Lembro-me de uma noite, ainda jovem, em que fiz tudo certo e, mesmo assim, tudo desmoronou. Estudei, orei, ponderei cada decisão com o cuidado de quem levava a sério os provérbios ouvidos desde a infância. Ainda assim, a perda chegou inteira — sem aviso, sem piedade e sem qualquer explicação que coubesse em um versículo. Foi naquele silêncio pesado, depois da queda, que comecei a desconfiar de uma equação apresentada como verdade absoluta: sabedoria mais retidão igual a paz garantida.
A tradição sapiencial é generosa em suas promessas. "Feliz é o homem que acha sabedoria", diz Provérbios (3:13), e há nessa afirmação uma beleza serena, quase um convite ao descanso da alma. Mas, a vida — essa mestra que não segue apostilas nem respeita nossos esquemas — costuma ensinar de outro jeito. O caminho da sabedoria não é uma estrada reta e asfaltada; parece muito mais uma trilha em mata fechada, cheia de raízes escondidas, curvas inesperadas e pedras capazes de fazer tropeçar até quem caminha atento.
É justamente nesse ponto que Eclesiastes entra em cena, quase como um irmão mais velho, calejado pela experiência, aproximando-se de Provérbios para lhe dizer, em voz baixa: "Vi tudo o que se faz debaixo do sol; tudo é ilusão, é correr atrás do vento" (1:14). Não há blasfêmia nessas palavras; há sinceridade. Eclesiastes não rejeita a sabedoria. O que ele desmonta é a pretensão de que ela seja capaz de controlar aquilo que, por natureza, escapa ao nosso domínio. Talvez esteja aí um dos diálogos mais ricos das Escrituras: dois livros lado a lado, um oferecendo um mapa, o outro lembrando, com delicada ironia, que todo mapa costuma ser desenhado depois que alguém já se perdeu.
Pascal compreendeu esse abismo entre a lógica e a existência quando escreveu que "o coração tem razões que a própria razão desconhece". Afinal, diante do sofrimento do justo, não é o intelecto que primeiro reage; é o coração. É ele que estremece, que se revolta, que insiste em perguntar por quê. Nenhuma fórmula moral consegue responder plenamente a essa pergunta. E talvez seja justamente nessa ausência de respostas prontas que floresça uma fé mais madura: não aquela que exige uma explicação para cada tragédia, mas a que aprende a continuar caminhando mesmo quando a noite parece não ter fim.
Não escrevo como quem contempla essa realidade de longe. Escrevo como quem precisou reconstruir, pedra por pedra, a própria compreensão da sabedoria. Aos poucos, deixei de vê-la como uma espécie de seguro contra o sofrimento e passei a enxergá-la como uma lanterna. Ela não dissipa a tempestade, nem faz o vento cessar; apenas ilumina o próximo passo. E, olhando para trás, percebo que essa luz discreta foi suficiente para impedir que eu me perdesse completamente. Aprendi — ainda que tarde — que ser sábio não significa escapar da dor, mas atravessá-la sem permitir que ela devore a alma.
Essa mudança de perspectiva talvez seja uma das experiências mais humanas que existem. Quantas pessoas conhecemos — e talvez você mesmo se lembre de algumas neste instante — que fizeram tudo corretamente e, ainda assim, enterraram sonhos, despediram-se de pessoas amadas ou viram anos de trabalho honesto desmoronarem diante dos próprios olhos? Dizer que lhes faltou sabedoria seria reduzir a complexidade da existência a uma fórmula simplista; seria uma crueldade disfarçada de teologia. A vida não distribui recompensas e castigos com a precisão de uma planilha. Ela oferece, isso sim, a possibilidade de encontrar sentido até mesmo naquilo que jamais escolheríamos viver.
Talvez, então, a verdadeira sabedoria não esteja em garantir dias tranquilos, mas em sustentar a alma quando a tranquilidade desaparece. Não se trata de evitar a tempestade; trata-se de não naufragar dentro dela. É reconhecer, com Eclesiastes, que grande parte do que experimentamos é vento que escapa entre os dedos e, ainda assim, perseverar com Provérbios na busca pelo discernimento. Não como quem procura um escudo contra a dor, mas como quem encontra, na sabedoria, uma companheira fiel durante toda a travessia.
Hoje penso que o erro nunca esteve em buscar a sabedoria. O equívoco foi esperar que ela viesse acompanhada de uma promessa de porto seguro. A sabedoria não elimina as tempestades nem encurta o caminho. Ela apenas nos impede de caminhar completamente às cegas. E talvez seja essa a felicidade que Provérbios anunciava desde o princípio: não a ausência do sofrimento, mas a graça de atravessá-lo sem perder a capacidade de discernir, de esperar e de amar. Porque, no fim das contas, a verdadeira sabedoria não promete chegada. Ela promete companhia. E isso, quando a noite é longa, já é muito mais do que imaginamos.