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MINHAS PÉROLAS

sábado, 2 de julho de 2016

DOMÍNIO DE CLASSE X DOMÍNIO DE CONTEÚDO (Cidadania é saber fazer silêncio voluntariamente para aprender o que o mestre ensina.)



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DOMÍNIO DE CLASSE X DOMÍNIO DE CONTEÚDO (Cidadania é saber fazer silêncio voluntariamente para aprender o que o mestre ensina.)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

            Sou um professor tachado de "sem domínio de classe". Colegas e superiores fazem-me sentir, por isso, sujo e imundo, inadequado; sendo diferente da maioria e sem nenhum elogio de coordenador algum.
            Analisando a palavra DOMÍNIO, concluí; está sendo ela, e especialmente nesse caso, inadequada para o meio promissor de uma boa metodologia educacional, ela coisifica os alunos. Mesmo assim, que impregne quem quer que seja, menos a mim! Pois, é uma palavra doce na boca de muitos administradores sem conteúdo, que não querem fazer a parte correta de seu trabalho. Segundo o Google, diz-se dela: "supremacia em dirigir e governar as ações de outrem pela imposição da obediência; dominação, império. 2. direito ger. reconhecido de propriedade e supremacia de um indivíduo ou indivíduos sobre outro(s)." Para esses, o ideal seria lecionar às cadeiras vazias, porque não se movimentam e podem ser arrastadas. Aqui, estou preferindo o sentido poético da palavra, escravizando sem ferir a liberdade: "A palavra é meu domínio sobre o mundo" (Clarice Lispector).
           Na minha licenciatura, não me ensinaram a dominar aluno e nem controlar classe alguma, não existia essa doutrina. Tudo que aprendi no meu curso superior foi dominar, sim, os conteúdos da matéria pertinente. E quero crer que faculdade nenhuma tem como preocupação primeira preparar professores com domínio de classe. Todavia, com o passar do tempo fui percebendo que os alunos não queriam conteúdo, viciados na parte mais fácil: "seguir vendados a formatação". Com isso, fui também me desculpando, e entendi ainda o comportamento de alguns colegas que usam a fórmula mágica de destravar aula: domínio de classe. Então, os professores, de forma geral, passam uma grande parte do tempo de uma aula, estatísticas oficiais estimam uma média de 20%, impondo  silêncio, ou melhor, tentando o controle da classe. Cobrar do professor domínio de classe é, no mínimo, culpá-lo de atrapalhador do trabalho do coordenador de indisciplina. Faz o professor, mais uma vez, se sentir como descompromissado em lugar do aluno irreverente. E se ele reprovar esse aluno e mais outros, em um bimestre, na tentativa de controlá-los pela a ameaça da nota, também é recebido como afronta ao sucesso do coordenador e da escola toda, podem despencar os índices de aprovação.
            Cada vez mais se aprende menos nas classes superlotadas das escolas públicas, e a secretaria de educação insiste em fechar salas que não segurou, pelo menos, vinte alunos, isto é, quando não une as turmas. A verdade é que a indisciplina e o mau comportamento dos alunos impedem a transmissão dos saberes da matéria que devia ser a vida da escola. Para o médico, não lhe importa o avaliação do CRM, feita por superiores, interessa-lhe a do cliente que paga a consulta. Para o professor, quem é mais importante? Quando-lhe falta aluno e terão de fundir as salas, professor perde sua carga horária, e o coordenador pedagógico não tem nada a ver com isso!
            O domínio de classe não tem a bênção do filósofo Platão que nos aconselha ensinar, valorizando a liberdade dos aprendizes, dando-lhes o direito para disputarem positivamente colocações melhores e não uniformizando-os: "Não eduques as crianças nas várias disciplinas recorrendo à força, mas como se fosse um jogo, para que também possas observar melhor qual a disposição natural de cada um." (Platão). Parece-me que o melhor método não é "cortar as asas, mas direcionar o voo dos pássaros". Não é possível que os grandes filósofos estejam errados em detrimento da nova pedagogia, quando questionam a eficiência dela: "É por isso que se mandam as crianças à escola: não tanto para que aprendam alguma coisa, mas para que se habituem a estar calmas e sentadas e a cumprir escrupulosamente o que se lhes ordena, de modo que depois não pensem mesmo que têm de pôr em prática as suas ideias." (Immanuel Kant).
            É por essa razão e outras mais, estarei sempre errado, enquanto a escola estiver interessada apenas em quantidade! Assim, o lanche gostoso da escola atrai só estômagos vazios, as mentes e os cérebros férteis dos jovens sedentos do aprender são postos de lado.  A maior denúncia de que o conforto do silêncio manipulado é prejudicial, está na presença legalizada de alunos analfabetos, os quais não sabem assinar seu próprio nome, no sexto ano fundamental.
           Professores pressionados a pressionar, esquecem-se de estudar sua disciplina de formação para treinar técnicas de controle de comportamento. E no pouco tempo que lhes resta, colocam os alunos para copiar do livro na ânsia, ou esperança de obter a calma deles. Mas, o que aprendem alunos que só copiam as páginas do livro? Ou o que ensinam os professores que só enchem o quadro, copiando do livro coisas para os alunos copiarem. Cidadania é saber fazer silêncio voluntariamente para aprender o que o mestre ensina. Contudo, hoje, os alunos não veem mais em seus professores alguém depositário de conhecimento, porém só mais um copista com a letra bonita. Esse método também não funciona mais, o professor se esforça para encher o quadro e os alunos conversando, terminando estes só tiram uma foto da lousa. Esse tipo de educador detesta aparelho celular na sala, diga se de passagem. Aulas expositivas de reflexão são encaradas como enrolação. No noturno, tive a seguinte orientação, para manter os alunos sentados na última aula, pois eles põem a mochila nas costas dez minutos antes, tencionando a antecipação do término, encher o quadro com textos, mesmo todos sabendo que não resolve, eles saem assim mesmo, ignorando o conteúdo escrito. E os que saem justificam-se à coordenadora: — "Aquele professor não está passando nada, não!" O pior é que elas acreditam, pois cobram as mesmas medidas em todas as reuniões pedagógicas: — "tem professor aqui que os meninos não param na sala de aula..." Nesse momento, eu sempre penso que elas estão falando sobre mim.
           Os alunos que ficam fora da sala, na hora da aula, sempre conseguem seus intentos: fazer o coordenador brigar com o professor... Mas, o mesmo coordenador obriga o dito professor a dar-lhe uma segunda chance para fazer as atividades que eles se recusaram a fazer nas aulas normais. Então, "Há um velho ditado assim: 'O cachorro volta ao que vomitou, e o porco é lavado apenas para voltar e revolver-se de novo na lama' (...)" - II Pd 2:22 BV).

Kllawdessy Ferreira

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Enviado por Kllawdessy Ferreira em 28/06/2016
Reeditado em 30/06/2016
Código do texto: T5681699
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