"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

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MINHAS PÉROLAS

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Do Truco ao Tiro: Crônica de uma Autoridade em Ruínas “A violência é o último refúgio dos incapazes.” — Isaac Asimov

 Crônica 


Do Truco ao Tiro: Crônica de uma Autoridade em Ruínas “A violência é o último refúgio dos incapazes.” — Isaac Asimov

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Há inquietações que não gritam; insistem. Caminham ao nosso lado, silenciosas, até o momento em que já não podem ser ignoradas. Uma delas me acompanha há tempos. Não nasce do sensacionalismo, mas da repetição — esse martelo invisível que, golpe após golpe, vai rachando o que ainda chamamos de normalidade.

Recentemente, soube de um pai baleado pelo próprio filho. Cinquenta e seis anos. Interior de Goiás, na cidade de Rio Verde. O jovem, de vinte, disse sem hesitar: o tiro foi um erro — queria atingir o irmão. O que me perturbou não foi apenas a tragédia, mas sua banalidade. Não houve manifesto, não houve ódio declarado, não houve drama épico. Apenas uma briga doméstica, um pedido para que jovens se retirassem da casa, uma frustração mínima… e o colapso.

O cenário parecia trivial: noite qualquer, amigos jogando truco, risadas, cartas sobre a mesa. O pai pede que saiam. Nada além do que qualquer figura de contenção faria. Mas a contenção falhou. Ou melhor: foi desautorizada. O jovem reagiu não com palavras, mas com armas. Muitas. Carabinas, pistola, revólver. Todas legalizadas. O pai era CAC — Caçador, Atirador e Colecionador. Parei ali. Respirei. Tentei entender quando naturalizamos a ideia de que uma casa precisa parecer um quartel para se sentir segura.

Vivemos armando lares sob o pretexto da defesa, mas esquecemos de perguntar contra quem, exatamente, nos defendemos. As armas, quase sempre, não se voltam contra invasores abstratos, mas contra os corpos mais próximos: pais, irmãos, filhos. A militarização doméstica não produz segurança; produz tensão. E tensão, cedo ou tarde, dispara.

Enquanto isso, minha mente saltou — como sempre salta — para a escola.

Na sala de aula, o ritual é outro, mas a lógica se repete. Alunos jogam truco durante a explicação. Cartas batem na mesa com mais autoridade do que qualquer palavra docente. Quando intervenho, não raramente sou acusado: racista, homofóbico, machista. Às vezes, a acusação é pura estratégia — uma arma retórica para paralisar, intimidar, inverter papéis. Outras vezes — e aqui é preciso honestidade intelectual — pode ser um espelho incômodo, revelando vieses que exigem autocrítica.

É fundamental distinguir: há acusações instrumentais, usadas como escudo contra qualquer limite; e há críticas legítimas, que pedem revisão ética da prática docente. Negar a segunda empobrece o debate. Aceitar a primeira como regra destrói a escola. Confundir ambas é a receita perfeita para o caos.

O problema não é o conflito. O problema é a recusa em nomeá-lo. A escola transformou-se num espaço onde autoridade virou sinônimo automático de opressão, e cuidado foi reduzido a permissividade. Mas educar nunca foi deixar fazer tudo; sempre foi ensinar até onde ir. Limite não é violência. Violência é a ausência de limite quando ela abandona os mais frágeis à lei do mais ruidoso.

Lembro-me então de Asimov. A violência como último refúgio dos incapazes ganha nova leitura: ela também emerge quando os capazes desistem. Quando o pai é silenciado, quando o professor é desautorizado, quando a sociedade chama de “rigidez” qualquer tentativa de ordem, o vazio se instala. E o vazio nunca permanece vazio por muito tempo.

Não sou professor-herói, tampouco vítima. Sou testemunha. Testemunha de um naufrágio lento, em que família, escola e Estado empurram responsabilidades uns aos outros enquanto crianças e jovens aprendem, na prática, que gritar "truco" vence, acusar paralisa e armar-se resolve.

Mas não basta narrar o colapso. É preciso, ainda que com mãos trêmulas, esboçar caminhos.

Valorizar a verdadeira educação significa devolver legitimidade ao professor sem transformá-lo em tirano; formar para o conflito ético, não para o silêncio performático; ensinar que autoridade pode coexistir com escuta, e que cuidado exige, às vezes, dizer não. Significa também desarmar — literal e simbolicamente — os lares, reumanizar a escola e aceitar que preconceitos estruturais existem, mas não podem ser usados como salvo-conduto para a indisciplina crônica.

Talvez seja utópico. Talvez chegue tarde. Ainda assim, é necessário.

Porque entre o truco na sala de aula e o tiro no quintal de casa existe uma linha contínua de negligências normalizadas. E se não tivermos coragem de interrompê-la, não restará sequer a pergunta retórica sobre o futuro de nossos filhos — restará apenas o silêncio pesado de quem já sabe a resposta.


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Como seu professor de Sociologia, convido vocês a mergulharem nesta crônica potente. O autor nos provoca a pensar sobre como as nossas casas e as nossas escolas estão conectadas por fios invisíveis de comportamento e normas sociais. Para a nossa aula de hoje, vamos analisar o texto sob a ótica das instituições sociais (família e escola) e dos mecanismos de controle e autoridade. Aqui estão 5 questões discursivas para guiá-los nessa reflexão:


1. A Instituição Familiar e a Militarização do Lar. O autor menciona que armamos as casas sob o pretexto da segurança, mas que isso gera "tensão" em vez de proteção. Questão: Do ponto de vista sociológico, como a presença de armas dentro de casa altera as relações de autoridade e afeto entre os membros da família? Por que o texto sugere que a "militarização doméstica" pode ser um sintoma de insegurança social em vez de uma solução?

2. Autoridade Docente vs. Autoritarismo. O texto faz uma distinção importante: "autoridade virou sinônimo automático de opressão". Questão: Qual é a diferença entre autoridade legítima e autoritarismo dentro de uma sala de aula? Como a confusão entre esses dois conceitos pode dificultar o processo de aprendizagem e a convivência entre professores e alunos?

3. O Uso Político e Estratégico do Discurso. O autor afirma que, às vezes, acusações de racismo ou homofobia são usadas como "armas retóricas" para paralisar o professor. Questão: De acordo com o texto, como o uso indevido de pautas sociais legítimas para evitar limites disciplinares prejudica a própria luta contra os preconceitos reais na sociedade?

4. O "Vazio" e o Refúgio da Violência. Citando Asimov, o cronista sugere que a violência surge quando os "capazes desistem" e as figuras de contenção (pais e professores) são desautorizadas. Questão: Quando as instituições sociais (família e escola) deixam de estabelecer limites claros, que tipo de comportamento costuma ocupar esse "vazio"? Relacione sua resposta com a ideia de "lei do mais ruidoso".

5. A Continuidade das Negligências. O autor vê uma "linha contínua" entre o desrespeito na sala de aula (o jogo de truco) e a violência extrema (o tiro no quintal). Questão: Como a normalização de pequenos desrespeitos cotidianos pode contribuir para a banalização da violência em uma escala maior na sociedade? É possível resolver a violência social sem passar pela reestruturação da educação e do respeito mútuo?

Dica do Prof: Não procurem respostas prontas; usem a crônica como um espelho para observar a realidade ao redor de vocês. A sociologia serve para darmos nome aos processos que vivemos, mas que muitas vezes não percebemos.

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quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

O Diploma que Esperou 91 Anos ("O aprendizado é um tesouro que seguirá seu dono por toda parte; e, como as flores do caminho, é colhido em qualquer estação da vida." — Cora Coralina)

 

  • O Diploma que Esperou 91 Anos ("O aprendizado é um tesouro que seguirá seu dono por toda parte; e, como as flores do caminho, é colhido em qualquer estação da vida." — Cora Coralina)

    Por Claudeci Ferreira de Andrade

    Na vida, às vezes, um sonho não tem prazo de validade. O tempo é apenas um número, incapaz de limitar nossa capacidade de realização. A história de Iolanda Ribeiro Conti, aos 91 anos, comprova essa verdade ao demonstrar que a vontade de aprender transcende a idade.

    Em uma cerimônia memorável no auditório da Universidade Guarulhos, Iolanda, trajando beca e salto alto, carregava um buquê de flores enquanto subia ao palco. Seu sorriso radiante refletia a conquista de um sonho há muito aguardado: o diploma do ensino médio.

    Natural de Piranguçu, Minas Gerais, Iolanda iniciou sua jornada de trabalho aos oito anos na roça, dividindo-se entre o labor e o cuidado com os irmãos. Aos 11 anos, mudou-se para São Paulo sob a promessa de educação que se converteu em mais trabalho. Anos se passaram entre padarias, lavanderias e faxinas, mas o desejo de estudar permaneceu vivo em seu coração.

    Aos 85 anos, com o apoio da filha Vera Lúcia, fisioterapeuta, Iolanda viveu um momento histórico: escreveu seu próprio nome pela primeira vez. "Eu vi que minha mãe queria aprender mais. Ela estava presa na primeira série há anos, mas a sua vontade de crescer era incansável", relata Vera, emocionada.

    A matrícula no programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA) na Escola Estadual Padre Conrado Sivila marcou o início de uma nova fase. Nem chuva nem frio a impediam de comparecer às aulas. Após concluir o ensino fundamental, Iolanda alcançou em 2024, aos 91 anos, a formatura do ensino médio. "Chorei muito, porque vi que minha missão estava cumprida. Eu consegui evoluir, e agora ela também", compartilha Vera.

    Para Iolanda, no entanto, esta conquista é apenas mais um degrau. Seu próximo objetivo é cursar nutrição. "Querer é poder", afirma com determinação. Vera permanece ao seu lado, apoiando incondicionalmente: "Se for preciso, vou com ela. Ela merece. Esse sonho é dela."

    A trajetória de Iolanda nos ensina que a vida é um constante aprendizado. Sua perseverança questiona os limites que a sociedade impõe e nos faz refletir: estamos permitindo que o tempo defina nossos sonhos? Sua história prova que, quanto mais se vive, mais se aprende — e que a verdadeira idade está na força de vontade de continuar sonhando.


    1. Como o trabalho infantil impactou o acesso à educação na trajetória de Iolanda e como isso reflete a realidade social brasileira?


    2. De que forma o programa EJA representa uma política pública de inclusão social e qual sua importância para a democratização da educação?


    3. Que aspectos da desigualdade de gênero podem ser identificados na história de Iolanda, considerando sua trajetória de vida?


    4. Como a história de Iolanda questiona os estereótipos relacionados ao envelhecimento em nossa sociedade?


    5. Analise a relação entre educação e mobilidade social a partir da transformação pessoal vivida por Iolanda aos 91 anos.

    quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

    Natal sem Óculos: Enxergando com o Coração ("O importante não é o que nos acontece, mas o que fazemos com o que nos acontece." – Jean-Paul Sartre.)

     Crônica 



    Natal sem Óculos: Enxergando com o Coração ("O importante não é o que nos acontece, mas o que fazemos com o que nos acontece." – Jean-Paul Sartre.)

    Por Claudeci Ferreira de Andrade

    O Natal chegou novamente. A noite, adornada com brilho e sons, parecia conspirar contra o descanso. Do lado de fora, o estrondo dos fogos de artifício anunciava a euforia de muitos, enquanto, do lado de dentro, minha mente revivia o passado, como quem folheia um álbum empoeirado, mas com fotos desfocadas. Era como se, ao longo do ano, eu tivesse perdido os óculos que me ajudavam a enxergar o sentido das coisas. Tudo estava fora de foco.

    Entre os ecos de risadas e explosões, fui levado a uma reflexão inevitável. A vida, pensei, é como um caminho de areia movediça: cada passo nos afunda um pouco, mas também nos desafia a encontrar firmeza onde parecia não haver. Os grãos de areia, tão pequenos e insignificantes, representam nossas dificuldades. Carreguei muitas este ano. Resolvi algumas, outras não. O fato é que continuo aqui, caminhando. Talvez essa seja a única verdade que importa.

    Lembrei-me de Antonio Montes e de sua enigmática chama. Ele dizia que essa chama podia tanto aquecer quanto queimar. Não é a própria vida assim? Um jogo entre luz e sombra, calor e cinzas. Em muitos momentos, deixei-me levar pelo calor do momento, permitindo que emoções passageiras apagassem o lume da razão. Pagamos caro por isso, não? Mas hoje, em meio às luzes do Natal, prometi a mim mesmo que aprenderia a usar essa chama com sabedoria. Em vez de me consumir, quero que ela ilumine.

    Às vezes, a reflexão encontra resistência na própria simplicidade do cotidiano. “Rapaz, para de viajar!”, ouvi certa vez de um amigo. “Natal é pra comer, rir e esquecer os problemas por um dia.” Talvez ele estivesse certo. Talvez eu precise mesmo rir mais, mas como ignorar o peso do que carrego? Não se trata de ficar preso ao passado, mas de transformar o desamparo em lição.

    Se 2024 foi um ano de areia pesada, que 2025 seja o da reconstrução. Quero andar mais leve, não porque os grãos desapareceram, mas porque aprendi a carregá-los de outra maneira. Quero que essa chama que me chama me guie, mas sem me queimar. E, ao fim de tudo, espero poder dizer que, mesmo sem os óculos do entendimento claro, tive coragem de continuar enxergando com o coração.

    O Natal, afinal, é isso: uma pausa na estrada, uma chance de olhar para os grãos de areia com novos olhos e perceber que, apesar de tudo, o caminho segue. E nós seguimos com ele, guiados por uma luz que, se soubermos cuidar, não se apagará.

    Como professor de sociologia do Ensino Médio, elaborei 5 questões discursivas sobre o texto apresentado, buscando abranger os principais temas sociológicos presentes:

    1. O texto descreve o Natal como um momento de reflexão individual em contraste com a euforia coletiva expressa pelos fogos de artifício. Como a sociologia analisa a relação entre o indivíduo e a sociedade em momentos de celebração coletiva, e como essa relação se manifesta no contexto do Natal?

    2. A metáfora do "caminho de areia movediça" é utilizada para representar a vida e suas dificuldades. De que forma essa metáfora se relaciona com os conceitos sociológicos de mobilidade social, desigualdade e as diferentes trajetórias de vida dentro de uma sociedade?

    3. O autor menciona a importância de transformar o "desamparo em lição". Como a sociologia aborda os processos de socialização e aprendizado social, e de que maneira as experiências de dificuldade e superação contribuem para a formação da identidade individual e coletiva?

    4. O texto apresenta um diálogo imaginário com um amigo que critica a postura reflexiva do autor, defendendo a celebração e o esquecimento dos problemas. Como a sociologia analisa as diferentes formas de lidar com as dificuldades sociais, e como essas diferentes perspectivas se manifestam no contexto cultural do Natal?

    5. A conclusão do texto enfatiza a importância da "luz interior" e da continuidade da caminhada. De que forma essa mensagem se relaciona com os conceitos sociológicos de resiliência, construção de sentido e a busca por projetos de vida em um contexto social complexo?

    terça-feira, 24 de dezembro de 2024

    Monólogos com a Lua ("A verdade é como o Sol. Ela permite-nos ver tudo, mas não deixa que a olhemos." — Victor Hugo)

     Crônica  


    Monólogos com a Lua ("A verdade é como o Sol. Ela permite-nos ver tudo, mas não deixa que a olhemos." — Victor Hugo)

    Por Claudeci Ferreira de Andrade

    Sou um observador incorrigível do céu noturno. Dias atrás, enquanto a superlua banhava a cidade com seu brilho extraordinário, senti-me mais lunar do que nunca. Hoje, um mês depois, mesmo com a lua em sua forma comum, ela ainda me chama, me convida para uma dança silenciosa de contemplação.

    Em minhas divagações noturnas, transformo a lua em confidente. Faço dela um cofre celestial onde guardo meus segredos mais íntimos, minhas saudades mais profundas. É lá, em seu vasto território prateado, que busco rostos familiares e vozes amigas que o tempo levou consigo.

    Como um arqueólogo de memórias, vasculho suas crateras em busca de sinais daqueles que partiram. Procuro, em seus reflexos, um aceno; nas suas sombras, um sussurro que me diga que eles encontraram paz em algum lugar além das estrelas. Mas o silêncio lunar apenas ecoa minhas próprias inquietações.

    Lembro-me dos versos de Manuel Bandeira sobre aquela estrela distante e fria, brilhando solitária no crepúsculo. Como ele, também me pergunto: por que os astros que mais desejamos sempre parecem inalcançáveis? A lua, antes suficiente, agora me parece apenas um degrau para algo maior.

    Entre ser lunar e lunático, escolho a primeira opção. Prefiro ser o sol dos meus dias particulares, transformando a realidade com a mesma magia que o luar transforma a noite. Afinal, como descobri em minhas contemplações, só consegue verdadeiramente dialogar com a lua quem carrega o sol no coração.

    E foi assim, numa dessas noites de devaneio, que ouvi a voz do próprio sol ecoando das profundezas do meu ser, ciumento de minha admiração lunar. Compreendi então que cada astro tem seu momento de brilhar, sua hora de iluminar nossos caminhos.

    Agora, enquanto escrevo sob o testemunho silencioso da lua, percebo que minha verdadeira busca não é por estrelas distantes ou luas superlativas. É pela luz interior que nos permite enxergar beleza mesmo nas noites mais escuras.

    Se um dia eu for coroado rei dos meus próprios sonhos, não precisarei de estrelas em minha coroa. Bastará ter mantido acesa a chama da esperança que aprendemos a cultivar nas conversas noturnas com a lua.

    Como professor de sociologia do Ensino Médio, proponho as seguintes questões discursivas sobre o texto apresentado:

    1. O autor descreve a Lua como um "cofre celestial" onde guarda seus segredos e saudades. De que forma essa metáfora revela a relação entre o indivíduo e o espaço, e como essa relação pode ser interpretada sob uma perspectiva sociológica?

    2. O texto menciona a busca por "rostos familiares e vozes amigas" na Lua, associando-a à memória e à perda. Como a sociologia compreende a importância da memória social e dos laços afetivos na construção da identidade individual e coletiva?

    3. A referência ao poema de Manuel Bandeira e a pergunta sobre a inacessibilidade dos astros desejados estabelecem uma reflexão sobre a distância entre o ideal e o real. De que maneira essa temática se relaciona com os conceitos sociológicos de utopia, alienação e frustração social?

    4. O autor afirma escolher ser o "sol dos seus dias particulares", em contraposição à ideia de ser "lunático". Analise essa escolha à luz da sociologia, considerando as noções de individualismo, protagonismo social e a busca por sentido na vida contemporânea.

    5. A conclusão do texto destaca a importância da "luz interior" e da esperança cultivada nas "conversas noturnas com a lua". Como essa ideia se conecta com a dimensão simbólica da cultura e a capacidade humana de ressignificar a realidade social?

    segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

    O Futuro em Duas Vias: Telas ou Olhares? ("A tecnologia é só uma ferramenta. No que se refere a motivar as crianças e conseguir que trabalhem juntas, um professor é um recurso mais importante." — Bill Gates)

     

  • O Futuro em Duas Vias: Telas ou Olhares? ("A tecnologia é só uma ferramenta. No que se refere a motivar as crianças e conseguir que trabalhem juntas, um professor é um recurso mais importante." — Bill Gates)

    A manhã se abriu diante de mim com o jornal digital repleto de duas notícias que pareciam sussurrar sobre o futuro da educação, um futuro ainda em construção, dividido entre o brilho frio das telas e o calor dos olhares. De um lado, o Arizona, com sua ousadia tecnológica, inaugurava uma escola onde a inteligência artificial assumiria o papel de mestre, guiando alunos do quarto ao oitavo ano em jornadas de aprendizado personalizadas. Do outro, Leopoldina, uma cidade mineira que imagino pacata e aconchegante, decretava a proibição de celulares nas salas de aula, um retorno deliberado ao analógico, ao encontro face a face.

    A notícia da Unbound Academy, com seus softwares e algoritmos prometendo uma evolução 2,6 vezes mais rápida e um desempenho 6,5 vezes superior, me remeteu a um episódio singelo, mas profundamente significativo. Lembrei-me de Maria, uma aluna do quinto ano, com seus cabelos cacheados e um sorriso que iluminava a sala. Certa vez, após acertar uma sequência complexa de exercícios de matemática no tablet, ela me olhou com uma expressão melancólica e disse: "Professor, o tablet não me abraça quando acerto a conta". A frase, simples e direta, ecoa em minha mente até hoje, como um lembrete constante da importância do toque humano, do afeto, na educação.

    Enquanto a IA no Arizona analisava respostas e oferecia "dicas emocionais" – uma expressão que me soa quase como um oxímoro –, imaginei Maria buscando o meu olhar, um sorriso de aprovação, um gesto de carinho. Pensei nos momentos em que, juntos, superamos dificuldades, nas dúvidas compartilhadas, nas conquistas celebradas com entusiasmo. Será que um algoritmo, por mais sofisticado que seja, seria capaz de proporcionar o mesmo?

    Em Leopoldina, a decisão do prefeito soava como um contraponto necessário a essa onda tecnológica. A proibição dos celulares em sala de aula não me pareceu uma atitude retrógrada, mas sim um gesto de resistência em defesa de um aprendizado mais humano, mais conectado com o presente. Acredito que a tecnologia, quando utilizada sem critério, pode se tornar uma distração constante, um obstáculo à concentração e à interação entre alunos e professores.

    Entre a promessa de um futuro automatizado e a busca por um retorno às origens, me encontro refletindo sobre o papel da educação em nossa sociedade. Acredito que a tecnologia pode ser uma aliada valiosa, oferecendo recursos inovadores e personalizados. No entanto, ela jamais poderá substituir o professor, o mediador do conhecimento, o guia que acompanha os alunos em sua jornada de aprendizado. A educação é, antes de tudo, um encontro humano, um ato de amor e de partilha. E esse encontro, essa troca, esse afeto, não podem ser traduzidos em linhas de código.

    Que possamos encontrar um equilíbrio entre o brilho das telas e o brilho dos olhares, para que a educação continue sendo um farol a iluminar o futuro da humanidade.

    Como um professor de sociologia do Ensino Médio, elaborei 5 questões discursivas sobre o texto apresentado:

    1. O texto contrapõe duas realidades educacionais distintas: uma escola no Arizona que utiliza inteligência artificial e uma cidade em Minas Gerais que proíbe o uso de celulares em sala de aula. Explique como essas duas abordagens representam diferentes concepções sobre o papel da tecnologia na educação.

    2. A narrativa menciona a frase de uma aluna: "Professor, o tablet não me abraça quando acerto a conta". Analise o significado dessa frase no contexto da discussão sobre a humanização do ensino e a presença do afeto na relação entre professor e aluno.

    3. O autor questiona se um algoritmo, por mais sofisticado que seja, seria capaz de proporcionar as mesmas experiências de aprendizado que um professor. Discuta os limites da tecnologia na substituição do papel do professor como mediador do conhecimento e facilitador da interação humana.

    4. A decisão da cidade de Leopoldina de proibir celulares em sala de aula é apresentada como um "retorno ao analógico". Avalie os possíveis impactos dessa medida no processo de ensino-aprendizagem, considerando tanto os aspectos positivos quanto os negativos.

    5. O texto conclui com a ideia de que a educação é, antes de tudo, um "encontro humano, um ato de amor e de partilha". De que maneira essa concepção se relaciona com os desafios e as possibilidades da educação na era digital?