O CARNAVAL DOS PROMOVIDOS: O Baile de Máscaras e o Espelho Que Evitei ("Quanto maior o poder, mais perigoso é o abuso" — Edmund Burke)
Há dias em que a escola se parece com um baile de máscaras mal ensaiado. Já não sei o que mais me cansa: o lobo sob a pele de cordeiro ou a ovelha que aprende a rosnar para sobreviver. Caminho por corredores onde a moral troca de figurino conforme a plateia, e tudo soa excessivo — vozes altas, sorrisos ensaiados, silêncios calculados. Nesse carnaval institucional, observo mais do que participo. Talvez por medo. Talvez por cansaço. Talvez porque, em algum ponto, eu tenha me sentido grama pisoteada e decidido não crescer mais.
Digo — e escrevo — que sou visto como o pior professor da instituição. Não sei se isso foi dito em voz alta ou se ecoou dentro de mim até ganhar estatuto de verdade. Sei apenas que a sensação de inadequação se instalou como mofo: silenciosa, persistente, corrosiva. Quando o reconhecimento não vem — ou quando acredito que não virá — começo a desaparecer. No recreio, no intervalo, meu refúgio é o brilho da tela do smartphone. Ali me escondo. Não por vício, mas por defesa: é o lugar onde não preciso explicar nada a ninguém.
Durante muito tempo, olhei para os outros como predadores educados: urubus de terno escuro, alimentando-se de restos com polidez institucional. Via falsidade em excesso, competição travestida de mérito, eficiência usada como chicote. Aos poucos, porém, percebi algo mais incômodo: eu também carregava veneno nas veias. Não o deles — o meu. O veneno da desconfiança absoluta, da generalização, do isolamento escolhido como escudo. Criticava a engrenagem, mas me deixava triturar por ela em silêncio.
Houve um tempo em que fui cogitado para a coordenação. Lembro do convite como quem se recorda de um sonho mal explicado. Recusei. Disse a mim mesmo que era por princípio: não queria uivar por conveniência nem balir por submissão. Hoje suspeito que havia também medo. Medo de fracassar à vista de todos. Medo de confirmar, publicamente, a imagem que eu mesmo havia construído. Transformei esse medo em discurso ético — e segui em frente, talvez mais coerente, mas certamente mais sozinho.
Nesta escola, a palavra “eficiência” muitas vezes chega como vingança. Gente ferida ferindo outros, hierarquias despejando frustrações em cascata, pequenos poderes exercidos com fervor quase religioso. Eu observo — e me calo. Já não sei se meu silêncio é resistência ou rendição. Sei apenas que, ao evitar vínculos, acabo confirmando a narrativa que mais me machuca: a de que não pertenço.
Por muito tempo, fiz do medo meu companheiro mais fiel. Ele me dizia onde não pisar, com quem não falar, o que não tentar. Parecia proteção. Hoje entendo: era cárcere. Morrer socialmente dentro da escola não é ato político — é desistência lenta. E escrevo isso não como acusação aos outros, mas como confissão.
Talvez nem todos sejam lobos. Talvez algumas ovelhas também estejam cansadas de balir. Talvez eu precise admitir que estou adoecido por um sistema que adoece muitos — e que não sairei inteiro disso sozinho. Ainda não sei como pedir ajuda, mas sei que preciso. Porque permanecer neste baile apenas observando, com a máscara colada ao rosto, já não é opção.
E, se esta crônica ainda sangra, ao menos agora sangra com nome, com consciência e com a recusa definitiva de transformar dor em veneno. Eu mereço mais do que sobreviver escondido. E, pela primeira vez em muito tempo, começo a suspeitar disso sem ironia.
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Olá! Como seu professor de Sociologia, vejo que este texto é um mergulho profundo na Microssociologia e na Psicologia Social. Ele trata de como as instituições (como a escola) moldam nosso comportamento através de máscaras, papéis sociais e, por vezes, violência simbólica. Aqui estão 5 questões discursivas, simples e diretas, para explorarmos esses conceitos:
1. O "Baile de Máscaras" e os Papéis Sociais. O autor utiliza a metáfora de um "baile de máscaras" para descrever a escola, onde pessoas agem como "lobos" ou "ovelhas". Na sociologia, o que significa dizer que os indivíduos usam "máscaras sociais" para sobreviver ou se adaptar a uma instituição?
2. O Estigma e a Identidade Docente. O texto menciona a crença de ser "o pior professor da instituição" e como essa ideia se tornou uma "verdade corrosiva". Como o julgamento dos outros (o olhar do grupo) pode afetar a identidade de um profissional e levá-lo ao que o autor chama de "desaparecer"?
3. O Smartphone como Refúgio e Isolamento. O uso do smartphone no intervalo é descrito não como vício, mas como "defesa". De que forma o isolamento tecnológico pode ser lido como uma resposta à falta de pertencimento e aos conflitos de um ambiente de trabalho hostil?
4. A "Eficiência" como Violência Simbólica. O autor afirma que a palavra "eficiência" muitas vezes chega como uma "vingança" ou ferramenta de poder. Explique como conceitos que parecem positivos (como produtividade e eficiência) podem ser usados para exercer pressão e causar sofrimento dentro das hierarquias escolares.
5. Da Sobrevivência à Consciência de Si. Ao final, o autor percebe que o medo era um "cárcere" e decide não "morrer socialmente". Por que o reconhecimento de que o sofrimento é causado por um sistema (e não apenas por uma falha individual) é o primeiro passo para a mudança e para a saúde mental do trabalhador?
Dica do Professor:
Muitas vezes achamos que nossa tristeza no trabalho é uma "fraqueza" nossa. Mas, como vimos no texto, a escola é um organismo. Se o ambiente está doente, as pessoas que fazem parte dele também sentirão os sintomas. Entender a estrutura ajuda a aliviar a culpa!


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