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MINHAS PÉROLAS

sábado, 10 de abril de 2010

HOMENS COMO ÁRVORES: O Machado e a Cicatriz (Estou tirando a “casquinha” de quem para resolver meu problema?)





Crônica

HOMENS COMO ÁRVORES: O Machado e a Cicatriz (Estou tirando a “casquinha” de quem para resolver meu problema?)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Não foi um professor, nem um diretor, nem o sinal que marca o tempo das aulas. O poder surgiu num intervalo qualquer, sob o sol das dez. A agente de limpeza girava a faca ao redor do tronco com a paciência de quem descasca uma fruta. Não havia raiva — apenas método. A lâmina circundava, voltava, aprofundava, até fechar um anel perfeito.

Meses depois, ainda prendo ali minha bicicleta. A madeira secou antes do tempo; o pátio permanece igual, exceto por essa morte lenta sustentando um símbolo de sustentabilidade.

— “A árvore derrubava muitas folhas, dava trabalho varrer!”

Disse isso sem crueldade, quase com cansaço. Talvez não fosse um gesto contra a árvore, mas contra o acúmulo, contra o dia interminável, contra o corpo obrigado a limpar o mundo antes do fim do expediente. A faca não parecia ataque — parecia solução.

A escola ensina a preservar a vida enquanto administra quais vidas são práticas. Não se mata: gerencia-se. Retira-se a casca para manter o chão limpo, a rotina previsível, o relatório possível. O pátio aprende silenciosamente qual existência merece cuidado e qual deve servir à ordem.

Ninguém ouviu nada naquele dia, mas desde então a área verde ficou mais organizada: menos folhas, menos sombra, menos pássaros. A limpeza venceu a paisagem.

A cicatriz ao redor do tronco tem a largura de uma cintura — precisa, técnica, quase didática, como se a árvore tivesse sido reprovada por excesso de matéria orgânica. Permanece ali como aula permanente de um currículo invisível: primeiro corrige-se o incômodo, depois explica-se o desaparecimento.

Talvez não tenha sido violência, mas administração do possível. Quem varre não escolhe o vento; escolhe apenas o que pode cessar.

A bicicleta continua apoiada. O mundo mantém sua coerência: sustentamos o futuro sobre aquilo que lentamente deixamos morrer.

Recordo então o velho provérbio — o cabo do machado também é madeira — e percebo que ninguém ali era exatamente carrasco, apenas parte de uma engrenagem onde, para que tudo funcione, algo vivo precisa aceitar tornar-se manutenção.


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Olá! Como seu professor de Sociologia, fico entusiasmado com a profundidade deste texto. Ele nos permite discutir conceitos fundamentais como Alienação, Racionalização do Trabalho e as Relações de Poder no cotidiano escolar. O texto não fala apenas de uma árvore, mas de como a sociedade muitas vezes sacrifica a vida em nome da organização e da limpeza burocrática. Aqui estão 5 questões discursivas, pensadas para o Ensino Médio, que conectam a narrativa aos temas da nossa disciplina:

1. A Racionalização do Trabalho e a Natureza

O texto justifica o corte da árvore com a frase: "A árvore derrubava muitas folhas, dava trabalho varrer!". Como essa justificativa reflete a lógica da racionalização, onde a eficiência e a facilidade do trabalho (manter o chão limpo) tornam-se mais importantes do que a preservação da vida e do meio ambiente?

2. O "Currículo Invisível" na Escola

O autor menciona que a cicatriz no tronco funciona como um "currículo invisível". Explique o que o texto quer dizer com isso e como a escola, além das matérias tradicionais, pode acabar ensinando valores de "ordem" e "controle" através de atos do cotidiano.

3. Alienação e a "Engrenagem" do Sistema

Ao final, o texto sugere que ninguém era exatamente um "carrasco", mas sim parte de uma "engrenagem". Utilizando o conceito de alienação, explique por que a funcionária não via o ato como violência, mas apenas como uma "solução" para o seu cansaço e sua rotina de trabalho.

4. A Gestão da Vida (Biopoder)

O texto afirma que "A escola ensina a preservar a vida enquanto administra quais vidas são práticas". De que forma essa frase se relaciona com o poder de decidir o que é "útil" ou "inútil" dentro de uma instituição social?

5. O Paradoxo da Sustentabilidade

O autor descreve a cena de uma bicicleta (símbolo ecológico) apoiada em uma árvore que morre lentamente. Como essa imagem serve de crítica à forma como a sociedade moderna lida com o futuro e com a natureza?

Dica do Professor para a Resposta

Ao responder, lembre-se de que a Sociologia busca olhar "além do óbvio". A agente de limpeza não é a "vilã"; ela é uma trabalhadora inserida em um sistema que exige limpeza impecável acima de tudo. O verdadeiro foco do debate é a instituição e a prioridade que ela dá à ordem em vez da vida.

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