Ensaio I(18) O Enigma da Retribuição Divina: Reflexões Teológicas sobre Ação, Consequência e Ironia
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Há uma frase em Provérbios 1:18 que Salomão poderia ter deixado passar, mas não deixou: "eles estavam armando uma armadilha para si mesmos." Não para os outros, mas para si mesmos. Os conspiradores, enquanto planejavam meticulosamente a destruição do inocente, construíam, sem perceber, o mecanismo da própria ruína. A ironia é tão precisa que chega a desconcertar. E, por aparecer repetidas vezes ao longo da história da redenção, deixa de parecer mera coincidência para revelar um princípio que atravessa toda a Escritura.
É justamente sobre esse princípio que este ensaio se debruça. Não como uma tentativa de oferecer consolo fácil a quem sofreu injustiça, nem como uma ameaça simplista a quem a pratica, mas como uma janela aberta para contemplar a ordem moral que Deus inscreveu na própria estrutura da realidade.
Paulo sintetizou essa ordem em uma das afirmações mais densas e elegantes da epistolografia cristã: "de Deus não se zomba; pois aquilo que o homem semear, isso também ceifará" (Gl 6:7). O verbo semear não está ali por acaso. Ele pressupõe tempo, espera e desenvolvimento. Toda semente exige um período silencioso antes da colheita, e o pecado não foge a essa lógica. A retribuição divina raramente acontece no calor do momento; ela amadurece. Cresce debaixo da superfície, quase imperceptível, até produzir exatamente o fruto daquilo que foi plantado.
Poucas narrativas bíblicas ilustram essa verdade com tanta força quanto a história de Hamã (Et 3–7). Depois do rei, ele era o homem mais poderoso do Império Persa. Ainda assim, todo esse poder lhe parecia insuficiente porque existia um judeu chamado Mardoqueu que se recusava a se curvar diante dele. O problema já não era político; era pessoal, quase existencial. O orgulho ferido transformou-se em obsessão. Determinado a apagar seu desafeto da história, Hamã mandou construir uma forca de cinquenta côvados de altura — quase vinte e três metros. Era alta o suficiente para que toda a capital contemplasse o espetáculo. Não seria apenas uma execução; seria um monumento à humilhação, uma arquitetura erguida para glorificar a vingança.
Mas, como tantas vezes acontece nas páginas das Escrituras, a história mudou de direção quando ninguém esperava. Na noite que antecedia a execução planejada, o rei Assuero perdeu o sono. Mandou trazer os registros oficiais do reino e, durante a leitura, descobriu que Mardoqueu havia salvado sua vida anos antes, sem jamais receber qualquer recompensa. Na manhã seguinte, Hamã entrou no palácio decidido a pedir autorização para enforcar Mardoqueu. Antes que conseguisse abrir o assunto, porém, o rei lhe fez uma pergunta inesperada: o que deveria ser feito ao homem que o rei deseja honrar? Convencido de que a homenagem seria destinada a ele próprio, Hamã descreveu uma celebração pública grandiosa, digna de um herói nacional. Então veio a resposta que desmontou todos os seus planos: "Vai depressa, toma o cavalo e a veste, e faz tudo isso a Mardoqueu, o judeu" (Et 6:10). Naquela mesma tarde, Hamã percorreu as ruas conduzindo o cavalo em que seu maior inimigo era celebrado diante do povo. E, ao cair da noite, foi enforcado na forca que ele mesmo havia mandado construir.
A forca de cinquenta côvados tornou-se, com uma precisão que nem a melhor ficção ousaria imaginar, o instrumento da sentença de seu próprio criador. Hamã não foi derrotado por um adversário mais forte. Foi vencido pela própria maldade. A armadilha que preparara para outro fechou-se sobre ele. Séculos antes, Salomão já havia descrito esse mecanismo sem mencionar um único nome: quem cava uma cilada para o inocente acaba, cedo ou tarde, aprisionado nela.
Jezabel e Acabe experimentaram a mesma lógica quando tramaram a morte de Nabote para tomar sua vinha (1Rs 21). Elias anunciou que os cães lamberiam o sangue de Acabe exatamente no lugar onde o sangue de Nabote havia sido derramado — e assim aconteceu (1Rs 22:38). Judas recebeu trinta moedas de prata para entregar Jesus. Depois, consumido pelo remorso, devolveu o dinheiro antes de tirar a própria vida, e aquelas moedas acabaram sendo usadas para comprar um terreno destinado ao sepultamento de estrangeiros, conhecido desde então como "campo de sangue" (Mt 27:3-8). Em cada uma dessas histórias, a consequência reflete o próprio pecado. A medida aplicada ao outro retorna, inevitavelmente, sobre quem a utilizou.
Não se trata de vingança divina no sentido mais primitivo da palavra. Trata-se de algo muito mais profundo e inquietante. A Escritura revela que determinadas escolhas carregam, dentro de si mesmas, as consequências que produzirão. A ordem moral do universo não precisa ser imposta de maneira arbitrária; ela foi tecida por Deus na própria natureza das ações humanas. É como se a injustiça trouxesse, em seu próprio interior, a semente da autodestruição. Deus não precisa reinventar a justiça a cada episódio, porque criou um mundo onde o mal, cedo ou tarde, acaba colhendo aquilo que semeou.
É nesse horizonte que Eclesiastes 12:14 encontra toda a sua força: "Deus trará a julgamento cada obra, com tudo o que está oculto, seja bom, seja mau." Nada escapa à sua contabilidade. Nada permanece para sempre escondido. E aquilo que os conspiradores de Provérbios 1 jamais conseguiram enxergar — cegados pela cobiça, ensurdecidos pela própria ambição — era que a armadilha construída com tanto cuidado já trazia gravado o nome de seus verdadeiros ocupantes.
No fim das contas, essa lição não foi escrita apenas para quem contempla a injustiça de longe e espera, quase em segredo, que os culpados finalmente caiam. Ela foi escrita para todos nós. Afinal, quem nunca armou pequenas armadilhas? Uma mentira aparentemente inofensiva. Uma palavra dita para ferir. Um gesto de crueldade cuidadosamente disfarçado de justiça. Um mal plantado em silêncio, na esperança de que jamais produza frutos.
Mas, sementes não deixam de germinar porque foram esquecidas. O campo pode permanecer silencioso por um tempo. A terra pode esconder o que recebeu. Ainda assim, a colheita virá. Porque, como Paulo advertiu com a serenidade de quem conhece o caráter de Deus: "de Deus não se zomba."






