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MINHAS PÉROLAS

sábado, 21 de novembro de 2015

RELAÇÕES DE QUEM ENSINA (Entre nós, o que importa é eu me dar bem.)


Crônica

RELAÇÕES DE QUEM ENSINA (Entre nós, o que importa é eu me dar bem.)

Por Claludeci Ferreira de Andrade

           Ao chegar àquele oitavo ano, o aluno da primeira carteira me pediu que escrevesse com o giz molhado, pois alegava não enxergar muito bem e também o ruído que o giz seco faz, na superfície polida, irritava todo mundo. Eu já tinha molhado meus gizes por muitas ocasiões, só para a escrita ficar mais nítida, assim o fiz novamente sem problema até que, nesse dia, para o quinto horário, o professor de geografia mal entrou à sala, saiu imediatamente a tempo de me alcançar no pátio e se esforçando para ser "educado", pediu-me que nunca mais escrevesse no quadro com giz molhado. Acenei covardemente com um movimento de cabeça que sim, mas o meu cérebro estava trabalhando ao contrário. Será que ele tem preguiça de apagar o quadro com um pano molhado? Como a troca de professor é rigorosa, porque a gente está doido para sair da sala, e o coordenador também vigia muito bem essa situação, então quase sempre não deixamos o quadro limpo para o próximo professor, pois nunca também peguei o quadro limpo do giz molhado, ainda que não sou eu o único praticante desse recurso didático emergencial. Apagar o quadro não me incomoda até os alunos pedem para fazê-lo por gentileza deles.
           Mais mastigadamente pensei, aquele aluno me usou contra o professor que ele não gostava, achando seu ponto fraco, colocou um contra o outro. Quando molhei o giz naquele momento, na verdade eu estava molhando a língua do menino estrategista. Eu era o Lázaro do seio de Abraão de quem o Rico precisava de refrigério no inferno.

           Como o equipamento escolar da rede pública não é de boa qualidade, esta técnica de molhar o giz favorece o uso de giz de péssima qualidade, economizando para a escola. Eu queria saber se ele deixa, todas as vezes que usa, o quadro limpo para o professor da aula seguinte, mesmo não gostando de apagar o quadro. Ou ainda que seus alunos nem terminassem de copiar, antes do sinal bater, avançaria para cima da lousa apagando tudo por ser tão ético e convencional?

           Confesso-me magoado, pela a petulância do colega, achando-se no direito de me chamar a atenção na frente dos alunos com um propósito presumivelmente frívolo, todavia nem fez questão de se justificar. Este deveria ser um assunto para compor a pauta da próxima reunião pedagógica, mas ele preferiu passar por cima das autoridades da coordenação. Fez justiça com as próprias mãos.

           No Ensino Médio, a Coordenadora pedagógica nos fornece o álcool para molharmos os gizes. Pois todos os professores gostam!  Giz molhado também serve de metáfora para falar do ensino dessedentador ou embriagador. No que chamamos de evolução ou jeitinho brasileiro consecutivamente! O cara quer me puxar para baixo, esse professor é demais!
           O que mais me impressiona é a escola ser o celeiro das relações estragadas, sendo um ambiente de educação! E eu irei perguntar àquele aluno lúcido qual de fato era sua intensão. Porque a do professor eu já sei. Ele não repreendeu nem um outro colega dos que escreve  com giz molhado e não se manifestou em nenhuma reunião oficial. Porém, depois de tantos anos apagando matéria escrita por colegas, achei esse que me pressionou com tanta futilidade para facilitar seu trabalho, ainda que dificultasse o meu. Entre nós, na educação, o que importa é eu me dar bem.            
Kllawdessy Ferreira

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Enviado por Kllawdessy Ferreira em 14/11/2015
Reeditado em 21/11/2015
Código do texto: T5448814
Classificação de conteúdo: seguro

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