"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

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MINHAS PÉROLAS

domingo, 15 de outubro de 2023

O VERÃO DOS PROFESSORES ("Centenas de pessoas se reuniram neste domingo (15), em Arras, no norte de França, em memória de Dominique Bernard, um professor francês morto a facadas na sexta-feira por um ex-aluno da instituição, em um ataque islâmico")

 


O VERÃO DOS PROFESSORES ("Centenas de pessoas se reuniram neste domingo (15), em Arras, no norte de França, em memória de Dominique Bernard, um professor francês morto a facadas na sexta-feira por um ex-aluno da instituição, em um ataque islâmico")

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Há algo de perturbador na atmosfera, como uma melodia dissonante ecoando pelas salas de aula. Os corredores das escolas, outrora repletos de risos e esperanças, agora ressoam com um lamento silencioso. Hoje, dia do professor (15/10), vou contar uma história de batalhas silenciosas, de lágrimas escondidas e de vidas que se desgastam em uma missão nobre e árdua: a dos professores.

Na França, mais um professor sucumbiu à brutalidade. Dominique Bernard, um educador dedicado, caiu vítima de um ex-aluno radicalizado, um triste reflexo da violência que assombra o sistema educacional francês. Essa triste realidade se assemelha a tantas outras na história recente, como o assassinato de Samuel Paty em 2020. O silêncio de um minuto e as homenagens demonstram nosso pesar, mas será que basta?
O cenário das escolas francesas não é único. Ecos semelhantes ressoam ao redor do mundo. Professores enfrentam uma batalha diária, onde as trincheiras são as salas de aula abarrotadas, as munições são os materiais escassos, e a vitória é medida em conhecimento compartilhado. Mas, essa luta é árdua demais. A ansiedade, fruto de estruturas precárias e salários defasados, consome esses heróis do cotidiano.
Com base no relato mentiroso de sua filha, o pai da menina apresentou uma denúncia contra o professor e lançou uma virulenta campanha nas redes sociais contra Samuel Paty, que depois foi decapitado por um terrorista de 18 anos. Os alunos descobriram que inventar motivo para denunciar professor dar certo, assim eliminam os indesejados com acusações de comer o lanche deles. De olhar para as alunas, contar piadas de cunho sexual, Não sabe dar aula, Não sabe nada... Eles podem ser racistas, homofóbicos, machistas, etarista, mandam todo mundo tomar no c... e riem muito da cara do professor. Se um professor morre vem outro no lugar imediatamente, e há muitos para serem trocados, como se muda de roupa. Salas de aula superlotadas e falta de recursos básicos drenam a energia e a paixão dos professores. Como não sentir ansiedade em um ambiente tão desafiador? Os salários, frequentemente injustos para a importância de sua missão, corroem a motivação e a sensação de dever cumprido.
O Brasil não é exceção. A saúde mental dos professores padece, com destaque para a síndrome de burnout, estresse e depressão. Essas feridas invisíveis afastam educadores do que amam, ameaçando minar nosso sistema educacional. Transtornos vocais, osteomusculares e a violência nas escolas são inimigos adicionais nessa guerra silenciosa.
Não basta homenagear com palmas e lágrimas os professores nos momentos de tragédia. Devemos lutar por salas de aula menos abarrotadas, por salários condizentes, por estruturas adequadas e por apoio na saúde mental. O grito silencioso dos professores não pode ser mais ignorado. Como disse Albert Camus: "No meio do inverno, aprendi que havia em mim um verão invencível." É hora de dar aos professores o verão que merecem. Ninguém merece apanhar, facadas e tiros.

https://g1.globo.com/mundo/noticia/2021/03/08/professor-decapitado-na-franca-aluna-que-o-acusou-de-islamofobia-admite-que-mentiu.ghtml (acessado em 16/10/2023).

Ensaio Teológico II(1) Além da Memorização: A Travessia de Fora Para Dentro

 


quinta-feira, 12 de outubro de 2023

Ensaio Teológico I(33) Sabedoria: O Caminho Que Não Promete Chegada

 


sábado, 7 de outubro de 2023

Ensaio Teológico I(32) A Loteria: Entre a Esperança e o Espelho

 


quarta-feira, 4 de outubro de 2023

TUDO SE AVALIA: REFLEXÕES NA VÉSPERA DO CONSELHO DE CLASSE ("Pela forma como trabalha se avalia o artista". — Jean de La Fontaine)

 


TUDO SE AVALIA: REFLEXÕES NA VÉSPERA DO CONSELHO DE CLASSE ("Pela forma como trabalha se avalia o artista". — Jean de La Fontaine)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Na véspera do conselho de classe, uma atmosfera carregada de expectativas e tensão paira sobre a escola. É o momento em que os professores, como eu, se preparam para justificar as notas atribuídas aos alunos, de acordo com seus méritos. Entretanto, existe um personagem nessa história, um indivíduo que se tornou persona non grata entre nós: o mestre, pois aprenderá da maneira mais marcante possível que não pode reprovar aluno algum.

Com muito critério prepararam um formulário que a escola proporciona aos alunos para julgar os professores metodicamente; uma ferramenta que devia tratar apenas do aspecto profissional, porém abrange também o pessoal. Ela serve, segundo minha perspectiva, para colocar o professor em seu devido lugar. Neste contexto, somos nós, os educadores, os vilões em destaque.

A avaliação é, para muitos alunos, apenas um meio de desabafar suas frustrações, expressar o quão chato é um professor ou o quanto detestam determinada matéria. E, veja só, por vezes, isso se torna um espetáculo cômico, quando um professor se vê como o monarca da sala de aula e, de repente, recebe um tapa de realidade por meio dessas avaliações.

Em toda a véspera do conselho de classe, quando olho para essas avaliações, encontro nelas uma mistura de ansiedade e desafio. Cada uma delas é uma narrativa singular, escrita com tintas da juventude e da experiência escolar. São vozes que clamam por atenção, que exigem ser ouvidas, e muitas vezes, revelam não apenas as impressões dos alunos, mas também nossos próprios erros e desafios como professores.

Ao longo dos anos, tenho aprendido que essa avaliação é mais do que apenas um mecanismo de feedback. Ela é um espelho que reflete nossas práticas e nos faz questionar nosso papel como educadores. A que ponto chegamos, o discente, instruindo o docente. “Se a montanha não vai a Maomé, vai Maomé à montanha". Não é apenas um modo dos alunos desabafarem, mas também uma oportunidade para nós, professores, refletirmos sobre nossa abordagem pedagógica e nosso relacionamento com nossos pupilos.

No conselho de classe, quando nos reunimos para analisar essas avaliações, é um momento de autoavaliação e crescimento. É o momento em que percebemos que, apesar de sermos os profissionais, ainda temos muito a aprender com nossos alunos. Afinal, o conhecimento não flui apenas em uma direção, mas é uma via de mão dupla, onde todos nós, professores e alunos, são eternos aprendizes.

Assim, a avaliação que um dia pareceu ser uma ameaça para o nosso status como professores, na verdade, se revela como um instrumento de crescimento e evolução. É uma lição de humildade e um lembrete de que, no final das contas, todos estão aqui para aprender e crescer juntos.

segunda-feira, 2 de outubro de 2023

Ensaio Teológico I(31) Entre o Bem, o Mal e a Verdade: Uma Travessia Entre Fé e Razão

 


sábado, 30 de setembro de 2023

ENTRE O JOGO E O ESTUDO: UMA CRÔNICA SOBRE AS ESCOLHAS DA JUVENTUDE ("Na juventude deve-se acumular o saber. Na velhice fazer uso dele." — Jean-Jacques Rousseau)

 


ENTRE O JOGO E O ESTUDO: UMA CRÔNICA SOBRE AS ESCOLHAS DA JUVENTUDE ("Na juventude deve-se acumular o saber. Na velhice fazer uso dele." — Jean-Jacques Rousseau)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Eu sou professor há muitos anos, e já vi de tudo um pouco nas salas de aula. Mas, hoje eu quero contar uma história que me marcou profundamente, e que revela um pouco da complexidade da alma humana. Uma história que se passou em um dia aparentemente comum, mas que escondia surpresas e contradições.

Tudo começou quando a direção da escola resolveu organizar um "aulão" para os alunos do terceiro ano do Ensino Médio, que estavam prestes a enfrentar o Enem. Um evento que prometia ser um divisor de águas na vida desses jovens, que sonhavam com uma vaga na universidade. Um momento de revisão e esclarecimento das dúvidas mais frequentes sobre português e matemática, as disciplinas mais temidas pelos estudantes.

O auditório estava lotado de alunos ansiosos e curiosos, que se acomodavam nas cadeiras e aguardavam o início da palestra. Eu estava lá no outro pavilhão em minha sala de aulas normais para ministrar minha aula de sociologia que constava no horário normal. Eu sentia orgulho daqueles jovens, que demonstravam interesse e dedicação pelo seu futuro. Sobretudo, me acomodei na sala quase vazia, porque alguns aqui decidiram "matar" o tal aulão. Comecei minha aula esperando ser útil de alguma forma.

Mas, me ignoraram, estavam se divertindo com jogos de cartas. Pareceu-me que não estavam esperando professor algum para aquele horário. Não consultaram a planilha de aulas ou era de propósito mesmo. A verdade é que estavam empolgados e barulhentos, desafiando uns aos outros em partidas de truco. Eles não se importavam com o Enem, nem com as consequências de suas escolhas. Eles só queriam aproveitar o momento, sem pensar no amanhã.

Fiquei perplexo com essa cena! Como podiam existir dois grupos tão distintos entre os mesmos alunos? Como podiam coexistir o desejo pelo conhecimento e a indiferença pela educação? Como podiam conciliar o sonho da universidade e a fuga da realidade?

Eu não tinha uma resposta pronta para essas perguntas. Talvez fosse uma questão de personalidade, de valores, de influências. Talvez fosse uma questão de maturidade, de responsabilidade, de consciência. Talvez fosse uma questão de juventude, de rebeldia, de liberdade. Não sei qual é a verdadeira causa desse problema. Você saiba me explicar?

Então, lembrei-me de quando eu era jovem, e das escolhas que fiz na minha vida. Eu também tive meus momentos de dúvida, de diversão, de desafio. Todavia também tive meus momentos de estudo, de trabalho, de superação. Eu também tive meus momentos de erro, de arrependimento, de aprendizado. Talvez, por isso, sou professor hoje!

E foi assim que eu cheguei à conclusão desta crônica: a vida é feita de escolhas, e cada escolha tem uma consequência. Cabe a cada um decidir qual caminho seguir, e arcar com as suas consequências. Cabe a cada um encontrar o seu equilíbrio entre o presente e o futuro, entre o prazer e o dever, entre o jogo e o estudo.

E cabe a mim, como professor, respeitar essas escolhas, mas também orientar esses jovens para que façam as melhores escolhas possíveis. Pois é assim que formamos cidadãos conscientes, capazes de transformar o mundo com o seu conhecimento e a sua juventude. Fui tomar o baralho? Não, dei minha aula para dois ou três que sentavam na frente para não incomodar os fanfarrões do "fundão". São eles o reclamadores, os denunciadores e organizadores de abaixo-assinado para tirar o professor. Aceite meu medo ou minha conveniência.