Assisti ao filme A Virada, de Alex Kendrick, e confesso: saí tocado por um desejo quase ingênuo de ser melhor — melhor funcionário, melhor cristão, melhor pai. Esse tipo de filme tem esse poder raro: por alguns instantes, parece reorganizar o mundo moral dentro de nós. Mas a empolgação inicial logo deu lugar a uma pergunta mais incômoda: por que, apesar de tantos discursos edificantes, tantas instituições continuam produzindo frustração, fracasso e desencanto?
Foi então que pensei na Educação Pública, na Igreja e na Família — pilares que todos juram defender, mas que muitos sustentam-se apenas pela aparência. São estruturas veneradas no discurso, porém esvaziadas na prática. Mantêm-se de pé como fachadas bem pintadas: por fora, respeitáveis; por dentro, ocas. Acreditamos que estão vivas porque ainda funcionam burocraticamente, quando, na verdade, sobrevivem de simulacros e de uma fé cega em sua própria importância histórica.
O problema se agrava quando a confusão conceitual vira método. Nas instituições que deveriam formar e educar, passou-se a tomar a parte pelo todo: o aluno, o fiel ou o membro que gera verba é elevado à condição de “patrão”, enquanto o sistema se curva para agradá-lo. A metonímia, aqui, não é recurso estilístico — é um erro estrutural. A escola deixa de formar para reter; a igreja deixa de orientar para não perder fiéis; a família terceiriza sua responsabilidade moral. O resultado é um pacto silencioso de mediocridade.
Lembro-me, então, da advertência atribuída a Salomão: “Há quatro coisas que a terra não pode tolerar: o escravo que se torna rei; o tolo que se farta; a mulher de gênio difícil que se casa; e a serva que toma o lugar de sua senhora” (Pv 30:21-23). Não se trata de elitismo moral, mas de ordem simbólica: quando papéis se confundem, instala-se o caos. O discípulo deixa de ser discípulo, o educador deixa de educar, e a formação técnica — que deveria ser o mínimo — dissolve-se em concessões.
É repugnante, por exemplo, responsabilizar o professor pela ausência de caráter do aluno quando essa desmoralização foi aprendida no lar. À escola cabe instruir; à família, formar; à sociedade, garantir critérios justos de reconhecimento. Quando tudo se mistura, ninguém responde por nada.
Também é uma ilusão perigosa acreditar que a religião, por si só, transforma personalidades. Se assim fosse, o indivíduo perderia sua identidade, esqueceria sua história familiar e substituiria o caráter por slogans espirituais. Não é raro ver, sob o rótulo da fé, pessoas intolerantes, alunos descompromissados, sujeitos difíceis de convivência — reivindicando direitos “conquistados pela fé”, mas esquecidos de qualquer dever. Filhos de Deus, irmãos de ninguém.
A estes, a advertência permanece atual e incômoda: fé sem obras é morta. Não porque falte crença, mas porque sobra encenação. Instituições não se salvam por discursos, e pessoas não se transformam por pertencimento simbólico. Quando a honestidade deixa de ser prática cotidiana e vira apenas linguagem institucional, o colapso já aconteceu — só ainda não foi oficialmente reconhecido.
Talvez a verdadeira virada não esteja no cinema nem nos púlpitos, mas na coragem de desmontar fachadas, devolver responsabilidades a quem de direito e aceitar que nenhuma instituição sobreviverá se continuar confundindo aparência com vida.
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Como seu professor de Sociologia, trago hoje uma proposta de reflexão sobre as nossas Instituições Sociais. O texto que acabamos de ler é uma provocação necessária sobre o "vazio" que muitas vezes se esconde por trás de estruturas que consideramos sólidas, como a Escola, a Família e a Igreja. Na sociologia, estudamos que as instituições servem para organizar a vida em sociedade e transmitir valores. Mas o que acontece quando elas viram apenas "fachadas"? Aqui estão 5 questões para exercitarmos nossa análise crítica:
1. Instituições como "Fachadas". O autor afirma que muitas instituições (Escola, Igreja, Família) mantêm-se de pé apenas pela aparência e pela burocracia, sendo "veneradas no discurso, porém esvaziadas na prática". Questão: Explique, com suas palavras, o que significa dizer que uma instituição social sobrevive apenas como um "simulacro". Como essa falta de conteúdo real afeta a confiança dos indivíduos na sociedade?
2. Socialização Primária vs. Socialização Secundária. O texto destaca que é "repugnante responsabilizar o professor pela ausência de caráter do aluno quando essa desmoralização foi aprendida no lar". Questão: Diferencie o papel da Família (Socialização Primária) do papel da Escola (Socialização Secundária) na formação do indivíduo, conforme discutido no texto. O que acontece com a sociedade quando essas responsabilidades são "terceirizadas" ou misturadas?
3. A Transformação do Indivíduo em "Cliente". O autor menciona que o aluno ou o fiel passou a ser tratado como um "patrão" que o sistema busca agradar para não perder a verba ou o membro. Questão: De que maneira a lógica do consumismo (tratar tudo como mercadoria) prejudica a função educativa e moral das instituições sociais? Por que o ato de "querer agradar" pode levar a um "pacto de mediocridade"?
4. Conflito e Confusão de Papéis Sociais. O texto cita um provérbio sobre o "caos" que se instala quando os papéis se confundem (o discípulo que não é discípulo, o educador que não educa). Questão: Na sociologia, cada indivíduo ocupa um status e desempenha um papel social. Por que a clareza sobre "quem deve fazer o quê" é importante para o equilíbrio de uma comunidade? Quais as consequências sociais quando o educador deixa de exercer sua autoridade pedagógica para não desagradar o aluno?
5. Ética do Discurso vs. Ética da Ação. A crônica termina afirmando que "fé sem obras é morta" e que pessoas não se transformam apenas por "pertencimento simbólico". Questão: Como a desarticulação entre o que se diz (discurso institucional) e o que se faz (prática cotidiana) contribui para o que o autor chama de "colapso" das instituições? Dê um exemplo de como a honestidade prática vale mais para a sociedade do que um rótulo ou slogan.
Dica do Prof: Para responder a essas perguntas, pensem na realidade que vocês observam ao redor. A sociologia não está apenas nos livros; ela está no modo como nos comportamos no pátio, em casa e em nossas crenças.