"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

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MINHAS PÉROLAS

terça-feira, 29 de agosto de 2023

Ensaio Teológico I(24) Convites, Discernimento e a Busca pela Verdade

 




domingo, 27 de agosto de 2023

Ensaio Teológico I(23) Além dos Velhos Padrões: O Convite que a Sabedoria Nunca Retira

 




Ensaio Teológico I(23) Além dos Velhos Padrões: O Convite que a Sabedoria Nunca Retira

Por Claudeci  Ferreira de Andrade

Há uma cena em Provérbios 1 que poucos se detêm para imaginar em toda a sua força visual. A Sabedoria não está confinada a um salão fechado, reservado a iniciados; ela está nas ruas, nas praças, no cruzamento mais movimentado da cidade, levantando a voz (Pv 1:20-21). É uma figura que grita justamente onde o barulho é maior, que escolhe os lugares por onde as pessoas passam sem parar, porque sabe que quem mais precisa ouvi-la é, quase sempre, quem nunca pensou em procurá-la.

Essa imagem me parece o ponto de partida mais honesto para refletir sobre o chamado à sabedoria. Não se trata de um convite exclusivo para poucos privilegiados, mas de um apelo urgente lançado em meio ao trânsito caótico da vida comum.

E há alguém nesse trânsito que conheço muito bem. Nem preciso lhe dar um nome, porque cada leitor acabará reconhecendo um pouco de si nessa figura. É o homem ou a mulher que ouviu o chamado e decidiu, sem drama nem declaração formal, simplesmente seguir adiante. Não por desprezar a sabedoria ou por optar conscientemente pela insensatez, mas pela pressa, pelo hábito, pela força centrípeta dos velhos padrões, que exercem um poder quase invisível e, muitas vezes, maior do que qualquer novidade — mesmo quando essa novidade promete uma vida melhor.

É exatamente essa pessoa que Provérbios 29:1 descreve com uma sobriedade quase desconcertante: "aquele que endurece a cerviz depois de muitas repreensões será destruído repentinamente, sem remédio." Não é uma ameaça; é um diagnóstico. O endurecimento raramente acontece de uma só vez. Ele se forma em camadas. Cada recusa acrescenta uma película quase imperceptível, até que a voz que ecoa do lado de fora já não consegue mais atravessar o coração.

O que a Sabedoria oferece àquele que decide parar e escutar não é um catálogo de regras nem um manual de comportamento. Ela oferece algo muito mais difícil de explicar e infinitamente mais precioso de receber: discernimento interior. A capacidade de enxergar a realidade com uma clareza que os próprios desejos, por si sós, jamais permitiriam. Ao escrever aos romanos, Paulo descreve essa mudança com uma linguagem quase corporal: "não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente" (Rm 12:2). O verbo grego original — metamorphoō — é o mesmo que dá origem à palavra metamorfose. Não se trata de um retoque superficial, mas de uma transformação que acontece de dentro para fora.

Essa transformação encontra seu fundamento mais profundo quando Colossenses 2:3 revela que em Cristo "estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento." A Senhora Sabedoria que clamava nas ruas em Provérbios não é apenas uma bela figura poética; ela antecipa uma realidade que o Novo Testamento finalmente revela: Jesus Cristo, a Sabedoria encarnada (1Co 1:30). Nesse horizonte, buscar sabedoria deixa de significar a busca por um conjunto de princípios corretos. Significa buscar uma pessoa. E essa diferença muda absolutamente tudo, porque princípios podem orientar nossas escolhas, mas apenas uma pessoa nos conhece profundamente e pode transformar quem somos.

Talvez por isso Paulo ore pelos efésios com palavras que merecem ser lidas sem pressa. Elas revelam o que realmente está em jogo quando a sabedoria é acolhida: "peço que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos conceda espírito de sabedoria e de revelação no pleno conhecimento dele, iluminados os olhos do vosso coração" (Ef 1:17-18). A expressão é extraordinária: os olhos do coração. Não basta uma mente bem informada; é preciso um coração capaz de enxergar. É exatamente a esse tipo de visão que a Sabedoria nos convida: não ao simples acúmulo de informações, mas à abertura de uma percepção que, sem a ação de Deus, permanece fechada.

Quando essa percepção desperta, nasce também uma oportunidade de transformação. A convicção que ela produz exige uma resposta. Resistir a ela — rejeitar aquilo que já foi visto com clareza — é, talvez, a única maneira de desperdiçar um convite que a própria Sabedoria fez questão de anunciar nos lugares mais públicos da existência. Ela continua nas ruas. Continua levantando a voz. Continua esperando.

Sócrates afirmou que a verdadeira sabedoria começa quando reconhecemos a própria ignorância. É, sem dúvida, um excelente ponto de partida. Mas, Provérbios, Paulo e Colossenses apontam para um horizonte ainda mais amplo. A sabedoria não termina no reconhecimento da ignorância; ela apenas começa ali. Depois, segue por um caminho que nenhuma filosofia humana conseguiu abrir sozinha. É o caminho que conduz a uma voz que ainda ecoa nos cruzamentos da vida, que ainda espera nos altos das colinas e que continua chamando, um a um, aqueles que passam apressados sem sequer levantar os olhos.

A pergunta, portanto, não é se o convite foi feito. A pergunta é outra: será que hoje, finalmente, vamos parar?

sábado, 26 de agosto de 2023

Ensaio I(22) Questionando Rótulos e Desvendando Virtudes.

 


Ensaio I(22) Questionando Rótulos e Desvendando Virtudes.

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Vivemos numa época obcecada por catalogar o que, por natureza, escapa a qualquer classificação. Basta uma frase, um gesto ou um recorte de poucos segundos para que uma pessoa inteira seja reduzida a um rótulo. Nas conversas do dia a dia, nos tribunais improvisados das redes sociais e até em muitos ambientes religiosos, distribuímos sentenças com uma rapidez inquietante. Chamamos alguém de "simples", "escarnecedor" ou "tolo", como se uma única palavra fosse capaz de traduzir toda a complexidade de uma existência. Mas, será que rotular o outro não passa de uma maneira confortável de esconder nossa dificuldade em compreendê-lo? Talvez os rótulos revelem menos sobre quem os recebe e muito mais sobre quem os atribui.

Essa inquietação me leva a olhar com mais cuidado para a figura do "simples". Quantas vezes confundimos simplicidade com ingenuidade ou falta de inteligência? No entanto, basta observar a vida sem pressa para perceber que ela é muito mais complexa do que aparenta. Há pessoas que atravessam o cotidiano em silêncio, cumprem seus deveres sem alarde e sustentam batalhas que ninguém vê. Sua aparente discrição não nasce da passividade, mas de uma força interior cultivada longe dos holofotes. Não por acaso, Blaise Pascal afirmou que "A simplicidade é o último grau de sofisticação". A frase revela uma verdade que a experiência confirma: ser simples pode exigir muito mais maturidade do que parecer extraordinário. O salmista também reconheceu essa grandeza ao declarar que "O Senhor preserva os simples; quando me encontrava enfraquecido, ele me salvou" (Salmo 116:6). Nesse contexto, a simplicidade deixa de ser sinônimo de ignorância para tornar-se expressão de humildade, confiança e sabedoria prática.

O contraste aparece quando a busca sincera pela verdade é sufocada pelo barulho da arrogância. Vivemos cercados por um tipo de ironia que transforma o deboche em sinal de inteligência e o sarcasmo em argumento. O "escarnecedor" já não ocupa apenas as páginas da literatura sapiencial; ele ganhou espaço nas telas, nos comentários apressados e na cultura da ridicularização permanente. Ainda assim, convém fazer uma distinção importante. Questionar não é o problema. O ceticismo saudável sempre impulsionou o conhecimento humano, desafiando ideias acomodadas e abrindo caminho para novas descobertas. O problema surge quando o desejo de compreender é substituído pela necessidade de humilhar.

Foi exatamente isso que Sócrates combateu ao afirmar: "Só sei que nada sei". Sua declaração não glorificava a ignorância; desarmava a pretensão daqueles que acreditavam possuir a verdade completa. Há uma diferença profunda entre quem pergunta para aprender e quem questiona apenas para exibir superioridade. É nessa fronteira que a advertência de Paulo ganha força: "Não se deixem enganar: de Deus não se zomba" (Gálatas 6:7). A crítica não condena o pensamento livre, mas a arrogância que transforma o conhecimento em instrumento de desprezo pelo próximo e pelo próprio mistério de Deus.

"Categorizar o outro não seria apenas uma anestesia para nossa própria incapacidade de compreender a complexidade humana?" A mesma lógica aparece quando alguém é apressadamente classificado como "tolo". Talvez nenhum rótulo seja tão cruel quanto esse, porque sugere uma condição definitiva, como se a ignorância fosse uma prisão sem portas. Mas, a experiência humana aponta para outra direção. Todos começamos sabendo muito pouco, e todos permanecemos ignorando muito mais do que imaginamos. O erro não precisa ser uma sentença; pode ser o início do aprendizado. Condenar alguém por sua limitação é fechar a porta justamente no momento em que ela mais precisa ser aberta.

Confúcio expressou essa realidade ao afirmar que "A ignorância é a noite da mente, mas uma noite sem lua e sem estrelas". A metáfora é forte, mas não elimina a possibilidade do amanhecer. Toda noite, por mais escura que seja, guarda em si a promessa da luz. Também a literatura bíblica segue esse caminho ao afirmar que "O temor do Senhor é o princípio da sabedoria" (Salmo 111:10). Esse "temor" não se confunde com medo servil, mas aponta para uma atitude de reverência diante do mistério da vida e do reconhecimento dos próprios limites. É justamente dessa humildade que nasce o verdadeiro aprendizado.

Por isso, resisto à tentação de encaixar pessoas em gavetas conceituais. A vida sempre transborda as definições que tentamos impor a ela. Desconstruir rótulos, portanto, não é apenas um exercício de linguagem ou uma discussão acadêmica; é um compromisso ético com a dignidade humana. Quem aprende a olhar além das etiquetas descobre pessoas onde antes via categorias, histórias onde antes via estereótipos e possibilidades onde antes enxergava apenas fracassos.

No fim das contas, a sabedoria talvez comece exatamente aí: na disposição de trocar o julgamento pela escuta, a pressa pela compreensão e a certeza absoluta pela humildade de continuar aprendendo. Afinal, ninguém amadurece enquanto permanece prisioneiro das próprias definições. Crescemos quando temos coragem de quebrar os espelhos do nosso orgulho e reconhecer que o outro, com sua diferença e sua história, também tem algo indispensável a nos ensinar.

quinta-feira, 24 de agosto de 2023

Ensaio I(21) Sabedoria: Dom Divino ou Humano?

 


terça-feira, 22 de agosto de 2023

Ensaio Teológico I(20) A Senhora Sabedoria e o convite que nunca se encerra

 


sábado, 19 de agosto de 2023

Ensaio Teológico I(19) Loucura, Pecado e Graça: Entre o Determinismo e a Liberdade