"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

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MINHAS PÉROLAS

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

AS CIRCUNSTÂNCIAS FAZEM O HOMEM: O Estigma do Ofício e a Maldição do Olhar Alheio ("Não somos sempre o que queremos, mas o que as circunstâncias nos permitem ser." — Marquês de Maricá)

 


AS CIRCUNSTÂNCIAS FAZEM O HOMEM: O Estigma do Ofício e a Maldição do Olhar Alheio ("Não somos sempre o que queremos, mas o que as circunstâncias nos permitem ser." — Marquês de Maricá)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Sinto que meu dinheiro é amaldiçoado — não por forças místicas, mas por decisões muito concretas. Ele não rende porque foi deliberadamente encolhido ao longo de décadas de arrocho salarial, reformas que nos empurram para uma velhice exausta e uma política de Estado que trata a educação como despesa incômoda. Essa “maldição” tem nome, sobrenome e assinatura em Diário Oficial. O que pesa sobre meu salário não é o azar, é o desprezo institucionalizado por um ofício que forma consciências, mas não gera dividendos imediatos.

Há um tribunal invisível que me julga diariamente. Ele se manifesta em olhares, comentários laterais, piadas travestidas de conselho. Trata-se de um tribunal social forjado por uma cultura que aprendeu a medir o valor humano pelo retorno financeiro, que desconfia do pensamento crítico e naturalizou a desvalorização da docência — profissão feminilizada, massificada e empurrada para a periferia do prestígio social. Uma colega resumiu a sentença com crueldade sintética: “ele tem pouco a contribuir”. O veredito estava dado antes mesmo da defesa.

Vivemos numa sociedade que não hesita em pagar fortunas a quem entretém, enquanto negocia centavos com quem educa. O problema nunca foi artistas ou atletas ganharem bem — o escândalo é que professores sobrevivam mal. Enquanto rentistas enriquecem movendo números abstratos e herdeiros vivem do trabalho alheio, quem sustenta o futuro coletivo é empurrado para a penúria. Conhecimento não rende juros; por isso, é tratado como descartável.

Ainda assim, persisto. Não por romantismo, mas por convicção. Há, porém, uma contradição que me atravessa: como ser reconhecido por aquilo que ofereço se aqueles que me recebem são obrigados a estar ali? A escola compulsória transforma o aprendizado em fardo e o professor, sem querer, em carcereiro. Ofereço algo valioso dentro de uma estrutura coercitiva, disciplinar e burocrática. A gratidão não floresce sob imposição — e eu pago diariamente o preço dessa engrenagem.

Quando tento me defender, explicar ou contextualizar, recorro às redes sociais. E ali encontro outro tribunal: mais ruidoso, mais cruel, mais ávido por linchamentos do que por compreensão. Expor fragilidades vira espetáculo; denunciar precariedades soa como confissão de incompetência. A frase antiga ressoa: “a beleza está nos olhos de quem vê”. Mas os olhos que me cercam foram educados para preferir a distorção — treinados por uma cultura que celebra a riqueza e despreza o saber, que confunde autoridade intelectual com arrogância e crítica com fracasso pessoal.

Nem meu corpo escapa. Num mundo governado pela estética e pela performance, minha aparência também é julgada. Não basta ensinar bem; é preciso parecer vendável, carismático, palatável ao espetáculo educacional. Quem não se encaixa no figurino paga mais uma taxa invisível. O risco, reconheço, é endurecer: vestir o egoísmo como armadura, confundir defesa com arrogância, afastar-se para não sangrar. Sei, porém, que isso apenas aprofundaria o abismo.

Por isso, decidi não esperar mais por consensos improváveis ou momentos suaves. Não adiarei o confronto em nome de uma cordialidade hipócrita. Vou provocar as conversas que ninguém quer ter, tensionar as estruturas que fingem neutralidade, recusar o silêncio cúmplice que nos adoece. O conflito deixou de ser acidente — tornou-se método.

No estado em que me encontro, a ruptura é minha única moeda de troca. Ruptura com a passividade, com o medo de desagradar, com a docência domesticada que pede desculpas por existir. Não sei ainda quem caminhará comigo. Mas sei quem não pode mais me acompanhar: a ilusão de que o respeito virá sem luta. A educação não precisa de mártires resignados; precisa de professores dispostos a transformar a própria indignação em gesto político. E é exatamente isso que escolhi ser.


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Olá! Como seu professor de Sociologia, vejo que este texto é um manifesto poderoso sobre a Sociologia do Trabalho e a Teoria do Reconhecimento. Ele nos convida a analisar como a estrutura da sociedade e as escolhas políticas moldam não apenas o nosso salário, mas a nossa própria identidade e saúde mental. Aqui estão 5 questões discursivas para aprofundarmos essa reflexão:


1. A Construção Social da "Maldição" Financeira. O autor afirma que o baixo rendimento do professor não é fruto do "azar", mas de decisões políticas e "desprezo institucionalizado". Como a Sociologia explica o fato de algumas profissões essenciais (como a educação) terem salários baixos enquanto outras atividades menos vitais acumulam grandes fortunas?

2. O Tribunal do Prestígio e o Valor Humano. O texto menciona um "tribunal invisível" que mede o valor humano pelo retorno financeiro. De que maneira a cultura do consumo e o neoliberalismo influenciam a percepção da sociedade sobre o sucesso, transformando a frase "ele tem pouco a contribuir" em uma sentença de invisibilidade social?

3. Educação Compulsória e a Relação de Coerção. O autor destaca uma contradição: oferecer algo valioso (conhecimento) dentro de uma estrutura obrigatória que pode transformar o professor em "carcereiro". De que forma a estrutura burocrática e disciplinar da escola pode dificultar a criação de vínculos de gratidão e reconhecimento entre alunos e professores?

4. A Espetacularização da Dor nas Redes Sociais. O texto discute como a exposição de fragilidades nas redes sociais acaba servindo de "combustível para linchamentos". Sociologicamente, como a busca por performance e a "estética do sucesso" na internet contribuem para o silenciamento das lutas reais e para a desqualificação de quem denuncia a precariedade do trabalho?

5. A Indignação como Gesto Político. Ao final, o autor recusa a "docência domesticada" e opta pelo conflito como método. Explique a diferença sociológica entre a "resignação" (aceitar a situação como natural) e a "indignação política" como ferramenta para transformar as estruturas de poder na educação.

Dica do Professor:

Reparem que o texto transita do individual (a angústia pessoal) para o coletivo (o gesto político). Na sociologia, chamamos isso de "imaginação sociológica": a capacidade de perceber que nossos dramas pessoais são, na verdade, questões públicas e históricas.

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domingo, 8 de janeiro de 2023

QUEM VAI E QUEM FICA: Rotatividade e Qualidade Institucional ("É urgente selecionar o que é caminho e o que é desvio." — Dan Porto)

 


QUEM VAI E QUEM FICA: Rotatividade e Qualidade Institucional ("É urgente selecionar o que é caminho e o que é desvio." — Dan Porto)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Costuma-se repetir que a vitalidade de uma instituição reside em sua capacidade de renovação. A afirmação, à primeira vista sedutora, encerra uma armadilha conceitual: confundir renovação com rotatividade. Renovar é formar, concluir ciclos, permitir a progressão orgânica do tempo pedagógico; rotacionar compulsivamente, ao contrário, costuma revelar falhas estruturais. Não por acaso, as instituições educacionais mais consistentes — aquelas que constroem tradição, vínculo e excelência — sustentam-se menos pela evasão e mais pela permanência significativa.

No cotidiano da escola pública brasileira, a alta rotatividade raramente configura virtude. Ela emerge da precariedade material, da fome silenciosa, do esgotamento emocional e da ausência de políticas de cuidado. Tratar a saída precoce como gesto de lucidez individual é inverter a causalidade: não é a desistência que oxigena o sistema, mas a incapacidade institucional de sustentar trajetórias. Permanecer, nesse contexto, não é teimosia; é, muitas vezes, uma forma de resistência.

Diante do caos, torna-se tentador defender critérios seletivos, filtrar os “desalinhados” e ensinar apenas àqueles que demonstram disposição imediata para aprender. Essa lógica, sob a aparência de eficiência, carrega um risco profundo: penalizar quem mais necessita da escola. A educação pública não existe para premiar os já preparados, mas para criar condições de formação àqueles a quem a vida negou quase tudo. Selecionar pelo engajamento visível é confundir desigualdade social com falta de mérito.

Também é preciso cautela com as imagens mobilizadas no discurso educacional. Quando estudantes são descritos como entraves, obstruções ou patologias institucionais, abandona-se a crítica ao sistema para ferir os sujeitos. O problema não são “corpos estranhos” que bloqueiam o fluxo, mas vínculos pedagógicos fragilizados, currículos esvaziados e políticas que exigem desempenho sem oferecer sustentação.

A educação tampouco pode ser reduzida a um cálculo de retorno econômico. Seu valor não se mede apenas pela mão de obra que produz, mas pela cidadania que forma, pela violência que previne e pela consciência que desperta. Eficiência pedagógica não consiste em excluir para render mais, mas em criar condições para que todos aprendam melhor.

Talvez o verdadeiro perigo não esteja em quem entra ou sai, mas em sistemas que naturalizam o abandono e o celebram como dinâmica saudável. Renovar, na educação, não é descartar; é sustentar, transformar e permanecer com sentido.


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Olá! Como seu professor de Sociologia, fico satisfeito em ver como este texto nos desafia a olhar para além da superfície dos números. Ele toca em temas fundamentais da nossa disciplina, como reprodução das desigualdades, função social da escola e a crítica ao produtivismo. Aqui estão 5 questões discursivas, formuladas de maneira simples, para explorarmos essas ideias em sala:


1. Renovação vs. Rotatividade. O texto diferencia "renovar" de apenas "rotacionar" pessoas dentro do sistema. Do ponto de vista sociológico, por que a alta rotatividade (muitos alunos entrando e saindo sem concluir o ciclo) pode ser um sinal de crise institucional e não de "oxigenação" saudável?

2. A Falsa Meritocracia na Seleção. Ao discutir a ideia de filtrar apenas os alunos "já preparados" ou "interessados", o autor afirma que isso é "confundir desigualdade social com falta de mérito". Explique como uma escola que seleciona apenas os melhores alunos pode acabar aumentando a desigualdade em vez de combatê-la.

3. O Aluno como "Entrave" ou Sujeito. Muitas vezes, alunos com dificuldades são vistos como obstáculos ao bom andamento da aula. De acordo com o texto, por que devemos focar a crítica nos "vínculos pedagógicos fragilizados" e na "falta de infraestrutura" em vez de culpar individualmente os estudantes pelo fracasso do sistema?

4. A Educação Além do Mercado de Trabalho. O texto defende que a educação não pode ser apenas um "cálculo de retorno econômico". Além de formar mão de obra para o mercado, quais outras funções sociais a escola pública deve cumprir para garantir o desenvolvimento de uma sociedade mais justa?

5. O Perigo da Naturalização do Abandono. O autor termina dizendo que o verdadeiro perigo é "naturalizar o abandono" (achar normal que muitos desistam). Como a sociologia pode nos ajudar a entender que o abandono escolar não é apenas uma escolha individual do aluno, mas um problema político e social?

Dica do Professor:

Lembrem-se: na Sociologia, as escolhas que parecem ser "individuais" (como desistir da escola) quase sempre estão ligadas a pressões externas, como a situação econômica da família ou a falta de sentido no currículo escolar. Olhem sempre para a estrutura!

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Fui convidado para secretário de Educação — Fernando Horta

 


Fui convidado para secretário de Educação 

 Fernando Horta é historiador 

"Tudo indo bem. Agora, quem poderia imaginar que eu seria convidado para fazer isso num governo de esquerda? Quem acreditaria?", indaga Fernando Horta. Quero dizer para vocês que fui convidado para ser secretário de Educação de Itapipoca do Sul. Essa cidade tem 10 escolas, com 100 alunos em cada escola e o salário do professor é o piso de 1697 reais. Essa cidade tem problemas sociais e econômicos de toda sorte, mas o prefeito quer que a educação seja “de primeira”. Eu confesso que não entendo muito de educação. Sou de uma área “técnica”, mas acredito na meritocracia e acho que a educação nesta cidade é uma bosta porque os professores fazem corpo mole. Ganham e não ensinam. Isso porque o trabalho dos professores é “ensinar” e não simplesmente “dar aula”. E como nossos “índices” são ruins, logo, os professores não fazem o seu trabalho. A primeira coisa que eu faço é buscar apoio em “ong’s” que são amorosamente interessadas em educação. Até nem sei o motivo, mas elas gostam muito de “ajudar”. Então escolhi a Fundação Limão. Uma fundação de um milionário aí que quer uma “melhor educação” para todos. A ideia é que os pobres possam ser melhores e os ricos melhores também, sem discriminação. Os pobres precisam ser os melhores pedreiros, serventes, pintores e garçons que podem ser e os ricos melhores advogados, médicos, engenheiros e políticos. Não é muito legal que sejam cientistas porque daí podem produzir conhecimento e isso vai incomodar o domínio tecnológico de outros países. Mas médicos e engenheiros ... ahhh isso sim. Os melhores neste serviço. Assim que fiz contato, essa “ong” me recebeu super bem. Eu fui conhecer o milionário, até almocei com ele. Tirei foto, recebi presentes. Perguntou por meu filho, falei que o guri queria ser milionário e – veja só – o cara é tão bom que até falou em ajudar o meu filho. A ong do Limão me mostrou todas as pesquisas que eles fazem (que eu nem entendi) e eu pude ver o “amor” pela educação. Me ofereceram “ajuda” na minha (j)estão com pessoas a serem colocadas em alguns lugares ali no governo. Mas pode ser também por licitação de empresa para “consultoria na educação”. Me deixaram bem à vontade, até porque “dinheiro não é problema” disseram. Me prometeram “resultados” e com isso, imaginem só, minha carreira política vai decolar. Nosso primeiro passo foi REDUZIR a educação. Esse negócio de literatura, filosofia, sociologia, educação física, artes (vejam só! Artes ...) é muita coisa. É muito gasto para Itapipoca e não prepara “para o mercado”. Reduzimos então para um currículo “enxuto”: português e matemática. Saber ler (e talvez até interpretar) e fazer conta. E olha que interessante, isso ajuda até na prova do IDEB que só tem – imaginem – português e matemática em provas objetivas. Claro que não posso demitir todos esses vagabundos da educação que ficam ensinando história, geografia e tal. O que eu fiz foi criar umas disciplinas para colocar essa gente como mão de obra barata. Vou criar “projeto de vida” e “projeto interdisciplinar” para essa gente ficar ali corrigindo prova, e ajudando no português. O que me importa, segundo a Fundação Limão, é a funcionalidade do conhecimento para o “uso prático” “na vida” dos alunos. Ainda assim, os alunos não aprenderam muito. Então a Fundação Limão me deu outras ideias. A primeira foi reorganizar os alunos nas escolas. Colocar turmas mais “homogêneas” com alunos com maior nota em uma turma e dar essas turmas a professores “melhores”. Essas dicas de (j)estão são fantásticas. Fui fazendo isso na surdina para não alertar os pais de que seus filhos passaram e ser “material de segunda linha” já que não contribuíam para o aumento da nota no IDEB. Professor que falava alguma coisa eu taxei de criminoso e comunista e joguei as famílias contra. Funcionou. Acabei com a oposição interna. Agora, de novo segundo a Fundação Limão, eu preciso INCENTIVAR os “bons professores”. Então eu criei um 14º, 15º salário a ser pago para eles CASO consigam aprovar os alunos, e caso eles forem bem nas provas do IDEB. Esses mortos de fome ganham 1700 reais por mês, e vão poder ganhar até 2500 se atingirem as metas. Não serão todos, mas sabem como é: “se um pode, qualquer um consegue”. Com a movimentação nas turmas e o “incentivo”, mais a redução do ensino eu consegui um aumento de 2 pontos na minha nota do IDEB. Isso levou Itapipoca da 37ª pior posição, para a 19. Uma melhora de 18 posições. Quase 100% de subida! A Fundação Limão me premiou e eu aumentei a colaboração com eles. Agora contratamos via prefeitura os materiais “on-line” deles e eu passei a dar “curso de atualização” para os professores com os profissionais indicados por eles. Tá todo mundo feliz. Meritocracia na veia, e – sabe como é – “dinheiro não é problema”. Tivemos duas alunas e um aluno que se destacaram. Inteligentíssimos. Indiquei para a Fundação. Já entraram em contato com as famílias. Uma vai ganhar para Harvard e a outra já está com ensino on-line, com os melhores professores da Limão, para preparação para a Olimpíada de astrofísica (que também é patrocinada pela fundação). Em breve estas duas alunas serão usadas como “case” de excelência. E os outros 998 alunos ... bom, serão ótimos trabalhadores, obedientes e capazes de seguir ordens. Poderão ter famílias felizes e, afinal, o que mais podem querer um bando de pobres coitados sem talento que tiveram o azar de nascer nesse mundo tão competitivo? Em quatro anos eu criei uma legião de mentes dóceis, submetidos às coisas do mundo e sem preocuparem-se em mudar nada. Itapipoca segue aqui no mesmo lugar, não temos universidade e a região não se desenvolve muito. Só o suficiente para poder ir comprando na Amazon e clicando no Twitter. As votações aqui passaram a ser todas no nosso partido. A direita manda. Ninguém questiona, trabalha! Outro dia surgiu aqui uma fake news que pegou a cidade toda, mas era a nosso favor. Garantidos estão os votos da cidade para o projeto político da direita pelos próximos 30 anos. Garantida a manutenção da ordem internacional na hierarquia dos conhecimentos. Até o ano que vem, vamos fazer um curso de programação em Php para os alunos aqui na cidade. Vai ser um estouro. Claro que o resto do mundo já fala em inteligência artificial, mas o que mais querem esses coitados de Itapipoca? Com os prêmios que recebi da Fundação Limão, minha carreira decolou. Agora fui projetado para secretário nacional. A mesma fórmula: (j)estores da Limão, redução educacional, incentivo financeiro para poucos professores, material on-line deles, e tudo isso agora embalado em “escolha seu itinerário” e “educação do século XXI”. Esse pessoal da Limão é impressionante. As pessoas estão batendo palmas que agora seus filhos pode “escolher” o que querem estudar. Aqui em Itapipoca eles podem escolher entre auxiliar de serviços gerais ou garçom. Bons garçons, aliás. Os melhores a gente envia para fazer o técnico em secretariado executivo bilíngue. O que importa é o “score” do IDEB e minha carreira. Tudo indo bem. Agora, quem poderia imaginar que eu seria convidado para fazer isso num governo de esquerda? Quem acreditaria? Pois é. É a rendição desses comunistas de sofá às nossas ideias. O mundo explicado como nós entendemos (trabalho, obediência, meritocracia) e eles batendo palmas para tudo. Antes eu trabalhava para uns que gritavam “mito”, agora para outros que gritam “não critique”. Mas tá tudo certo. Em quatro anos nada vai mudar (a não ser a notinha no IDEB), eles vão perder a eleição e a Fundação Limão – e eu – estaremos lá com o próximo governo. De direita. Eu espero. 

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista. 

https://www.brasil247.com/blog/fui-convidado-para-secretario-de-educacao

sábado, 7 de janeiro de 2023

O NOVO ENSINO MÉDIO PÓS-PANDÊMICO: Entre Cartas, Capitulações e Reformas ("O novo sempre despertou perplexidade e resistência." — Sigmund Freud)

 


O NOVO ENSINO MÉDIO PÓS-PANDÊMICO: Entre Cartas, Capitulações e Reformas ("O novo sempre despertou perplexidade e resistência." — Sigmund Freud)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

A cena se repete com a precisão de um ritual profano. Enquanto explico sintaxe — sujeito, predicado, concordância — o som seco das cartas batendo na carteira rasga o ar da sala. Truco. O baralho não surge como distração inocente; impõe-se como linguagem concorrente, manifesto silencioso contra o esforço intelectual. Não é apenas um jogo: é a recusa do tempo longo do pensamento, a busca por pertencimento imediato, o riso cúmplice que substitui o confronto com o saber.

Permiti o truco. Não por convicção pedagógica, mas por capitulação. A escola pública brasileira — sobretudo após a Lei nº 13.415/2017 e sua implementação errática nas redes estaduais — deixou o professor sem respaldo, sem autoridade simbólica, sem instrumentos reais de intervenção. Denunciar à coordenação raramente produz efeito; insistir, por vezes, produz risco. Entre a violência latente e o esvaziamento institucional, escolhe-se sobreviver. E é aí que reside o crime maior da reforma: não formar professores para ensinar, mas para resistir.

O chamado Novo Ensino Médio promete mil horas anuais, duzentos dias letivos, itinerários formativos e protagonismo juvenil. Na prática, ao menos nas escolas periféricas, entrega exaustão sem densidade, quantidade sem qualidade. Dados recentes de evasão e abandono — sobretudo no primeiro ano — indicam que ampliar a carga horária sem sentido pedagógico apenas prolonga o cansaço. O aluno entra às sete, sai ao meio-dia e aprende menos. O baralho, então, reaparece como anestesia coletiva. “Aluno cansado não aprende”, repete-se, como se o problema fosse fisiológico, e não político.

É preciso cautela: o estudante não é vilão. Ele é fruto de décadas de uma pedagogia neoliberal que o ensinou a se perceber como cliente, consumidor de aulas rápidas, fáceis e utilitárias. O jovem que joga truco enquanto o professor fala é também vítima de uma escola que desistiu de formá-lo. A tragédia, aqui, é compartilhada.

Se há saída, ela não virá da facilitação infinita nem da nostalgia autoritária. Virá da reconstrução da autoridade pedagógica como pacto social: uma escola exigente, um professor institucionalmente protegido, um currículo com sentido e um tempo que respeite o pensamento. Utopia? Talvez. Mas toda educação que não ousa imaginar outro horizonte já perdeu antes mesmo de distribuir as cartas.

https://www.youtube.com/watch?v=yJunMvIFtxI


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Olá! Como seu professor de Sociologia, vejo que este texto nos oferece um "raio-X" contundente sobre as crises de autoridade e sentido na escola contemporânea. Ele nos permite discutir conceitos como alienação, neoliberalismo na educação e a função social das instituições. Aqui estão 5 questões discursivas simples para pensarmos criticamente sobre essa realidade:


1. A Crise da Autoridade Simbólica, O texto menciona que o professor permitiu o jogo de cartas não por vontade própria, mas por "capitulação" e falta de "autoridade simbólica". Na visão sociológica, por que é perigoso para uma sociedade quando as instituições (como a escola) perdem sua autoridade e não conseguem mais estabelecer normas de convivência e respeito?

2. A Reforma e o "Professor Residente". O autor afirma que a reforma (Lei nº 13.415/2017) acabou por formar professores "não para ensinar, mas para resistir". Explique como o esvaziamento do respaldo institucional e a falta de condições de trabalho podem transformar a profissão docente em uma atividade de sobrevivência em vez de uma prática educativa.

3. O Aluno como Consumidor e a Pedagogia Neoliberal. O texto sugere que o estudante foi ensinado a se perceber como um "cliente" de aulas rápidas e utilitárias. Como essa lógica neoliberal (que trata a educação como um serviço comercial) altera a relação entre professor e aluno e a forma como o jovem encara o esforço necessário para aprender?

4. O Baralho como "Anestesia" e a Evasão Escolar. A análise aponta que o baralho surge como uma "anestesia coletiva" diante de uma carga horária exaustiva e sem sentido. Relacione o aumento da quantidade de horas na escola com os dados de evasão e abandono escolar citados: por que mais tempo na escola nem sempre significa mais aprendizado ou melhor socialização?

5. A Reconstrução da Escola como Pacto Social. Ao final, o autor defende uma escola "exigente e institucionalmente protegida". Do ponto de vista da sociologia da educação, por que a "facilitação infinita" do ensino (tornar tudo fácil e sem cobrança) pode acabar prejudicando justamente os alunos das classes mais pobres em vez de ajudá-los?

Dica do Professor:

Reparem que o texto não culpa o aluno nem o professor isoladamente. Ele foca no sistema. Ao responder, tente observar como as leis e as pressões políticas (como a reforma do ensino) criam comportamentos dentro da sala de aula que fogem ao controle de quem está lá dentro.

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sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

DEPRESSÃO NÃO MATA, O TEMPO MATA ("Depressão é excesso de amor próprio. O indivíduo se ama tanto que não se aceita minimamente arranhado." — Sintia Lira)

 


DEPRESSÃO NÃO MATA, O TEMPO MATA ("Depressão é excesso de amor próprio. O indivíduo se ama tanto que não se aceita minimamente arranhado." — Sintia Lira)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

O asqueroso avança devagar, como um veneno que se infiltra nos dias. Só os velhos ainda suportam os velhos: juntos, perdem o fogo da aventura, o apetite pelo novo, e se agarram ao passado com unhas frágeis — até que o apego se converta em repulsa por si mesmos. Todo velho carrega, inevitavelmente, um grau de depressão, essa sombra que o tempo cultiva com paciência. Se existisse justiça divina, Deus não nos lançaria ao fim sem preparação: aos poucos, Ele — ou o destino — nos desbota, nos torna insípidos, prontos para o pó que já fomos. O que agrava tudo não é a velhice em si, mas sua aliança cruel com a pobreza e a doença crônica. Mesmo o velho rico, por sua vez, tem motivo para se entristecer; vira presa fácil: parentes calculistas, golpistas sorridentes, todos farejando o que resta da herança.

É duro confessar, mas dói ainda mais admitir que qualquer moleque insolente da vizinhança se impõe sobre mim apenas por me perceber fraco. Ontem, eu era o herói da rua — narrava brigas vencidas, noites que viravam lendas. Hoje, minhas rugas desmontam qualquer bravata: elas gritam a verdade que a boca tenta calar. Sofro duplamente sob o desprezo: primeiro, o dos outros, que me evitam como se eu fosse contagioso; depois, o do espelho embaçado, que me devolve um rosto sem admiração, sem ameaça, sem nada. Aqui estou, reduzido a um “nonada” de mim mesmo — um eco ralo no corredor da existência.

Recordo uma tarde qualquer, há alguns anos. Sentei-me no banco da praça, como de costume, quando um grupo de adolescentes passou rindo alto. Um deles apontou: "Olha o véio aí, falando sozinho de novo". O desprezo me atravessou como lâmina. Naquele instante, o “desprezo de si mesmo” que o tempo semeia tornou-se carne viva: senti o peso de ser invisível, descartável, um estorvo ambulante. Mas, foi exatamente ali que algo se agitou. O tempo na visão pessimista de Schopenhauer — que entende a vida como um processo contínuo de desgaste, em que viver é apenas adiar a morte e permanecer num estado permanente de queda contida — acabou me ensinando a olhar a existência de forma mais profunda, para além das aparências imediatas.

Heidegger lembra que a temporalidade é o horizonte do ser: o futuro se revela no ser-para-a-morte, no reconhecimento da finitude que nos lança à autenticidade. Em vez de me render ao niilismo puro, passei a reconhecer nos chamados “poderes secretos” dos velhos algo real — não magia de reza forte, mas resiliência forjada no fogo da perda. As rezas que conheço não invocam milagres; invocam memória, paciência, a capacidade de suportar o que os jovens ainda evitam. Elas me mantêm de pé quando o corpo vacila.

O que me manteve vivo, afinal, foram as conversas a meu respeito — inclusive as venenosas, as que tentavam me denegrir e desfigurar. Ao menos, eu existia nas bocas dos fofoqueiros; ao menos, era lembrado. Ainda hoje, alguns se afastam quando me veem aproximar. Em vez de me ferir, esforço-me para ler nisso um sinal ambíguo, quase consolador: talvez ainda se protejam de mim. Nessa ilusão — ou meia-verdade — reencontro um resíduo de perigo. Continuo sendo, de algum modo torto, uma presença que inquieta.

Porque os velhos carregam o peso do tempo que os jovens insistem em negar. Sabemos que tudo passa, que o asqueroso chega para todos. E é justamente aí que reside nossa força silenciosa: não na ilusão da eternidade, mas na coragem de encarar o fim sem piscar.

O tempo mata, sim. Mas, enquanto nos devora, também nos ensina a viver o que resta com uma dignidade afiada, dialética — aceitando a decadência sem nos dissolver nela.


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Questões discursivas – Sociologia (Ensino Médio)

Preconceito etário (idadismo)

O texto descreve situações de desprezo e invisibilidade vividas pelo personagem por causa da velhice.

➤ Explique o que é preconceito etário (ou idadismo) e cite um exemplo retirado do texto.

Velhice e exclusão social

O autor afirma que o que mais agrava a velhice não é o envelhecer em si, mas sua relação com a pobreza e a doença.

➤ Explique como fatores sociais e econômicos podem intensificar a exclusão dos idosos na sociedade.

Tempo, finitude e sociedade

A partir das ideias de Schopenhauer e Heidegger, o texto reflete sobre o tempo e a morte.

➤ Por que reconhecer a finitude da vida pode levar a uma forma mais consciente ou autêntica de viver, segundo o texto?

Identidade e reconhecimento social

O personagem afirma que, mesmo sendo alvo de fofocas, sentia algum alívio por ainda ser lembrado.

➤ Explique a importância do reconhecimento social para a construção da identidade das pessoas.

Experiência e resiliência na velhice

O texto afirma que os velhos possuem uma “força silenciosa” baseada na memória e na resistência.

➤ Na sua opinião, qual é a importância da experiência dos idosos para a sociedade? Justifique sua resposta.

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quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

DESGRAÇA TRAZ SORTE: Crônica de uma Moral em Ruínas ("A desgraça de uns é a sorte de outros." — J.R.R. Tolkien)

 


Toda moral que se ergue sobre a repressão termina por ruir sobre os próprios alicerces. Aqueles que a defendem com fervor excessivo costumam ser, paradoxalmente, suas primeiras vítimas. Oscilam entre o papel de carrascos e o de libertinos envergonhados, tornando-se instrumentos dóceis de um espetáculo que fingem condenar. Não raro, quem jamais reconciliou a própria sexualidade sente-se autorizado a interditar a dos outros, convertendo frustrações íntimas em normas públicas. Assim, limitações individuais ganham força de lei, não para curar a sociedade, mas para diluir a culpa em escala coletiva.

Esse teatro moral não se restringe aos quartos fechados: transborda e ocupa as instituições. No discurso público, repete-se a ladainha da decadência dos costumes, enquanto se tenta reorganizar o passado por meio de frases de efeito, como a de Iaponira Barros: “Antigamente a prostituição era profissão, hoje é opção; a mulher não evoluiu, prostituiu-se.” A sentença provoca, mas também revela sua armadilha: privilegia-se o choque retórico em detrimento da análise estrutural. Políticos, atentos à direção do vento, ensaiam atos de autopunição simbólica e escolhem culpados convenientes — quase sempre o cliente, raramente o sistema que mercantiliza tudo, inclusive o corpo e a miséria.

No mesmo compasso, a escola, que deveria ser espaço de mediação crítica, converteu-se em palco ruidoso de disputas ideológicas mal digeridas. Fala-se muito e ensina-se pouco. Não se trata de negar a presença de ideias — elas sempre existiram —, mas de reconhecer que hoje circulam sem filtro, sem contexto e sem responsabilidade pedagógica. O resultado é uma educação que já não educa: terceiriza a formação, ignora o entorno social e transfere ao indivíduo a tarefa solitária de salvar a própria consciência. Aprende-se, quando muito, de dentro para fora, à revelia da instituição que deveria sustentar esse processo.

Pergunto-me, então, o que doutores, técnicos e pedagogos fizeram do sistema educacional. Em vez de enfrentarem a crise, aprenderam a explorá-la. A calamidade tornou-se produto; o fracasso, fonte de receita. Vende-se diagnóstico, nunca transformação. Basta um novo ciclo de isolamento, algumas máscaras — físicas ou simbólicas — para que se revele a fragilidade de uma estrutura sustentada mais por discursos do que por fundamentos.

Confesso: desisti de esperar por melhoras. Não por cinismo barato, mas por lucidez cansada. O padrão já estava posto havia muito tempo. Nas festas juninas, vestíamo-nos de palhaço; nos eventos culturais, o figurino se repetia; nos mutirões de limpeza, lá estava ele outra vez. Tudo igual, sempre igual. E eu me perguntava, em silêncio, onde cabia a minha calça xadrez do cotidiano. O que havia de singular nela, se o mundo insistia em uniformizar até o gesto de participar?

Talvez fosse apenas ciúme — ou talvez a percepção incômoda de que a diferença nunca foi bem-vinda. Lembrei-me, então, da máxima atribuída a Einstein: “Insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes.” No centro dessa engrenagem cansada, nunca consegui fazer a diferença que imaginei possível. Ainda assim, escrevo. Quem sabe alguém consiga onde eu falhei. Ou, ao menos, perceba que a loucura maior não é resistir, mas aceitar o disfarce como se fosse pele.


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Olá! Como seu professor de Sociologia, construi cuidadosamente o texto reflexivo que você leu. Ele aborda temas centrais da disciplina, como instituições sociais (escola e estado), moralidade versus ética, controle social e a mercantilização da educação. Para ajudar você a fixar esses conceitos e desenvolver um olhar crítico sobre a realidade social descrita, preparei estas 5 questões discursivas:


1. A Instituição Escolar e a Crise de Mediação. O texto afirma que a escola "converteu-se em palco ruidoso de disputas ideológicas mal digeridas" e que ela "já não educa". De acordo com a visão sociológica do autor, por que a escola estaria falhando em sua missão pedagógica primordial?

2. Moralidade e Controle Social. O autor argumenta que "toda moral que se ergue sobre a repressão termina por ruir". Como a Sociologia explica a diferença entre uma moral imposta por repressão e uma ética construída através da consciência individual e do diálogo social?

3. Mercantilização da Educação e das Crises. O trecho menciona que "a calamidade tornou-se produto; o fracasso, fonte de receita". Explique, com suas palavras, como o sistema educacional descrito no texto reflete a lógica do mercado (mercantilização) em vez de focar no desenvolvimento humano.

4. A Indústria do Disfarce e a Uniformização. No final do texto, o autor questiona a "uniformização" até mesmo nos gestos de participação (o exemplo do traje de palhaço). Relacione essa ideia ao conceito sociológico de padronização cultural e como ela pode sufocar a individualidade mencionada pela "calça xadrez do cotidiano".

5. Política e Culpabilização Individual. O texto sugere que políticos escolhem "culpados convenientes" (como o cliente) em vez de analisar o sistema estrutural. Por que, do ponto de vista sociológico, é mais fácil para o poder público focar no comportamento individual do que nas falhas das estruturas sociais?

Dica do professor: Ao responder, tente conectar as frases do texto com o que observamos no dia a dia da nossa sociedade. Não busque apenas "respostas certas", mas sim argumentos que demonstrem que você compreendeu a crítica do autor sobre como as instituições moldam nosso comportamento.

Bom trabalho e exercite sua visão crítica!

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quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

IMPORTA A BASE ("É no problema da educação que assenta o grande segredo do aperfeiçoamento da humanidade." — Immanuel Kant)