"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

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MINHAS PÉROLAS

sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

"UM ABISMO CHAMA OUTRO ABISMO" ("E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti." — Friedrich Nietzsche)

 


"UM ABISMO CHAMA OUTRO ABISMO" ("E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti." — Friedrich Nietzsche)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Vivemos num mundo paradoxal, onde a dor se repete em espirais: muitas vezes o oprimido devolve a opressão que recebeu, e o violentado descobre em si um violentador adormecido. Nas escolas, esse ciclo se insinua nas pequenas tensões diárias, quando alguns alunos — feridos por um sistema que os reduz a números — devolvem sua mágoa aos professores em forma de ironia, desafio ou desdém. Mas é preciso frisar: não são todos. Há também os que resistem ao acúmulo de violências, que ainda conversam com delicadeza e sabem reconhecer um gesto de cuidado. Ainda assim, a relação professor-aluno mudou de tal modo que um simples “queridão” pode carregar um veneno implícito, e até um elogio sincero corre o risco de ser lido como insinuação. Nada mais frágil que esse clima onde cada palavra se equilibra entre o afeto e o ataque.

A tensão se aprofunda quando vemos casos extremos ocupando os noticiários: ex-alunos que retornam não para aprender, mas para acertar contas. É como se parte dessa juventude, incapaz de metabolizar o próprio fracasso, transformasse a escola num palco tardio de vingança. No entanto, nem tudo é tragédia anunciada. Em muitas salas de aula, discretamente, florescem outras histórias: jovens que encontram abrigo na biblioteca, professores que acolhem sem heroísmo, colegas que defendem outros do sarcasmo cruel. São minúsculas resistências, quase invisíveis — mas existem. E talvez seja isso que impede o quadro de se tornar inteiramente apocalíptico.

Ainda assim, paira no ar o temor de que uma parcela desses ex-alunos possa, um dia, desestabilizar o ensino presencial. Não por um destino inevitável, mas por um conjunto de fatores que se repetem com obstinação: famílias que perpetuam comportamentos desajustados, a força de uma maioria confusa que se impõe mesmo quando erra, e o ressentimento de quem bate às portas do mercado de trabalho sem encontrar espaço. Diante dessa frustração, alguns retornam à escola buscando culpados, não respostas. Mas aqui também há um contraponto necessário: muitos outros, mesmo enfrentando as mesmas tempestades, encontram caminhos menos hostis — em cursos técnicos, em pequenos empregos, ou simplesmente no esforço silencioso de não reproduzir o que sofreram.

O que emerge desse contraste é uma juventude que avança entre o vazio e a esperança, entre a sensação de que o futuro é um terreno estéril e a percepção de que alguma semente ainda pode germinar. Onde falta sentido, qualquer planejamento parece ficção; mas, paradoxalmente, é justamente nesses vazios que alguns jovens — e alguns professores — criam seus pequenos mapas. Às vezes um projeto de leitura, às vezes um conselho dito na hora certa, às vezes uma simples presença que não cede ao cinismo. Não é muito, mas é algo.

Talvez por isso o salmista ainda faça sentido quando diz que “um abismo chama outro abismo”, pois o cotidiano escolar conhece bem essa lei do eco. Contudo, o mesmo salmo fala de uma canção à noite, e é nesse trecho que reside nossa pequena práxis possível: sustentar a voz mesmo quando o mundo parece desabar. Quem ensina vive desse paradoxo — carregar o peso da desilusão sem renunciar à esperança. O clamor do texto antigo se espalha pelos corredores, perguntando: “Por que ando angustiado?” A resposta, se existe, é frágil: porque somos humanos. E, apesar disso — ou por causa disso — ainda tentamos. Ainda resistimos. Ainda cremos que, entre um abismo e outro, alguém possa encontrar um caminho que não termine em queda.


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Como seu professor de Sociologia, o texto que acabamos de ler mergulha na complexidade das relações sociais na escola, explorando o ciclo da violência, a fragilidade da comunicação e a resistência silenciosa da juventude e dos docentes. Preparei cinco questões discursivas simples para analisarmos o conflito social, o ressentimento e o paradoxo da esperança.

1. O Ciclo da Opressão e a Violência Recíproca

O texto descreve que "o oprimido devolve a opressão que recebeu, e o violentado descobre em si um violentador adormecido", manifestando-se na escola como ironia, desafio ou desdém dos alunos contra os professores. Analise esse fenômeno sob a ótica da Reprodução Social e do Ciclo da Violência. De que forma a estrutura do sistema escolar (que "reduz a números") gera mágoa e ressentimento, e como essa dor é transferida e devolvida pelos alunos aos docentes, perpetuando um ciclo de agressão recíproca?

2. A Fragilidade da Comunicação e a Suspeita Constante

O narrador aponta que a comunicação mudou, de modo que um simples "queridão" pode carregar um veneno implícito e um elogio sincero corre o risco de ser lido como insinuação. Discuta a fragilidade da comunicação na escola contemporânea, utilizando o conceito de Desconfiança Generalizada. Por que a hostilidade subentendida e a suspeita constante tornam a interação professor-aluno um "clima onde cada palavra se equilibra entre o afeto e o ataque", dificultando o vínculo pedagógico e o acolhimento?

3. O Retorno Vingativo e a Falta de Metabolização do Fracasso

O texto trata de ex-alunos que retornam à escola como um "palco tardio de vingança", buscando culpados pelo fracasso em bater às portas do mercado de trabalho. Relacione a exclusão do mercado de trabalho (desajuste econômico) com a agressividade contra a escola. De que forma a incapacidade de metabolizar o próprio fracasso transforma a instituição, que deveria ser um local de ascensão, no principal alvo de ressentimento dessa juventude?

4. Resistência Silenciosa e a Práxis da Esperança

O texto contrasta o quadro apocalíptico com as "minúsculas resistências, quase invisíveis" — jovens que encontram abrigo na biblioteca, professores que acolhem "sem heroísmo" — e menciona a “canção à noite” do salmista como nossa “pequena práxis possível”. Discuta a natureza e a importância dessas formas discretas de resistência. Por que a manutenção de pequenos atos de esperança, acolhimento e humanidade (o "não ceder ao cinismo") é crucial para impedir o colapso total do ambiente escolar, mesmo quando prevalece o "vazio" e a desilusão?

5. Determinismo Social e a Lei do Eco ("Um Abismo Chama Outro Abismo")

O texto evoca a lei do eco, onde “um abismo chama outro abismo”, ligando a repetição de comportamentos desajustados das famílias à força de uma "maioria confusa" na escola. Utilize o conceito de Determinismo Social para analisar essa lei do eco. De que maneira a reprodução de fatores sociais e familiares (violência, desajuste) parece criar um "destino inevitável" para a juventude, e como a escola (apesar das minúsculas resistências) luta para romper essa cadeia de negatividade que se impõe?

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quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

DIA DA LÍNGUA PORTUGUESA, 5 DE MAIO ("Se escrever é arte, a Língua Portuguesa, só pode ser um OFÍCIO!!!" — Luana Cruz)

 


DIA DA LÍNGUA PORTUGUESA, 5 DE MAIO ("Se escrever é arte, a Língua Portuguesa, só pode ser um OFÍCIO!!!" — Luana Cruz)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Na alvorada de 5 de maio, o sol que se infiltrava pelas frestas da cortina parecia sussurrar uma mensagem especial. Era o Dia da Língua Portuguesa, uma data que sempre despertou em mim, professor Claudeci, um misto de emoção e responsabilidade. As palavras de Fernando Pessoa ecoavam em minha mente: "Minha pátria é a língua portuguesa". Naquele momento, compreendi que essa frase não era apenas uma bela metáfora, mas a essência do meu ofício como educador.

Enquanto caminhava para a escola, observava o mundo ao meu redor com novos olhos. Jovens absortos em seus smartphones, idosos folheando jornais, outdoors gritando mensagens - todos imersos em um oceano de palavras. Percebi que, nesta era digital, nunca se leu e escreveu tanto. Paradoxalmente, notava uma crescente dificuldade na escrita e interpretação textual entre meus alunos. Essa constatação me levou a repensar minha abordagem de ensino.

Ao entrar na sala de aula, fui recebido pelo burburinho habitual, mas sentia uma urgência em compartilhar algo além da lição planejada. "Turma", comecei, "vocês sabiam que hoje é o Dia da Língua Portuguesa?" Os olhares curiosos me encorajaram a continuar. Compartilhei minha nova perspectiva: não basta ler e escrever muito; o verdadeiro aprendizado está na qualidade, não na quantidade. "Se aprende a escrever escrevendo certo", expliquei, vendo um brilho de compreensão nos olhos deles.

Naquele momento, a sala de aula se transformou em um laboratório de ideias. Discutimos a beleza das palavras e seu poder de construir mundos inteiros. Falamos sobre como a língua que falamos é um reflexo de nossas vivências, das histórias que carregamos e das emoções que transbordam em nossas interações. Era mais do que uma lição de gramática; estávamos explorando a essência da comunicação humana.

Ao final da aula, uma aluna se aproximou. "Professor", ela disse, "nunca tinha pensado na língua portuguesa dessa forma. É como se fosse... um ofício, não é?" Sorri, lembrando-me das palavras de Luana Cruz: "Se escrever é arte, a Língua Portuguesa só pode ser um ofício!" Naquele instante, percebi que havia transmitido mais do que conhecimento; havia inspirado uma nova apreciação pelo nosso idioma.

Saí da escola com o coração leve, renovado em meu propósito. Enquanto caminhava para casa, as palavras pareciam dançar ao meu redor - nos cartazes, nas conversas, no farfalhar das folhas. Compreendi que a língua portuguesa não era apenas meu trabalho ou paixão; era, verdadeiramente, minha pátria, meu lar.

Neste Dia da Língua Portuguesa, renovei meu compromisso não apenas de ensinar regras e estruturas, mas de inspirar o amor por esse ofício tão nobre que é o domínio das palavras. Como artesãos da linguagem, nós, professores, moldamos mentes e corações, semeando as sementes do conhecimento na esperança de que floresçam em eloquência e sabedoria.

A língua que falamos é mais do que um meio de comunicação; é uma ponte que nos liga ao passado e um guia que nos ilumina para o futuro. Cada palavra que escrevemos é uma construção de nosso legado, um reflexo de quem somos e do que desejamos transmitir ao mundo. Neste dia especial, celebramos não apenas um idioma, mas a capacidade humana de se expressar, de contar histórias, de mudar realidades através do poder das palavras.

Que possamos sempre valorizar e nutrir esse ofício com a dedicação e a paixão que ele merece. Afinal, são as palavras que nos permitem contar nossas histórias, expressar nossos sentimentos e, quem sabe, mudar o mundo, uma frase de cada vez.

Com base no texto apresentado, proponho as seguintes questões para uma discussão em sala de aula, explorando os temas da língua portuguesa, educação e identidade:

O texto destaca a importância da língua portuguesa como parte da identidade individual e coletiva. De que forma a língua que falamos molda nossa percepção de mundo e nossas relações sociais?

O professor menciona o paradoxo entre o aumento do uso da língua escrita e a diminuição da qualidade da escrita. Quais os principais desafios enfrentados pelo ensino da língua portuguesa na atualidade e como eles podem ser superados?

O texto enfatiza a importância de ir além da gramática e explorar a dimensão cultural da língua. Como podemos integrar a cultura e a literatura na sala de aula para tornar o ensino da língua portuguesa mais significativo?

O autor menciona o papel do professor como um artesão da linguagem. Qual a responsabilidade do professor na formação de cidadãos críticos e capazes de se comunicar de forma eficaz?

O texto destaca a importância da linguagem como ferramenta de transformação social. De que forma a língua portuguesa pode ser utilizada para promover a inclusão, a diversidade e a construção de uma sociedade mais justa?

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segunda-feira, 28 de novembro de 2022

ALUNO FOCADO ("Não me siga, não estou perdido, mas não faço a mínima ideia de onde posso chegar..." — Márcio de Oliveira)

 


ALUNO FOCADO ("Não me siga, não estou perdido, mas não faço a mínima ideia de onde posso chegar..." — Márcio de Oliveira)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

O adolescente despertou antes do sol, como quem obedece não a um relógio, mas a um tribunal invisível. O corpo seguiu o rito sem perguntas: o banho breve, o café apressado, a escova nos dentes, a mochila nas costas. Do lado de fora, a rua vazia parecia um templo abandonado. Nenhuma voz, nenhum passo, nenhuma pressa. Apenas aquele silêncio que pesa — e educa.

Caminhou até a escola com a tranquilidade de quem cumpre um voto. O portão, entreaberto, oferecia uma nesga de esperança, como uma porta mal fechada entre o mundo dos vivos e o dos eleitos. Empurrou-o com cuidado e viu o guarda, imóvel, quase sagrado em sua indiferença. “Seu guarda, hoje não tem aula?”, perguntou, com a ansiedade de quem teme ter faltado à própria salvação. A resposta veio leve, quase misericordiosa: “Hoje é sábado, meu filho”. E, naquele instante, não foi o calendário que se rompeu, mas o encanto.

No caminho de volta, compreendeu o mecanismo com a clareza de quem sai de uma catequese. Não é a falta que reprova, mas o temor dela. Raramente alguém é de fato condenado pela ausência, mas todos crescem sob a ameaça da queda. Funciona assim: instala-se o medo e oferece-se a escada. Aponta-se o inferno com uma mão, enquanto a outra sustenta a imagem do céu. Não se governa pela verdade, mas pela promessa.

As instituições, afinal, não educam apenas mentes — moldam almas. O céu vira prêmio, o inferno se torna ameaça, e a obediência, virtude suprema. No fim, o paraíso não é um lugar de descanso, mas um altar distante, sempre visível e jamais alcançado. E é nesse altar que muitos se ajoelham, não por fé, mas por medo de arder.


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Como seu professor de Sociologia, este texto utiliza a experiência de um adolescente que vai à escola em um sábado para discutir o controle social, o medo como ferramenta de disciplina e o papel das instituições (como a escola) na moldagem do comportamento e da moralidade individual. Preparei cinco questões discursivas simples para analisarmos o poder das normas e a construção do conformismo.


1. A Escola como "Tribunal Invisível" e o Controle do Corpo

O adolescente desperta e segue o rito matinal "como quem obedece não a um relógio, mas a um tribunal invisível". Analise essa frase utilizando o conceito de Disciplina e Sociedade Disciplinar (Foucault). De que maneira o corpo do indivíduo é moldado pela vigilância internalizada das instituições, a ponto de ele seguir o ritual (banho, café, pressa) mesmo na ausência de uma autoridade física (o professor ou o horário)?

2. A Construção do Medo e a Obediência Condicionada

O texto afirma: "Não é a falta que reprova, mas o temor dela", e que as instituições governam pela "promessa" e não pela verdade, apontando o "inferno com uma mão, enquanto a outra sustenta a imagem do céu". Discuta a relação entre Medo e Obediência no contexto do Controle Social. De que forma a ameaça de "queda" ou "condenação" (simbólicas ou reais) condiciona o comportamento dos indivíduos, tornando a obediência uma virtude suprema e o principal motor da ação, mesmo que a ação seja inútil (ir à escola no sábado)?

3. A Escola como "Templo Abandonado" e a Sacralização do Rito

A rua em direção à escola é descrita como um "templo abandonado", e o portão, como uma "nesga de esperança" entre o "mundo dos vivos e o dos eleitos" (a salvação). Analise o uso de metáforas religiosas (templo, salvação, eleitos) para descrever a escola. Como a instituição escolar se apropria de uma função sacralizada na sociedade contemporânea, elevando a rotina (o rito) e a presença (a obediência) a um nível quase religioso de devoção?

4. Moldagem da Alma e a Finalidade do Paraíso

O texto conclui que as instituições "moldam almas" e que o "paraíso não é um lugar de descanso, mas um altar distante, sempre visível e jamais alcançado". Discuta a função do Mérito e da Promessa (ideologia meritocrática) no sistema educacional. Por que o prêmio (o céu/o sucesso) deve ser mantido sempre visível, mas inatingível, e como essa distância perpetua a obrigação da obediência e do esforço contínuo dos indivíduos?

5. O Papel do Silêncio e a Educação por Ausência

O narrador nota que a rua vazia tinha um "silêncio que pesa — e educa". Explique o significado sociológico do Silêncio e da Ausência como ferramentas educativas em ambientes de controle institucional. De que maneira a ausência de ruído e vozes permite que o indivíduo perceba a força coercitiva das normas e interiorize a disciplina com mais clareza do que em meio ao barulho da vida social?

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sábado, 26 de novembro de 2022

Professor em Território de Silêncio: DOS RELATÓRIOS MANUAIS ÀS PLANILHAS ELETRÔNICAS ("Em tempos de transição Deus levanta os improváveis!" — Marcelo Rissma)

 


Professor em Território de Silêncio: DOS RELATÓRIOS MANUAIS ÀS PLANILHAS ELETRÔNICAS ("Em tempos de transição Deus levanta os improváveis!" — Marcelo Rissma)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Antes da pandemia, a escola já mostrava suas rachaduras. O “velho normal” não era normal: era um edifício em erosão lenta, onde a aparência de ordem escondia a solidão de quem ensinava. Não me sentia amparado. Caminhava sozinho entre protocolos frágeis, atravessando salas que funcionavam mais como trincheiras do que como espaços de escuta.

A coordenação, pressionada por reclamações externas, muitas vezes escolhia o caminho mais simples: proteger a imagem da instituição. Não se julgava o mérito, mas a conveniência. O professor tornava-se o ponto mais frágil da cadeia. Bastava um desconforto, uma queixa, um ruído — e o equilíbrio se rompia.

Vieram as advertências. Vieram os registros. Cheguei a ser denunciado por ter tomado uma cerveja sem álcool fora do espaço escolar, como se a vida privada fosse um anexo da sala de aula. Uma ex-aluna da EJA, marcada por sua própria frustração, transformou ressentimento em acusação. Outras reclamações surgiam menos por justiça do que por estratégia: dar aos filhos a liberdade irrestrita dentro dos muros da escola. E a instituição, temerosa da comunidade, quase sempre optava pela capitulação.

Cada reunião terminava da mesma forma: assinaturas em atas, formalidades cumpridas, arquivos alimentados. Os documentos cresciam. Eu diminuía. Relatórios se acumulavam não como instrumentos de cuidado, mas como escudos burocráticos. O que deveria ser mediação virava registro; o que deveria ser diálogo virava dossiê. Ao lado das cópias dos meus diplomas, repousavam papéis que não contavam quem eu era, mas quem eu poderia ser, acusado de ser.

Então a pandemia chegou. E não trouxe ruptura — apenas iluminação. O que já estava doente tornou-se explícito. O distanciamento social não criou o vazio; apenas o revelou. Veio a avalanche de plataformas, siglas, formulários, planilhas, reuniões virtuais. SIAP, MAPA DE NOTA, relatórios infinitos, plataformas, grupos, formulários, apostilas repetidas para os “DESINTERNETIZADOS”. A educação foi engolida por um oceano de tarefas que simulavam trabalho, mas rareavam o sentido.

As planilhas não ensinaram ninguém. Os formulários não escutaram ninguém. O excesso de controle não produziu mais aprendizagem — apenas mais silêncio.

Depois, o retorno. Já não se denunciavam alunos. Havia medo. E o medo move o silêncio. Pais transferiam à escola o que não conseguiam fazer em casa, e à escola cabia sobreviver. O professor tornava-se alvo fácil. Não se educava pelo vínculo, mas pelo protocolo.

A escola seguiu existindo, não como espaço de formação, mas como estrutura que aprende a se manter de pé mesmo desfigurada. Sobreviveu como sobrevivem certas instituições: não pela verdade, mas pela capacidade de adaptação à própria contradição.

Hoje, quando olho para trás, percebo que a pandemia não destruiu a escola física. Ela apenas retirou o verniz. O que havia por baixo já estava ali: o cansaço, o medo, o silêncio, a burocracia travestida de cuidado.

E talvez o mais duro não tenha sido o vírus, nem as plataformas, nem as atas. Talvez tenha sido a constatação de que, nesse sistema, ensinar é um ato de resistência solitária — e permanecer humano, uma forma discreta de insubordinação.


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Como seu professor de Sociologia, este texto é um relato potente sobre a crise crônica da escola, a burocratização da docência e a solidão do professor na sociedade contemporânea. Preparei cinco questões discursivas simples para analisarmos a desfiguração da instituição escolar e as novas formas de controle.


1. Burocracia e o Dossiê como Ferramenta de Controle

O narrador afirma que os relatórios e atas não eram instrumentos de cuidado, mas "escudos burocráticos" que se acumulavam para criar um "dossiê" ao lado de seus diplomas. Utilize o conceito de Burocracia Racional-Legal (Weber) para discutir como o excesso de documentos formais é usado pela instituição escolar. De que forma o registro exaustivo de ocorrências serve para proteger a imagem institucional e controlar o professor , transferindo o ônus do conflito e minando a autoridade moral do docente?

2. O Conflito Escola versus Comunidade e a "Capitulação"

O professor relata que a instituição, "temerosa da comunidade", optava pela "capitulação" diante das reclamações dos pais, que utilizavam estratégias para garantir a "liberdade irrestrita" dos filhos. Analise essa dinâmica como uma Inversão da Autoridade Pedagógica. Por que o medo da pressão externa faz com que a escola abdique de seu papel normativo e de julgamento de mérito, e quais são as consequências dessa priorização da conveniência sobre os princípios educacionais?

3. O Distanciamento Social e a Revelação do Vazio

O texto argumenta que a pandemia “não trouxe ruptura — apenas iluminação”, e que o distanciamento social “não criou o vazio; apenas o revelou”. Discuta as implicações sociológicas dessa revelação. De que forma a crise sanitária expôs a fragilidade estrutural e o colapso de sentido que já existiam na escola do “velho normal”, mostrando que a instituição se mantinha de pé mais pela aparência do que pela coesão interna?

4. Tecnologia e a Simulação do Trabalho

A avalanche de plataformas (SIAP, MAPA DE NOTA, Google Forms, etc.) é descrita como um “oceano de tarefas que simulavam trabalho, mas rareavam o sentido”, pois "planilhas não ensinaram ninguém". Relacione esse fenômeno com o conceito de Alienação do Trabalho (Marx). De que maneira o uso excessivo de tecnologias de gestão e controle durante a pandemia desvia o foco do ato pedagógico e transforma o trabalho docente em uma atividade burocrática e inútil (simulação), gerando um profundo esvaziamento de sentido?

5. O Professor como Ator de "Resistência Solitária"

O narrador conclui que, no sistema escolar atual, “ensinar é um ato de resistência solitária — e permanecer humano, uma forma discreta de insubordinação”. Discuta o significado da resistência individual do professor. Por que o "cansaço, o medo, o silêncio e a burocracia" tornam a prática docente um ato de solidão, e como a tentativa de manter a humanidade e o foco no ensino (em vez do protocolo) pode ser vista como um ato de insubordinação ética contra o sistema?

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quinta-feira, 24 de novembro de 2022

O DESESPERO LEVA A LOUCURA ("Nunca foi sensata a decisão de causar desespero nos homens, pois quem não espera o bem não teme o mal." — Maquiavel)

 


O DESESPERO LEVA A LOUCURA ("Nunca foi sensata a decisão de causar desespero nos homens, pois quem não espera o bem não teme o mal." — Maquiavel)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

A pandemia, mais do que um fenômeno biológico, revelou-se uma enfermidade psicossomática de proporções extremas, escancarando a teatralização do desespero social. A figura de um professor de jaleco branco, mascarado e munido de um megafone nas ruas, bradando ordens e apelos, consolidou-se como emblema desse colapso simbólico. Sua voz, semelhante à propaganda volante — prática já reconhecida como ineficaz nos grandes centros —, persistia em convocar alunos e pais sob o signo da urgência e da suposta “salvação” escolar. Em vez de inspirar, diminuía; em vez de orientar, deformava. O drama institucional converteu-se, assim, em espetáculo público, mais próximo da farsa involuntária do que de um genuíno compromisso pedagógico.

A crise tornou ainda mais visível o antigo conflito entre a escola e a sociedade, uma relação marcada por desavenças, busca por prestígio e disputa por legitimidade. Valores tradicionalmente ensinados — respeito, disciplina e ética — permanecem confinados ao plano do discurso, raramente encarnados na prática cotidiana. A corrupção moral, disfarçada de misericórdia, corrói o profissionalismo e esvazia o bom senso, instaurando um ambiente em que se exige reconhecimento sem o cultivo prévio da própria dignidade. O paradoxo se aprofunda quando o grito substitui o diálogo e o ruído ocupa o lugar da autoridade moral.

Nesse cenário, a normalização do absurdo já não causa espanto, pois, como advertia a tradição sapiencial, nada há verdadeiramente novo debaixo do sol. Em tempos de desespero, a inteligência passa a ser tratada como deformidade e a beleza, como pobreza, legitimando a inversão de valores não apenas como exceção, mas como método de sobrevivência. Testa-se tudo, aceita-se tudo, relativiza-se tudo, enquanto a maioria avança, sem ruptura, em direção ao limite inevitável da própria finitude. O caos deixa de ser um acidente e se consolida como regra.

Por fim, a própria pandemia é reinterpretada sob uma chave mística, atribuindo-se a ela um suposto critério vibracional de escolha, como na afirmação de que o vírus “penetra somente em corpos incompatíveis com a vibração do amor ao próximo”, segundo Melissa Tobias, autora de A Realidade de Madhu. Tal leitura revela não apenas o desespero espiritual, mas a necessidade humana de converter o incompreensível em narrativa suportável. Entre o colapso da razão, a teatralização da fé e a banalização do absurdo, impõe-se a constatação inquietante de que a crise não foi apenas sanitária, mas profunda e estruturalmente simbólica, ética e civilizatória.


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Como seu professor de Sociologia, o texto que lemos é uma crítica densa e metafórica sobre o colapso simbólico e a crise ética da sociedade durante a pandemia. Ele aborda a teatralização do sofrimento, a inversão de valores e o papel da escola nesse cenário. Preparei cinco questões discursivas simples para analisarmos a crítica social e os conceitos-chave apresentados.

1. Teatralização do Desespero e o "Colapso Simbólico"

O texto descreve o drama institucional como "espetáculo público", destacando a figura do professor de jaleco e megafone bradando ordens nas ruas, o que é visto como uma "farsa involuntária" e um "colapso simbólico". Discuta a função social da teatralização do sofrimento na sociedade contemporânea. De que forma o uso de símbolos dramáticos (jaleco, megafone) pode, paradoxalmente, esvaziar o compromisso pedagógico genuíno ao invés de legitimá-lo, transformando a crise em mero espetáculo?

2. A Corrupção Moral e a Crise de Autoridade

O autor afirma que a "corrupção moral, disfarçada de misericórdia, corrói o profissionalismo" e instaura um ambiente onde "o grito substitui o diálogo e o ruído ocupa o lugar da autoridade moral". Explique a relação entre a crise ética e a crise de autoridade na escola. Como a relativização de valores e o uso da "misericórdia" como justificativa podem minar o profissionalismo docente e impedir o estabelecimento de uma autoridade moral baseada em valores tradicionais (respeito, disciplina)?

3. Inversão de Valores e a Sobrevivência Social

O texto aponta que, em tempos de desespero, a "inteligência passa a ser tratada como deformidade e a beleza, como pobreza", normalizando a inversão de valores como método de sobrevivência. Relacione esse fenômeno com o conceito de Anomia (Durkheim). De que maneira o colapso das normas sociais (anomia) força a sociedade a legitimar o absurdo e a inversão ética como uma forma de adaptação, onde a maioria avança "sem ruptura" em direção ao caos?

4. A Crise Estrutural e a Busca por Narrativas Místicas

O texto finaliza com a reinterpretação mística da pandemia — a ideia de que o vírus "penetra somente em corpos incompatíveis com a vibração do amor ao próximo" —, vendo isso como uma necessidade de converter o "incompreensível em narrativa suportável". Discuta a função sociológica da religião ou do misticismo em períodos de crise. Por que, diante de um colapso da razão e uma crise estruturalmente simbólica, a sociedade recorre a narrativas simplificadoras e místicas para dar sentido e consolo a eventos caóticos e irracionais?

5. O Conflito Escola versus Sociedade

O texto afirma que a crise "tornou ainda mais visível o antigo conflito entre a escola e a sociedade", marcada pela "disputa por legitimidade". Analise esse conflito institucional. De que forma a escola, historicamente encarregada de transmitir valores sociais, se encontra em desvantagem na sociedade contemporânea, e por que a prática cotidiana não consegue mais incorporar os valores que ela própria prega (respeito, ética), perdendo assim sua legitimidade perante o público?

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domingo, 20 de novembro de 2022

O INFERNO DOS DEUSES ... ("É estupidez pedir aos deuses aquilo que se pode conseguir sozinho." — Epicuro)

 


O INFERNO DOS DEUSES ... ("É estupidez pedir aos deuses aquilo que se pode conseguir sozinho." — Epicuro)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Numa tarde de outono, sentado em um banco do parque da cidade, observei as folhas caindo das árvores em um balé aparentemente aleatório, mas inevitavelmente chegando ao chão. O cenário me levou a uma profunda reflexão sobre o livre-arbítrio e o destino, temas que há muito me intrigavam.

A ideia de um Deus onipresente, onisciente e onipotente sempre me trouxe conforto. Afinal, se Ele move todas as peças do grande tabuleiro da vida, como poderíamos realmente ter livre-arbítrio? No entanto, uma frase do Sadhguru ecoava em minha mente: "Se você faz de si mesmo um céu, por que desejaria ir a qualquer outro lugar?"

Essas palavras desafiaram minhas crenças mais profundas. Se tudo é predestinado, qual o propósito de nossas ações? Por outro lado, se temos o poder de escolha, não seríamos como pequenos deuses, construindo nosso próprio céu ou inferno?

Observei um casal de idosos caminhando de mãos dadas, suas vidas uma tapeçaria complexa de decisões. Quantos "sins" e "nãos" moldaram sua jornada conjunta? Ali estava a perfeita fusão entre escolha e destino - cada passo uma decisão, mas o caminho já traçado pelo tempo.

A alguns metros, uma criança corria atrás de uma borboleta, sua espontaneidade me fazendo sorrir. A criança decidiu correr, mas a borboleta, imprevisível, ditava o caminho. Não seria nossa vida assim? Uma dança entre nossas escolhas e as circunstâncias que nos são apresentadas?

Refletindo sobre minha própria jornada, questionei-me: fui eu quem escolheu estar nessa situação atual? A crença de que todos vão para o céu, independentemente de seus méritos, apenas pelos méritos de Jesus, às vezes me parece um caminho fácil demais. Seria mais digno ir para o inferno por mérito próprio do que para o céu pela graça de outrem?

Mas então, percebi que talvez o segredo não esteja em decifrar se temos ou não livre-arbítrio, mas em como usamos os momentos de escolha que a vida nos apresenta. Podemos optar por criar nosso próprio "céu" interno, independentemente das circunstâncias externas.

Seja pela predestinação ou pelo livre-arbítrio, cada dia é uma oportunidade de construir algo significativo. O verdadeiro poder está em como reagimos às cartas que nos são dadas, como transformamos desafios em crescimento.

Ao final daquela tarde no parque, saí com mais perguntas do que respostas. Mas uma coisa ficou clara: a vida é um grande mistério, e nossas crenças são apenas um reflexo de nossas experiências e interpretações do divino. O importante é viver com autenticidade e buscar sempre a verdade, mesmo que ela seja difícil de encontrar.

E você, caro leitor, já parou para pensar em como suas escolhas diárias estão moldando seu caminho? Lembre-se, o céu e o inferno podem estar mais próximos do que imaginamos - eles residem em nossas mentes e corações, esperando para serem descobertos a cada nova decisão que tomamos. Continuemos nossa jornada, construindo nossos próprios céus ou infernos, sempre na busca incessante por significado e propósito.

Duas questões discursivas sobre o texto:

1. O texto apresenta uma reflexão sobre a relação entre livre-arbítrio e destino. Considerando as diferentes perspectivas apresentadas, como você entende a influência de cada um desses elementos na vida humana?

Esta questão convida os alunos a analisar os argumentos apresentados no texto e a construir sua própria compreensão sobre a complexa relação entre as escolhas individuais e as forças externas que moldam nossas vidas.

2. O autor questiona a ideia de que todos vão para o céu independentemente de seus méritos. Essa perspectiva levanta questões importantes sobre justiça, moralidade e a natureza do bem e do mal. Discuta como essas questões se relacionam com as suas próprias crenças e valores.

Esta questão estimula os alunos a refletir sobre questões existenciais profundas, como o significado da vida, a natureza do bem e do mal, e a relação entre fé e razão.

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