"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

Pesquisar neste blog ou na Web

MINHAS PÉROLAS

terça-feira, 28 de abril de 2026

O Idioma dos Ausentes (“Eu nas reuniões pedagógicas, crendo que não dizer nada, é dizer alguma coisa para um bom entendedor.” — Cifa)

 



O Idioma dos Ausentes (“Eu nas reuniões pedagógicas, crendo que não dizer nada, é dizer alguma coisa para um bom entendedor.” — Cifa)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Sentei-me no fundo da sala dos professores, naquele canto onde o ar-condicionado range como se mastigasse areia. Sobre a mesa, o banquete de sempre: pilhas de relatórios com gráficos em degradê, canecas marcadas por anéis de café seco e o peso invisível de mil aulas já dadas. Éramos, no fim das contas, um ajuntamento de cansaços disfarçados de jaleco.

As reuniões pedagógicas costumam seguir o mesmo roteiro, quase uma peça em cartaz há anos. Há sempre o solista, que fala sem respirar; o coro dos que concordam por pressa; e os artistas do bocejo, mestres em transformar tédio em expressão corporal. Eu, por vocação ou puro instinto de sobrevivência, abracei o papel do ponto final: aquele que nada diz, mas que, ao calar, pontua o absurdo de certas frases.

Ao meu lado, a professora Lú não desenhava apenas flores no canto da pauta. Traçava pétalas minuciosas, uma por uma, como se cada linha tentasse devolver a delicadeza que o sistema lhe arrancara na última semana de provas. Mais adiante, Flá — outrora incêndio de juventude — encarava o relógio de parede com uma fixação quase religiosa. Seus olhos, antes cheios de projetos, agora pareciam dois buracos negros sugando a luz dos slides que prometiam "metas de excelência". Éramos uma solidão coletiva sob a claridade impiedosa das lâmpadas fluorescentes.

A coordenadora falava em "protagonismo" e "indicadores de performance". As palavras boiavam pela sala como balões de hélio: vistosas, leves e inteiramente desprovidas de gravidade. Enquanto isso, eu sentia o cheiro forte da tinta do pincel marcador ali mesmo e pensava no abismo que existe entre um gráfico de barras e o rosto de um aluno que chega com fome.

— Ninguém tem nada a acrescentar? — perguntou ela, com o otimismo sereno de quem ainda não percebeu o naufrágio.

Fiquei quieto. Não era descaso, não. Era protesto em estado bruto, saturação acumulada. Eu queria falar sobre Flá, que já não acredita no que ensina. Queria falar sobre Lú, que precisa desenhar jardins para não sufocar na papelada. Queria lembrar que escola não é fábrica de porcentagens, mas encontro de gente com gente. Só que percebi, mais uma vez, que certas salas não procuram diálogo; procuram espelhos que confirmem suas certezas. E espelho, como se sabe, jamais responde.

Lá fora, a chuva começou a bater na janela num compasso firme, quase didático. Soava mais honesta do que todos os termos técnicos espalhados no ar. Alguns colegas se encolheram no frio do ar-condicionado. Eu apenas respirei o cheiro de ozônio que vinha de fora e, por um instante, me senti menos preso.

Quando a reunião terminou, as cadeiras foram arrastadas com aquele ruído metálico e triste de sempre. Lú fechou o caderno florido e passou por mim. Não parou, não hesitou. Apenas tocou de leve o meu ombro e sussurrou:

— Obrigada por não ter dito o que todos nós já estamos gritando por dentro.

Saí para o corredor. O pátio estava coberto por aquela luz forte e incandescente de quase meio dia. Os alunos corriam, indiferentes às nossas atas e metas, obedecendo a uma lógica viva que a pedagogia dos slides jamais alcançará. Olhei para o céu, agradeci a Deus por ter guardado o que era sagrado. Porque o silêncio, às vezes, é a única frase que não aceita correções.

-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/

Aqui estão 5 questões discursivas, elaboradas para que nossos alunos do Ensino Médio possam refletir sobre o sistema educacional e as relações de poder sob uma ótica sociológica:

1. A Instituição Escola vs. a Realidade Social:

O texto menciona o "abismo que existe entre um gráfico de barras e o rosto de um aluno que chega com fome". Sociologicamente, como a tentativa de transformar a educação em números e "metas de excelência" pode mascarar as desigualdades sociais que os alunos trazem de fora da escola?

2. Alienação e Sofrimento Ético-Político:

O autor descreve colegas que "já não acreditam no que ensinam" e que parecem "ajuntamentos de cansaços". Relacione essa descrição ao conceito de alienação no trabalho: por que o excesso de burocracia e a falta de sentido nas tarefas podem fazer com que o professor perca sua conexão com o próprio ato de ensinar?

3. O Uso da Linguagem como Poder:

Palavras como "protagonismo", "indicadores de performance" e "excelência" são citadas como "balões de hélio" — vazias de gravidade. Na perspectiva da sociologia, como o uso de termos técnicos e "corporativos" dentro da escola pode servir para silenciar o saber prático e a experiência real dos professores?

4. Controle Social e Resistência Silenciosa:

O narrador afirma que seu silêncio era "protesto em estado bruto". Diferencie uma postura de apatia (não se importar) de uma postura de resistência (não colaborar com um discurso que se considera falso), discutindo como o silêncio pode ser uma ferramenta política dentro de uma instituição.

5. A Escola como "Fábrica" ou como "Encontro":

A crônica critica a visão da escola como uma "fábrica de porcentagens" em vez de um "encontro de gente". Com base nas funções da escola (socialização, formação cidadã e qualificação para o trabalho), discuta os riscos de priorizar a lógica de mercado (eficiência e lucro) em detrimento da formação humana e social do estudante.

Sugestão de Atividade: Peça aos alunos que entrevistem um funcionário da escola (professor, merendeira ou inspetor) e perguntem se eles sentem que a rotina de trabalho permite esse "encontro de gente" mencionado no texto ou se os "papéis e metas" ocupam todo o espaço.

Nenhum comentário: