"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

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MINHAS PÉROLAS

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

O Avesso da Alma: Entre o Mal e a Cura ("Fiz coisas boas que me trouxeram prejuízos; fiz coisas ruins que me deram lucro”. — Graciliano Ramos)

 


O Avesso da Alma: Entre o Mal e a Cura ("Fiz coisas boas que me trouxeram prejuízos; fiz coisas ruins que me deram lucro”. — Graciliano Ramos)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

O câncer me virou do avesso — e não foi força de expressão, não. Não adoeceu só o corpo; desarrumou a mobília da alma, trocou os móveis de lugar, mexeu na ordem das coisas. A pele afinou, o tempo ficou mais pesado, quase palpável, e dentro de mim duas vozes passaram a disputar o mesmo silêncio — como se silêncio também fosse território.

A primeira é a voz do corpo. Ela não filosofa, não faz tese, não cita ninguém. Fala curto e grosso: dor, exame, espera, laudo. É verbo no presente e nervo à flor da pele. Lateja.

Já a outra — ah, essa é a voz da alma. Ela amplia, associa, costura sentido onde só havia susto. Foi ela quem, no meio da febre e do medo, me soprou uma comparação indigesta: eu começava a entender o mecanismo perverso que levou o nazismo a chamar os judeus de “câncer” do mundo. Na Alemanha, sob o delírio doentio de Adolf Hitler, venderam a fantasia de que eliminar pessoas era como extirpar uma doença. Como se gente fosse tumor. Como se diferença fosse diagnóstico. Quando penso nisso, o corpo estremece. Porque ele sabe — e como sabe — o que é ser tratado como erro biológico.

A alma, porém, insiste: o perigo começa quando a dor vira argumento moral. Quando o diagnóstico vira sentença. Quando a diferença vira ameaça. De repente, cortar parece mais fácil do que compreender. E o mundo, com seu bisturi ideológico, prefere amputar a escutar.

Só que a história — teimosa, insistente, quase irônica — desmente os carrascos. O povo judeu não era tumor; era povo. E povo floresce, mesmo depois do fogo. Não por essa matemática simplória do “plantou, colheu”, mas porque a vida, mesmo ferida, encontra fresta e brota. É da natureza dela resistir.

E é aqui que o bicho pega dentro de mim. Porque enquanto ainda tem quem repita, com ares de sabedoria antiga, “você está colhendo o que plantou”, eu me lembro de Jó. Jó não plantou desgraça nenhuma — e, ainda assim, perdeu tudo. Os amigos dele defendiam a lógica redonda da causa e efeito: sofreu, logo mereceu. Jó não engoliu isso. Jó gritou. Questionou. Bateu na porta do céu.

Confesso: tem dia em que o corpo, cansado, quase concorda com os amigos de Jó. Vai ver tô pagando dívida antiga. Vai ver é acerto de contas. Mas a alma reage — e reage firme: nem toda dor é boleto vencido. Nem todo sofrimento cabe na planilha da moralidade. Há dores que não são castigo; são mistério.

Aí eu rebobino minha própria fita. Revejo erros, arrogâncias, omissões — porque santo eu nunca fui. Sinto vergonha. Sinto raiva de mim. Dá um nó na garganta. Mas entre reconhecer falhas e me declarar merecedor de extermínio há um abismo. E eu me recuso a atravessá-lo. Câncer não é juiz togado. É doença. Só isso — e já é demais.

Quando penso em partir — “me deixar num sossego merecido” — não é discurso bonito nem martírio teatral. É cansaço, puro e simples. É o corpo pedindo arrego. É a alma tentando entender se descansar é desistir… ou apenas descansar. Porque, vamos combinar, tem um limite pra tudo. Fico, então, nesse quarto íntimo, com a porta entreaberta. Nem totalmente rendido, nem heroicamente erguido. Só humano. E, no fundo, a pergunta não é se “câncer tem cura”. A pergunta é outra: será que a gente aprende alguma coisa antes que ele nos cure de nós mesmos? Antes que arranque, na marra, nossas ilusões, nossas vaidades, nossas certezas de ferro?

Se eu voltar, não volto igual. Se eu partir, que não seja por acreditar que eu era o mal a ser extirpado. Entre o erro e a doença, entre a culpa e o mistério, eu sigo — cambaleando às vezes, é verdade —, mas sigo. Não como sentença. Como pergunta viva.

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Fala, pessoal! Tudo certo? Aqui é o professor de Sociologia. Hoje vamos analisar um texto fortíssimo que mistura a experiência individual da doença com grandes temas da nossa disciplina: estigmatização, preconceito, ética e a construção social da "normalidade". O autor usa a metáfora do câncer para falar de como a sociedade, às vezes, decide quem "merece" sofrer ou quem deve ser "extirpado" como se fosse um mal orgânico. Para a gente refletir sobre isso, preparei 5 questões para vocês responderem com calma, olhando para o texto e para o que discutimos em aula sobre Direitos Humanos e Sociedade.

1. A metáfora do "corpo social"

No texto, o autor menciona que o nazismo tratava os judeus como um "câncer" a ser eliminado. Na sociologia, como chamamos o processo de retirar a humanidade de um grupo social para justificar a violência contra ele? Explique por que tratar pessoas como "doenças" ou "tumores" é uma estratégia perigosa para a democracia.

2. Estigma e Julgamento Moral

O autor cita os "amigos de Jó", que afirmavam que o sofrimento dele era fruto do que ele havia plantado (causa e efeito). Relacione essa visão com o conceito de estigma. Por que a sociedade tem o hábito de buscar uma "culpa" na vítima para justificar a sua doença ou a sua pobreza?

3. O "Bisturi Ideológico"

O texto afirma que "o mundo, com seu bisturi ideológico, prefere amputar a escutar". Pensando nos conflitos sociais e na polarização atual, o que seriam essas "amputações" sociais? Dê um exemplo de como a sociedade tenta "cortar" ou excluir quem é considerado diferente em vez de incluí-lo.

4. Meritocracia do Sofrimento

O autor questiona a ideia de que "toda dor é boleto vencido" (ou seja, que todo sofrimento é um castigo por um erro passado). Do ponto de vista sociológico, como essa ideia de que "cada um tem o que merece" pode cegar as pessoas para as injustiças sociais e desigualdades que não dependem do indivíduo?

5. Identidade e Resistência

Ao final, o autor diz que, se partir, não quer que seja por acreditar que ele era "o mal a ser extirpado". Como a manutenção da dignidade e da identidade individual serve como uma forma de resistência contra sistemas (ou doenças) que tentam transformar o ser humano em apenas um "número" ou um "laudo médico"?

Dica do Prof: Não busquem respostas prontas. O texto é um convite para vocês sentirem a dor do outro e pensarem como a nossa sociedade constrói seus preconceitos.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

O Crepúsculo dos Vaidosos: entre espelhos, aplausos e silêncio. ("A todos ofereçam o ouvido, a poucos ofereçam a língua." — Hamlet)

 


terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

O Teatro do Absurdo: entre máscaras, megafones e plateias cansadas ("DIDÁTICA. A sutil diferença entre um professor e uma pessoa comum." — Míssola Arezza)

 




segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

IGNORÂNCIA FONTE DE FELICIDADE ("A ignorância é proporcional a felicidade que se sente." — Diogo Lopes)

 


domingo, 12 de fevereiro de 2023

MULTAS PARA TUDO (⁠Aquilo que não toca no bolso, não fere a alma." — Hilton Eduardo de O. Neto)

 


sábado, 11 de fevereiro de 2023

SONHOS SÃO ADVERTÊNCIAS ("Acordei e me olhei no espelho ainda a tempo de ver meu sonho virar pesadelo" — Paulo Leminski)