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MINHAS PÉROLAS

sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

"UM ABISMO CHAMA OUTRO ABISMO" ("E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti." — Friedrich Nietzsche)

 


"UM ABISMO CHAMA OUTRO ABISMO" ("E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti." — Friedrich Nietzsche)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Vivemos num mundo paradoxal, onde a dor se repete em espirais: muitas vezes o oprimido devolve a opressão que recebeu, e o violentado descobre em si um violentador adormecido. Nas escolas, esse ciclo se insinua nas pequenas tensões diárias, quando alguns alunos — feridos por um sistema que os reduz a números — devolvem sua mágoa aos professores em forma de ironia, desafio ou desdém. Mas é preciso frisar: não são todos. Há também os que resistem ao acúmulo de violências, que ainda conversam com delicadeza e sabem reconhecer um gesto de cuidado. Ainda assim, a relação professor-aluno mudou de tal modo que um simples “queridão” pode carregar um veneno implícito, e até um elogio sincero corre o risco de ser lido como insinuação. Nada mais frágil que esse clima onde cada palavra se equilibra entre o afeto e o ataque.

A tensão se aprofunda quando vemos casos extremos ocupando os noticiários: ex-alunos que retornam não para aprender, mas para acertar contas. É como se parte dessa juventude, incapaz de metabolizar o próprio fracasso, transformasse a escola num palco tardio de vingança. No entanto, nem tudo é tragédia anunciada. Em muitas salas de aula, discretamente, florescem outras histórias: jovens que encontram abrigo na biblioteca, professores que acolhem sem heroísmo, colegas que defendem outros do sarcasmo cruel. São minúsculas resistências, quase invisíveis — mas existem. E talvez seja isso que impede o quadro de se tornar inteiramente apocalíptico.

Ainda assim, paira no ar o temor de que uma parcela desses ex-alunos possa, um dia, desestabilizar o ensino presencial. Não por um destino inevitável, mas por um conjunto de fatores que se repetem com obstinação: famílias que perpetuam comportamentos desajustados, a força de uma maioria confusa que se impõe mesmo quando erra, e o ressentimento de quem bate às portas do mercado de trabalho sem encontrar espaço. Diante dessa frustração, alguns retornam à escola buscando culpados, não respostas. Mas aqui também há um contraponto necessário: muitos outros, mesmo enfrentando as mesmas tempestades, encontram caminhos menos hostis — em cursos técnicos, em pequenos empregos, ou simplesmente no esforço silencioso de não reproduzir o que sofreram.

O que emerge desse contraste é uma juventude que avança entre o vazio e a esperança, entre a sensação de que o futuro é um terreno estéril e a percepção de que alguma semente ainda pode germinar. Onde falta sentido, qualquer planejamento parece ficção; mas, paradoxalmente, é justamente nesses vazios que alguns jovens — e alguns professores — criam seus pequenos mapas. Às vezes um projeto de leitura, às vezes um conselho dito na hora certa, às vezes uma simples presença que não cede ao cinismo. Não é muito, mas é algo.

Talvez por isso o salmista ainda faça sentido quando diz que “um abismo chama outro abismo”, pois o cotidiano escolar conhece bem essa lei do eco. Contudo, o mesmo salmo fala de uma canção à noite, e é nesse trecho que reside nossa pequena práxis possível: sustentar a voz mesmo quando o mundo parece desabar. Quem ensina vive desse paradoxo — carregar o peso da desilusão sem renunciar à esperança. O clamor do texto antigo se espalha pelos corredores, perguntando: “Por que ando angustiado?” A resposta, se existe, é frágil: porque somos humanos. E, apesar disso — ou por causa disso — ainda tentamos. Ainda resistimos. Ainda cremos que, entre um abismo e outro, alguém possa encontrar um caminho que não termine em queda.


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Como seu professor de Sociologia, o texto que acabamos de ler mergulha na complexidade das relações sociais na escola, explorando o ciclo da violência, a fragilidade da comunicação e a resistência silenciosa da juventude e dos docentes. Preparei cinco questões discursivas simples para analisarmos o conflito social, o ressentimento e o paradoxo da esperança.

1. O Ciclo da Opressão e a Violência Recíproca

O texto descreve que "o oprimido devolve a opressão que recebeu, e o violentado descobre em si um violentador adormecido", manifestando-se na escola como ironia, desafio ou desdém dos alunos contra os professores. Analise esse fenômeno sob a ótica da Reprodução Social e do Ciclo da Violência. De que forma a estrutura do sistema escolar (que "reduz a números") gera mágoa e ressentimento, e como essa dor é transferida e devolvida pelos alunos aos docentes, perpetuando um ciclo de agressão recíproca?

2. A Fragilidade da Comunicação e a Suspeita Constante

O narrador aponta que a comunicação mudou, de modo que um simples "queridão" pode carregar um veneno implícito e um elogio sincero corre o risco de ser lido como insinuação. Discuta a fragilidade da comunicação na escola contemporânea, utilizando o conceito de Desconfiança Generalizada. Por que a hostilidade subentendida e a suspeita constante tornam a interação professor-aluno um "clima onde cada palavra se equilibra entre o afeto e o ataque", dificultando o vínculo pedagógico e o acolhimento?

3. O Retorno Vingativo e a Falta de Metabolização do Fracasso

O texto trata de ex-alunos que retornam à escola como um "palco tardio de vingança", buscando culpados pelo fracasso em bater às portas do mercado de trabalho. Relacione a exclusão do mercado de trabalho (desajuste econômico) com a agressividade contra a escola. De que forma a incapacidade de metabolizar o próprio fracasso transforma a instituição, que deveria ser um local de ascensão, no principal alvo de ressentimento dessa juventude?

4. Resistência Silenciosa e a Práxis da Esperança

O texto contrasta o quadro apocalíptico com as "minúsculas resistências, quase invisíveis" — jovens que encontram abrigo na biblioteca, professores que acolhem "sem heroísmo" — e menciona a “canção à noite” do salmista como nossa “pequena práxis possível”. Discuta a natureza e a importância dessas formas discretas de resistência. Por que a manutenção de pequenos atos de esperança, acolhimento e humanidade (o "não ceder ao cinismo") é crucial para impedir o colapso total do ambiente escolar, mesmo quando prevalece o "vazio" e a desilusão?

5. Determinismo Social e a Lei do Eco ("Um Abismo Chama Outro Abismo")

O texto evoca a lei do eco, onde “um abismo chama outro abismo”, ligando a repetição de comportamentos desajustados das famílias à força de uma "maioria confusa" na escola. Utilize o conceito de Determinismo Social para analisar essa lei do eco. De que maneira a reprodução de fatores sociais e familiares (violência, desajuste) parece criar um "destino inevitável" para a juventude, e como a escola (apesar das minúsculas resistências) luta para romper essa cadeia de negatividade que se impõe?

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