Ensaio Teológico VIII(15) Liderança Eficaz: A Confluência de Experiência, Conhecimento e Abertura à Mudança
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Lembro-me de uma assembleia numa cidade pequena, numa noite abafada, com o salão cheio de gente cansada, daquelas que chegam ao fim do dia carregando no corpo o peso do trabalho e, na alma, as preocupações de sempre. O prefeito havia decidido fechar o posto de saúde do bairro alto e concentrar os atendimentos no centro da cidade. No papel, os números fechavam direitinho: economia de recursos, reorganização dos serviços, eficiência administrativa. Tudo parecia fazer sentido, até que uma senhora se levantou e perguntou: “O senhor já tentou subir aquele morro com uma criança febril no colo?” De repente, o salão emudeceu. O prefeito olhou para os próprios papéis, depois para aquela mulher, e percebeu que havia algo que suas planilhas não conseguiam traduzir: a realidade de quem precisava do serviço público. Diante de todos, desfez a decisão. Para alguns, talvez tenha saído menor, por voltar atrás; para outros, saiu maior, justamente por ter reconhecido o próprio equívoco. Foi uma das lições mais claras que já recebi sobre o significado de governar com sabedoria: nem sempre a grandeza de um líder está em sustentar uma decisão, mas em ter coragem de revê-la quando a vida lhe mostra que o caminho escolhido não é o melhor.
A Escritura abre esse caminho com uma afirmação fundamental: “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria” (Provérbios 9:10). Mas, convenhamos, princípio não é ponto final. A reverência a Deus pode orientar o exercício do poder, mas a vida pública exige que outros elementos se juntem a ela: experiência, conhecimento, sensibilidade e, sobretudo, disposição para ouvir. Quem governa amparado apenas pela reverência religiosa, sem aprender com a realidade concreta das pessoas, corre o risco de transformar a fé em cegueira diante das necessidades humanas. Por outro lado, quem se agarra exclusivamente às planilhas, aos cálculos e às metas, sem qualquer compromisso ético, acaba reduzindo a população a números e esquecendo os rostos por trás das estatísticas. Ora, de que adianta uma administração aparentemente eficiente se o cidadão mais vulnerável não consegue chegar ao posto de saúde? Governar com sabedoria é justamente encontrar o equilíbrio entre os princípios que orientam a consciência e o conhecimento que permite compreender a vida como ela é. Afinal, a justiça não se realiza apenas nas intenções de quem governa; precisa chegar à porta de quem dela necessita.
É aqui que encontro uma tensão filosófica que não quero esconder. O ideal estoico, presente em diferentes tradições filosóficas e associado à busca de serenidade diante das adversidades, encontra ecos na literatura de Fernando Pessoa, embora sua obra seja muito mais ampla do que essa única perspectiva. Trata-se de cultivar firmeza interior para não ser derrubado a cada mudança dos acontecimentos. A cena do prefeito, entretanto, apresenta outra exigência: a capacidade de recuar, rever decisões e reconhecer que a realidade pode desmentir nossas certezas. À primeira vista, essas atitudes parecem contraditórias; olhando mais de perto, porém, percebemos que podem caminhar juntas. O líder sábio mantém a firmeza nos princípios, mas não transforma seus métodos em dogmas. A dignidade humana, o cuidado com os mais frágeis e o compromisso com a justiça não devem ser negociados. Já os meios de concretizar esses valores precisam ser avaliados continuamente. Se o posto de saúde no centro dificulta o atendimento de quem mora no alto do morro, cabe rever a decisão, e não exigir que a população se adapte cegamente à conveniência administrativa. Millôr Fernandes, mestre do humor e da ironia, ajuda-nos a desconfiar das certezas empedradas e das contradições humanas. Afinal, há quem confunda coerência com teimosia e firmeza com orgulho. Só que permanecer fiel a um erro não é sinal de caráter; muitas vezes, é apenas medo de admitir que se estava errado.
Mas, a sabedoria não se resume a refletir, ponderar ou reconhecer os próprios limites. Também é preciso agir. Cícero, em Dos Deveres, refletiu sobre a relação entre virtude, responsabilidade e vida pública, lembrando-nos, em essência, que o compromisso moral precisa se manifestar nas ações. De pouco vale um conhecimento guardado na estante se ele não ajuda a enfrentar os problemas da comunidade. Nesse sentido, a narrativa bíblica sobre Salomão oferece uma lição significativa. Quando Deus lhe permitiu fazer um pedido, o rei não escolheu riquezas ou vitórias sobre os inimigos; pediu discernimento para governar e julgar o povo (1 Reis 3). A sabedoria desejada não era um ornamento pessoal, mas uma capacidade a serviço de outros. Isso fica evidente no episódio das duas mulheres que disputavam a maternidade de uma criança. Salomão não se limitou a aplicar mecanicamente uma regra: diante de uma situação delicada, elaborou uma prova que revelou a disposição de cada mulher e permitiu identificar aquela que demonstrava verdadeiro amor materno. A narrativa apresenta a sabedoria como discernimento diante da complexidade humana, não como simples acúmulo de informações. Eis o ponto: liderar exige princípios, conhecimento da realidade e coragem para decidir, sem fugir à responsabilidade pelas consequências. Quem ocupa uma função pública não pode se esconder eternamente atrás de pareceres, relatórios ou discursos bem elaborados. Chega uma hora em que é preciso escolher — e responder pela escolha.
Por isso, volto àquela ladeira e à senhora que, com uma pergunta simples, desmontou a aparente perfeição de uma decisão administrativa. A sabedoria não é troféu para exibir, muito menos um título que alguém conquista e guarda para sempre. É ferramenta de trabalho, exercício cotidiano de consciência e disposição permanente para aprender. Seu valor está em servir à justiça, à equidade e ao bem-estar coletivo, alcançando também quem mora longe do centro, quem tem pouco dinheiro, quem enfrenta dificuldades para se locomover e quem quase nunca é ouvido nas reuniões onde seu destino é decidido. O sábio aconselha: “A sabedoria é a coisa principal; adquire, pois, a sabedoria”, e acrescenta: “emprega tudo o que possuis na aquisição de entendimento” (Provérbios 4:7). Esse entendimento, no entanto, não nasce apenas dos livros, das teorias ou dos gabinetes. Nasce também do contato com a vida, da escuta atenta e da humildade de reconhecer que uma pessoa simples pode enxergar aquilo que os especialistas deixaram passar. Governar bem, portanto, não significa jamais mudar de ideia, mas saber por que mantê-la ou por que abandoná-la. No fim das contas, a liderança eficaz começa quando a experiência ensina, o conhecimento ilumina, a consciência orienta e a realidade tem liberdade para contestar nossas certezas. Porque o verdadeiro líder não é aquele que nunca volta atrás: é aquele que não permite que o orgulho o impeça de seguir na direção certa.


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