"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

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MINHAS PÉROLAS

sexta-feira, 8 de julho de 2016

SENTINDO-ME AGRADECIDO: Entre o Calor dos Vínculos e o Peso das Palavras ("Deem graças em todas as circunstâncias, pois esta é a vontade de Deus para vocês em Cristo Jesus" (NVI)-1 Tesalonicenses 5:18).



Crônica


SENTINDO-ME AGRADECIDO: Entre o Calor dos Vínculos e o Peso das Palavras ("Deem graças em todas as circunstâncias, pois esta é a vontade de Deus para vocês em Cristo Jesus" (NVI)-1 Tesalonicenses 5:18).

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Embora o dia amanheça sempre com a promessa do novo, há dias que se recusam a ficar para trás. Ontem foi um deles. Ainda carrego suas cores, seus ruídos, suas pequenas alegrias. Houve riso, houve encontro, houve informação que alimenta a esperança — dessas que não gritam, mas aquietam. Fui atravessado por boas notícias e, como quem retribui um dom recebido, procurei manter acesa a chama do aprendizado, gesto silencioso de fidelidade ao que me constitui.

O dia 7 de julho — meu aniversário — continua a reverberar. Ele expôs uma verdade recorrente da experiência humana: somos cercados por presenças que se manifestam de formas diversas, intensas e, por vezes, contraditórias. No vasto palco da internet, palavras brotaram aos montes. Muitas traziam afeto genuíno; outras pareciam apenas reflexos automáticos do hábito digital. Frutos virtuais, penso, que saciam por instantes, mas nem sempre sustentam.

A tela, é verdade, concede coragem. Atrás dela, as pessoas ousam dizer mais, sentir mais, aparentar mais. É justamente aí que sinto falta de maior responsabilidade com as palavras. Quando o afeto se reduz à performance, produz uma felicidade inflada — vistosa, porém oca. Não tenho como medir a sinceridade de cada gesto recebido. Ainda assim, escolho a gratidão. Foram mais de duzentas felicitações, e respondi a cada uma como quem honra o vínculo possível. Até hoje, esse gesto me basta. "Deem graças em todas as circunstâncias, pois esta é a vontade de Deus para vocês em Cristo Jesus" (NVI) (1 Tessalonicenses 5:18).

Então emerge o paradoxo — esse velho conhecido da condição humana. Entre tantas vozes de afeto, duas dissonâncias insistiram em ecoar. Duas pessoas me chamaram de “arrogante”. Não ignoro a dor do rótulo, mas recuso sua superficialidade. Fui à raiz da palavra: arrogante vem do latim adrogare, exigir, reivindicar para si aquilo que não lhe foi concedido. Nesse sentido, arrogante não é quem se reconhece, mas quem se apropria indevidamente do reconhecimento.

A pergunta, então, retorna a mim: ao nomeá-los como tóxicos, torno-me também portador do veneno? Talvez. A autocrítica é inevitável quando se escreve com honestidade. O que sei é que não exijo aplausos; exijo coerência. Peço apenas que cada um se reconheça no exemplo que oferece. Estou, confesso, “grávido” das atitudes alheias — elas me atravessam, me afetam, me formam.

Aqui toco outra palavra essencial: importância. Importante é aquilo que foi importado para dentro de nós, aquilo que permitimos atravessar nossas defesas e nos transformar. Talvez eu não seja importante para alguns porque não fui acolhido nesse espaço interior. E tudo bem. A honra mútua não nasce da unanimidade, mas do reconhecimento dos limites.

Assim sigo: grato pelo muito, atento ao pouco, consciente de que, entre o calor dos vínculos e o peso das palavras, viver é aprender a escolher o que permanece.


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Olá! Como seu professor de sociologia, elaborei cinco questões que conectam o seu relato pessoal a conceitos fundamentais da disciplina, como a construção da identidade, a interação mediada pela tecnologia e a ética nas relações sociais.

Aqui estão as questões para reflexão:


1. Espetáculo e Performance Digital: O texto menciona que, na internet, as pessoas "ousam dizer mais, sentir mais, aparentar mais". Do ponto de vista sociológico, como essa necessidade de "performance" nas redes sociais pode afetar a sinceridade e a profundidade dos vínculos entre os indivíduos?

2. Responsabilidade Afetiva e Ética: O autor expressa preocupação com o uso irresponsável das palavras, que podem gerar uma "felicidade inflada". Como a falta de presença física (o "corpo a corpo") no ambiente virtual pode facilitar o descompromisso ético com o que dizemos aos outros?

3. Identidade e Rótulos Sociais: Diante da acusação de "arrogância", o texto busca a etimologia da palavra para refletir sobre o seu significado. Na sociologia, como os rótulos atribuídos por terceiros influenciam a percepção que temos de nós mesmos e a nossa posição dentro de um grupo social?

4. A Importância como Acolhimento: O autor define "importante" como aquilo que é "importado para dentro". Utilizando essa lógica, como você explicaria a diferença entre ter muitos "contatos" em uma rede social e estabelecer relações de "importância" real na vida cotidiana?

5. Gratidão e Coesão Social: O texto termina com um apelo à gratidão e ao reconhecimento dos limites. De que maneira a prática da gratidão e do respeito mútuo contribui para a coesão social e para a diminuição da "toxicidade" nas interações humanas?

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sábado, 2 de julho de 2016

DOMÍNIO DE CLASSE X DOMÍNIO DE CONTEÚDO ("Tome um rumo diferente do de costume, e quase sempre estará certo." Jean-Jacques Rousseau)



Texto

DOMÍNIO DE CLASSE X DOMÍNIO DE CONTEÚDO ("Tome um rumo diferente do de costume, e quase sempre estará certo." Jean-Jacques Rousseau)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Naquela tarde de segunda-feira, "Sol a pino", quando entrei na sala dos professores. O ar estava carregado de expectativas para a semana letiva que se iniciava. Enquanto folheava distraidamente meu planejamento, ouvi cochichos vindos do canto esquerdo da sala. "Ele não tem domínio de classe", sussurrou uma voz que reconheci como a da coordenadora pedagógica.

Aquelas palavras me atingiram como um soco no estômago. Eu, que sempre me orgulhara de minha vocação, agora me via rotulado como inadequado, diferente, quase um pária entre meus pares. O peso daquele julgamento me acompanhou pelos corredores barulhentos até minha primeira aula daquela tarde.

O termo "domínio" tem sido frequentemente usado para definir a capacidade de manter a ordem em sala. No entanto, essa palavra, quando analisada sob a luz da pedagogia, revela-se inadequada. Ela coisifica os alunos, reduzindo-os a meros objetos de controle. Quando penso no "domínio" que muitos administradores escolares valorizam, não posso deixar de refletir sobre a sua conexão com a imposição e a dominação.

Ao entrar na sala do 6º ano, fui recebido por um mar de rostos inquietos e vozes exaltadas. Respirei fundo, lembrando-me das palavras de Platão: "Não eduques as crianças nas várias disciplinas recorrendo à força, mas como se fosse um jogo". Com esse pensamento em mente, decidi tentar uma abordagem diferente.

"Hoje", anunciei com um sorriso, "vamos fazer uma viagem no tempo". Os olhares curiosos se voltaram para mim. Por um momento, o caos deu lugar à atenção. Comecei a narrar a história da Grécia Antiga, pintando imagens de filósofos em togas brancas e jovens discutindo ideias sob oliveiras centenárias.

À medida que a aula avançava, percebi que alguns alunos começavam a se envolver, fazendo perguntas e compartilhando suas próprias ideias. Outros, no entanto, permaneciam distantes, presos em seus próprios mundos de conversas paralelas e mensagens de celular. Esta realidade reflete um sistema educacional que muitas vezes valoriza mais o controle do que a criatividade.

Ao final da aula, fiquei refletindo sobre o significado de "domínio". Não era sobre controle ou submissão, concluí. Era sobre despertar a curiosidade, cultivar o desejo de aprender. Como Clarice Lispector disse, "A palavra é meu domínio sobre o mundo". E ali estava minha missão: não dominar alunos, mas ajudá-los a dominar o conhecimento.

A pressão sobre os educadores é imensa. Reprovar alunos como forma de punição, ou mesmo tentar controlar comportamentos através de notas, é visto não como uma estratégia pedagógica, mas como um ataque ao sucesso da escola. Quando as salas de aula são superlotadas e a indisciplina predomina, a transmissão de conhecimento se torna um desafio quase impossível.

Nos dias que se seguiram, enfrentei os desafios com uma nova perspectiva. Cada aula era uma oportunidade de criar conexões, de transformar a matéria em algo vivo e pulsante. Nem sempre era fácil. Havia dias em que o cansaço e a frustração ameaçavam me dominar.

A realidade do ensino nas escolas públicas é muitas vezes um retrato de desilusão. O "lanche gostoso" da escola muitas vezes serve apenas para preencher estômagos vazios, enquanto as mentes dos alunos são deixadas de lado. O maior reflexo desse fracasso está na presença de alunos analfabetos no sexto ano, um sinal evidente de que algo está profundamente errado.

Mas então, numa tarde de quinta-feira, aconteceu algo que mudou tudo. João, um aluno que sempre parecera desinteressado, me procurou após a aula. "Professor", ele disse, os olhos brilhando, "nunca pensei que história pudesse ser tão legal". Naquele momento, entendi que meu verdadeiro domínio não estava no silêncio forçado ou na obediência cega, mas no poder de inspirar.

Ao final daquele ano letivo, olhei para minha turma e vi não apenas alunos, mas jovens pensadores, questionadores, sonhadores. Talvez eu nunca fosse o professor com o "domínio de classe" que a coordenação desejava. Mas havia conquistado algo muito mais valioso: o respeito e o interesse genuíno dos meus alunos.

A filosofia de Platão, que defende um ensino que respeite a liberdade e a disposição natural dos alunos, parece ter se perdido no turbilhão da burocracia escolar. No entanto, minha experiência mostrou que é possível recuperá-la, mesmo em meio às adversidades do sistema educacional atual.

E assim, querido leitor, deixo com você esta reflexão: o verdadeiro domínio na educação não está em silenciar vozes, mas em amplificá-las. Não está em controlar corpos, mas em libertar mentes. Está em acender a chama da curiosidade e deixá-la queimar livremente, iluminando caminhos que vão muito além das paredes da sala de aula. A escola deve ser um lugar onde o aprendizado é valorizado e a criatividade é incentivada. E, assim como o cachorro que volta ao que vomitou, a educação não deve se revolver na lama da conformidade, mas sim alçar voo, como os pássaros guiados pelo vento da sabedoria.

Com base no texto apresentado, elabore respostas completas e detalhadas para as seguintes questões:

O texto critica a concepção tradicional de "domínio de classe". Qual a principal crítica apresentada pelo autor e quais as alternativas propostas por ele?

Como as citações de Platão e Clarice Lispector contribuem para a construção da argumentação do autor sobre a educação?

De que forma a experiência pessoal do autor em sala de aula ilustra os desafios e as possibilidades da educação contemporânea?

O texto estabelece uma relação entre o conceito de "domínio" e o sistema educacional como um todo. Quais as implicações dessa relação para a qualidade do ensino?

Qual a importância da criatividade e da autonomia dos alunos no processo de ensino-aprendizagem, segundo o autor?

Estas questões abordam os seguintes aspectos do texto:

Crítica à concepção tradicional de educação: A primeira questão explora a crítica central do texto à ideia de "domínio" como sinônimo de controle e submissão.

Uso de referências teóricas: A segunda questão analisa como as citações de filósofos e escritores servem para fundamentar a argumentação do autor.

Experiência pessoal: A terceira questão explora a importância da experiência pessoal do autor como base para suas reflexões sobre a educação.

Sistema educacional: A quarta questão amplia a discussão para o sistema educacional como um todo, analisando as implicações da concepção de "domínio" para a qualidade do ensino.

Criatividade e autonomia: A quinta questão destaca a importância da criatividade e da autonomia dos alunos como elementos fundamentais para uma educação de qualidade.

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