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MINHAS PÉROLAS

terça-feira, 13 de outubro de 2026

Ensaio Teológico VIII(14) Inovação, Educação e Justiça: Pilares da Grandeza Nacional

 


Ensaio Teológico VIII(14) Inovação, Educação e Justiça: Pilares da Grandeza Nacional

Por Claudeci Ferreira de Andrade


Carrego comigo, desde a infância, a imagem de uma avó analfabeta, sentada à porta de casa, ouvindo o neto soletrar sua primeira frase inteira. Ela não sabia ler, é verdade, mas reconheceu naquele instante que algo maior estava nascendo diante de seus olhos. Talvez tenha sido ali, sem que eu percebesse, que comecei a compreender o sentido da educação e sua força transformadora. Afinal, a grandeza de uma nação não se mede apenas por seus monumentos, suas riquezas ou suas conquistas tecnológicas. Ela é um mosaico de gestos humanos: a professora que corrige cadernos de madrugada, o cientista que repete o experimento pela centésima vez, o juiz que resiste às pressões e o vizinho que divide o pouco que tem. Separadas, essas peças parecem pequenas; juntas, porém, revelam o verdadeiro rosto de um povo. Não por acaso, o sábio de Israel registrou que "a justiça engrandece a nação, mas o pecado é a vergonha dos povos" (Provérbios 14:34). Eis uma verdade que atravessa os séculos: a medida de uma sociedade está naquilo que ela defende, não apenas naquilo que acumula.

Essa sabedoria, entretanto, não pertence exclusivamente a uma tradição, a um povo ou a um livro. É fruto de uma construção coletiva, tecida ao longo das gerações por homens e mulheres que, de Atenas a Jerusalém, de Bagdá a Salvador, ousaram perguntar, experimentar, errar e corrigir o rumo. Reconhecer essa herança compartilhada não diminui o valor das Escrituras; pelo contrário, permite compreender melhor a riqueza do diálogo entre diferentes experiências humanas. É dessa convicção que nasce o segundo pilar da grandeza nacional: a educação. Com Amartya Sen, em Desenvolvimento como Liberdade (1999), compreendo que desenvolver uma sociedade significa ampliar as liberdades reais das pessoas, criando condições para que possam escolher seus caminhos e construir a própria história. Nesse processo, a escolaridade e a saúde são fundamentais, pois de pouco adianta falar em liberdade quando faltam os meios para exercê-la. Afinal, um povo privado do conhecimento tem suas escolhas reduzidas e corre o risco de viver à mercê daqueles que pensam, decidem e governam por ele. Educação não é luxo, privilégio ou favor concedido pelos poderosos: é condição para que a cidadania deixe de ser promessa e se torne realidade.

Mas, há um detalhe que não podemos ignorar: o conhecimento, por si só, não garante uma sociedade justa. A história está aí para nos lembrar disso. A Revolução Industrial britânica multiplicou invenções, transformou a produção e alterou profundamente o mundo; ao mesmo tempo, porém, devorou infâncias nas fábricas, submeteu trabalhadores a condições desumanas e amontoou famílias em cortiços. O progresso avançava, mas nem todos caminhavam na mesma direção, muito menos no mesmo ritmo. Essa contradição ensina uma lição indispensável: a inovação sem justiça pode produzir riqueza de um lado e miséria do outro, iluminando as vitrines enquanto mantém gente demais na escuridão. Por isso, defendo que o desenvolvimento precisa de uma arquitetura ética, sustentada por instituições capazes de proteger direitos, distribuir oportunidades e impedir que o poder se transforme em privilégio. É nesse ponto que encontro John Rawls, em Uma Teoria da Justiça (1971), com sua proposta de pensar os princípios da organização social como se desconhecêssemos a posição que ocuparíamos nela. Sem saber se nasceríamos ricos ou pobres, fortes ou vulneráveis, privilegiados ou excluídos, talvez escolhêssemos regras mais justas para todos. Vejo nessa ideia uma espécie de afinidade com os ensinamentos evangélicos, agora expressos em linguagem filosófica: construir a ordem comum considerando, sobretudo, a realidade de quem se encontra em situação de maior fragilidade.

Resta, então, enfrentar uma tensão que atravessa a história humana: para avançar, precisamos abandonar o passado? A meu ver, não. Seria um equívoco tratar a tradição como inimiga do progresso, assim como seria ingenuidade imaginar que tudo o que recebemos das gerações anteriores deve permanecer intocado. A tradição é o solo; a inovação, a colheita. Sem raízes, a árvore não se sustenta; sem frutos, sua existência perde parte do sentido. Os profetas denunciaram as injustiças de seu tempo com a linguagem e os recursos de que dispunham. Cabe a nós fazer o mesmo, sem repetir mecanicamente suas fórmulas, mas recorrendo às ferramentas de nossa época: ciência, educação, instituições democráticas e políticas públicas comprometidas com o bem comum. Olhar para trás e para a frente não são movimentos opostos; são gestos complementares de quem deseja caminhar com consciência. É essa unidade na diversidade que me remete à imagem de Paulo em 1 Coríntios 12:12: muitos membros, um só corpo. As diferenças não precisam ser apagadas para que exista unidade, assim como o progresso não exige que neguemos nossa herança. O desafio é fazer com que as partes cooperem sem que nenhuma seja considerada descartável.

Volto, por fim, àquela avó sentada à porta de casa, ouvindo o neto soletrar sua primeira frase inteira. Ela nunca leu um tratado de economia, não conheceu as teorias de Rawls nem estudou o pensamento de Amartya Sen. Ainda assim, talvez tenha compreendido, naquele instante, algo que muitos governantes, intelectuais e especialistas insistem em esquecer: o valor do conhecimento aparece de verdade quando transforma vidas. A inovação ganha sentido quando melhora a existência humana; a educação cumpre sua missão quando amplia horizontes; e a justiça se torna concreta quando alcança quem historicamente ficou à margem. Não basta erguer edifícios modernos, anunciar recordes econômicos ou celebrar descobertas científicas se a criança da casa mais simples continuar sem acesso a uma escola de qualidade, a condições dignas de vida e a oportunidades reais de construir o próprio futuro. Uma nação verdadeiramente grande não é aquela que deixa alguns correrem muito à frente, mas aquela que não aceita condenar tantos outros a permanecer para trás. No fim das contas, sua grandeza começa quando a justiça atravessa a porta da casa mais humilde e, ali, uma criança aprende a ler. É nesse encontro entre conhecimento, dignidade e esperança que o futuro deixa de ser discurso e começa, enfim, a se tornar realidade.

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