Ensaio Teológico II(2) Submissão e Paixão: A Jornada da Sabedoria
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Houve um tempo em que convivi com um homem mais velho e muito mais experiente do que eu. Ele dizia coisas das quais eu discordava profundamente. Ainda assim, eu o escutava. Não porque tivesse abdicado do pensamento próprio, mas porque desconfiava — e o tempo provaria que essa desconfiança fazia sentido — de que muitas das minhas certezas fossem apenas a juventude vestida de convicção. Foi justamente ali, entre o impulso de responder e a decisão de ouvir até o fim, que compreendi, na prática, aquilo que os livros haviam me ensinado apenas em teoria: submissão e pensamento crítico não são forças que se anulam; são polos de uma mesma tensão. E, quando essa tensão é bem vivida, ela se transforma em sabedoria.
A tradição bíblica ensina que "o temor do Senhor é o princípio da sabedoria" (Salmos 111:10). Durante muito tempo, li essa afirmação como um convite à obediência sem perguntas. Hoje a leio de outra maneira. Temor, nesse contexto, não significa medo paralisante, mas reverência — uma atitude que abre espaço para ouvir algo maior do que a própria opinião. É esse mesmo espaço que Sócrates ocupava ao confessar: "só sei que nada sei". Não era uma declaração de ignorância vazia, mas de humildade fecunda, o solo onde a verdadeira busca pelo conhecimento finalmente pode florescer. Submeter-se, portanto, é, antes de tudo, reconhecer que ainda não se chegou ao fim da caminhada. E essa consciência, longe de revelar fraqueza, constitui o primeiro gesto de coragem intelectual.
Entretanto, há uma fronteira delicada, quase imperceptível, entre essa submissão fecunda e sua caricatura: a obediência cega. Uma nasce da reverência; a outra, da acomodação. Descobri isso anos mais tarde, quando percebi que continuava concordando com alguém não porque estivesse convencido, mas porque jamais havia criado o hábito de questionar. Bertrand Russell descreveu com precisão esse desconforto ao observar como tantas pessoas aceitam opiniões apenas porque foram herdadas da tradição, legitimadas pela convenção ou sustentadas pela autoridade, sem jamais submetê-las ao exame da razão. Naquele momento, escutar deixou de ser um exercício de humildade e passou a ser covardia disfarçada de respeito. Foi necessário recuar, rever posições, desconfiar das minhas concordâncias fáceis e permitir que o incômodo me conduzisse de volta ao pensamento autônomo.
Entre esses dois momentos da minha trajetória — o ouvir que ensina e o ouvir que anestesia — fui aprendendo, pouco a pouco, que a sabedoria não consiste em escolher entre submissão e crítica, mas em saber transitar entre ambas. Há hora de ceder; há hora de resistir. E essa travessia exige discernimento. Com o tempo, percebi também que essa equação permanece incompleta quando lhe falta um terceiro elemento, quase sempre esquecido nos debates entre razão e fé: a compaixão. Afinal, de que adianta vencer um debate, desmontar todos os argumentos do outro e sair com a razão nas mãos, se o fazemos sem amor? A Bíblia recorda que o fruto do Espírito não é apenas discernimento, mas também paciência, mansidão e bondade (Gálatas 5:22-23) — virtudes que nenhuma lógica, por mais refinada que seja, consegue produzir sozinha.
Talvez a verdadeira sabedoria nunca seja um ponto de chegada, mas um equilíbrio continuamente buscado: entre a humildade e o questionamento, entre a disposição de ouvir e a coragem de não se perder na voz alheia, entre o rigor do pensamento e a generosidade do coração. Não aprendi isso nos tratados de filosofia nem apenas nas páginas das Escrituras, mas nas circunstâncias concretas da vida, onde submissão e crítica se encontraram — ora em harmonia, ora em conflito. E talvez seja justamente nesse atrito, que jamais se resolve de forma definitiva, que a sabedoria continue a nascer. Não como uma conquista permanente, mas como uma travessia incessante, renovada a cada escolha entre escutar e questionar, entre ceder e resistir, entre me curvar diante da verdade e, ainda assim, permanecer inteiro.





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