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MINHAS PÉROLAS

domingo, 3 de março de 2013

RECUPERAÇÃO PARALELA NA "CONSTRUTEL": Notas sobre Mérito e Sentido ("A mesma grana que compra o sexo, mata o amor. Traz a felicidade, também chama o rancor." (Emicida)



Crônica

RECUPERAÇÃO PARALELA NA "CONSTRUTEL": Notas sobre Mérito e Sentido ("A mesma grana que compra o sexo, mata o amor. Traz a felicidade, também chama o rancor." (Emicida)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Em setembro de 2012, a Secretaria de Educação do Distrito Federal anunciou o afastamento de um professor de educação física surpreendido fumando maconha com alunos no Parque da Cidade, em Brasília. Os estudantes tinham 15 e 16 anos; abordado pela polícia, o docente ainda confessou possuir mais droga no veículo.

Longe dali, em Nampula, Moçambique, salas de aula ainda em construção tornaram-se cenário noturno de práticas íntimas entre professores e alunas — algumas trocando o corpo por notas, frequência ou avanço de série; outras, por dinheiro. O mais inquietante não era o escândalo, mas sua duração: os relatos repetiam-se havia anos, como se a anomalia tivesse sido absorvida pela rotina.

Esses episódios não são desvios isolados; apontam para algo mais profundo. A escola já não é apenas o refúgio formador que imaginamos, mas um espelho ampliado da própria sociedade. Pais e mães, frequentemente esmagados por jornadas exaustivas, depositam nela uma esperança quase total — não por descuido, mas por falta de tempo, energia e horizonte. A educação passa, assim, a carregar sozinha uma missão que sempre foi compartilhada.

Nesse contexto, o sistema de avaliação contínua — pontinhos por tudo, até por limpar uma carteira — por vezes ensina menos o conhecimento do que a negociação. O estudante aprende rapidamente a recorrer a atalhos: pressão, sedução, intimidação. Em Manaus, em 2018, um professor foi preso sob suspeita de abusar de alunas prometendo melhorar notas. O caso extremo apenas torna visível uma lógica banalizada em graus menores: quando a avaliação perde credibilidade, o mérito cede lugar à barganha.

O aluno que agride verbalmente o professor por causa de uma nota não defende aprendizado; defende um crédito simbólico. Sua identidade escolar passa a depender do resultado obtido, não do saber adquirido.

Talvez por isso a escola precise recuperar um rigor orientado pela excelência — não para excluir pessoas, mas para dissipar ilusões. Como disse Sarah Westphal: “Descubra do que você tem fome. É um desperdício imperdoável passar a vida empanzinado daquilo que não nos sacia.” Educar é orientar a fome correta.

Uma possibilidade seria separar ensino e certificação: avaliações externas periódicas, aplicadas por equipes independentes, como ocorre no Exame Nacional do Ensino Médio. O professor ensinaria; a instituição avaliaria. Reduzir-se-ia o poder de negociar resultados e, com ele, a tentação de explorá-los. O reconhecimento viria do aprendizado comprovado — não da proximidade, da intimidação ou do favor.

O estudante aprovado poderia sentir gratidão, mas não dívida; a relação pedagógica deixaria de ser transação para voltar a ser encontro intelectual.

Quando jovens aprendem a “comprar” notas com favores ou substâncias, ensaiam um padrão que a vida adulta apenas ampliará: trocar dignidade por sobrevivência simbólica. A antiga pergunta do Livro de Jeremias ecoa: “Assim também podereis vós fazer o bem, estando tão habituados à prática do mal?”

A ironia surge em certas notícias: o rendimento das alunas caiu significativamente, “mas isso não quer dizer que tenha relação com os relatos sobre os atos sexuais”. Como se a realidade precisasse preservar a própria negação para continuar funcionando.

No fundo, a crise talvez não seja apenas pedagógica, mas civilizacional. A escola tornou-se palco de um vazio maior: buscamos resultados sem esforço, pertencimento sem formação, certificado sem conhecimento. Reformar métodos é necessário; reencontrar sentido, indispensável.

Pergunta-se, então, não apenas o que fizeram com o ensino público, mas o que esperamos dele. Enquanto a aprovação valer mais que o aprendizado, qualquer sistema encontrará meios de sobreviver — ainda que à custa da verdade que deveria ensinar.


https://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2018/10/02/professor-e-preso-suspeito-de-abuso-em-alunas-criancas-em-manaus.ghtml (Acessado em 18/02/2026)


https://verdade.co.mz/professores-e-alunos-usam-salas-de-aula-para-actos-sexuais/ (Acessado em 18/02/2026)


http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2012/09/28/interna_cidadesdf,325129/professor-e-flagrado-fumando-maconha-com-alunos-no-parque-da-cidade.shtml (Acessado em 18/02/2026)


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Olá! Como professor de sociologia, fico muito satisfeito em trabalhar com um texto tão denso e necessário. Ele nos permite analisar a escola não como uma ilha isolada, mas como uma instituição que reflete as tensões e as crises da nossa própria estrutura social. Preparei cinco questões discursivas focadas na interpretação sociológica do texto, ideais para o Ensino Médio.


1. A Instituição Escolar e a Família

O texto afirma que a escola passou a carregar sozinha uma missão que antes era compartilhada com as famílias. Segundo a leitura, por que isso aconteceu e qual é a consequência sociológica dessa "sobrecarga" para a instituição de ensino?

2. A "Cultura da Barganha" no Ambiente Escolar

O autor menciona que, quando o sistema de avaliação se baseia em "pontinhos por tudo", o mérito cede lugar à negociação. Explique como essa lógica de "troca" (seja por pressão, favores ou intimidação) pode corromper a função social da educação.

3. Identidade Escolar vs. Saber Adquirido

De acordo com o texto, o aluno que agride um professor por nota está defendendo um "crédito simbólico" e não o aprendizado. Diferencie, com base no texto, a busca pelo certificado da busca pelo conhecimento.

4. O Papel da Avaliação Externa

Uma das soluções propostas no artigo é a separação entre quem ensina (o professor) e quem certifica (uma instituição externa). Como essa medida poderia, na visão do autor, humanizar a relação pedagógica e acabar com a lógica da "dívida" entre aluno e docente?

5. A Crise Civilizacional

O encerramento do texto sugere que a crise na escola é, na verdade, uma "crise civilizacional". O que o autor quer dizer ao afirmar que buscamos "resultados sem esforço" e "pertencimento sem formação" na sociedade atual?

Dica do Professor

Nota para o aluno: Ao responder, tente conectar os exemplos do texto (como os casos de Brasília, Moçambique e Manaus) com os conceitos sociológicos de ética, instituição social e anomia (quando as regras sociais perdem sua força).

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