Há inquietações que não gritam; insistem. Caminham ao nosso lado, silenciosas, até o momento em que já não podem ser ignoradas. Uma delas me acompanha há tempos. Não nasce do sensacionalismo, mas da repetição — esse martelo invisível que, golpe após golpe, vai rachando o que ainda chamamos de normalidade.
Recentemente, soube de um pai baleado pelo próprio filho. Cinquenta e seis anos. Interior de Goiás, na cidade de Rio Verde. O jovem, de vinte, disse sem hesitar: o tiro foi um erro — queria atingir o irmão. O que me perturbou não foi apenas a tragédia, mas sua banalidade. Não houve manifesto, não houve ódio declarado, não houve drama épico. Apenas uma briga doméstica, um pedido para que jovens se retirassem da casa, uma frustração mínima… e o colapso.
O cenário parecia trivial: noite qualquer, amigos jogando truco, risadas, cartas sobre a mesa. O pai pede que saiam. Nada além do que qualquer figura de contenção faria. Mas a contenção falhou. Ou melhor: foi desautorizada. O jovem reagiu não com palavras, mas com armas. Muitas. Carabinas, pistola, revólver. Todas legalizadas. O pai era CAC — Caçador, Atirador e Colecionador. Parei ali. Respirei. Tentei entender quando naturalizamos a ideia de que uma casa precisa parecer um quartel para se sentir segura.
Vivemos armando lares sob o pretexto da defesa, mas esquecemos de perguntar contra quem, exatamente, nos defendemos. As armas, quase sempre, não se voltam contra invasores abstratos, mas contra os corpos mais próximos: pais, irmãos, filhos. A militarização doméstica não produz segurança; produz tensão. E tensão, cedo ou tarde, dispara.
Enquanto isso, minha mente saltou — como sempre salta — para a escola.
Na sala de aula, o ritual é outro, mas a lógica se repete. Alunos jogam truco durante a explicação. Cartas batem na mesa com mais autoridade do que qualquer palavra docente. Quando intervenho, não raramente sou acusado: racista, homofóbico, machista. Às vezes, a acusação é pura estratégia — uma arma retórica para paralisar, intimidar, inverter papéis. Outras vezes — e aqui é preciso honestidade intelectual — pode ser um espelho incômodo, revelando vieses que exigem autocrítica.
É fundamental distinguir: há acusações instrumentais, usadas como escudo contra qualquer limite; e há críticas legítimas, que pedem revisão ética da prática docente. Negar a segunda empobrece o debate. Aceitar a primeira como regra destrói a escola. Confundir ambas é a receita perfeita para o caos.
O problema não é o conflito. O problema é a recusa em nomeá-lo. A escola transformou-se num espaço onde autoridade virou sinônimo automático de opressão, e cuidado foi reduzido a permissividade. Mas educar nunca foi deixar fazer tudo; sempre foi ensinar até onde ir. Limite não é violência. Violência é a ausência de limite quando ela abandona os mais frágeis à lei do mais ruidoso.
Lembro-me então de Asimov. A violência como último refúgio dos incapazes ganha nova leitura: ela também emerge quando os capazes desistem. Quando o pai é silenciado, quando o professor é desautorizado, quando a sociedade chama de “rigidez” qualquer tentativa de ordem, o vazio se instala. E o vazio nunca permanece vazio por muito tempo.
Não sou professor-herói, tampouco vítima. Sou testemunha. Testemunha de um naufrágio lento, em que família, escola e Estado empurram responsabilidades uns aos outros enquanto crianças e jovens aprendem, na prática, que gritar "truco" vence, acusar paralisa e armar-se resolve.
Mas não basta narrar o colapso. É preciso, ainda que com mãos trêmulas, esboçar caminhos.
Valorizar a verdadeira educação significa devolver legitimidade ao professor sem transformá-lo em tirano; formar para o conflito ético, não para o silêncio performático; ensinar que autoridade pode coexistir com escuta, e que cuidado exige, às vezes, dizer não. Significa também desarmar — literal e simbolicamente — os lares, reumanizar a escola e aceitar que preconceitos estruturais existem, mas não podem ser usados como salvo-conduto para a indisciplina crônica.
Talvez seja utópico. Talvez chegue tarde. Ainda assim, é necessário.
Porque entre o truco na sala de aula e o tiro no quintal de casa existe uma linha contínua de negligências normalizadas. E se não tivermos coragem de interrompê-la, não restará sequer a pergunta retórica sobre o futuro de nossos filhos — restará apenas o silêncio pesado de quem já sabe a resposta.
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Como seu professor de Sociologia, convido vocês a mergulharem nesta crônica potente. O autor nos provoca a pensar sobre como as nossas casas e as nossas escolas estão conectadas por fios invisíveis de comportamento e normas sociais. Para a nossa aula de hoje, vamos analisar o texto sob a ótica das instituições sociais (família e escola) e dos mecanismos de controle e autoridade. Aqui estão 5 questões discursivas para guiá-los nessa reflexão:
1. A Instituição Familiar e a Militarização do Lar. O autor menciona que armamos as casas sob o pretexto da segurança, mas que isso gera "tensão" em vez de proteção. Questão: Do ponto de vista sociológico, como a presença de armas dentro de casa altera as relações de autoridade e afeto entre os membros da família? Por que o texto sugere que a "militarização doméstica" pode ser um sintoma de insegurança social em vez de uma solução?
2. Autoridade Docente vs. Autoritarismo. O texto faz uma distinção importante: "autoridade virou sinônimo automático de opressão". Questão: Qual é a diferença entre autoridade legítima e autoritarismo dentro de uma sala de aula? Como a confusão entre esses dois conceitos pode dificultar o processo de aprendizagem e a convivência entre professores e alunos?
3. O Uso Político e Estratégico do Discurso. O autor afirma que, às vezes, acusações de racismo ou homofobia são usadas como "armas retóricas" para paralisar o professor. Questão: De acordo com o texto, como o uso indevido de pautas sociais legítimas para evitar limites disciplinares prejudica a própria luta contra os preconceitos reais na sociedade?
4. O "Vazio" e o Refúgio da Violência. Citando Asimov, o cronista sugere que a violência surge quando os "capazes desistem" e as figuras de contenção (pais e professores) são desautorizadas. Questão: Quando as instituições sociais (família e escola) deixam de estabelecer limites claros, que tipo de comportamento costuma ocupar esse "vazio"? Relacione sua resposta com a ideia de "lei do mais ruidoso".
5. A Continuidade das Negligências. O autor vê uma "linha contínua" entre o desrespeito na sala de aula (o jogo de truco) e a violência extrema (o tiro no quintal). Questão: Como a normalização de pequenos desrespeitos cotidianos pode contribuir para a banalização da violência em uma escala maior na sociedade? É possível resolver a violência social sem passar pela reestruturação da educação e do respeito mútuo?
Dica do Prof: Não procurem respostas prontas; usem a crônica como um espelho para observar a realidade ao redor de vocês. A sociologia serve para darmos nome aos processos que vivemos, mas que muitas vezes não percebemos.