"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

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MINHAS PÉROLAS

domingo, 29 de dezembro de 2024

Lições de Truco: Memórias de um Professor Resiliente ("O professor medíocre conta. O bom professor explica. O professor superior demonstra. O grande professor inspira." — William Arthur Ward)

 Crônica 


Lições de Truco: Memórias de um Professor Resiliente ("O professor medíocre conta. O bom professor explica. O professor superior demonstra. O grande professor inspira." — William Arthur Ward)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Outro dia, enquanto explicava a importância dos verbos irregulares, vi-me fazendo malabarismos com o giz numa mão e gesticulando energicamente com a outra, tal qual um maestro tentando reger uma orquestra desafinada. Na sala 616, o cenário era previsível: João dobrava aviõezinhos de papel, Maria postava selfies no Instagram, e um grupo ao fundo transformava a aula de português em um animado campeonato de truco.

Duas décadas de magistério não me prepararam para essa metamorfose da educação. Se antes me dedicava à transmissão do conhecimento, hoje me tornei especialista em gestão de crises. Meu doutorado em Literatura converteu-se em um curso intensivo de negociação com adolescentes que transformam cada aula num festival de variedades.

"Professor, só mais uma partidinha!", implora Pedro, suas cartas mal escondidas sob o caderno. Respiro fundo, recordando as palavras de Montapert sobre respeito e valores. Como, porém, falar de valores quando a própria sala de aula se tornou palco de resistência ao aprendizado?

A cada tentativa de manter a ordem, equilibro-me na corda bamba do sistema educacional. De um lado, o compromisso com o conteúdo programático; do outro, uma geração aparentemente alérgica a qualquer estímulo que não brilhe numa tela de celular.

Ontem, durante uma explicação sobre Machado de Assis, tive uma epifania: não estamos apenas perdendo a batalha contra a indisciplina - perdemos a guerra pela atenção e pelo interesse genuíno no conhecimento. Enquanto me equilibro entre educador e entertainer, vejo o verdadeiro propósito da educação escorrendo por entre os dedos como grãos de areia.

Talvez, reflito ao contemplar as carteiras vazias após o sinal, a verdadeira lição não resida nos livros didáticos. Encontra-se na persistência diária de semear conhecimento em solo cada vez mais árido. Afinal, ser professor hoje transcende o ensino de conteúdo - é uma luta para manter acesa a chama da curiosidade num mundo onde o instantâneo e o superficial reinam absolutos.

E amanhã? Bem, retornarei com meu giz e minha esperança teimosa, pois ainda acredito que, em algum momento, entre uma partida de truco e outra, redescobriremos juntos o valor transformador da educação.


1. Como as mudanças tecnológicas e comportamentais das últimas décadas têm impactado a relação entre professor e aluno no ambiente escolar?


2. De que maneira a valorização do imediatismo e do entretenimento pela sociedade contemporânea afeta o processo de ensino-aprendizagem?


3. Analise criticamente como a transformação do papel do professor - de transmissor de conhecimento para gestor de crises - reflete mudanças sociais mais amplas em nossa sociedade.


4. Em que medida a resistência ao aprendizado observada em sala de aula pode ser considerada um reflexo de valores sociais contemporâneos?


5. Como o conflito entre o compromisso com o conteúdo programático e as novas demandas comportamentais dos alunos representa um desafio para o sistema educacional brasileiro?

O "Doutorado" da Indisciplina ("A mente não é um vaso para ser preenchido, mas um fogo para ser aceso." — Plutarco)

 Crônica 






O "Doutorado" da Indisciplina ("A mente não é um vaso para ser preenchido, mas um fogo para ser aceso." — Plutarco)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

O cheiro do pincel marcador de quadro branco pairava no ar, misturado àquele aroma indefinível de início de ano letivo. As carteiras ainda arranhadas pelos ânimos do ano anterior, o quadro branco aguardando as primeiras anotações. A sala de aula, palco de tantos encontros e desencontros, me recebia mais uma vez. Mas, dessa vez, algo parecia diferente. Não era a ansiedade costumeira, nem a expectativa de reencontrar os rostos conhecidos. Era uma sensação de cansaço prévio, um peso nos ombros que não vinha das pilhas de cadernos a corrigir.

Lembrei-me de um comentário ouvido na padaria, enquanto tomava meu café da manhã: “Ô, Cifa, cê tá ligado que o bagulho tá feio, né? Se fosse pra eles aprenderem, já tinha rolado.” A voz grave do padeiro ecoava em meus ouvidos, misturada ao barulho da rua. Era a voz do povo, a sabedoria das ruas, crua e direta. Ele continuava, entre uma fornada e outra: “O professor tem que se virar num circo de palhaçada só pra manter os ‘foliões’ na linha. Os alunos não querem nem saber de estudar, o negócio é bagunçar e atrapalhar. A aula? Só uma desculpa pra se divertir, enquanto o mestre só tenta controlar a bagunça, o que é mais complicado que achar Wi-Fi de graça hoje em dia.”

Aquelas palavras, embora carregadas de um certo exagero, ressoavam com uma verdade incômoda. A cada ano, parecia que me tornava menos professor e mais um equilibrista, tentando manter a ordem em um picadeiro improvisado. O tempo que deveria ser dedicado à partilha do conhecimento, à construção do pensamento crítico, se esvaía em meio a chamados de atenção, conversas paralelas e celulares acesos. O mestre, outrora um guia, via-se obrigado a se “doutorar em negar objeções de alunos foliões”, como eu mesmo havia pensado.

A imagem era forte: um doutorado em lidar com a indisciplina. Um título que não constava em nenhum currículo, mas que se impunha na prática diária. A cada interrupção, a cada comentário fora de hora, um grão de areia a mais na balança do desgaste. A verdadeira aprendizagem, aquela que nutre a alma e expande os horizontes, ficava relegada a segundo plano, sufocada pelo barulho da algazarra.

Lembrei-me então de uma frase de Alfred Montapert: “Nem todos podem tirar um curso superior. Mas, todos podem ter respeito, alta escala de valores e as qualidades de espírito que são a verdadeira riqueza de qualquer pessoa.” A frase me tocou profundamente. Não se tratava apenas de transmitir conteúdos programáticos, mas de cultivar valores, de despertar o respeito mútuo, de plantar sementes que germinariam para além dos muros da escola.

Enquanto observava os alunos entrarem na sala, com seus fones de ouvido e conversas animadas, respirei fundo. O desafio era grande, mas não impossível. Talvez, pensei, a verdadeira doutrinação não fosse em negar objeções, mas em encontrar novas formas de conectar aqueles jovens com o saber, de transformar o picadeiro em um espaço de diálogo e construção. O ano letivo começava, e com ele a esperança de que, entre o barulho e a bagunça, pudéssemos encontrar juntos o caminho para a verdadeira aprendizagem. Que a labuta diária não nos roubasse a chama da esperança em dias melhores.


Como professor de sociologia do Ensino Médio, elaborei 5 questões discursivas sobre o texto apresentado, buscando explorar os principais temas sociológicos presentes:


1. O texto descreve o professor como um "equilibrista em um picadeiro improvisado". De que forma essa metáfora se relaciona com o conceito sociológico de trabalho alienado, considerando a perda do controle sobre o próprio trabalho e o desgaste profissional?


2. A fala do padeiro traz uma visão popular sobre a educação e o papel do professor. Como a sociologia analisa as representações sociais sobre a escola e os educadores, e de que maneira essas representações influenciam as práticas pedagógicas e as relações entre professores e alunos?


3. O texto aborda a dificuldade de manter a ordem e o foco dos alunos em sala de aula, mencionando o uso de celulares e conversas paralelas. Como a sociologia explica o fenômeno da indisciplina escolar, considerando fatores como as transformações sociais, as novas tecnologias e as mudanças nos valores culturais?


4. A frase de Alfred Montapert destaca a importância do respeito, dos valores e das qualidades de espírito. De que forma a sociologia compreende o papel da escola na socialização dos indivíduos e na transmissão de valores, e como esses valores se relacionam com a construção da cidadania?


5. O autor expressa a esperança de transformar o "picadeiro" em um espaço de diálogo e construção. Como a sociologia analisa o conceito de espaço social e de que maneira a organização do espaço escolar pode influenciar as interações entre os sujeitos e os processos de ensino e aprendizagem?



Entre Foliões e Saberes: A Luta Diária de um Professor ("Educar não é encher um balde, mas acender um fogo." — William Butler Yeats)

 Crônica 


Entre Foliões e Saberes: A Luta Diária de um Professor ("Educar não é encher um balde, mas acender um fogo." — William Butler Yeats)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Perco-me, muitas vezes, no labirinto da sala de aula. Em vez de ser o condutor de um aprendizado profundo e reflexivo, transformei-me em um mestre de malabares, equilibrando não apenas o conteúdo, mas também a disciplina, a atenção, a motivação e, claro, a paciência. O que deveria ser um espaço de troca de saberes, onde as ideias fluem e o espírito crítico se afia, se converteu em uma arena, onde o verdadeiro aprendizado fica ofuscado pelo caos do desinteresse e da indisciplina.

Era uma manhã comum, e o sino soou. Os alunos começaram a chegar, trazendo com eles um burburinho de vozes, risadas e telefonemas que interrompiam qualquer expectativa de tranquilidade. Eles, os foliões, a turma que parece se preparar para o carnaval da vida, mais interessados em deixar o tempo passar do que em aproveitá-lo de maneira construtiva. Como sempre, o ritual de tentar acalmar os ânimos começou. O quadro, que deveria ser o palco de palavras que iluminam mentes, transformou-se em um espaço onde eu me via usando as palavras para calar, corrigir e punir. Tudo isso antes mesmo de poder discutir um único conceito. E, à medida que o tempo passava, a sensação de estar falando para paredes de distração se intensificava.

No início, quando a indisciplina ainda era novidade, tentei, com a pureza da ingenuidade, buscar uma conexão, um fio de empatia que me ligasse a eles. Quem sabe, com isso, os olhos começassem a brilhar, ao menos por um momento? Mas, como o professor bem sabe, as intenções nem sempre chegam ao coração dos alunos da forma como imaginamos. O que eu sentia como um chamado para o aprendizado acabou se transformando em um eco: uma repetição sem fim das mesmas interrupções, do mesmo movimento de ignorância sobre o que estava sendo dito. Naquele ponto, a educação parecia mais um campo de batalha entre minha necessidade de ensinar e a resistência deles em aprender.

Eu me perguntava: o que está acontecendo? Onde está a educação que nós, professores, tanto buscamos oferecer? Onde ficou a inquietude saudável do aprender? O que aconteceu com o brilho nos olhos, com as perguntas e os desafios? Não, no lugar disso, o que vejo são máscaras de foliões, sempre prontos para mais uma piada, uma risada, uma distração. Eu só queria ser ouvido, entender o que se passava nas mentes daqueles jovens. Mas, ao invés de respostas, surgiam os ecos do desinteresse, os ritmos da rebeldia sem causa. O ensino transformou-se em um processo árido, um esforço sem fim para controlar, para disciplinar.

Lembro-me de um dia particularmente exaustivo. Eu falava sobre a importância do autoconhecimento, sobre o respeito à diversidade de ideias, enquanto, ao fundo, a sala se afundava em um turbilhão de risos e conversas sem sentido. Em algum momento, já sem fôlego, exclamei: "Isso aqui não é um circo! Estamos falando de uma construção intelectual!" Mas minhas palavras se perderam na confusão. Não havia mais como conciliar o desejo de ensinar com a realidade que se impunha diante de mim.

O que eu via ali era uma educação que parecia ter perdido o rumo. Porém, talvez o que eu estivesse diante fosse, na verdade, uma sociedade que perdeu o interesse genuíno pelo saber, pela reflexão. As escolas se tornaram, muitas vezes, campos de batalha, onde a luta por atenção é mais árdua do que qualquer aula que eu pudesse dar. E o que me resta, então, é tentar manter os poucos alunos que ainda buscam se conectar, aqueles que ainda tentam entender o mundo de forma profunda, enquanto enfrento o grande muro da indisciplina e da falta de interesse.

Em momentos de reflexão, lembro-me de uma citação que me guia em dias difíceis: "Nem todos podem tirar um curso superior, mas todos podem ter respeito, alta escala de valores e as qualidades de espírito que são a verdadeira riqueza de qualquer pessoa." Essas palavras, de Alfred Montapert, talvez sejam o único consolo que encontro em momentos de desânimo. A educação é mais do que apenas transmitir conhecimento. Ela é, antes de tudo, uma questão de valores. E, mesmo diante de tanto desinteresse, continuo a acreditar que, um dia, esses valores irão despertar nos corações dos jovens.

Agora, ao olhar para o futuro, percebo que o desafio de ser professor vai muito além da sala de aula. Ser professor é ser resiliente, é lutar pelo que acreditamos, mesmo quando o terreno parece ruir. No fim, o que importa é não desistir. Porque, enquanto houver um aluno disposto a ouvir, um pequeno espaço para o aprendizado, sempre haverá esperança. E isso é, de fato, o que me mantém firme.

1. Como o autor descreve a mudança de seu papel na sala de aula ao longo do tempo?

2. O que o texto sugere sobre a relação entre os alunos e a educação nos tempos atuais?

3. Qual é o impacto da indisciplina e do desinteresse dos alunos no processo de ensino-aprendizagem, segundo o autor?

4. De que forma a citação de Alfred Montapert reflete a visão do autor sobre a educação e os valores essenciais para o aprendizado?

5. O que significa ser resiliente na profissão de professor, de acordo com o texto, e por que isso é importante?

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Do Truco ao Tiro: Crônica de uma Autoridade em Ruínas “A violência é o último refúgio dos incapazes.” — Isaac Asimov

 Crônica 


Do Truco ao Tiro: Crônica de uma Autoridade em Ruínas “A violência é o último refúgio dos incapazes.” — Isaac Asimov

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Há inquietações que não gritam; insistem. Caminham ao nosso lado, silenciosas, até o momento em que já não podem ser ignoradas. Uma delas me acompanha há tempos. Não nasce do sensacionalismo, mas da repetição — esse martelo invisível que, golpe após golpe, vai rachando o que ainda chamamos de normalidade.

Recentemente, soube de um pai baleado pelo próprio filho. Cinquenta e seis anos. Interior de Goiás, na cidade de Rio Verde. O jovem, de vinte, disse sem hesitar: o tiro foi um erro — queria atingir o irmão. O que me perturbou não foi apenas a tragédia, mas sua banalidade. Não houve manifesto, não houve ódio declarado, não houve drama épico. Apenas uma briga doméstica, um pedido para que jovens se retirassem da casa, uma frustração mínima… e o colapso.

O cenário parecia trivial: noite qualquer, amigos jogando truco, risadas, cartas sobre a mesa. O pai pede que saiam. Nada além do que qualquer figura de contenção faria. Mas a contenção falhou. Ou melhor: foi desautorizada. O jovem reagiu não com palavras, mas com armas. Muitas. Carabinas, pistola, revólver. Todas legalizadas. O pai era CAC — Caçador, Atirador e Colecionador. Parei ali. Respirei. Tentei entender quando naturalizamos a ideia de que uma casa precisa parecer um quartel para se sentir segura.

Vivemos armando lares sob o pretexto da defesa, mas esquecemos de perguntar contra quem, exatamente, nos defendemos. As armas, quase sempre, não se voltam contra invasores abstratos, mas contra os corpos mais próximos: pais, irmãos, filhos. A militarização doméstica não produz segurança; produz tensão. E tensão, cedo ou tarde, dispara.

Enquanto isso, minha mente saltou — como sempre salta — para a escola.

Na sala de aula, o ritual é outro, mas a lógica se repete. Alunos jogam truco durante a explicação. Cartas batem na mesa com mais autoridade do que qualquer palavra docente. Quando intervenho, não raramente sou acusado: racista, homofóbico, machista. Às vezes, a acusação é pura estratégia — uma arma retórica para paralisar, intimidar, inverter papéis. Outras vezes — e aqui é preciso honestidade intelectual — pode ser um espelho incômodo, revelando vieses que exigem autocrítica.

É fundamental distinguir: há acusações instrumentais, usadas como escudo contra qualquer limite; e há críticas legítimas, que pedem revisão ética da prática docente. Negar a segunda empobrece o debate. Aceitar a primeira como regra destrói a escola. Confundir ambas é a receita perfeita para o caos.

O problema não é o conflito. O problema é a recusa em nomeá-lo. A escola transformou-se num espaço onde autoridade virou sinônimo automático de opressão, e cuidado foi reduzido a permissividade. Mas educar nunca foi deixar fazer tudo; sempre foi ensinar até onde ir. Limite não é violência. Violência é a ausência de limite quando ela abandona os mais frágeis à lei do mais ruidoso.

Lembro-me então de Asimov. A violência como último refúgio dos incapazes ganha nova leitura: ela também emerge quando os capazes desistem. Quando o pai é silenciado, quando o professor é desautorizado, quando a sociedade chama de “rigidez” qualquer tentativa de ordem, o vazio se instala. E o vazio nunca permanece vazio por muito tempo.

Não sou professor-herói, tampouco vítima. Sou testemunha. Testemunha de um naufrágio lento, em que família, escola e Estado empurram responsabilidades uns aos outros enquanto crianças e jovens aprendem, na prática, que gritar "truco" vence, acusar paralisa e armar-se resolve.

Mas não basta narrar o colapso. É preciso, ainda que com mãos trêmulas, esboçar caminhos.

Valorizar a verdadeira educação significa devolver legitimidade ao professor sem transformá-lo em tirano; formar para o conflito ético, não para o silêncio performático; ensinar que autoridade pode coexistir com escuta, e que cuidado exige, às vezes, dizer não. Significa também desarmar — literal e simbolicamente — os lares, reumanizar a escola e aceitar que preconceitos estruturais existem, mas não podem ser usados como salvo-conduto para a indisciplina crônica.

Talvez seja utópico. Talvez chegue tarde. Ainda assim, é necessário.

Porque entre o truco na sala de aula e o tiro no quintal de casa existe uma linha contínua de negligências normalizadas. E se não tivermos coragem de interrompê-la, não restará sequer a pergunta retórica sobre o futuro de nossos filhos — restará apenas o silêncio pesado de quem já sabe a resposta.


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Como seu professor de Sociologia, convido vocês a mergulharem nesta crônica potente. O autor nos provoca a pensar sobre como as nossas casas e as nossas escolas estão conectadas por fios invisíveis de comportamento e normas sociais. Para a nossa aula de hoje, vamos analisar o texto sob a ótica das instituições sociais (família e escola) e dos mecanismos de controle e autoridade. Aqui estão 5 questões discursivas para guiá-los nessa reflexão:


1. A Instituição Familiar e a Militarização do Lar. O autor menciona que armamos as casas sob o pretexto da segurança, mas que isso gera "tensão" em vez de proteção. Questão: Do ponto de vista sociológico, como a presença de armas dentro de casa altera as relações de autoridade e afeto entre os membros da família? Por que o texto sugere que a "militarização doméstica" pode ser um sintoma de insegurança social em vez de uma solução?

2. Autoridade Docente vs. Autoritarismo. O texto faz uma distinção importante: "autoridade virou sinônimo automático de opressão". Questão: Qual é a diferença entre autoridade legítima e autoritarismo dentro de uma sala de aula? Como a confusão entre esses dois conceitos pode dificultar o processo de aprendizagem e a convivência entre professores e alunos?

3. O Uso Político e Estratégico do Discurso. O autor afirma que, às vezes, acusações de racismo ou homofobia são usadas como "armas retóricas" para paralisar o professor. Questão: De acordo com o texto, como o uso indevido de pautas sociais legítimas para evitar limites disciplinares prejudica a própria luta contra os preconceitos reais na sociedade?

4. O "Vazio" e o Refúgio da Violência. Citando Asimov, o cronista sugere que a violência surge quando os "capazes desistem" e as figuras de contenção (pais e professores) são desautorizadas. Questão: Quando as instituições sociais (família e escola) deixam de estabelecer limites claros, que tipo de comportamento costuma ocupar esse "vazio"? Relacione sua resposta com a ideia de "lei do mais ruidoso".

5. A Continuidade das Negligências. O autor vê uma "linha contínua" entre o desrespeito na sala de aula (o jogo de truco) e a violência extrema (o tiro no quintal). Questão: Como a normalização de pequenos desrespeitos cotidianos pode contribuir para a banalização da violência em uma escala maior na sociedade? É possível resolver a violência social sem passar pela reestruturação da educação e do respeito mútuo?

Dica do Prof: Não procurem respostas prontas; usem a crônica como um espelho para observar a realidade ao redor de vocês. A sociologia serve para darmos nome aos processos que vivemos, mas que muitas vezes não percebemos.

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quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

O Diploma que Esperou 91 Anos ("O aprendizado é um tesouro que seguirá seu dono por toda parte; e, como as flores do caminho, é colhido em qualquer estação da vida." — Cora Coralina)

 

  • O Diploma que Esperou 91 Anos ("O aprendizado é um tesouro que seguirá seu dono por toda parte; e, como as flores do caminho, é colhido em qualquer estação da vida." — Cora Coralina)

    Por Claudeci Ferreira de Andrade

    Na vida, às vezes, um sonho não tem prazo de validade. O tempo é apenas um número, incapaz de limitar nossa capacidade de realização. A história de Iolanda Ribeiro Conti, aos 91 anos, comprova essa verdade ao demonstrar que a vontade de aprender transcende a idade.

    Em uma cerimônia memorável no auditório da Universidade Guarulhos, Iolanda, trajando beca e salto alto, carregava um buquê de flores enquanto subia ao palco. Seu sorriso radiante refletia a conquista de um sonho há muito aguardado: o diploma do ensino médio.

    Natural de Piranguçu, Minas Gerais, Iolanda iniciou sua jornada de trabalho aos oito anos na roça, dividindo-se entre o labor e o cuidado com os irmãos. Aos 11 anos, mudou-se para São Paulo sob a promessa de educação que se converteu em mais trabalho. Anos se passaram entre padarias, lavanderias e faxinas, mas o desejo de estudar permaneceu vivo em seu coração.

    Aos 85 anos, com o apoio da filha Vera Lúcia, fisioterapeuta, Iolanda viveu um momento histórico: escreveu seu próprio nome pela primeira vez. "Eu vi que minha mãe queria aprender mais. Ela estava presa na primeira série há anos, mas a sua vontade de crescer era incansável", relata Vera, emocionada.

    A matrícula no programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA) na Escola Estadual Padre Conrado Sivila marcou o início de uma nova fase. Nem chuva nem frio a impediam de comparecer às aulas. Após concluir o ensino fundamental, Iolanda alcançou em 2024, aos 91 anos, a formatura do ensino médio. "Chorei muito, porque vi que minha missão estava cumprida. Eu consegui evoluir, e agora ela também", compartilha Vera.

    Para Iolanda, no entanto, esta conquista é apenas mais um degrau. Seu próximo objetivo é cursar nutrição. "Querer é poder", afirma com determinação. Vera permanece ao seu lado, apoiando incondicionalmente: "Se for preciso, vou com ela. Ela merece. Esse sonho é dela."

    A trajetória de Iolanda nos ensina que a vida é um constante aprendizado. Sua perseverança questiona os limites que a sociedade impõe e nos faz refletir: estamos permitindo que o tempo defina nossos sonhos? Sua história prova que, quanto mais se vive, mais se aprende — e que a verdadeira idade está na força de vontade de continuar sonhando.


    1. Como o trabalho infantil impactou o acesso à educação na trajetória de Iolanda e como isso reflete a realidade social brasileira?


    2. De que forma o programa EJA representa uma política pública de inclusão social e qual sua importância para a democratização da educação?


    3. Que aspectos da desigualdade de gênero podem ser identificados na história de Iolanda, considerando sua trajetória de vida?


    4. Como a história de Iolanda questiona os estereótipos relacionados ao envelhecimento em nossa sociedade?


    5. Analise a relação entre educação e mobilidade social a partir da transformação pessoal vivida por Iolanda aos 91 anos.