez de cerrá-las. Porque, no fundo, há um tempo certo para tudo — e não adianta correr contra isso. A verdadeira exaltação não nasce da pressa, mas da escuta. Deixar o ego em silêncio já é, por si só, um ato de coragem. No fim das contas, o que fica é o que é de verdade: a humildade de reconhecer que, sozinhos, somos só vento… e vento nenhum vence uma tempestade.
-*/-*/-*/-*/-*/-*/-*/-*/-*/
Olá! Que bom ter você por aqui. Como professor de sociologia, vejo nesse texto uma excelente oportunidade para discutirmos como as ambições individuais chocam-se com as estruturas sociais e a ética. O texto "O Equilibrista de Vidro" nos permite analisar o conceito de "indivíduo" na modernidade, a busca pelo poder e as consequências do isolamento social causado pelo egocentrismo. Preparei cinco questões discursivas para ajudar você a mergulhar nas entrelinhas dessa crônica sob uma ótica sociológica:
1. A Instrumentalização das Relações Sociais
O texto menciona que o "espertalhão" vê a vida como um tabuleiro de xadrez e as pessoas como "meros objetos sem alma". Na sociologia, chamamos isso de ação social racional com relação a fins (segundo Max Weber). Explique, com suas palavras, como esse comportamento afeta a construção de laços de solidariedade dentro de um grupo, como uma escola.
2. A "Armadura" do Indivíduo e a Vulnerabilidade
O narrador afirma que "a tirania, muitas vezes, não passa de uma armadura pesada vestida por quem tem medo de cair". Relacione essa frase à pressão que a sociedade moderna exerce sobre os indivíduos para que sejam sempre "eficientes" e "bem-sucedidos". O que acontece com o ser humano quando ele prioriza a "performance" em vez da sua humanidade?
3. Poder e Autoridade: A Visão de Beauvoir
A crônica cita Simone de Beauvoir ao falar do "homem sério" que se torna perigoso por acreditar que sua verdade é a "régua universal". Como a imposição de uma única verdade ou método de gestão (como o estilo "quase militar" do diretor) pode prejudicar a diversidade e a democracia dentro de uma instituição social?
4. O Vazio da Falta de Pertencimento
Ao final, o texto diz que o diretor não tinha para onde voltar porque "nunca tinha plantado raízes, só pavimentado caminhos para si mesmo". Do ponto de vista sociológico, qual é a importância de "plantar raízes" (criar capital social e vínculos comunitários) para que um indivíduo se sinta integrado à sociedade?
5. A Ética da Alteridade vs. O Ego
O autor sugere que o segredo não é "controlar", mas "se alinhar" e ter a humildade de reconhecer que não somos autossuficientes. Como o reconhecimento da nossa dependência mútua (o fato de que precisamos uns dos outros) pode ajudar a combater a arrogância e a "esperteza" nas relações de trabalho e poder?
Dica do Professor: Ao responder, tente não olhar para o personagem apenas como alguém "ruim", mas como alguém que foi moldado por uma cultura de competitividade extrema. Isso ajudará você a ter um olhar mais crítico e humano sobre a nossa própria realidade social!
.jpeg)

Nenhum comentário:
Postar um comentário