"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

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MINHAS PÉROLAS

quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

NA INTERNET, SOMOS UM ("Rios pequenos que desaguam em rios grandes que desaguarão no (a)mar do encontro da unificação." — Charles Canela)

 


NA INTERNET, SOMOS UM ("Rios pequenos que desaguam em rios grandes que desaguarão no (a)mar do encontro da unificação." — Charles Canela)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

No velho normal, a escola desconhecia a riqueza de conteúdos e a autonomia que a internet nos fornece, e tudo o mais, sobrepujando os professores. Então, nesta modernidade, o aluno escolhendo o que quer que a escola ensine-lhe, é o mesmo que o paciente determinar ao médico o remédio que quer tomar: estão se achando!

No velho modelo, não podia camiseta de time, não podia boné, não podia celular, não podia aprovar com nota baixa, não podia nada; Ali, os lugares na frente eram reservados para os piores alunos, tentando conter a indisciplina deles, era só conferir o mapeamento da sala, e veríamos os "bons" destinados a sentar-se atrás. Agora em quarentena, não pode ir à escola e também não podem aprender de lá, forçados à internet. E em tempo de trabalhos virtuais, Justiça foi feita. Constatou-se que as metodologias das coordenadoras estavam equivocadas e até hoje não se aproveitou nada. Considerando o novo e o velho normal sendo tão distantes uma da outra circunstâncias, como são os turnos de uma escola no regime presencial que parece três entidades diferentes: matutino, vespertino e noturno.

Sinto saudade mesmo é daquela oposição: quando eu dizia que tal aluno era um péssimo em minha disciplina (Língua Portuguesa), a professora tal contestava-me, na mesma reunião, dizendo que ele era excelente na geografia. Eu acredito no ensinar conteúdos e na memorização dos mesmos, eles acreditam no ensinar habilidades e competências, repugnando o decoreba. Eu já me adequei, somente a internet faz-nos falar a mesma língua. A máquina nos unificou intelectualmente! Porque o plano de aula é copiado da internet.

Satanás prometeu a Eva que ela seria como Deus ao rejeitar a ordem Dele e comer do fruto proibido (Gn 3:1-5). Hoje encontra-se na internet lições de livre-arbítrio, fizeram-se deuses uns dos outros, construindo seu próprio futuro.

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

DO ESPETO PARA A BRASA ("Prova de que os valores estão invertidos é perceber alguns amando sapatos e pisando em pessoas!" — Nannye Dias


 

DO ESPETO PARA A BRASA ("Prova de que os valores estão invertidos é perceber alguns amando sapatos e pisando em pessoas!" — Nannye Dias

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Agora, no meio da noite escura; sem sono, estou aqui pensando: muitos dos que constantemente falavam comigo, afastaram-se com medo de ser visto em minha companhia e interpretados como pactuadores de minhas ideias. Porém,  ainda tenho plateia, observam-me de longe! São eles os observadores da vida dos outros e juízes da aparência, digo-lhes, para segurança dos concorrentes, que não aceito discípulos. Quando alguém  concorda comigo, já penso que estou errado! Pois, em cada grupo de doze há um "Judas" com poderes sobrenaturais do mal. Isso é demais para mim, sou professor não chefe, este é quem gosta de puxa-saco!

           Sendo que os valores estão investidos, confirmamos esta inversão, observando o descaso com quem ensina. Por isso, não acontece mais, como houve nos tempos bíblicos; eu, virando-me para trás, amaldiçoei zombadores e os desrespeitadores de professor, em nome do Senhor de minha missão educacional; como o profeta Eliseu fez a seus "chacoteadores", e nada aconteceu. Ao contrário, por isso, sou amaldiçoado por amaldiçoá-los, foi isso que ganhei: do espeto, caí na brasa!

           A Bíblia no contexto atual: as ursas ainda saem do bosque sim, mas poupam os adolescentes fanfarrões e fofos, todavia devoram o professor careca, gordofóbico, machista, racista e homofóbico, ou seja, tradicional, com o viés político de direita! Aos "Lacradores" nada lhes acontece. CiFA

A VIDA MORRE, A MORTE VIVE ("Sou um ser incompreendido, mas com minha incompreensão compreendo o mundo e a vida que me cerca..." — Anjo de Galochas)


 

A VIDA MORRE, A MORTE VIVE ("Sou um ser incompreendido, mas com minha incompreensão compreendo o mundo e a vida que me cerca..." — Anjo de Galochas)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Constantino adulterou toda a bíblia, fez dela um ídolo e um amuleto, transformando a experiência de Deus, que está em tudo e é tudo (panteisticamente), num mero objeto. Cada vez que se reverencia o livro, adora-se um ídolo de papel.

Mas a história não se dobra com a mesma facilidade que as crenças. A institucionalização da fé sob Constantino não se limitou a adulterar textos — moldou consciências, influenciando processos de canonização já em curso. O Concílio de Niceia (325 d.C.), embora focado na natureza de Cristo e na unificação doutrinal, lançou uma sombra política sobre os séculos seguintes: ao oficializar a fé como instrumento de coesão imperial, Constantino fez da religião um espelho do poder. Nesse reflexo, o panteísmo inicial — Deus em tudo e tudo em Deus — foi silenciado, cedendo lugar a um Deus de templos, altares e traduções convenientes. Assim nasceu uma fé institucionalizada, onde a transcendência se perdeu na burocracia teológica e na retórica do poder.

Aonde foram parar as verdades originais? Constantino não apenas forjou um ídolo, mas reescreveu a história sacra, manipulando cânones para fundir poder estatal e fé. A inclusão tardia e controversa de textos que solidificaram dogmas como a Trindade, enquanto apócrifos eram descartados, garantiu submissão e controle eclesiástico — um exemplo claro de como a intervenção política moldou a doutrina.

Essa imposição histórica revela a essência da linguagem: se a matriz é política, a tradução inevitavelmente perpetua essa inclinação. Por isso, as múltiplas versões bíblicas, cada qual acomodada aos interesses de quem as patrocinou, transformam as Escrituras em guia não confiável. Afinal, cada versão "fiel" é apenas algo aproximado, já que não existem palavras sinônimas, mas sentidos aproximados. Nesse espaço cinzento reside a deturpação: "Vós, mulheres, sede submissas" versus "sede companheiras" — mudanças sutis que corrompem o entendimento sobre o papel da mulher cristã e dificultam a crença pura.

A sutileza de uma vírgula mal colocada — ou omitida — faz de quem lê o autor também do livro "sagrado", saciando a sede humana de ser Deus. Só um Deus humanizado se importaria com honrarias. Só homens endeusados gostam de adoração. Então, a questão se impõe: Deus sente ciúmes quando adoramos ídolos? Ou Deus precisa ser humano para que os humanos consigam concebê-lo?

Por isso criaram Jesus 100% divino e 100% humano. Mas Deus não é de confusão, não é? A divindade de Jesus consiste, na verdade, na incompreensão da mente humana sobre essa antítese — tentativa de explicar o inexplicável. Teólogos, por séculos, tentaram decifrar esse enigma e talvez tenham apenas ampliado o mistério. O dilema é inescapável: se o Jesus homem morreu, morreu o homem, e isso não salva a humanidade; se o Jesus Deus morreu, um Deus morto tampouco pode salvar. Se ambos ressuscitaram, todos os mortos ressuscitaram sem estigma de divindade alguma, pois apenas a vida é o páreo idôneo para a morte, e vice-versa. Se a morte não é eterna, a vida também não o é: tudo é cíclico.


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Como professor de Sociologia, vejo neste texto um material riquíssimo para entendermos como o Poder e a Religião se entrelaçam e constroem a realidade social. As ideias aqui tratadas, embora teológicas, têm um impacto sociológico profundo na forma como as instituições funcionam e controlam as narrativas. Para a nossa avaliação e para estimular a discussão, preparei 5 questões discursivas simples, focadas nos conceitos centrais de Poder, Instituição e Linguagem presentes no texto.


Questão 1: Poder e Institucionalização da Fé

O texto afirma que Constantino, ao oficializar a fé no Concílio de Niceia, transformou a religião em "um espelho do poder" e um "instrumento de coesão imperial".

Explique como, segundo o texto, a fusão entre o Poder Estatal (império) e a Fé Religiosa (cristianismo) resultou na perda da "transcendência" e no surgimento de uma "fé institucionalizada".

Questão 2: A Construção do Cânone e Controle Social

O autor critica a manipulação de cânones para "fundir poder estatal e fé", citando a inclusão de textos que solidificaram dogmas (como a Trindade) e o descarte de apócrifos.

Identifique qual é a principal função sociológica (controle, ordem, submissão) que essa intervenção política e eclesiástica, na escolha dos textos sagrados, buscava garantir, de acordo com o trecho.

Questão 3: Linguagem, Tradução e Ideologia

O texto argumenta que a tradução bíblica é politizada, já que "não existem palavras sinônimas, mas sentidos aproximados", o que abre espaço para "deturpação". Um exemplo dado é a diferença entre "sede submissas" e "sede companheiras".

Discorra sobre como a linguagem e a tradução, neste contexto, atuam como ferramentas ideológicas para perpetuar uma determinada visão (ou papel social), como o da mulher cristã.

Questão 4: Antropomorfismo e Crítica à Adoração

O autor levanta uma crítica ao afirmar: "Só um Deus humanizado se importaria com honrarias. Só homens endeusados gostam de adoração."

Analise essa afirmação sob a ótica da Sociologia da Religião. Qual é a crítica feita à prática da adoração e como essa crítica se relaciona com a ideia de um Deus "humanizado" (antropomórfico)?

Questão 5: Panteísmo e Burocracia Teológica

O texto menciona que o panteísmo inicial ("Deus em tudo e tudo em Deus") foi silenciado, cedendo lugar a um "Deus de templos, altares e traduções convenientes".

Contraste o conceito de panteísmo com o de fé institucionalizada (ou burocracia teológica), explicando como a organização religiosa formal (instituição) se opõe à experiência descentralizada e imanente do panteísmo.

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segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

AS CIRCUNSTÂNCIAS FAZEM O HOMEM: O Estigma do Ofício e a Maldição do Olhar Alheio ("Não somos sempre o que queremos, mas o que as circunstâncias nos permitem ser." — Marquês de Maricá)

 


AS CIRCUNSTÂNCIAS FAZEM O HOMEM: O Estigma do Ofício e a Maldição do Olhar Alheio ("Não somos sempre o que queremos, mas o que as circunstâncias nos permitem ser." — Marquês de Maricá)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Sinto que meu dinheiro é amaldiçoado — não por forças místicas, mas por decisões muito concretas. Ele não rende porque foi deliberadamente encolhido ao longo de décadas de arrocho salarial, reformas que nos empurram para uma velhice exausta e uma política de Estado que trata a educação como despesa incômoda. Essa “maldição” tem nome, sobrenome e assinatura em Diário Oficial. O que pesa sobre meu salário não é o azar, é o desprezo institucionalizado por um ofício que forma consciências, mas não gera dividendos imediatos.

Há um tribunal invisível que me julga diariamente. Ele se manifesta em olhares, comentários laterais, piadas travestidas de conselho. Trata-se de um tribunal social forjado por uma cultura que aprendeu a medir o valor humano pelo retorno financeiro, que desconfia do pensamento crítico e naturalizou a desvalorização da docência — profissão feminilizada, massificada e empurrada para a periferia do prestígio social. Uma colega resumiu a sentença com crueldade sintética: “ele tem pouco a contribuir”. O veredito estava dado antes mesmo da defesa.

Vivemos numa sociedade que não hesita em pagar fortunas a quem entretém, enquanto negocia centavos com quem educa. O problema nunca foi artistas ou atletas ganharem bem — o escândalo é que professores sobrevivam mal. Enquanto rentistas enriquecem movendo números abstratos e herdeiros vivem do trabalho alheio, quem sustenta o futuro coletivo é empurrado para a penúria. Conhecimento não rende juros; por isso, é tratado como descartável.

Ainda assim, persisto. Não por romantismo, mas por convicção. Há, porém, uma contradição que me atravessa: como ser reconhecido por aquilo que ofereço se aqueles que me recebem são obrigados a estar ali? A escola compulsória transforma o aprendizado em fardo e o professor, sem querer, em carcereiro. Ofereço algo valioso dentro de uma estrutura coercitiva, disciplinar e burocrática. A gratidão não floresce sob imposição — e eu pago diariamente o preço dessa engrenagem.

Quando tento me defender, explicar ou contextualizar, recorro às redes sociais. E ali encontro outro tribunal: mais ruidoso, mais cruel, mais ávido por linchamentos do que por compreensão. Expor fragilidades vira espetáculo; denunciar precariedades soa como confissão de incompetência. A frase antiga ressoa: “a beleza está nos olhos de quem vê”. Mas os olhos que me cercam foram educados para preferir a distorção — treinados por uma cultura que celebra a riqueza e despreza o saber, que confunde autoridade intelectual com arrogância e crítica com fracasso pessoal.

Nem meu corpo escapa. Num mundo governado pela estética e pela performance, minha aparência também é julgada. Não basta ensinar bem; é preciso parecer vendável, carismático, palatável ao espetáculo educacional. Quem não se encaixa no figurino paga mais uma taxa invisível. O risco, reconheço, é endurecer: vestir o egoísmo como armadura, confundir defesa com arrogância, afastar-se para não sangrar. Sei, porém, que isso apenas aprofundaria o abismo.

Por isso, decidi não esperar mais por consensos improváveis ou momentos suaves. Não adiarei o confronto em nome de uma cordialidade hipócrita. Vou provocar as conversas que ninguém quer ter, tensionar as estruturas que fingem neutralidade, recusar o silêncio cúmplice que nos adoece. O conflito deixou de ser acidente — tornou-se método.

No estado em que me encontro, a ruptura é minha única moeda de troca. Ruptura com a passividade, com o medo de desagradar, com a docência domesticada que pede desculpas por existir. Não sei ainda quem caminhará comigo. Mas sei quem não pode mais me acompanhar: a ilusão de que o respeito virá sem luta. A educação não precisa de mártires resignados; precisa de professores dispostos a transformar a própria indignação em gesto político. E é exatamente isso que escolhi ser.


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Olá! Como seu professor de Sociologia, vejo que este texto é um manifesto poderoso sobre a Sociologia do Trabalho e a Teoria do Reconhecimento. Ele nos convida a analisar como a estrutura da sociedade e as escolhas políticas moldam não apenas o nosso salário, mas a nossa própria identidade e saúde mental. Aqui estão 5 questões discursivas para aprofundarmos essa reflexão:


1. A Construção Social da "Maldição" Financeira. O autor afirma que o baixo rendimento do professor não é fruto do "azar", mas de decisões políticas e "desprezo institucionalizado". Como a Sociologia explica o fato de algumas profissões essenciais (como a educação) terem salários baixos enquanto outras atividades menos vitais acumulam grandes fortunas?

2. O Tribunal do Prestígio e o Valor Humano. O texto menciona um "tribunal invisível" que mede o valor humano pelo retorno financeiro. De que maneira a cultura do consumo e o neoliberalismo influenciam a percepção da sociedade sobre o sucesso, transformando a frase "ele tem pouco a contribuir" em uma sentença de invisibilidade social?

3. Educação Compulsória e a Relação de Coerção. O autor destaca uma contradição: oferecer algo valioso (conhecimento) dentro de uma estrutura obrigatória que pode transformar o professor em "carcereiro". De que forma a estrutura burocrática e disciplinar da escola pode dificultar a criação de vínculos de gratidão e reconhecimento entre alunos e professores?

4. A Espetacularização da Dor nas Redes Sociais. O texto discute como a exposição de fragilidades nas redes sociais acaba servindo de "combustível para linchamentos". Sociologicamente, como a busca por performance e a "estética do sucesso" na internet contribuem para o silenciamento das lutas reais e para a desqualificação de quem denuncia a precariedade do trabalho?

5. A Indignação como Gesto Político. Ao final, o autor recusa a "docência domesticada" e opta pelo conflito como método. Explique a diferença sociológica entre a "resignação" (aceitar a situação como natural) e a "indignação política" como ferramenta para transformar as estruturas de poder na educação.

Dica do Professor:

Reparem que o texto transita do individual (a angústia pessoal) para o coletivo (o gesto político). Na sociologia, chamamos isso de "imaginação sociológica": a capacidade de perceber que nossos dramas pessoais são, na verdade, questões públicas e históricas.

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domingo, 8 de janeiro de 2023

QUEM VAI E QUEM FICA: Rotatividade e Qualidade Institucional ("É urgente selecionar o que é caminho e o que é desvio." — Dan Porto)

 


QUEM VAI E QUEM FICA: Rotatividade e Qualidade Institucional ("É urgente selecionar o que é caminho e o que é desvio." — Dan Porto)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Costuma-se repetir que a vitalidade de uma instituição reside em sua capacidade de renovação. A afirmação, à primeira vista sedutora, encerra uma armadilha conceitual: confundir renovação com rotatividade. Renovar é formar, concluir ciclos, permitir a progressão orgânica do tempo pedagógico; rotacionar compulsivamente, ao contrário, costuma revelar falhas estruturais. Não por acaso, as instituições educacionais mais consistentes — aquelas que constroem tradição, vínculo e excelência — sustentam-se menos pela evasão e mais pela permanência significativa.

No cotidiano da escola pública brasileira, a alta rotatividade raramente configura virtude. Ela emerge da precariedade material, da fome silenciosa, do esgotamento emocional e da ausência de políticas de cuidado. Tratar a saída precoce como gesto de lucidez individual é inverter a causalidade: não é a desistência que oxigena o sistema, mas a incapacidade institucional de sustentar trajetórias. Permanecer, nesse contexto, não é teimosia; é, muitas vezes, uma forma de resistência.

Diante do caos, torna-se tentador defender critérios seletivos, filtrar os “desalinhados” e ensinar apenas àqueles que demonstram disposição imediata para aprender. Essa lógica, sob a aparência de eficiência, carrega um risco profundo: penalizar quem mais necessita da escola. A educação pública não existe para premiar os já preparados, mas para criar condições de formação àqueles a quem a vida negou quase tudo. Selecionar pelo engajamento visível é confundir desigualdade social com falta de mérito.

Também é preciso cautela com as imagens mobilizadas no discurso educacional. Quando estudantes são descritos como entraves, obstruções ou patologias institucionais, abandona-se a crítica ao sistema para ferir os sujeitos. O problema não são “corpos estranhos” que bloqueiam o fluxo, mas vínculos pedagógicos fragilizados, currículos esvaziados e políticas que exigem desempenho sem oferecer sustentação.

A educação tampouco pode ser reduzida a um cálculo de retorno econômico. Seu valor não se mede apenas pela mão de obra que produz, mas pela cidadania que forma, pela violência que previne e pela consciência que desperta. Eficiência pedagógica não consiste em excluir para render mais, mas em criar condições para que todos aprendam melhor.

Talvez o verdadeiro perigo não esteja em quem entra ou sai, mas em sistemas que naturalizam o abandono e o celebram como dinâmica saudável. Renovar, na educação, não é descartar; é sustentar, transformar e permanecer com sentido.


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Olá! Como seu professor de Sociologia, fico satisfeito em ver como este texto nos desafia a olhar para além da superfície dos números. Ele toca em temas fundamentais da nossa disciplina, como reprodução das desigualdades, função social da escola e a crítica ao produtivismo. Aqui estão 5 questões discursivas, formuladas de maneira simples, para explorarmos essas ideias em sala:


1. Renovação vs. Rotatividade. O texto diferencia "renovar" de apenas "rotacionar" pessoas dentro do sistema. Do ponto de vista sociológico, por que a alta rotatividade (muitos alunos entrando e saindo sem concluir o ciclo) pode ser um sinal de crise institucional e não de "oxigenação" saudável?

2. A Falsa Meritocracia na Seleção. Ao discutir a ideia de filtrar apenas os alunos "já preparados" ou "interessados", o autor afirma que isso é "confundir desigualdade social com falta de mérito". Explique como uma escola que seleciona apenas os melhores alunos pode acabar aumentando a desigualdade em vez de combatê-la.

3. O Aluno como "Entrave" ou Sujeito. Muitas vezes, alunos com dificuldades são vistos como obstáculos ao bom andamento da aula. De acordo com o texto, por que devemos focar a crítica nos "vínculos pedagógicos fragilizados" e na "falta de infraestrutura" em vez de culpar individualmente os estudantes pelo fracasso do sistema?

4. A Educação Além do Mercado de Trabalho. O texto defende que a educação não pode ser apenas um "cálculo de retorno econômico". Além de formar mão de obra para o mercado, quais outras funções sociais a escola pública deve cumprir para garantir o desenvolvimento de uma sociedade mais justa?

5. O Perigo da Naturalização do Abandono. O autor termina dizendo que o verdadeiro perigo é "naturalizar o abandono" (achar normal que muitos desistam). Como a sociologia pode nos ajudar a entender que o abandono escolar não é apenas uma escolha individual do aluno, mas um problema político e social?

Dica do Professor:

Lembrem-se: na Sociologia, as escolhas que parecem ser "individuais" (como desistir da escola) quase sempre estão ligadas a pressões externas, como a situação econômica da família ou a falta de sentido no currículo escolar. Olhem sempre para a estrutura!

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Fui convidado para secretário de Educação — Fernando Horta

 


Fui convidado para secretário de Educação 

 Fernando Horta é historiador 

"Tudo indo bem. Agora, quem poderia imaginar que eu seria convidado para fazer isso num governo de esquerda? Quem acreditaria?", indaga Fernando Horta. Quero dizer para vocês que fui convidado para ser secretário de Educação de Itapipoca do Sul. Essa cidade tem 10 escolas, com 100 alunos em cada escola e o salário do professor é o piso de 1697 reais. Essa cidade tem problemas sociais e econômicos de toda sorte, mas o prefeito quer que a educação seja “de primeira”. Eu confesso que não entendo muito de educação. Sou de uma área “técnica”, mas acredito na meritocracia e acho que a educação nesta cidade é uma bosta porque os professores fazem corpo mole. Ganham e não ensinam. Isso porque o trabalho dos professores é “ensinar” e não simplesmente “dar aula”. E como nossos “índices” são ruins, logo, os professores não fazem o seu trabalho. A primeira coisa que eu faço é buscar apoio em “ong’s” que são amorosamente interessadas em educação. Até nem sei o motivo, mas elas gostam muito de “ajudar”. Então escolhi a Fundação Limão. Uma fundação de um milionário aí que quer uma “melhor educação” para todos. A ideia é que os pobres possam ser melhores e os ricos melhores também, sem discriminação. Os pobres precisam ser os melhores pedreiros, serventes, pintores e garçons que podem ser e os ricos melhores advogados, médicos, engenheiros e políticos. Não é muito legal que sejam cientistas porque daí podem produzir conhecimento e isso vai incomodar o domínio tecnológico de outros países. Mas médicos e engenheiros ... ahhh isso sim. Os melhores neste serviço. Assim que fiz contato, essa “ong” me recebeu super bem. Eu fui conhecer o milionário, até almocei com ele. Tirei foto, recebi presentes. Perguntou por meu filho, falei que o guri queria ser milionário e – veja só – o cara é tão bom que até falou em ajudar o meu filho. A ong do Limão me mostrou todas as pesquisas que eles fazem (que eu nem entendi) e eu pude ver o “amor” pela educação. Me ofereceram “ajuda” na minha (j)estão com pessoas a serem colocadas em alguns lugares ali no governo. Mas pode ser também por licitação de empresa para “consultoria na educação”. Me deixaram bem à vontade, até porque “dinheiro não é problema” disseram. Me prometeram “resultados” e com isso, imaginem só, minha carreira política vai decolar. Nosso primeiro passo foi REDUZIR a educação. Esse negócio de literatura, filosofia, sociologia, educação física, artes (vejam só! Artes ...) é muita coisa. É muito gasto para Itapipoca e não prepara “para o mercado”. Reduzimos então para um currículo “enxuto”: português e matemática. Saber ler (e talvez até interpretar) e fazer conta. E olha que interessante, isso ajuda até na prova do IDEB que só tem – imaginem – português e matemática em provas objetivas. Claro que não posso demitir todos esses vagabundos da educação que ficam ensinando história, geografia e tal. O que eu fiz foi criar umas disciplinas para colocar essa gente como mão de obra barata. Vou criar “projeto de vida” e “projeto interdisciplinar” para essa gente ficar ali corrigindo prova, e ajudando no português. O que me importa, segundo a Fundação Limão, é a funcionalidade do conhecimento para o “uso prático” “na vida” dos alunos. Ainda assim, os alunos não aprenderam muito. Então a Fundação Limão me deu outras ideias. A primeira foi reorganizar os alunos nas escolas. Colocar turmas mais “homogêneas” com alunos com maior nota em uma turma e dar essas turmas a professores “melhores”. Essas dicas de (j)estão são fantásticas. Fui fazendo isso na surdina para não alertar os pais de que seus filhos passaram e ser “material de segunda linha” já que não contribuíam para o aumento da nota no IDEB. Professor que falava alguma coisa eu taxei de criminoso e comunista e joguei as famílias contra. Funcionou. Acabei com a oposição interna. Agora, de novo segundo a Fundação Limão, eu preciso INCENTIVAR os “bons professores”. Então eu criei um 14º, 15º salário a ser pago para eles CASO consigam aprovar os alunos, e caso eles forem bem nas provas do IDEB. Esses mortos de fome ganham 1700 reais por mês, e vão poder ganhar até 2500 se atingirem as metas. Não serão todos, mas sabem como é: “se um pode, qualquer um consegue”. Com a movimentação nas turmas e o “incentivo”, mais a redução do ensino eu consegui um aumento de 2 pontos na minha nota do IDEB. Isso levou Itapipoca da 37ª pior posição, para a 19. Uma melhora de 18 posições. Quase 100% de subida! A Fundação Limão me premiou e eu aumentei a colaboração com eles. Agora contratamos via prefeitura os materiais “on-line” deles e eu passei a dar “curso de atualização” para os professores com os profissionais indicados por eles. Tá todo mundo feliz. Meritocracia na veia, e – sabe como é – “dinheiro não é problema”. Tivemos duas alunas e um aluno que se destacaram. Inteligentíssimos. Indiquei para a Fundação. Já entraram em contato com as famílias. Uma vai ganhar para Harvard e a outra já está com ensino on-line, com os melhores professores da Limão, para preparação para a Olimpíada de astrofísica (que também é patrocinada pela fundação). Em breve estas duas alunas serão usadas como “case” de excelência. E os outros 998 alunos ... bom, serão ótimos trabalhadores, obedientes e capazes de seguir ordens. Poderão ter famílias felizes e, afinal, o que mais podem querer um bando de pobres coitados sem talento que tiveram o azar de nascer nesse mundo tão competitivo? Em quatro anos eu criei uma legião de mentes dóceis, submetidos às coisas do mundo e sem preocuparem-se em mudar nada. Itapipoca segue aqui no mesmo lugar, não temos universidade e a região não se desenvolve muito. Só o suficiente para poder ir comprando na Amazon e clicando no Twitter. As votações aqui passaram a ser todas no nosso partido. A direita manda. Ninguém questiona, trabalha! Outro dia surgiu aqui uma fake news que pegou a cidade toda, mas era a nosso favor. Garantidos estão os votos da cidade para o projeto político da direita pelos próximos 30 anos. Garantida a manutenção da ordem internacional na hierarquia dos conhecimentos. Até o ano que vem, vamos fazer um curso de programação em Php para os alunos aqui na cidade. Vai ser um estouro. Claro que o resto do mundo já fala em inteligência artificial, mas o que mais querem esses coitados de Itapipoca? Com os prêmios que recebi da Fundação Limão, minha carreira decolou. Agora fui projetado para secretário nacional. A mesma fórmula: (j)estores da Limão, redução educacional, incentivo financeiro para poucos professores, material on-line deles, e tudo isso agora embalado em “escolha seu itinerário” e “educação do século XXI”. Esse pessoal da Limão é impressionante. As pessoas estão batendo palmas que agora seus filhos pode “escolher” o que querem estudar. Aqui em Itapipoca eles podem escolher entre auxiliar de serviços gerais ou garçom. Bons garçons, aliás. Os melhores a gente envia para fazer o técnico em secretariado executivo bilíngue. O que importa é o “score” do IDEB e minha carreira. Tudo indo bem. Agora, quem poderia imaginar que eu seria convidado para fazer isso num governo de esquerda? Quem acreditaria? Pois é. É a rendição desses comunistas de sofá às nossas ideias. O mundo explicado como nós entendemos (trabalho, obediência, meritocracia) e eles batendo palmas para tudo. Antes eu trabalhava para uns que gritavam “mito”, agora para outros que gritam “não critique”. Mas tá tudo certo. Em quatro anos nada vai mudar (a não ser a notinha no IDEB), eles vão perder a eleição e a Fundação Limão – e eu – estaremos lá com o próximo governo. De direita. Eu espero. 

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista. 

https://www.brasil247.com/blog/fui-convidado-para-secretario-de-educacao

sábado, 7 de janeiro de 2023

O NOVO ENSINO MÉDIO PÓS-PANDÊMICO: Entre Cartas, Capitulações e Reformas ("O novo sempre despertou perplexidade e resistência." — Sigmund Freud)

 


O NOVO ENSINO MÉDIO PÓS-PANDÊMICO: Entre Cartas, Capitulações e Reformas ("O novo sempre despertou perplexidade e resistência." — Sigmund Freud)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

A cena se repete com a precisão de um ritual profano. Enquanto explico sintaxe — sujeito, predicado, concordância — o som seco das cartas batendo na carteira rasga o ar da sala. Truco. O baralho não surge como distração inocente; impõe-se como linguagem concorrente, manifesto silencioso contra o esforço intelectual. Não é apenas um jogo: é a recusa do tempo longo do pensamento, a busca por pertencimento imediato, o riso cúmplice que substitui o confronto com o saber.

Permiti o truco. Não por convicção pedagógica, mas por capitulação. A escola pública brasileira — sobretudo após a Lei nº 13.415/2017 e sua implementação errática nas redes estaduais — deixou o professor sem respaldo, sem autoridade simbólica, sem instrumentos reais de intervenção. Denunciar à coordenação raramente produz efeito; insistir, por vezes, produz risco. Entre a violência latente e o esvaziamento institucional, escolhe-se sobreviver. E é aí que reside o crime maior da reforma: não formar professores para ensinar, mas para resistir.

O chamado Novo Ensino Médio promete mil horas anuais, duzentos dias letivos, itinerários formativos e protagonismo juvenil. Na prática, ao menos nas escolas periféricas, entrega exaustão sem densidade, quantidade sem qualidade. Dados recentes de evasão e abandono — sobretudo no primeiro ano — indicam que ampliar a carga horária sem sentido pedagógico apenas prolonga o cansaço. O aluno entra às sete, sai ao meio-dia e aprende menos. O baralho, então, reaparece como anestesia coletiva. “Aluno cansado não aprende”, repete-se, como se o problema fosse fisiológico, e não político.

É preciso cautela: o estudante não é vilão. Ele é fruto de décadas de uma pedagogia neoliberal que o ensinou a se perceber como cliente, consumidor de aulas rápidas, fáceis e utilitárias. O jovem que joga truco enquanto o professor fala é também vítima de uma escola que desistiu de formá-lo. A tragédia, aqui, é compartilhada.

Se há saída, ela não virá da facilitação infinita nem da nostalgia autoritária. Virá da reconstrução da autoridade pedagógica como pacto social: uma escola exigente, um professor institucionalmente protegido, um currículo com sentido e um tempo que respeite o pensamento. Utopia? Talvez. Mas toda educação que não ousa imaginar outro horizonte já perdeu antes mesmo de distribuir as cartas.

https://www.youtube.com/watch?v=yJunMvIFtxI


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Olá! Como seu professor de Sociologia, vejo que este texto nos oferece um "raio-X" contundente sobre as crises de autoridade e sentido na escola contemporânea. Ele nos permite discutir conceitos como alienação, neoliberalismo na educação e a função social das instituições. Aqui estão 5 questões discursivas simples para pensarmos criticamente sobre essa realidade:


1. A Crise da Autoridade Simbólica, O texto menciona que o professor permitiu o jogo de cartas não por vontade própria, mas por "capitulação" e falta de "autoridade simbólica". Na visão sociológica, por que é perigoso para uma sociedade quando as instituições (como a escola) perdem sua autoridade e não conseguem mais estabelecer normas de convivência e respeito?

2. A Reforma e o "Professor Residente". O autor afirma que a reforma (Lei nº 13.415/2017) acabou por formar professores "não para ensinar, mas para resistir". Explique como o esvaziamento do respaldo institucional e a falta de condições de trabalho podem transformar a profissão docente em uma atividade de sobrevivência em vez de uma prática educativa.

3. O Aluno como Consumidor e a Pedagogia Neoliberal. O texto sugere que o estudante foi ensinado a se perceber como um "cliente" de aulas rápidas e utilitárias. Como essa lógica neoliberal (que trata a educação como um serviço comercial) altera a relação entre professor e aluno e a forma como o jovem encara o esforço necessário para aprender?

4. O Baralho como "Anestesia" e a Evasão Escolar. A análise aponta que o baralho surge como uma "anestesia coletiva" diante de uma carga horária exaustiva e sem sentido. Relacione o aumento da quantidade de horas na escola com os dados de evasão e abandono escolar citados: por que mais tempo na escola nem sempre significa mais aprendizado ou melhor socialização?

5. A Reconstrução da Escola como Pacto Social. Ao final, o autor defende uma escola "exigente e institucionalmente protegida". Do ponto de vista da sociologia da educação, por que a "facilitação infinita" do ensino (tornar tudo fácil e sem cobrança) pode acabar prejudicando justamente os alunos das classes mais pobres em vez de ajudá-los?

Dica do Professor:

Reparem que o texto não culpa o aluno nem o professor isoladamente. Ele foca no sistema. Ao responder, tente observar como as leis e as pressões políticas (como a reforma do ensino) criam comportamentos dentro da sala de aula que fogem ao controle de quem está lá dentro.

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