A BÊNÇÃO DA MALDIÇÃO ("A desilusão de agora será bênção depois." — Chico Xavier)
Por Claudeci Ferreira de Andrade
No velho normal — aquele que insistem em chamar de passado superado — era desse jeito: eu, professor de Filosofia e bacharel em Teologia, não podia falar de religião em sala porque a escola pública era laica. Assim diziam. E eu respeitava. Só que, veja bem, bastava eu tocar em qualquer tema que tangenciasse ética, metafísica ou moral, e lá vinha um aluno brandindo a Bíblia como espada. Não pra somar à aula, não pra dialogar — mas pra defender as doutrinas da sua igreja, como se estivesse num púlpito improvisado. E a turma? Aplaudia. Pronto: a aula já era. Virava culto.
Passei muito por isso. O curioso — ou trágico — é que eu não defendia religião nenhuma, nem frequentava igreja. Ainda assim, eles se sentiam superiores. Sabiam mais do céu, das hierarquias celestes e das obrigações cristãs do que o professor de Filosofia — o velho “quadrado”. E eu me perguntava, quase em silêncio: por que justamente esses eram os piores alunos? Bastava olhar as notas, o comportamento, a postura. E por que estavam sempre prontos a ferir alguém em nome de Deus, defendendo um fanatismo estéril, desses que fazem barulho, mas não produzem fruto?
Ah, como sofri tentando fazê-los pensar! Eu só queria que questionassem o que acreditavam, que debatessem para renovar o entendimento. Agia como parteiro de ideias — uma espécie de Sócrates das almas inquietas. Mas não era simples. Quando um rapaz citava o Apóstolo Paulo e sua restrição às mulheres pregadoras, surgiam protestos inflamados. E eu, numa imprudência quase acadêmica, mencionei que "Lilith" pecou por não aceitar a autoridade de Deus e de Adão. Pronto. Mais denúncias. Mais reuniões com o diretor. Mais uma mancha na reputação.
E apoio? Quase nenhum. Nem da maioria da classe, nem das coordenadoras — evangélicas também. Ficava só, entre o giz e o abismo.
Às vezes, penso — com ironia, claro — que o coronavírus foi o “design” divino para arejar o ambiente. Afastar os “vírus” humanos. Professores, contaminados, vacinados, reinfectados, parecem ter desenvolvido uma espécie de amnésia seletiva: esqueceram as ofensas, ou fingem que esqueceram. A internet, essa sim, devorou a escola. O novo aluno só valoriza o que pisca na tela. O resto? Poeira de quadro-negro.
E assim brindamos ao “Novo Normal”: cheio de pedagogos sem pedagogia, discursos sem profundidade e salas cheias… de ausência.
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Fala, pessoal! Aqui é o professor de Sociologia. O texto que acabamos de ler é um desabafo forte sobre os desafios de ensinar em um mundo onde as certezas religiosas muitas vezes batem de frente com o pensamento crítico. Ele nos faz pensar sobre o papel da escola, a laicidade do Estado e como as novas tecnologias mudaram a nossa forma de aprender. Para a nossa aula, preparei 5 questões discursivas para a gente analisar esses "conflitos de mundo" com o olhar da Sociologia. Vamos lá:
1 Estado Laico vs. Intolerância: O autor menciona que, embora a escola pública seja laica, os alunos frequentemente transformavam a aula em "culto" para defender doutrinas específicas. Explique, do ponto de vista sociológico, qual é a importância da laicidade para que diferentes pensamentos possam conviver no mesmo espaço sem que um grupo domine o outro.
2 Dogmatismo e Pensamento Crítico: O texto descreve alunos que "sabiam mais do céu" do que o professor, mas apresentavam dificuldades no desempenho escolar e no diálogo. Como o dogmatismo (aceitar verdades sem questionar) pode se tornar um obstáculo para a construção do conhecimento científico e filosófico dentro da sala de aula?
3 Papéis Sociais e Autoridade: O professor se descreve como um "parteiro de ideias" (referência a Sócrates), mas enfrenta resistência até das coordenadoras. Como a hierarquia escolar e a autoridade do professor são afetadas quando crenças pessoais e religiosas dos funcionários e alunos se sobrepõem ao projeto pedagógico da escola?
4 O "Novo Normal" e a Tecnologia: O autor afirma que "a internet devorou a escola" e que o aluno só valoriza o que "pisca na tela". De que maneira a mediação tecnológica alterou a interação social entre professores e alunos, e por que isso pode gerar o que o texto chama de "salas cheias de ausência"?
5 Cultura e Identidade: Ao citar figuras como o Apóstolo Paulo ou Lilith, o professor gera conflitos de interpretação moral. Como a identidade cultural e religiosa dos alunos influencia a forma como eles recebem conteúdos que questionam seus valores tradicionais? É possível educar sem entrar em conflito com esses valores?
Dica do Prof: Ao responder, pensem nas situações que vocês já viram na escola. A Sociologia não quer dizer o que é "certo" ou "errado" na fé de cada um, mas sim entender como essas crenças impactam a vida em sociedade e o ambiente onde todos deveriam aprender a pensar por conta própria.
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