"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

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MINHAS PÉROLAS

sábado, 30 de março de 2013

"MORDIDO" OU LAMBIDO ("Não force um cão a latir, pois a mordida será o próximo passo." — Jeferson Guerreiro)



PROSA POÉTICA

"MORDIDO" OU LAMBIDO ("Não force um cão a latir, pois a mordida será o próximo passo." — Jeferson Guerreiro)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Na rua, vadio, vítima das preposições. 
Todo cachorro late comigo!
Eles latem por mim;
Eles latem para mim;
Eles latem perante mim;
Eles latem a mim;
Eles latem ante mim;
Eles latem até mim;
Eles latem após mim;
Eles latem de mim;
Eles latem desde mim;
Eles latem em mim;
Eles latem entre mim;
Eles latem contra mim;
Eles latem sem mim;
Eles latem sob mim;
Eles latem sobre mim;
Eles latem atrás de mim!
Um latido afora, segundo, exceto, salvo, malgrado, durante, mediante, fora e menos.
Tem cachorro para todos os gostos, estou "mordido" acerca disto!
Não gosto de cachorro com vida de rico e nem da criança interior que brinca com o cachorro dentro do adulto. Enfim, não gosto mesmo é de "cachorrada" comigo. Prefiro os que me elogiam, pelo menos, não latem, só babam! "Se parares cada vez que ouvires o latir de um cão, nunca chegarás ao fim do caminho." (Provérbio Chinês).
Claudeko Ferreira
Enviado por Claudeko Ferreira em 19/10/2012
Reeditado em 30/03/2013
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sábado, 23 de março de 2013

RESPONSABILIDADE SOCIAL ("Buscas a perfeição? Não sejas vulgar. A autenticidade é muito mais difícil." — Mario Quintana)



Crônica

RESPONSABILIDADE SOCIAL ("Buscas a perfeição? Não sejas vulgar. A autenticidade é muito mais difícil." —
Mario Quintana)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

          Aprendi muito tarde na vida que não amo ninguém, pois nunca estive disposto a fazer sacrifício algum para quem quer que seja, apenas faço o que me é confortável, cumprindo meu dever de amar o próximo como a mim mesmo. Talvez seja como explicou Claudynha: Se você se ama, e ama o próximo como ama a você mesmo, consequentemente você ama alguém. Cada um ama a sua maneira, e se não podemos corresponder ao amor de alguém como é requerido, não quer dizer que não amamos com tudo que temos." Todavia explico melhor: O que sinto por você chama-se responsabilidade social. Já está bom demais, se espero de você só isso!!!
          E você me ama ALÉM DISSO? O que pode fazer por mim ("andar a segunda milha") a ponto de desfalcar o seu conforto? Já dizia Giacomo Leopardi: "O primeiro motivo por que se está disposto a ajudar outro nas devidas ocasiões é a alta apreciação que se tem de si mesmo."
          Será que esta alta proteção ao negro e ao gay, ao pobre, ao nordestino, ao obeso tão em voga, não seria uma espécia de amor próprio protegendo os iguais? Tamanha perseguição aos discriminadores não seria uma agravante discriminação a quem discrimina? O que leva um professor chamar seu aluno de macaco? http://dialogospoliticos.wordpress.com/2013/03/21/professor-chama-aluno-de-macaco-em-escola-da-ufmg/ (acessado em 03/07/2018).
          Diga-se de passagem, tudo é motivo para se condenar um professor. Quem faz macaquice senão macacos ou idiotas independente de raça e credo? 
           Outro caso que li foi do professor de medicina ser acusado de aplicar uma prova com conteúdo homofóbico na Universidade de Rio Verde, apesar dele ter dito de não vê "nenhum tipo de preconceito na questão". O enunciado da questão dizia que o paciente Davi, de 24 anos, estava com abscesso na nádega “e seu noivo serelepe, ao ver aquele quadro horroroso, ficou tresloucado e furou o abscesso com espinho de limoeiro em um movimento rodopiante de bailarino, imitando um beija-flor”. Após a realização da prova alguns alunos procuraram a reitoria da universidade e denunciaram o conteúdo da questão. o reitor da instituição, Sebastião Lázaro Pereira, assinou a exoneração do professor. Por meio de nota a UniRV disse que “repudia veemente a atitude do professor e destaca que esse comportamento isolado não reflete o pensamento da instituição”.
https://www.dm.com.br/cotidiano/2018/06/professor-exonerado-apos-prova-com-conteudo-homofobico-disse-que-nao-ve-nenhum-tipo-de-preconceito.html (acessado em 29/06/2018)
          De tanto condenarem a autenticidade dos que ensinam, o mundo terminará inóspito. Para mim o maior problema são os sacrificadores de professor, contribuído para o apagão da educação!
Claudeko Ferreira
Enviado por Claudeko Ferreira em 12/10/2012
Reeditado em 23/03/2013
Código do texto: T3928744
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sábado, 16 de março de 2013

FESTA DE PROFESSOR: O Banquete das Sombras ("...A tristeza é melhor que a alegria porque ela nos purifica." — Ecl. 7:2-3 BV)



Crônica da vida escolar

FESTA DE PROFESSOR: O Banquete das Sombras ("...A tristeza é melhor que a alegria porque ela nos purifica." — Ecl. 7:2-3 BV)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Este ano foi especialmente generoso com o funcionalismo público. Um calendário elástico, emendado quase por decreto, somado à euforia patriótica de um ano de Copa do Mundo da FIFA, multiplicou os motivos para celebrar. Nesse clima de entusiasmo institucional, aceitei o convite para o jantar de confraternização dos professores, realizado no próprio colégio, com a promessa de encerrar o semestre com “chave de ouro”.

O salão estava impecável, ornamentado com zelo quase corporativo. Contudo, por trás das luzes e das toalhas engomadas, percebia-se algo menos festivo: colegas “maquiados de si mesmos”, desempenhando com afinco os papéis habituais. Os risos soavam ensaiados; os brindes, previsíveis. Notei ausências importantes. “Questões pessoais com a direção?” Explicaram, com uma neutralidade estudada. Perguntei-me, então, onde é mais árduo sustentar a máscara: na rotina burocrática ou na celebração que deveria suspendê-la?

Quando o conjunto musical iniciou os acordes, fui tomado por um súbito desejo de partir. A mesa farta reluzia sob a promessa do prazer imediato. O antigo “pão e circo” não desaparece — apenas se atualiza. Recordei as palavras de Salomão no Eclesiastes: "... é melhor estar nos velórios que ir a festas de aniversário. Isso porque você vai morrer um dia e é bom pensar nisso enquanto ainda há tempo. A tristeza é melhor que a alegria porque ela nos purifica." (Ecl. 7:2-3 BV).

Entre um gole de refrigerante e outro, eu tentava preservar algum foco interior — como quem protege uma chama frágil contra o vento. Foi quando a coordenadora, cordial e persuasiva, convidou-me a cantar uma composição minha em homenagem aos colegas. Não houve ensaio, tampouco tempo para defesas íntimas.

Levantei-me. O breve trajeto até o microfone pareceu uma travessia moral. A voz, segura em casa, ali vacilou. O silêncio da plateia tinha densidade. Cantei — e, enquanto cantava, percebi que já não dominava o julgamento invisível que me cercava. Não era vaidade; era exposição. Cada deslize soava como confissão involuntária. Ao final, vieram aplausos generosos — talvez benevolentes. Retornei à mesa com a sensação de ter atravessado uma avenida movimentada de olhos fechados.

Compreendi, então, o impasse: fugir seria covardia; permanecer também exige preço. Se tivesse saído antes do jantar, restaria a suspeita da omissão; ficando, herdei a vulnerabilidade. Entre a evasão e o risco, escolhi o risco — e ele me devolveu um espelho.

À medida que a música prosseguia e os pratos se acumulavam, pensei na pedagogia silenciosa dessas celebrações. Por que a confraternização docente gravita sempre em torno da abundância? Proclamamos formar consciências críticas, mas frequentemente educamos pelo excesso. O Programa Mais Educação, com lanches na entrada e na saída — além do intervalo regular —, não é apenas política pública; é sintoma cultural. Alimenta-se o corpo repetidas vezes em poucas horas, enquanto a interioridade raramente é nutrida. Chamam isso de cuidado. Talvez seja apenas a versão escolar de uma estratégia antiga: saciar para apaziguar.

Convém esclarecer: não se trata de condenar o alimento, mas de interrogar o símbolo. Quando a mesa se torna o centro gravitacional da convivência, a reflexão corre o risco de ceder lugar à digestão. E nós, professores, quase sem perceber, assumimos o papel de oficiante desse culto à abundância, enquanto a dimensão interior se esvai.

Ao deixar o salão, carregava uma consciência ambígua. No ano anterior, ausente, ouvi ao retornar: “Você perdeu uma festa maravilhosa!” Perdi — ou fui poupado? Agora, presente, experimentei outra forma de ausência: a de mim mesmo, diluído entre risos e harmonizações forçadas.

Talvez eu diga aos que faltaram que a festa: “foi excelente”! Não por malícia, mas porque compreendo a engrenagem social: presença e ausência produzem culpas equivalentes. A vida coletiva parece um cálculo em que sempre subsiste algum déficit moral.

No íntimo, oscilo entre o conselho austero de Salomão e a suspeita de que Friedrich Nietzsche ironizaria minha contenção, acusando-me de temer o impulso dionisíaco que dissolve as máscaras. Talvez Epicuro ponderasse que o prazer autêntico não reside no excesso, mas na medida — não no banquete ruidoso, e sim no pão simples partilhado sem encenação. Entre essas vozes, permaneço suspenso.

No fim, compreendi que a festa não foi mero evento social, mas um experimento moral. Sob luzes artificiais e melodias previsíveis, vi a comédia humana encenar sua fome — de alimento, de aprovação, de pertencimento. E entendi que o verdadeiro banquete não estava nas mesas, mas nas sombras que cada um de nós levou consigo para o interior do salão.

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Olá, pessoal! Como professor de sociologia, fico muito feliz em trabalhar esse texto com vocês. Ele é um material riquíssimo porque transforma um evento cotidiano — uma festa da escola — em um objeto de análise científica. O autor nos convida a "tirar os óculos" do senso comum e observar as estruturas sociais, as máscaras que usamos e os rituais de consumo. Para nossa aula, preparei 5 questões discursivas que ajudam a conectar essa narrativa aos conceitos fundamentais da nossa disciplina.


1. Máscaras Sociais e Goffman: O texto menciona colegas que pareciam "maquiados de si mesmos", desempenhando papéis habituais mesmo em um momento de lazer. Com base na ideia de que a vida social é uma espécie de teatro, por que o autor questiona se é mais difícil sustentar a "máscara" no trabalho ou na celebração?

2. A Atualização do "Pão e Circo": O autor afirma que o antigo conceito romano de Panem et Circenses (Pão e Circo) não desapareceu, apenas se atualizou. Como a oferta abundante de comida e música em eventos institucionais pode ser interpretada como uma ferramenta de controle ou apaziguamento social dentro do ambiente escolar?

3. Instituição e Socialização: Ao citar o Programa "Mais Educação" e a rotina de alimentação das crianças, o texto sugere uma "pedagogia silenciosa". De que maneira a escola, como instituição social, pode estar moldando o comportamento dos indivíduos para o consumo e para a busca pelo prazer imediato, em vez da reflexão crítica?

4. O Dilema do Pertencimento e a Coerção Social: O narrador sente-se culpado tanto quando falta à festa quanto quando comparece. Explique, do ponto de vista sociológico, como a pressão do grupo (a "engrenagem social") exerce influência sobre as escolhas individuais, criando o que o texto chama de "responsabilidades e déficits morais".

5. O Indivíduo frente ao Coletivo: No final, o texto cita a tensão entre a contenção (Salomão/Epicuro) e a entrega ao grupo (o impulso dionisíaco de Nietzsche). Como as festas de confraternização ajudam a reforçar a identidade de um grupo profissional, mesmo quando os indivíduos se sentem "desconectados" ou "diluídos" na multidão?

Dica do Professor:

Para responder a essas questões, não busque apenas o que está escrito literalmente. Tente perceber como o autor olha para a festa não como um simples jantar, mas como um fato social — algo que tem regras próprias, exerce pressão sobre as pessoas e revela muito sobre a cultura em que vivemos.

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sábado, 9 de março de 2013

Deus É a Dinâmica da Vida ("O medo inconcebível de uns é o prazer inenarrável de outros." — Maryanne Schramm)



Crônica

Deus É a Dinâmica da Vida ("O medo inconcebível de uns é o prazer inenarrável de outros." — Maryanne Schramm)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

          Deus é o sistema último, transformando todas as energias em matéria e a matérias em energias: é a dinâmica da vida. E o que chamamos de vontade de Deus? Nada mais é do que a fome do motor pelo o combustível da vida, fazendo movimentar as substâncias em busca do que Lhe é próprio consumir no momento. Ele consome vidas para produzir a vida. "Há no âmago do Universo uma 'energia' pulsadora para frente, fazendo o 'acontecer', nunca o deixa parado. As coisas no universo só podem 'acontecer', não podem 'parar' ou regredir" (Marcelo Caixeta - DM).
          Se um grupo de "religiosos" fanáticos e pretensiosos se diz conhecedor de Deus, por que não nos explica melhor o sentido da vida? Se Deus pode ser conceituado e explicado, medido por mentes finitas, então é menor que o homem! Um desses, certa vez, disse-me sobre o seu Deus ser onipresente: está em todos os lugares ao mesmo tempo. Todavia, nem pensou na ausência Divina como uma possibilidade que seu Deus sempre usa! Quando eles julgam as pessoas "afastadas" de Deus. Porém, o Deus da totalidade é exatamente presente, não podendo Se ausentar, pois sem Deus não há vida; Ele é o fluido de toda existência. Então, o Deus dele de jeito nenhum É onipresente, pois só um Deus físico e humanizado pode se ausentar. Se a onisciência de Deus estiver vinculada à onipresença, não há lacuna alguma na sabedoria desse Deus: nunca existiria o não saber, assim como, a ausência! Se  a onipotência de Deus considerar o nada como alguma coisa permeável pelo Seu poder, então os Seus atributos são o próprio Deus. Doutrinas religiosas são uma tentativa frustrada da igreja; pois a própria Bíblia disse que se possível fosse enganariam até os escolhidos. (Mt 24:24). Então achei necessário o acréscimo com o comentário do Pseudônimo,  "Mostradamus": "segue-se o raciocínio daqueles basicamente inteligentes, mas medrosos: Quem foi que criou Deus? Se não fomos nós, foi um outro (O pai), porém de onde teria vindo o pai? e assim uma infinidade de perguntas irrespondíveis. Então chamemos Deus de ignorância plena, escuridão, medo, insegurança, ou aceitemos implicitamente nossa obscuridade, como fazem os ateus".
          O Deus é complexo demais para ser limitado por conceitos ou definições, então vamos apenas nomeá-Lo como indefinível, inconceituável e inconcebível. Dar-Lhe esses nossos atributos de criatura,  faz dEle um de nós, pois é isso que os homens da religião querem: brincar de ser Deus!
Claudeko Ferreira
Enviado por Claudeko Ferreira em 05/10/2012
Reeditado em 09/03/2013
Código do texto: T3918225
Classificação de conteúdo: seguro

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domingo, 3 de março de 2013

RECUPERAÇÃO PARALELA NA "CONSTRUTEL": Notas sobre Mérito e Sentido ("A mesma grana que compra o sexo, mata o amor. Traz a felicidade, também chama o rancor." (Emicida)



Crônica

RECUPERAÇÃO PARALELA NA "CONSTRUTEL": Notas sobre Mérito e Sentido ("A mesma grana que compra o sexo, mata o amor. Traz a felicidade, também chama o rancor." (Emicida)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Em setembro de 2012, a Secretaria de Educação do Distrito Federal anunciou o afastamento de um professor de educação física surpreendido fumando maconha com alunos no Parque da Cidade, em Brasília. Os estudantes tinham 15 e 16 anos; abordado pela polícia, o docente ainda confessou possuir mais droga no veículo.

Longe dali, em Nampula, Moçambique, salas de aula ainda em construção tornaram-se cenário noturno de práticas íntimas entre professores e alunas — algumas trocando o corpo por notas, frequência ou avanço de série; outras, por dinheiro. O mais inquietante não era o escândalo, mas sua duração: os relatos repetiam-se havia anos, como se a anomalia tivesse sido absorvida pela rotina.

Esses episódios não são desvios isolados; apontam para algo mais profundo. A escola já não é apenas o refúgio formador que imaginamos, mas um espelho ampliado da própria sociedade. Pais e mães, frequentemente esmagados por jornadas exaustivas, depositam nela uma esperança quase total — não por descuido, mas por falta de tempo, energia e horizonte. A educação passa, assim, a carregar sozinha uma missão que sempre foi compartilhada.

Nesse contexto, o sistema de avaliação contínua — pontinhos por tudo, até por limpar uma carteira — por vezes ensina menos o conhecimento do que a negociação. O estudante aprende rapidamente a recorrer a atalhos: pressão, sedução, intimidação. Em Manaus, em 2018, um professor foi preso sob suspeita de abusar de alunas prometendo melhorar notas. O caso extremo apenas torna visível uma lógica banalizada em graus menores: quando a avaliação perde credibilidade, o mérito cede lugar à barganha.

O aluno que agride verbalmente o professor por causa de uma nota não defende aprendizado; defende um crédito simbólico. Sua identidade escolar passa a depender do resultado obtido, não do saber adquirido.

Talvez por isso a escola precise recuperar um rigor orientado pela excelência — não para excluir pessoas, mas para dissipar ilusões. Como disse Sarah Westphal: “Descubra do que você tem fome. É um desperdício imperdoável passar a vida empanzinado daquilo que não nos sacia.” Educar é orientar a fome correta.

Uma possibilidade seria separar ensino e certificação: avaliações externas periódicas, aplicadas por equipes independentes, como ocorre no Exame Nacional do Ensino Médio. O professor ensinaria; a instituição avaliaria. Reduzir-se-ia o poder de negociar resultados e, com ele, a tentação de explorá-los. O reconhecimento viria do aprendizado comprovado — não da proximidade, da intimidação ou do favor.

O estudante aprovado poderia sentir gratidão, mas não dívida; a relação pedagógica deixaria de ser transação para voltar a ser encontro intelectual.

Quando jovens aprendem a “comprar” notas com favores ou substâncias, ensaiam um padrão que a vida adulta apenas ampliará: trocar dignidade por sobrevivência simbólica. A antiga pergunta do Livro de Jeremias ecoa: “Assim também podereis vós fazer o bem, estando tão habituados à prática do mal?”

A ironia surge em certas notícias: o rendimento das alunas caiu significativamente, “mas isso não quer dizer que tenha relação com os relatos sobre os atos sexuais”. Como se a realidade precisasse preservar a própria negação para continuar funcionando.

No fundo, a crise talvez não seja apenas pedagógica, mas civilizacional. A escola tornou-se palco de um vazio maior: buscamos resultados sem esforço, pertencimento sem formação, certificado sem conhecimento. Reformar métodos é necessário; reencontrar sentido, indispensável.

Pergunta-se, então, não apenas o que fizeram com o ensino público, mas o que esperamos dele. Enquanto a aprovação valer mais que o aprendizado, qualquer sistema encontrará meios de sobreviver — ainda que à custa da verdade que deveria ensinar.


https://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2018/10/02/professor-e-preso-suspeito-de-abuso-em-alunas-criancas-em-manaus.ghtml (Acessado em 18/02/2026)


https://verdade.co.mz/professores-e-alunos-usam-salas-de-aula-para-actos-sexuais/ (Acessado em 18/02/2026)


http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2012/09/28/interna_cidadesdf,325129/professor-e-flagrado-fumando-maconha-com-alunos-no-parque-da-cidade.shtml (Acessado em 18/02/2026)


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Olá! Como professor de sociologia, fico muito satisfeito em trabalhar com um texto tão denso e necessário. Ele nos permite analisar a escola não como uma ilha isolada, mas como uma instituição que reflete as tensões e as crises da nossa própria estrutura social. Preparei cinco questões discursivas focadas na interpretação sociológica do texto, ideais para o Ensino Médio.


1. A Instituição Escolar e a Família

O texto afirma que a escola passou a carregar sozinha uma missão que antes era compartilhada com as famílias. Segundo a leitura, por que isso aconteceu e qual é a consequência sociológica dessa "sobrecarga" para a instituição de ensino?

2. A "Cultura da Barganha" no Ambiente Escolar

O autor menciona que, quando o sistema de avaliação se baseia em "pontinhos por tudo", o mérito cede lugar à negociação. Explique como essa lógica de "troca" (seja por pressão, favores ou intimidação) pode corromper a função social da educação.

3. Identidade Escolar vs. Saber Adquirido

De acordo com o texto, o aluno que agride um professor por nota está defendendo um "crédito simbólico" e não o aprendizado. Diferencie, com base no texto, a busca pelo certificado da busca pelo conhecimento.

4. O Papel da Avaliação Externa

Uma das soluções propostas no artigo é a separação entre quem ensina (o professor) e quem certifica (uma instituição externa). Como essa medida poderia, na visão do autor, humanizar a relação pedagógica e acabar com a lógica da "dívida" entre aluno e docente?

5. A Crise Civilizacional

O encerramento do texto sugere que a crise na escola é, na verdade, uma "crise civilizacional". O que o autor quer dizer ao afirmar que buscamos "resultados sem esforço" e "pertencimento sem formação" na sociedade atual?

Dica do Professor

Nota para o aluno: Ao responder, tente conectar os exemplos do texto (como os casos de Brasília, Moçambique e Manaus) com os conceitos sociológicos de ética, instituição social e anomia (quando as regras sociais perdem sua força).

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