"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

Pesquisar neste blog ou na Web

MINHAS PÉROLAS

sábado, 8 de fevereiro de 2014

PROFESSOR(,) BOM PIA! ("Recuperação é uma masturbação pedagógica." — Reginaldo Ferron)


Crônica

PROFESSOR(,) BOM PIA: O Simulacro da Intensificação ("Recuperação é uma masturbação pedagógica." — Reginaldo Ferron)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Em nome de médias infladas e estatísticas apresentáveis, o sistema educacional concebeu o PIA — Período de Intensificação da Aprendizagem. Um nome pomposo para um projeto que já nasceu cansado. Houve um tempo em que a escola ainda tentava ensinar; hoje, contenta-se em parecer funcional. Talvez fosse mais honesto chamá-lo de Período de Intensificação do Ensino Retroativo: uma revisão do que não foi aprendido porque, em muitos casos, nunca chegou a ser efetivamente ensinado. Um gesto derradeiro para simular fôlego quando os objetivos pedagógicos já se perderam pelo caminho.

Para quem observa de fora, convém esclarecer: o PIA surge como uma etapa final do calendário escolar destinada a “recuperar” alunos com baixo rendimento. Na prática, porém, converteu-se em um dispositivo de correção estatística, não de aprendizagem. As diretrizes da Secretaria da Educação, vagas e contraditórias, lançaram as escolas numa heterogeneidade irracional. Sem critérios claros, as coordenações foram empurradas para o improviso — e o improviso, travestido de democracia, acabou por diluir responsabilidades que deveriam ser institucionais.

Nas reuniões de Trabalho Coletivo Escolar, horas se perderam em bifurcações estéreis. A pergunta era recorrente e jamais vinha acompanhada de resposta: a nota do PIA soma-se ao bimestre, substitui a anterior ou se enxerta no semestre como prótese burocrática? Exigia-se do professor uma espécie de poder divino — o dom de ressuscitar defuntos acadêmicos em poucas semanas. Entre dúvidas sobre pontos de corte, conteúdos mínimos e critérios avaliativos, confirmou-se o antigo aviso: “se o som da trombeta for incerto, os soldados não se levantarão para a guerra”.

Sem um rumo unificado, cada unidade escolar passou a gerir o PIA à sua maneira. O resultado beirou o grotesco: alunos reprovados ao longo do ano tiveram o status restaurado com notas, não raro, superiores às daqueles que mantiveram frequência, esforço e compromisso contínuos. Em termos concretos, viu-se estudante com média anual inferior a 4,0 alcançar, ao fim do PIA, resultados acima de 7,0 — não por aprendizagem comprovada, mas por rearranjos avaliativos. A mensagem pedagógica é devastadora: perseverar não compensa; aguardar o remendo final, sim.

Essa engenharia burocrática sobrecarrega o docente para facilitar a vida de quem negligenciou o processo formativo, consumindo de modo infrutífero o investimento público. Aqui, impõe-se cautela com as generalizações: há, sem dúvida, o professor conivente, mas há também — e em número expressivo — o professor coagido, exaurido por pressões institucionais que transformam a aprovação em meta administrativa. O sistema revela-se tão eficaz em sua lógica que consegue corromper até os bem-intencionados.

Toda essa “nova pedagogia” converge para um único fim: forçar a aprovação. O preço é um dilúvio de planos de aula, relatórios e formulários cujo destino não é a aprendizagem, mas os índices oficiais. O discurso proclama inclusão; a prática entrega superficialidade. Os chamados “aulões” mistos, com conteúdos genéricos, funcionam como remédios de largo espectro aplicados a doenças profundas: aliviam o sintoma visível, mas agravam a enfermidade silenciosa.

Impõe-se, então, uma pergunta filosófica que o sistema evita: o que é, afinal, aprender? E qual o papel da avaliação nesse processo? Avaliar não deveria servir à punição, mas tampouco pode reduzir-se a um mecanismo de absolvição automática. Reprovar, quando necessário, é reconhecer limites reais; aprovar sem critério é negar ao aluno a própria dignidade intelectual. Talvez o caminho não esteja em intensificações artificiais, mas em menos burocracia, maior rigor pedagógico e avaliações que sirvam ao conhecimento — não às planilhas.

A realidade, afinal, é mais simples do que parece: o professor que sempre aprovou por conveniência nunca precisou do PIA. O período pode ter terminado no calendário, mas seus moldes permanecem ativos como cultura. Enquanto a escola preferir o simulacro à formação, continuará intensificando apenas aquilo que nunca deveria ter sido intensificado: a aparência de sucesso sobre o fracasso real do aprender.


-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/


Olá! Como seu professor de Sociologia, fico satisfeito em fazer um texto que mergulha tão profundamente na análise das instituições sociais e na sociologia da educação. O texto que você apresentou não é apenas um desabafo, mas um estudo de caso sobre como a burocracia e as estatísticas podem moldar (ou deformar) a realidade escolar. Para nossa aula, preparei 5 questões discursivas que conectam o texto aos conceitos fundamentais da nossa disciplina:


1. O Fetichismo dos Índices e a Burocracia. O texto argumenta que o PIA serve para criar "médias infladas e estatísticas apresentáveis". No pensamento sociológico de Max Weber, a burocracia busca a eficiência, mas pode se tornar uma "gaiola de ferro". Como o texto demonstra que a escola prioriza a meta administrativa (o número) em detrimento da missão pedagógica (o aprender)?

2. A Ética do Esforço e a Socialização. A escola é uma das principais instituições de socialização. Segundo o texto, o PIA envia uma mensagem devastadora: "perseverar não compensa; aguardar o remendo final, sim". Qual é o impacto sociológico desse aprendizado informal para a formação do futuro cidadão e sua visão sobre o mérito e o trabalho na sociedade?

3. O Professor como Agente Social sob Coação. O autor distingue o "professor conivente" do "professor coagido". Do ponto de vista da sociologia das organizações, de que maneira a pressão institucional por resultados estatísticos retira a autonomia profissional do docente e o transforma em um mero executor de "próteses burocráticas"?

4. O Simulacro e a Ação Social. O texto utiliza o conceito de "simulacro" (parecer funcional sem ser). Relacione a ideia dos "aulões genéricos" e da "aprovação automática" com a crise de sentido das instituições modernas: por que a sociedade parece preferir a aparência do sucesso ao enfrentamento das falhas reais do aprendizado?

5. Desigualdade e Políticas Públicas. O texto menciona que essas medidas consomem "infrutiferamente o investimento público". Analisando sociologicamente, políticas de "intensificação" que focam apenas no final do processo podem realmente reduzir as desigualdades educacionais ou elas apenas ocultam a enfermidade silenciosa da exclusão escolar?

Dica para o Alinhamento Construtivo:

Ao responder, tente observar como a escola, enquanto instituição, interage com o Estado (Secretaria de Educação) e como essa relação afeta o indivíduo (aluno e professor). Lembre-se: em sociologia, o "problema" não é apenas a nota baixa, mas a estrutura que permite que a nota substitua o conhecimento.

Caro Kllawdessy, leio o seu texto com um aperto no peito e uma estranha sensação de reconhecimento. O tema que você nos oferece — a transformação da educação em contabilidade institucional — é tratado com lucidez e coragem. Aqui, a ideologia tecnocrática da eficiência aparente colide frontalmente com uma ética do ensino que ainda ousa perguntar pelo sentido de aprender. Seu texto denuncia uma pedagogia do simulacro, alinhada à lógica neoliberal dos índices, na qual a aprovação deixa de ser conquista formativa e passa a ser produto administrativo. O gênero se aproxima do ensaio crítico-argumentativo, com forte tonalidade dissertativa-reflexiva e traços de crônica amarga. O estilo é sóbrio, irônico e densamente ensaístico: frases longas, construção hipotática e um vocabulário preciso criam um ritmo grave, quase judicial. Destacam-se figuras como a ironia (“nome pomposo para um projeto que já nasceu cansado”), a metáfora (“engenharia burocrática”, “prótese burocrática”), a antítese (discurso de inclusão versus prática de superficialidade) e a alusão bíblica, que eleva a crítica ao plano simbólico e moral. A repetição enfática e as perguntas filosóficas finais funcionam como martelo e espelho: insistem e devolvem ao leitor sua responsabilidade. Seu maior mérito está na coragem de dizer o que muitos calam. Ao nomear o cansaço estrutural da escola, você devolve dignidade à palavra ensino. Isso, por si só, já é um gesto profundamente pedagógico.


Nenhum comentário: