"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

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MINHAS PÉROLAS

sábado, 30 de dezembro de 2017

ESPERANDO BOAS NOTÍCIAS ("Noticias boas estão se tornando raridades" — (Vinicius Bispo Amorim)



Crônica

ESPERANDO BOAS NOTÍCIAS  ("Noticias boas estão se tornando raridades" — (Vinicius Bispo Amorim)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

O dia mais importante de dezembro chega e, com ele, as retrospectivas que reacendem tudo o que fracassou no ano que termina. Enquanto a cidade se ilumina e o povo canta, sinto o contraste entre essa alegria coletiva e o meu próprio silêncio. Os fogos da meia-noite irrompem no lendário 25, deixando-me desperto e inquieto, como se cada explosão me abrisse por dentro. Recorro às redes sociais em busca de compreensão, ainda que saiba que minha doença já se enraizou fundo demais para que um gesto rápido alivie o peso. Assim, meu desafio é permanecer quieto em meu canto, fiel ao que sou, e ainda permitir que, se alguém se aproximar, possamos “viajar” juntos por algum instante.

O entardecer de Natal chega sem as boas notícias que eu esperava. Nada muda; sigo preso à rotina, embora desejasse reinventar o dia. A paciência torna-se meu único recurso, mesmo quando a escuridão do quarto se adensa e me faz zunir os ouvidos. É então que o medo surge — talvez o mesmo medo que um rio sente antes de encontrar o mar. As palavras de Osho me confortam, lembrando que o rio não pode voltar e que, ao entrar no oceano, não desaparece: transforma-se. Ainda assim, por mais que a espera me discipline, percebo que insistir nos mesmos caminhos é inútil, e apenas a promessa de Wilde — “Se você não se atrasar demais, posso lhe esperar por toda a minha vida” — preserva um frágil fio de esperança.

A partir dessa consciência, entendo que o mais sábio é deixar o barco correr sem resistência, como o rio que, cansado da própria margem, aceita seguir seu curso. Encerrar o dia com serenidade é permitir que as coisas fluam, mesmo quando o fluxo traz mudanças que não escolhi. Transformações súbitas deixam marcas, mas também moldam quem nos tornamos. Entre o ruído festivo da cidade e o silêncio do meu próprio labirinto, descubro que a travessia exige entrega — não uma entrega cega, mas a coragem de seguir adiante mesmo na incerteza.

E é justamente nessa incerteza que percebo algo em mim se deslocar, como se antigas construções internas, antes rígidas, começassem a desmoronar com a mesma naturalidade com que o rio perde seu contorno ao tocar o mar. Não se trata de negar aquilo em que um dia acreditei, mas de reconhecer que minha fragilidade humana não cabe em certezas estanques. A fé que eu carregava — tão moldada por expectativas pessoais — dilui-se pouco a pouco, não em revolta, mas em compreensão: talvez o sagrado não se revele na proteção particularizada, e sim na própria travessia.

Assim, mesmo quando todos oferecem presentes no Natal de Jesus, sei que nenhum gesto simbólico me resgata do abismo que me acompanha. Aceito o que recebo com gratidão, mas sei que minhas fissuras não se fecham com embrulhos. Ainda assim, continuo atravessando esse oceano que se abre diante de mim, tentando transformar medo em movimento e desencanto em lucidez. Talvez seja essa a única celebração possível: reconhecer a sombra que caminha comigo e, apesar dela — ou por causa dela — seguir adiante, na esperança de que, em algum ponto, o rio finalmente se torne mar.


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Como seu professor de Sociologia, o texto que acabamos de ler é extremamente rico em reflexões sobre o indivíduo na sociedade, sentimento de pertencimento, rotina, e a crise de significado em datas socialmente impostas. Preparei cinco questões discursivas simples para explorarmos esses conceitos. Usem os termos sociológicos e as metáforas do texto para fundamentar suas respostas.

1. Contraste entre Individual e Coletivo

O texto inicia descrevendo um forte contraste entre a "alegria coletiva" da cidade que se ilumina no Natal e o "próprio silêncio" e a "inquietude" do narrador. Explique este contraste em termos sociológicos. Como as celebrações sociais (rituais), como o Natal, podem intensificar o sentimento de não pertencimento ou anomia em indivíduos que não se identificam com o entusiasmo da maioria?

2. A Rotina e a Estagnação

O narrador expressa um desejo de "avaliar, negociar, reinventar o dia", mas se sente "preso à rotina" e sabe que "insistir num caminho estagnado é inútil". Discuta o conceito de rotina e a reprodução social. Por que a quebra da rotina (ou a dificuldade em reinventá-la) é vista pelo narrador como um obstáculo, e como a paciência se torna um recurso para lidar com essa sensação de estagnação na vida contemporânea?

3. O Medo da Mudança e a Metáfora da Transformação

O medo do narrador é comparado ao "medo que um rio sente antes de encontrar o mar". A citação de Osho, no entanto, oferece uma visão de transformação, onde o rio não desaparece, mas se torna oceano. Analise essa metáfora sob a ótica da mudança social. Por que as transformações súbitas (individuais ou coletivas) geram medo, mas, ao mesmo tempo, são vistas como um processo indispensável que "moldam quem nos tornamos"?

4. Crise de Crença e Projeção Humana

No quarto parágrafo, o narrador discute sua crise de crença, afirmando: "Quem defende um Deus semelhante a si mesmo projeta certezas que não possuo." Relacione esta afirmação com o conceito sociológico de projeção ou alienação religiosa (pensadores como Durkheim ou Feuerbach). Por que a fragilidade e a falibilidade da "semelhança humana" levam o narrador a rejeitar a ideia de um Deus que intervém de forma particularizada?

5. O Consumo e a Crise de Sentido Simbólico

O texto critica a ineficácia dos presentes de Natal, afirmando que "presente algum fecha as fissuras que me acompanham". Discuta este ponto sob a perspectiva da Sociologia do Consumo ou da Cultura. Qual é o significado simbólico do presente em uma sociedade capitalista e por que o narrador percebe o gesto simbólico do Natal como insuficiente para resgatá-lo da crise existencial que ele carrega?

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sábado, 23 de dezembro de 2017

UM PROFESSOR AVALIA MELHOR QUE O OUTRO? ("Circunstâncias adversas me forçaram a uma inegável revisão de critérios e valores". — Capitão Jack Sparrow)



Crônica

UM PROFESSOR AVALIA MELHOR QUE O OUTRO?

 ("Circunstâncias adversas me forçaram a uma inegável revisão de critérios e valores". — Capitão Jack Sparrow)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

           Existe uma baliza negativa no ensino fundamental, enquanto um professor catedrático em sua disciplina depender dos outros para a avaliar seu aluno, ele é só um dente podre na boca do "gigante", que não pode dormir, pois os dentes estragados doem muito. Que os deuses acelerem o processo de reação corrosiva, provocando a dor criativa que talvez leve o Gigante a precisar manter-se desperto. Como podem eles (conselho de classe) atribuir-lhe a nota que eu não gostaria? Porque eu ali sou somente um voto! Qualquer bom professor sabe que um aluno pode ter um bom desempenho em um componente curricular e ter empatia ao professor; em outra disciplina, ser fraco e não gostar de seu professor. 
           Enquanto, a Bíblia condena os julgamentos humanos, a profissão de professor dá-nos o direito de praticá-lo com colegas e alunos, mas somente uma análise do desempenho acadêmico, diga-se de passagem. Sem nos causar estranheza, é de tanto nos preocuparmos com a vida alheia, e não acadêmica, que nos esquecemos completamente da nossa, e o caráter vai junto. Adquirindo a doença dos deuses: o livre-arbítrio dá o empoderamento para realizar a justiça com as próprias mãos. Passamos a vomitar opiniões abundantemente, mesmo sem ninguém pedi-las. Quando se afirma que professor é formador de opinião, qual tipo de opinião está sendo formada? Lá têm militantes, ativistas de todas as naturezas. Se o sistema educacional requer postura técnica, no mínimo, espera-se dele critérios justos e coerentes. O que leva colegas de trabalho a brigar para serem "misericordiosos" ou carrascos nas avaliações? Uns são chicotes; outros, veludos, divergindo-se só pelo prazer de aparecer ou meramente seguindo a conveniência. Um mesmo argumento sentimentalista ou não, na boca de um professor mercenário, serve tanto para justificar, ora a aprovação, ora a reprovação! E isso é bem explorado atualmente nesses conselhos!
             Já que sou só mais um na escola, não tenho nem mesmo o direito de escolher os conteúdos a serem ensinados, minha metodologia é supervisionada, até a merendeira pergunta sarcasticamente pelos os alunos que não consigo forçá-los a ficar na classe para o lanche ser servido; o smartphone de câmera ligada, na mão do aluno, impõe-me o medo da denúncia ameaçadora. Então que não me tire o direito de, pelo menos, atribuir uma nota "vingativa", seguindo critérios que julgo justos a alunos infrutíferos e desrespeitosos.
           Todavia, a intimidação dos pais "barraqueiros" e superiores monopolizadores faz-me abrir mão de mim mesmo, ou melhor, de meus princípios morais e éticos para recorrer a cumplicidade dos colegas, pois se decido sozinho, a culpa é minha, quando meu carro foi riscado e com pneus furados por alunos reprovados. Por isso, na verdade, não quero que acabe o conselho de classe, é ali que dividimos as responsabilidades para posteriormente diluirmos a nossa culpa entre todos, caso se agravem as consequências dos erros da avaliação. 
           Então, vou e volto nessa ideia, perdi também até a minha capacidade de ser autônomo em meu professorado: submisso para ganhar a sobrevivência. Como se não bastasse pretender ensinar a quem não quer aprender conteúdos considerados inúteis por eles, ainda tenho que aceitar a avaliação da concorrência como se fosse a minha. E assim, qual é o conceito de ética profissional do "politicamente correto"? Então, danem-se todas as éticas que não têm a admiração dos envolvidos, deixando-me viver minha reflexiva Síndrome de Estocolmo.
Kllawdessy Ferreira

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Enviado por Kllawdessy Ferreira em 19/12/2017

Reeditado em 23/12/2017

Código do texto: T6203347 

Classificação de conteúdo: seguro

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sábado, 16 de dezembro de 2017

SUSPEITA É PREVENSÃO ("Dá-me veneno para morrer ou sonhos para viver". — Gunnar Ekelof)



Crônica

SUSPEITA É PREVENSÃO

 ("Dá-me veneno para morrer ou sonhos para viver". — Gunnar Ekelof)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

           São muitos os casos de professor que foram envenenados, cito alguns que me impressionaram: O professor de Educação Física mato-grossense, José Gomes de Melo, de 58 anos; Professora é envenenada em sala de aula por alunos do 4º ano; confirmaram que o professor Odailton Charles de Albuquerque Silva, 50 anos, foi assassinado com raticida.
           Então, estava em minha casa no final de uma licença-prêmio, já pensando no retorno, e nas penas do trabalho árduo do colégio; pensando quando vou ter um bom momento profissional, ser reconhecido no trabalho pelas minhas realizações e dedicação!!! Tanto no Estadual quanto no Municipal, realmente está puxado, estou dosando o esforço e, no momento, controlando a ansiedade. Mas, talvez seja este só um momento de racionalidade, no qual clamo por serenidade e força interior, chorando com a barriga cheia! 
           De repente, a felicidade natalina bateu em meu portão literalmente, Papai Noel se lembrou de mim! Aliás, meus olhos da fé nunca duvidaram de sua existência. Assim, minha gratidão tornou-se maior ao Deus dos benevolentes, visto que batem em minha porta, quando não são as Testemunhas de Jeová, são cobradores e agentes sanitários enganando-me sobre o controle da dengue. Porém, dessa vez, foi o Diretor Interventor do Colégio, trazendo-me um Panetone com as boas vindas festivas ao Natal, e olha que ainda estou em licença... Qualquer um se esqueceria do funcionário inativo temporariamente. Num caso como esse, muitos outros gestores gostariam que sobrasse panetone, e se justificavam facilmente com o "Não foram buscar, perderam..." 
          E viva o natal da intervenção, melhor seria se antes tivesse acontecido. Agora percebo que me está surgindo uma fase propícia. Mas, lembrei-me do adágio popular: "quando a esmola é grande e há muito empenho, o cego desconfia", pois há sempre um jeitinho para piorar, perdi a fé. Este é um momento de desconfiança. Tenho que  ser mais racional e objetivo nos assuntos que tratam de minhas relações trabalhistas. Os demônios poderiam estar cuidando de mim a distância! Fiquei com medo e não comi, podia ter veneno. 
            Dias atrás, quando aquele interventor chegou de supetão para exercer sua nova gestão, eu resisti e praguejei. Vingança é um prato que se como frio. Este poderia ser o momento da vingança. 
            Nada se confirmou! E agora, em que direção devo arrumar minhas expectativas? 
Kllawdessy Ferreira
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Enviado por Kllawdessy Ferreira em 04/11/2016

Reeditado em 16/12/2017

Código do texto: T5813095 

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sábado, 9 de dezembro de 2017

DESESPERO ("A pressa passa e o que você fez com pressa fica."— Tati Bernardi)



Crônica

DESESPERO ("A pressa passa e o que você fez com pressa fica."— Tati Bernardi)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

           Estou em desespero, e o conflito nesse momento é de meu interesse. Já perdi demais, qualquer coisa que me sobrar é lucro valiosíssimo. "Remédio para doido é um doido e meio". Não se assustem, normalmente não costumo expor minhas vulnerabilidades, porém fico assim depois de uma tarde cansativa, ministrando aulas de Língua Portuguesa no Ensino Fundamental. Onde me tratam de velho, machista, racista e homofóbico. Como poderei dar boas aulas, se os alunos se protegem de mim, orientados por sua mãe e ameaçado pelas autoridades que deveriam me proteger?
Nesse caso, os alunos "malandros" são desbancados com a "malandragem" do professor experiente; mesmo que depois de algum tempo, os ex-alunos se vinguem, fazendo chacina na escola. Então, vou lhes contar o motivo de meu desespero: Eu achei que tinha entendido o ato de misericórdia da coordenadora, quando me orientou que se o aluno de tudo não fizer nada, devia colocar um 3 na média bimestral dele, pois ficará possível de, nos outros bimestres, atingir a média mínima para aprovação. Eis o caso, no qual bondade não gera bondade. Sim, mas de tantas chances dadas a eles; porém, se ainda não abraçarem nenhuma das oportunidades, nunca ficarão retidos para aprender mais da mesma série! Aí, o professor deverá acrescentar a outra metade do oito gratuitamente: que é um três de ré.
Então, sou obrigado a aplicar em minha pedagogia a teoria do Napoleão: "Jamais interrompa seu adversário quando ele estiver cometendo um erro". Complementando com Salomão da Bíblia: "Deixe que a pessoa de mau gênio sofra as consequências disso, pois, se você a ajudar uma vez, terá de ajudar de novo". (Provérbios 19:19 NTLH). A aprovação daqueles incompetentes e desleixados vai perpetuar o ciclo vicioso da desordem em sala de aula, e o parasitismo onde quer que seja.
O mais preocupante é a desordem entre os professores no conselho de classe anual, onde a coordenadora briga para aprovar todos os de nota insuficiente, culpando os professores por apresentar alunos não recuperados. Na verdade, são os alunos protegidos demais que boicotaram toda tentativa séria dos mestres. Desta vez, quase que entregando as respostas, revisam, na véspera as provas, questão por questão. Mesmo assim, eles se recusam a qualificar-se, e o professor fica de castigo, elaborando trabalhos extras que nunca serão bem feitos, minha última alegria é que também me serão fáceis de corrigi-los, brincando de fogueirinha no fundo do quintal.
Kllawdessy Ferreira

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Enviado por Kllawdessy Ferreira em 03/11/2016

Reeditado em 09/12/2017
Código do texto: T5812221 
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domingo, 3 de dezembro de 2017

CONFRATERNIZAÇÃO versus FUNERAL: Discursivas sobre Indivíduo e Convivência Social ("Civilização é, antes de mais nada, vontade de convivência." — José Ortega y Gasset)


Crônica

CONFRATERNIZAÇÃO versus FUNERAL: Discursivas sobre Indivíduo e Convivência Social ("Civilização é, antes de mais nada, vontade de convivência." — José Ortega y Gasset)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Por volta de dezembro, no fechamento do quarto bimestre escolar, somos convidados para a tradicional festa de despedida dos professores. Minha aversão a essas confraternizações é conhecida, fruto de certa intransigência tanto com o ambiente de trabalho quanto com o lazer de meus colegas. O cerne do meu desagrado repousa nos hábitos que essas reuniões celebram: o consumo de carne e cerveja, a música alta e a obrigação tácita de contribuir para a farra, como levar carne para o churrasco. Essa expectativa me incomoda profundamente, pois sinto que tal adesão não condiz com a postura que se espera de um indivíduo diplomado. A convivência ideal é uma arte que exige aprendizado, e embora eu reconheça a necessidade de evoluir nesse campo, peço apenas que me respeitem enquanto busco socializar sem manifestar abertamente minha contrariedade.

Mesmo tendo participado de diversos momentos festivos na escola, o ambiente social fora da sala de aula nunca me pareceu o mais adequado. Há sempre o risco de que, ao relembrar histórias do passado ou lamentar as agruras da profissão, caiamos em excessos que depois pesam na consciência. Isso me remete à célebre frase de W. Somerset Maugham: "Sempre me interessei pelas pessoas, mas nunca gostei delas." Minha postura, portanto, é de respeito inegociável, não de afinidade irrestrita. O que me atrai no ser humano é sua dimensão sociológica, não a camaradagem forçada que certas festividades insistem em impor.

Essa resistência encontra eco na sabedoria bíblica, que valoriza a reflexão sobre a finitude. Como afirma Eclesiastes 7:2, "Mais vale ir a uma casa em luto do que ir a uma casa em festa, porquanto este é o fim de todo ser humano; e deste modo, os vivos terão uma grande oportunidade para refletir." Tal perspectiva reforça minha recusa a emoções desequilibradas, tão comuns nesses eventos. Receber elogios, por exemplo, pode empoderar-me em excesso, evidenciando o quanto é difícil conciliar razão e instinto. O desregramento interior — frequentemente impulsionado por um "anjo farrista" que maldigo — confirma minha convicção de que um funeral, desde que não seja o meu, oferece oportunidade muito mais fecunda para a introspecção e a sobriedade.

Assim, mesmo reconhecendo a importância do convívio e esforçando-me pela socialização, valorizo mais o instante que conduz à reflexão lúcida sobre a existência do que a euforia fugaz de uma celebração. Não busco afeto ou compreensão forçada de quem me cerca; aceito-os como são, mantendo o que me é essencial. Minha luta interna reside em preservar coerência e integridade em um contexto que insiste no oposto, escolhendo a clareza crítica em vez da vulnerabilidade emocional típica das grandes festividades.


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Como seu professor de Sociologia, preparei cinco questões discursivas simples baseadas no texto. Elas exploram os conceitos de normas sociais, papéis, socialização e a tensão entre o indivíduo e o coletivo presentes na narrativa. Lembrem-se de usar uma linguagem clara e de fundamentar suas respostas nas ideias sociológicas e nos elementos do texto.


1. Papel Social e Expectativas

O narrador expressa desconforto com a confraternização, afirmando que a adesão a certos hábitos (churrasco, bebida, etc.) "não condiz com a postura que se espera de um indivíduo diplomado". Explique, em termos sociológicos, o que são papéis sociais e expectativas sociais. Em seguida, analise o conflito vivido pelo narrador ao tentar conciliar o seu papel profissional (professor/diplomado) com o papel social imposto pela confraternização.

2. Normas e Anomia

O texto descreve hábitos como "consumo de carne e cerveja" e "música alta" como elementos centrais das confraternizações de que o narrador discorda. Esses hábitos representam normas informais do grupo. Defina o que são normas sociais (ou informais) e discuta o que pode acontecer (em termos de inclusão/exclusão social) quando um indivíduo demonstra intransigência ou recusa em seguir as regras não escritas de um grupo.

3. Socialização e Seletividade

O narrador cita W. Somerset Maugham: "Sempre me interessei pelas pessoas, mas nunca gostei delas." Ele afirma que sua postura é de respeito inegociável, não de afinidade irrestrita, e que se interessa pela dimensão sociológica do ser humano.

Análise a frase à luz do processo de socialização. O que significa, para a vida social de um indivíduo, ser seletivo em suas interações e priorizar o interesse intelectual (sociológico) sobre a camaradagem forçada?

4. A Reflexão sobre a Finitude e o Desregramento

O texto utiliza a sabedoria de Eclesiastes para valorizar a reflexão e a sobriedade (ir a uma casa em luto) em contraposição ao desregramento e à euforia (ir a uma casa em festa). Argumente sobre como a consciência da finitude (o fim de todo ser humano) pode influenciar a conduta ética e as escolhas de um indivíduo em sociedade, ajudando a conciliar razão e instinto (conforme mencionado pelo narrador).

5. Coerência Pessoal e Pressão do Grupo

O texto conclui que a luta interna do narrador é preservar coerência e integridade em um contexto que insiste no oposto, escolhendo a clareza crítica em vez da vulnerabilidade emocional típica das festividades. Em um contexto de Sociologia da Educação ou do Trabalho, discuta a importância de o indivíduo manter sua coerência e integridade pessoal (sua "verdade") mesmo diante da pressão do grupo por adesão total.

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