Ensaio I(15) Entre os Ímpios e os Santos: A Tensão dos Cristãos na Sociedade Contemporânea
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Provérbios 4:14 adverte: "Não entres pela vereda dos ímpios, nem andes no caminho dos maus." É um versículo direto, honesto, e não há motivo para suavizar sua força. Ele existe, pesa sobre a consciência e foi escrito por alguém que conhecia o poder de sedução que certos caminhos exercem sobre quem ainda está aprendendo a caminhar. A sabedoria que carrega continua tão necessária hoje quanto no dia em que foi registrada.
O problema não está no texto, mas na forma como, muitas vezes, passamos a lê-lo. Ao longo dos séculos, uma determinada interpretação foi além daquilo que o provérbio realmente afirma. Dessa leitura nasceu um tipo de cristão que se sente mais seguro atrás dos muros do que diante das pessoas; alguém que confunde separação do pecado com rejeição do pecador e transforma a santidade numa espécie de isolamento espiritual. É justamente esse equívoco que este ensaio pretende examinar. E não com dureza, mas com compreensão, porque ele costuma nascer menos da arrogância e mais do receio sincero de se perder pelo caminho.
Tudo começa quando esquecemos quem somos antes de decidir onde devemos estar. Paulo não deixa margem para ilusões: "Todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus" (Rm 3:23). Da mesma forma, lembra que ninguém é salvo pelas próprias obras nem pela pureza do ambiente em que vive (Ef 2:8-9). Quando um cristão se afasta do pecador por acreditar, ainda que silenciosamente, ser superior a ele, perde algo muito mais precioso do que a contaminação que imaginava evitar. Perde a consciência da própria graça. E, quando essa consciência desaparece, o testemunho deixa de ser serviço e passa a ser exibição. Mas, a exibição impressiona por um instante; dificilmente transforma alguém.
Jesus seguiu um caminho completamente diferente. Chamaram-no de "amigo dos publicanos e pecadores" (Mt 11:19). A expressão não veio dos seus admiradores, mas dos seus acusadores. Ainda assim, ela descreve com precisão sua maneira de viver. Ele não fugiu do mundo; entrou nele. Não evitou os marginalizados; foi ao encontro deles. Não fechou os olhos para o pecado; enfrentou-o com verdade e graça. Não condenou simplesmente quem havia caído; ofereceu perdão e chamou cada pessoa a uma nova vida. Cada uma dessas escolhas teve um preço. Custou-lhe reputação, incompreensão e a oposição dos líderes religiosos de sua época. Mas, foi exatamente esse preço que tornou sua presença profundamente transformadora, em vez de apenas decorativa.
Paulo compreendeu essa mesma lógica e a levou às últimas consequências. Tornou-se fraco com os fracos, livre entre os livres, tudo para todos, para que, por todos os meios, pudesse salvar alguns (1Co 9:19-23). Não era oportunismo, tampouco relativismo. Era encarnação. Era a disposição de entrar no universo do outro sem abandonar a própria identidade. Afinal, a missão do evangelho nunca foi a autopreservação; sempre foi o resgate.
E resgatar exige presença. Sal que permanece no saleiro conserva apenas a si mesmo. Luz escondida por medo da escuridão não ilumina sequer o próprio caminho. Quando Jesus declarou: "Vocês são o sal da terra... vocês são a luz do mundo" (Mt 5:13-14), não estava distribuindo privilégios espirituais, mas confiando uma responsabilidade. Sal e luz só cumprem sua vocação quando entram em contato com aquilo que precisam transformar.
Por isso, não podemos cruzar os braços diante das injustiças que estruturam a vida de tantos. Não podemos silenciar enquanto mentiras se vestem de verdade e afastam pessoas de Deus. Também não podemos nos acostumar com as corrupções que, silenciosamente, apodrecem tanto as instituições quanto os corações humanos. O chamado cristão é outro. Somos enviados para sermos agentes de transformação, de beleza, de reconciliação e de restauração. Somos testemunhas de uma esperança que não se fecha em si mesma, mas transborda em direção ao próximo.
C.S. Lewis sintetizou essa verdade de forma admirável: "O cristão não pensa que Deus nos amará porque somos bons; mas que Deus nos fará bons porque ele nos ama" (Mere Christianity, HarperCollins, 2002). Essa inversão muda completamente a perspectiva. Se a bondade é fruto do amor de Deus, e não o requisito para recebê-lo, então o cristão não vive tentando proteger um mérito que jamais teve. Vive oferecendo, aos outros, a mesma graça que primeiro o alcançou.
Evitar os ímpios como estratégia de santidade pode parecer prudência, mas, no fundo, revela uma confiança pequena demais na graça. É agir como se a presença de Deus em nós fosse frágil, incapaz de resistir ao contato com quem ainda não a conhece. Mas, a graça que depende da distância para sobreviver não é a graça revelada nas Escrituras. É apenas uma espiritualidade confortável, incapaz de sair da própria bolha.
O chamado de Cristo é mais exigente — e, justamente por isso, mais belo. É permanecer no mundo sem assumir sua forma; conservar a identidade sem levantar barreiras; cultivar a santidade sem abandonar a compaixão. É aprender a enxergar pessoas onde tantos enxergam apenas rótulos, histórias onde outros veem estatísticas, possibilidades de redenção onde muitos decretam fracasso. Afinal, é nessa tensão, e não na falsa segurança dos muros, que o cristão encontra o verdadeiro lugar da sua vocação e revela, ao mundo, a beleza do evangelho.






