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MINHAS PÉROLAS

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Quando o Professor Chora: Diagnóstico de uma Escola Adoecida (“Ensinar exige coragem para ser vulnerável.” — bell hooks

 



Quando o Professor Chora: Diagnóstico de uma Escola Adoecida (“Ensinar exige coragem para ser vulnerável.” — bell hooks)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Há dias em que a escola deixa de ser prédio e vira organismo. Respira ofegante, range ossos nos corredores, testa nossos limites com a precisão cruel de quem conhece nossas fissuras mais íntimas. Isso se revela com nitidez em certas reuniões pedagógicas que começam sob o pretexto de planejar o ano, avaliar o que foi feito, alinhar rumos. Mas o roteiro é conhecido: rapidamente o planejamento cede lugar à lavação de roupa suja. Não há sugestões, apenas julgamentos; não há escuta, apenas condenações disfarçadas de zelo profissional. O que emerge ali não é projeto coletivo, mas ressentimento acumulado, vinganças afetivas e frustrações mal elaboradas. Quando, ao final, a coordenadora chora diante do próprio corpo docente, o que se rompe não é apenas sua compostura — é a ilusão de que aquele espaço ainda se sustenta sobre um pacto ético de cuidado mútuo.

Esse choro público carrega consequências profundas. Moralmente, ele desorganiza as hierarquias simbólicas: a figura que deveria mediar conflitos aparece exposta, vulnerável, sem rede. Em vez de produzir empatia, muitas vezes gera constrangimento, silêncio cúmplice ou cinismo defensivo. Emocionalmente, instala um clima de insegurança difusa: se até quem coordena desaba, quem sustenta o cotidiano? O efeito é perverso — o sofrimento não aproxima, isola. Cada um retorna à sua sala com a sensação de que ali ninguém será amparado quando o limite for ultrapassado.

Foi num desses dias aparentemente banais que compreendi, pela via mais dolorosa, que o choro do professor em sala de aula obedece à mesma lógica. Em meu quarto ano de magistério, assumi uma turma de sétimo ano sem acolhimento, sem mentoria, sem passagem de bastão. Entrei naquela sala como quem ocupa uma casa já habitada: móveis fora do lugar, memórias alheias no ar, códigos afetivos que não me pertenciam. Planejei a aula com rigor quase ritual, acreditando — como ainda acreditam os iniciantes — que método bastaria. Mas a proposta se dissolveu em dispersão, ruídos e pequenos conflitos. À época, li aquilo como desrespeito. Hoje sei: era luto pedagógico. Alunos que perderam uma referência e receberam uma estranha. O caos não era ataque — era desamparo.

Quando perdi o controle da voz, perdi também a imagem de autoridade que eu tentava sustentar. O choro que veio — envergonhado, solitário, escondido no banheiro — não foi reação a uma aula que falhou, mas ao acúmulo invisível de violências naturalizadas: a solidão profissional, a ausência de suporte institucional, a cobrança por desempenho em contextos instáveis. Moralmente, aquele choro abriu fissuras na autoridade; emocionalmente, instaurou culpa e vergonha. Mas, como o choro da coordenadora na reunião, ele denunciava algo maior: uma instituição que exige equilíbrio constante sem oferecer sustentação.

A escola ensina a resistir, mas não ensina a pausar. Treina para o heroísmo silencioso — aguentar mais um ano, mais uma turma, mais uma humilhação — e pune qualquer tentativa de desaceleração. Parar é lido como fraqueza; adoecer, como falha moral. Aprendi, tardiamente, que o erro não estava em sentir demais, mas em não haver espaços legítimos para elaborar o que se sente. Quando a pausa é proibida, o corpo fala. E fala chorando.

Por isso, o choro no ambiente escolar não deve jamais ser tratado como problema individual. Ele é sintoma coletivo, expressão de uma organização do trabalho que adoece enquanto cobra desempenho. Quando exposto sem acolhimento, produz constrangimento e isolamento; quando reconhecido, pode se transformar em consciência política. Chorar é humano. O erro reside em permitir que o profissional permaneça sozinho em sua dor. Converter o choro isolado — da coordenação, do professor, de qualquer trabalhador da educação — em responsabilidade coletiva talvez seja o gesto mais urgente e mais revolucionário que ainda nos resta dentro da escola.


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Olá! Como seu professor de Sociologia, fico satisfeito em ver como este texto mergulha na Sociologia das Organizações e na Saúde do Trabalhador. Ele nos desafia a olhar para a escola não apenas como um lugar de ensino, mas como um espaço de relações de poder, afetos e, infelizmente, de adoecimento estrutural. Aqui estão 5 questões discursivas, elaboradas de forma simples e direta, para refletirmos sobre esses conceitos:


1. A Escola como Organismo e o Pacto Ético. O texto descreve a escola como um "organismo" onde reuniões pedagógicas muitas vezes viram "lavação de roupa suja". Na sua visão, por que a falta de um pacto ético de cuidado mútuo entre os profissionais dificulta a construção de um projeto coletivo de educação?

2. A Fragilização das Hierarquias Simbólicas. Quando uma coordenadora chora publicamente, o texto diz que isso "desorganiza as hierarquias". Como a Sociologia explica o fato de que, em nossa sociedade, a vulnerabilidade de quem ocupa cargos de liderança costuma causar constrangimento ou insegurança em vez de gerar acolhimento imediato?

3. O "Luto Pedagógico" vs. Indisciplina. O autor ressignifica a desordem dos alunos como "luto pedagógico" (desamparo pela troca de professor) e não como um ataque pessoal. Como essa mudança de olhar ajuda a entender que os conflitos em sala de aula podem ser sintomas de problemas sociais e afetivos, e não apenas "falta de educação" individual?

4. A Instituição que Exige Heroísmo. O texto afirma que a escola "treina para o heroísmo silencioso" e lê a pausa como fraqueza. Como a cobrança excessiva por desempenho e resistência, sem oferecer suporte emocional, contribui para o fenômeno do burnout (esgotamento profissional) entre os professores?

5. Do Choro Individual à Consciência Política. Ao final, defende-se que o choro deve ser visto como um "sintoma coletivo" e não uma "falha moral". O que significa, na prática, transformar a dor individual em consciência política dentro de uma instituição de ensino?

Dica do Professor:

Lembre-se: em Sociologia, quando um problema se repete com muitas pessoas em lugares diferentes (como vários professores chorando ou se sentindo exaustos), ele deixa de ser um "problema pessoal" e passa a ser um fato social. Investigar as causas disso é o primeiro passo para a mudança!

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