"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

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MINHAS PÉROLAS

sábado, 15 de novembro de 2025

COLEÇÃO 79 ("Uma coletânea de pensamentos é uma farmácia moral onde se encontram remédios para todos os males." — Voltaire)

 


COLEÇÃO 79 ("Uma coletânea de pensamentos é uma farmácia moral onde se encontram remédios para todos os males." — Voltaire)

Por Claudeci Andrade


1 A burocracia, ao submeter o indivíduo à rigidez impessoal das normas, converte o tempo e o julgamento em engrenagens previsíveis, onde a esperança é silenciada pelo dever que mantém a máquina em movimento.

2 O limbo administrativo expõe a falha burocrática que, incapaz de concluir o rito que reconhece o indivíduo, o aprisiona numa zona cinzenta onde o status se perde e a própria existência vacila entre a espera e o desamparo.

3 A desigualdade institucional revela-se quando a burocracia transforma o tempo em privilégio seletivo, submetendo o servidor à lentidão que nega reconhecimento e segurança, enquanto outros avançam sob prazos que o Estado lhes recusa.

4 Quando o Estado transforma o silêncio em norma e impõe atrasos que contrariam a própria lei, o poder deixa de ser autoridade legítima e se converte em injustiça institucional que corrói a confiança dos que deveria servir.

5 Quando o cidadão precisa acionar a Justiça para obrigar o Estado a cumprir o mínimo, a burocracia revela sua falência: torna-se um fim em si, desgastando quem deveria amparar e evidenciando a desumanização da própria instituição.

6 Os olhares que julgam revelam o controle social informal: espelhos da moral coletiva que, ao detectar o desvio, exercem a silenciosa coerção que obriga o indivíduo a retornar ao papel que a comunidade lhe impõe.

7 Quando a lei promete o que a realidade não sustenta, a política pública se torna ficção: nasce o conflito entre o ideal e o possível, e a confiança no Estado se dissolve no abismo entre o direito escrito e o direito vivido.

8 O pertencimento nasce quando a diferença deixa de ser peso e se torna parte natural do coletivo, permitindo ao indivíduo existir sem estigma e reconhecer em si mesmo um lugar legítimo no mundo.

9 Quando a inclusão é imposta sem recursos nem consenso, ela deixa de combater o preconceito e passa a revelar o conflito: cada grupo defende seu espaço, e a escola expõe a luta silenciosa entre o ideal proclamado e o poder que resiste a realizá-lo.

10 Quando a inclusão existe só no papel, ela se converte em exclusão disfarçada: admite o indivíduo pela lei, mas o abandona na prática, legitimando a desigualdade sob a aparência de justiça.

11 Quando a burocracia obriga o professor a falar para o sistema e não para o aluno, a avaliação deixa de comunicar a verdade e passa a proteger quem a escreve, sacrificando a autonomia em nome de um papel que desumaniza o ensino.

12 Quando a escola exige do professor o papel de técnico, psicólogo e herói, cria um conflito impossível: amplia funções sem dar respaldo, e transforma a vocação em desgaste, porque nenhuma identidade resiste ao peso de tantos papéis acumulados.

13 Quando o silêncio vira defesa, o professor se preserva, mas a escola adoece: cala-se o indivíduo e perpetua-se o sistema, porque o que não é dito sustenta a ilusão de uma ordem que só existe para manter o próprio fracasso.

14 O estereótipo de que o professor “trabalha pouco” reduz um labor complexo ao que se vê de fora, deslegitimando a docência e alimentando um ciclo de desvalorização que desgasta quem ensina e afasta quem poderia ensinar.

15 Quando os pais desautorizam o professor, quebram o pacto que sustenta a escola: o aluno perde o rumo, o saber perde valor, e a autoridade pedagógica se dissolve num conflito que torna o ensinar quase impossível.

16 Quando o professor precisa se sustentar em malabarismos, a precarização transforma a docência em exaustão, e o ensino perde vigor nas mãos de quem já gastou sua força apenas para sobreviver.

17 Quando a sociedade exalta a educação, mas paga pouco a quem ensina, revela a contradição que sustenta a desigualdade: o discurso enobrece o professor, mas o salário o rebaixa, impedindo que a dignidade acompanhe a importância que se proclama.

18 Quando o aluno vê que até quem estudou mal paga a própria luz, aprende que a escola promete ascensão que o salário do professor desmente, e a fé na educação se desfaz no choque entre mérito e miséria.

19 Uma educação digna só nasce quando Estado e sociedade se unem para tirar o professor da penumbra da sobrevivência, fazendo da valorização docente não um discurso, mas a base real de qualquer projeto de justiça social.

20 Quando a dignidade é negada ao professor, a missão se esvazia: sem respeito, condições e reconhecimento, a educação perde sua força de elevar a sociedade que dela depende.

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

A Aposentadoria que Nunca Chega (“A burocracia é o modo que o Estado encontrou de transformar a ineficiência em sistema.” — Max Weber)

 



A Aposentadoria que Nunca Chega (“A burocracia é o modo que o Estado encontrou de transformar a ineficiência em sistema.” — Max Weber)


Por Claudeci Ferreira de Andrade

Há dias em que a burocracia, essa entidade fria e impessoal, parece sentar-se à nossa mesa, bebericar um café morno e nos observar com ar de deboche. É um tempo que não se mede pelos ponteiros, mas pela altura da pilha de papéis. Foi assim que me senti — e sei que tantos colegas partilharam desse sentimento — quando protocolei o tão esperado pedido de aposentadoria. Na minha ingenuidade, acreditei que bastaria preencher formulários, anexar comprovantes, reunir certidões. Que ilusão! Descobri, tarde demais, que o relógio do serviço público não anda: ele rasteja, movido por uma preguiça institucional que parece zombar da esperança.

De repente, passei a habitar um limbo administrativo — um purgatório sem nome, onde eu já não era inteiramente ativo, mas tampouco reconhecido como inativo. Fiquei suspenso no tempo, como um servidor dependurado num cabide de espera, assistindo a vida profissional ser colocada em modo de espera. O protocolo fora entregue, a caneta esgotara sua tinta na última assinatura, todos os requisitos estavam cumpridos… e, mesmo assim, o silêncio era a única resposta.

Os meses começaram a se empilhar como folhas esquecidas sobre a mesa de um chefe distraído. Cada manhã trazia o mesmo ritual: abrir o diário oficial, conferir o portal do servidor, e encontrar o mesmo vazio ensurdecedor. Descobri então, entre os sussurros dos corredores e as confidências dos mais antigos, que a espera não se contava em meses, mas em anos. O mais revoltante era saber que o Superior Tribunal de Justiça já havia decidido: quando a administração demora injustificadamente mais de um ano, nasce o direito à indenização. Uma fagulha de justiça, pequena demais diante de quem foi forçado a adiar a própria vida, servindo sem compensação real — sustentado apenas por um “abono de permanência” que, convenhamos, não compra a dignidade de quem já deu o melhor de si.

Recordo-me das conversas no cafezinho, onde a indignação já se misturava ao cansaço. Colegas exaustos comentavam que, em certos tribunais, sessenta dias era o prazo “razoável” para uma resposta. Sessenta dias! Depois disso, dizia-se, o atraso se tornava injustificável. Mas a realidade é uma engrenagem de desculpas: se o servidor esquece um documento, a culpa é dele; se o órgão demora meses para liberar uma Certidão de Tempo de Contribuição, a culpa se dissolve no ar, como se a omissão fosse natural.

Em Goiás, o prazo tácito virou um ano — e o silêncio virou norma. Só quando bem entendem nos chamam, não para anunciar o deferimento, mas para atualizar documentos, reiniciando a via-crúcis. O Professor, exausto, é forçado a continuar a labuta, num regime quase escravo, apenas para vencer a inércia da burocracia que o empurra de volta à estaca zero. E ninguém, absolutamente ninguém, fala em indenização pelo tempo de vida roubado.

É um contraste cruel com o Regime Geral da Previdência, onde o trabalhador comum recebe os atrasados retroativos à data do requerimento. Nós, servidores da Educação, ficamos à mercê da lentidão institucional, como se o relógio público tivesse o direito de brincar com nossas horas, nossos planos e nossos sonhos.

Ouvi histórias que me atravessaram a alma. Colegas que, após um ano e meio de espera, morreram sem experimentar o primeiro dia da aposentadoria. Outros, menos resignados, tiveram de impetrar mandados de segurança apenas para que o Estado lesse o próprio pedido. Eis a ironia: lutar judicialmente não para ganhar um benefício, mas apenas para ser ouvido!

“Enquanto esperava que o tempo passasse, percebi que era ele quem me esperava.” — Fernando Pessoa.


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Como professor de Sociologia, vejo neste texto uma excelente oportunidade para analisarmos as instituições, a burocracia e as relações de poder em nosso cotidiano. O drama da aposentadoria é um reflexo claro de como a máquina administrativa pode exercer controle sobre a vida e o tempo dos indivíduos. Preparei 5 questões discursivas simples, focadas nos conceitos sociológicos que emergem da experiência narrada no texto.


Questão 1: Burocracia e Relação de Poder

O texto descreve a burocracia como uma "entidade fria e impessoal" que zomba da esperança do indivíduo.

Segundo a perspectiva sociológica de Max Weber sobre burocracia, explique como a impessoalidade e a rigidez das regras (o "rastejar" do processo) se transformam em uma forma de poder e controle sobre o servidor, roubando seu tempo e autonomia.

Questão 2: O Conceito de "Limbo Administrativo"

O autor usa a expressão "limbo administrativo" para descrever o estado de ser "não inteiramente ativo, mas tampouco reconhecido como inativo."

Analise este "limbo" como uma falha da instituição social. Quais são as consequências emocionais e sociais para o indivíduo que, apesar de ter cumprido todos os requisitos, é mantido em um estado de indefinição pelo sistema?

Questão 3: Desigualdade Institucional e Tempo

O texto contrasta o Regime Geral de Previdência (trabalhador comum) com a situação dos servidores da Educação, afirmando que estes últimos ficam "à mercê da lentidão institucional."

Identifique o tipo de desigualdade (ou privilégio de classe/categoria) que é denunciado nessa comparação. Como o tempo de espera se torna um fator que diferencia e prejudica especificamente o servidor público, de acordo com o autor?

Questão 4: Legitimidade e Norma Tácita

O autor menciona que, em Goiás, o prazo de espera de um ano virou uma "norma" ou "lei" tácita, embora a jurisprudência estabeleça prazos menores para indenização.

Defina o conceito sociológico de legitimidade. Por que a manutenção de uma prática injusta e demorada ("silêncio virou norma"), mesmo contrariando decisões superiores, sugere um exercício de poder deslegitimado por parte da administração pública?

Questão 5: A Ironia da Luta Judicial

O texto destaca a ironia de o servidor ter de "impetrar mandados de segurança apenas para que o Estado lesse o próprio pedido."

Discuta como a necessidade de recorrer ao Poder Judiciário apenas para forçar a administração a cumprir seu dever básico (analisar o pedido) revela uma crise de eficiência e a desumanização das instituições públicas.

terça-feira, 23 de setembro de 2025

O Silêncio Forçado do Docente ("A maior covardia de uma sociedade é deixar que a voz do oprimido seja abafada." — Martin Luther King Jr.)

 



O Silêncio Forçado do Docente ("A maior covardia de uma sociedade é deixar que a voz do oprimido seja abafada." — Martin Luther King Jr.)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

O professor não pode falar a verdade sobre o comportamento de uma criança, pois corre o risco de ser mal interpretado, julgado ou até processado em um parecer descritivo. Imagine um docente diante da tarefa de descrever um aluno inquieto: sabe que a criança não é “desobediente”, mas que precisa de atenção e apoio emocional. Ao tentar registrar isso no papel, porém, se perde em rodeios, trocando a clareza pela sutileza, como quem escreve com medo de acender um pavio invisível. A verdade se encolhe entre adjetivos amenos, porque uma palavra mal colocada pode se transformar em munição contra quem apenas quis ajudar.

Ao escrever, precisa escolher “palavras aceitáveis”, pois, se disser a verdade de forma direta, os pais podem não gostar — e, então, crucificá-lo. Muitas vezes, o professor enxerga que a criança necessita de apoio emocional, mas não pode declarar isso com todas as letras, já que qualquer observação pode soar como acusação. Ele ouve gritos, críticas e exigências, mas, se levanta a voz, é tachado de despreparado. Cobra-se que ensine valores, mas não há respaldo quando os pais não colaboram ou, pior, desautorizam seu trabalho.

Entre regras, protocolos e burocracias, o professor precisa lidar com dezenas de alunos que carregam realidades distintas. E, no fim, ainda escuta que “trabalha pouco” e “tem férias demais” — palavras de quem nunca entrou em uma sala de aula lotada e desconhece o peso de sustentar o dia a dia da educação.

É nesse ponto que a contradição se revela com mais crueldade: cobra-se do professor que seja psicólogo, conselheiro e herói, mas nega-se a ele o direito de dizer o óbvio. Como nomear o bullying sem ser acusado de exagero? Como alertar sobre a negligência sem ser tachado de ofensivo? O silêncio imposto, que deveria proteger, apenas adoece e isola. Talvez seja hora de inverter o jogo: oferecer aos pais e à sociedade oficinas de escuta, espaços de diálogo real, onde a palavra do professor não seja sentença, mas ponte. Enquanto isso não acontece, a verdade permanece refém — dita às escondidas, engasgada nos corredores.

Essas são as verdades silenciosas da vida docente, aquelas que quase ninguém sabe — ou prefere não saber. Porque, no fundo, o professor não pode falar a verdade.


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O texto que lemos nos provoca a pensar sobre as complexidades da vida docente para além do que vemos em sala de aula. Ele nos mostra um professor que se sente silenciado e desautorizado, enfrentando desafios que vão além do conteúdo a ser ensinado. Para a nossa aula, preparei 5 questões que nos ajudarão a analisar esse cenário de um ponto de vista sociológico.


1. A Burocracia e a Perda de Autonomia: O autor sugere que o professor, ao escrever um parecer descritivo, se perde em "rodeios" para não correr o risco de ser processado. De que forma as regras e burocracias de uma instituição (a escola, neste caso) podem limitar a autonomia do profissional e influenciar a forma como ele age e se comunica?

2. A Contradição do Papel Social: O texto afirma que se espera que o professor seja "psicólogo, conselheiro e herói". Como a sociologia explica essa acumulação de papéis? Por que essa multiplicidade de funções, somada à falta de respaldo, pode gerar um conflito de papéis e levar à frustração profissional?

3. O Silêncio como Estratégia de Sobrevivência: O autor descreve o silêncio como uma estratégia de defesa do professor. Analise como esse silenciamento imposto não apenas protege o profissional de conflitos, mas também pode isolá-lo e impedir que os problemas reais dos alunos e da escola sejam resolvidos de forma aberta e eficaz.

4. A Desvalorização do Trabalho: O texto cita a percepção popular de que o professor "trabalha pouco" e "tem férias demais". Discuta como essa visão estereotipada reflete uma desvalorização da profissão na nossa sociedade. Quais as consequências desse tipo de julgamento para o trabalho diário e a motivação dos educadores?

5. A Relação Família-Escola: A crônica aponta para um cenário em que os pais "desautorizam" o trabalho do professor. De que maneira essa falta de colaboração entre a família e a escola impacta o desenvolvimento do aluno e o processo de ensino-aprendizagem?

domingo, 14 de setembro de 2025

A falsa promessa da inclusão ("A inclusão só é verdadeira quando o lugar do outro, com a sua diferença, não é apenas tolerado, mas desejado." — Marcelo Gleiser)



 

A falsa promessa da inclusão ("A inclusão só é verdadeira quando o lugar do outro, com a sua diferença, não é apenas tolerado, mas desejado." — Marcelo Gleiser)

Por Claudeci Ferreia de Andrade

           Sempre que me manifesto contra a chamada educação inclusiva, percebo os olhares de reprovação se voltarem para mim. A frase soa estranha e até cruel, como se eu fosse contra o acolhimento e a solidariedade, mas não é isso. O que me incomoda não é a ideia de inclusão, e sim o modo como essa política foi imposta sem ouvir quem vivia a realidade do dia a dia.




           Lembro-me de um vídeo em que um pai de Porto Alegre relata a experiência de sua filha em uma escola especial. Ele atravessava a cidade todos os dias para levá-la a esse refúgio, no bairro Intercap. Lá, a filha, que tem a síndrome de Williams, era respeitada e compreendida, pois a escola era um local próprio para crianças com diversas condições. O pai encontrava ali um ambiente de acolhimento e troca de experiências. Nesse espaço, a diferença não era um peso; era o ponto de partida para o desenvolvimento.



           O depoimento desse pai mostrou que a escola especial era exatamente o que as famílias desesperadas precisavam: professores qualificados, uma comunidade de pais que se entendiam, e crianças que, por fim, encontravam um lugar de pertencimento.



           A mudança começou com a “educação inclusiva”, uma política do governo do PT que parecia irresistível. O objetivo era extinguir as escolas especiais e colocar todas as crianças juntas, como se a simples convivência pudesse dissolver o preconceito. A justificativa era que, convivendo lado a lado, os alunos aprenderiam a enxergar a diferença como algo positivo.



           No entanto, a prática se mostrou bem diferente. Eu e meus colegas, sem a formação adequada, recebemos alunos com necessidades especiais sem nenhum preparo. A insegurança dos pais faz com que muitos proíbam seus filhos de se aproximarem desses colegas, como se fossem contagiosos. E as próprias crianças, na sua inocência cruel, reagem com piadas, bullying e exclusão.



           A filha daquele pai, que antes era acolhida, passou a se sentir invisível. Já enfrentava a dificuldade de uma condição genética e, agora, também lidava com a rejeição de quem deveria ser seu colega. A escola, que deveria proteger, acabou por reforçar a exclusão.



           A promessa de acompanhamento pedagógico exclusivo, tão repetida nos discursos oficiais, na maioria das vezes, não existe. O que se vê são professores exaustos, tentando equilibrar uma sala inteira sem conseguir atender plenamente a todos, nem os que avançam mais rápido, nem os que precisam de mais apoio.



           O resultado é que todos aprendem menos. O ritmo das aulas se arrasta, o conteúdo é diluído e forma-se uma geração que termina o ensino médio sem saber interpretar um texto ou resolver um cálculo básico. No papel, a inclusão virou uma exclusão disfarçada.



           O depoimento do pai mostrou a dor silenciosa de perceber que a promessa de igualdade, no fundo, se tornou um atalho para o abandono. Ele queria apenas ter o direito de escolher entre uma escola especial ou uma escola regular. Mas ninguém o ouviu.



           Eu, que vejo essa realidade de perto nas minhas turmas, digo sem receio: a educação inclusiva, como foi implementada, não melhorou nada. Na verdade, piorou. Quando se finge incluir, faz-se algo ainda mais cruel do que excluir: “deixa-se alguém acreditar que pertence, apenas para descobrir que, no fundo, nunca lhe deram lugar de verdade.”

https://www.facebook.com/share/v/1619HA3DMV/ (Acessado em 14/09/2025)


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O texto que vocês leram é um depoimento forte e complexo sobre a educação inclusiva no Brasil. Ele nos convida a ir além do senso comum e a analisar criticamente as políticas públicas e suas consequências na vida real. Como futuros sociólogos, é fundamental que vocês consigam identificar os conflitos, os papéis sociais e as estruturas presentes nesse debate. A partir da leitura, pensem sobre as seguintes questões:


1 - O autor do texto se sente julgado por sua posição. De acordo com a Sociologia, como podemos analisar a "reprovação" que ele percebe nos olhares das pessoas? Qual o papel da moral social nesse tipo de situação?

2 - O texto aborda a diferença entre o que é "inventado no papel" e o que é imposto "na prática". Discuta como essa desconexão entre a teoria da política pública e a realidade pode gerar conflitos sociais, utilizando o exemplo da educação inclusiva.

3 - O depoimento do pai mostra a busca por um "espaço de pertencimento" para sua filha. Explique, com base na sociologia, o que significa a "diferença não ser peso" e a importância de um ambiente que promova o pertencimento para a identidade e o desenvolvimento social de um indivíduo.

4 - A política de "educação inclusiva" é apresentada como uma forma de dissolver o preconceito. Analise criticamente essa premissa, considerando o que o texto relata sobre a falta de preparo dos professores e a reação de pais e alunos. Como a Sociologia do Conflito pode nos ajudar a entender essa situação?

5 - O autor afirma que a inclusão, "no papel", se tornou uma "exclusão disfarçada" na prática. Discorra sobre como a implementação de uma política, mesmo com boas intenções, pode inadvertidamente reforçar processos de exclusão social.

domingo, 31 de agosto de 2025

Avaliação de desempenho que se transforma em perseguição (“Se um sistema educacional é um fracasso, a culpa é dos educadores, não dos educandos.” — Carlos Drummond de Andrade)

 

Avaliação de desempenho que se transforma em perseguição (“Se um sistema educacional é um fracasso, a culpa é dos educadores, não dos educandos.” — Carlos Drummond de Andrade)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

É isso que, no fim das contas, acaba acontecendo — e está acontecendo agora na rede estadual de educação. Professores estão sendo perseguidos, assediados e até expostos a divisões artificiais entre estudantes e docentes. O absurdo chegou ao ponto de alunos avaliarem seus professores, como se fossem juízes de um processo sem critério algum. O que deveria ser um instrumento de melhoria virou mecanismo de intimidação.

Enquanto isso, gestores e autoridades que descumprem a legislação permanecem impunes. Prefeitos, governadores e até o presidente escapam sem qualquer responsabilização. Queremos, sim, uma reforma administrativa, mas que puna os gestores que não cumprem seu papel e não aqueles que estão na linha de frente, ensinando em salas de aula sucateadas. Essa é a luta por justiça social que precisamos travar juntos, pelo Brasil.

Mas se a palavra é avaliação, que seja feita com seriedade e justiça. Em países como Finlândia e Canadá, por exemplo, o desempenho docente é acompanhado por equipes pedagógicas qualificadas, com foco em formação contínua e não em punição. Avaliações por pares, feedback construtivo e planos de desenvolvimento individuais mostram que é possível conciliar rigor e respeito. “A crítica sem proposta é apenas ruído”, dizia Paulo Freire — e talvez seja hora de lembrarmos que a educação precisa de políticas de apoio, não de linchamentos simbólicos. Um modelo equilibrado poderia transformar a avaliação em instrumento de crescimento, e não em arma de perseguição.

E aí surge a pergunta inevitável: que competência tem o estudante para avaliar o professor? Como disse um dos colegas: “É o poste mijando no cachorro!” Muitos alunos ainda não dominam plenamente a leitura, mas já se arrogam o direito de julgar a formação de seus mestres. Em algumas escolas, diretores chegam a orientar os alunos nas provas a portas fechadas, proibindo a presença dos professores. Outro docente resumiu: “É o mesmo que o bandido avaliar o policial pelas costas...”

Claro que o professor precisa ser avaliado — pela postura, pela dedicação, pela responsabilidade. Mas não por mecanismos distorcidos. “Não são todos, mas há professores que não dão aula e apenas enrolam”, reconheceu um educador. O problema é que, nesse modelo atual, o professor que exige mais pode ser punido, enquanto o que pouco ensina, paradoxalmente, recebe melhor avaliação.

Como desabafou uma professora: “Não desista de derrubar essa resolução de avaliação! Estamos sendo ameaçados e humilhados.” O retrato não poderia ser mais claro: em 2009, uma docente foi avaliada por alunos do 8º ano do estado. Sua comparação diz tudo: “É a banana comendo o macaco.”


https://www.instagram.com/reel/DMga1bMJU7h/?utm_source=ig_web_copy_link (Acessado em 31/08/2025)


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Para nossa aula de sociologia, vamos analisar este texto que aborda a polêmica avaliação de professores. Ele levanta pontos importantes sobre poder, educação e justiça social. Leiam-no com atenção e respondam às questões a seguir para aprofundarmos a discussão.


1 - O autor critica a avaliação de desempenho que se tornou um "mecanismo de intimidação" e "perseguição". Com base no texto, explique como essa prática reflete um problema maior de responsabilização no setor público brasileiro.

2 - O texto compara a avaliação de professores por alunos a situações como "o poste mijando no cachorro!" e "o bandido avaliar o policial pelas costas...". Analise sociologicamente o que essas metáforas revelam sobre as relações de poder dentro da escola.

3 - O autor aponta que o atual modelo de avaliação pode premiar o professor que "enrola" e punir o que "exige mais". De que maneira essa crítica questiona a justiça e a eficácia do sistema de avaliação?

4 - O texto sugere que, em países como Finlândia e Canadá, a avaliação é feita por "equipes pedagógicas qualificadas". Qual a diferença fundamental entre esse modelo e o criticado no Brasil, no que diz respeito ao objetivo da avaliação?

5 - A frase de Paulo Freire, "'A crítica sem proposta é apenas ruído'", é citada. De que forma o autor usa essa ideia para argumentar que a luta dos professores não é contra a avaliação em si, mas contra a falta de apoio e critérios justos?

quarta-feira, 27 de agosto de 2025

O Fim da Educação? ("Uma sociedade que não se preocupa com a educação de seus jovens, condena a si mesma à ignorância, pobreza e violência." — Mário Quintana)

 



O Fim da Educação? ("Uma sociedade que não se preocupa com a educação de seus jovens, condena a si mesma à ignorância, pobreza e violência." — Mário Quintana)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Uma professora de Curitiba, no Paraná, morreu de infarto dentro da escola. Um caso que, longe de ser isolado, escancara uma realidade assustadora na educação brasileira: ser professor se tornou uma profissão de risco, sinônimo de insalubridade. A violência, o estresse e a desvalorização estão matando os docentes de forma fulminante, por infarto ou agressão, ou gradualmente, sufocados pelo peso diário do ofício. Não à toa, especialistas preveem um enorme déficit de profissionais até 2040. Afinal, quem aceitaria arriscar a própria vida por um salário tão baixo e em condições tão precárias?

A responsabilidade por esse cenário tem nome e endereço: governos que reduzem a educação a meros números e secretarias que maquiam estatísticas. Políticos e gestores, por sua vez, fingem inclusão e valorização em um ambiente de abandono, criando políticas públicas que são uma farsa. A realidade é que não há inclusão de verdade, nem valorização real. O sistema trata alunos e professores como estatísticas, forçando a aprovação de estudantes sem condições de avançar, o que invalida o aprendizado.

As escolas cívico-militares, por exemplo, são apenas mais uma ilusão que maqueia os problemas reais. A disciplina e o respeito não dependem da presença de um militar. Essa é uma solução superficial para um problema que continua intocado: a falta de estrutura, de planejamento e de atenção aos profissionais.

A solução é mais profunda, e eles não querem que você saiba. É preciso reduzir o número de alunos por sala, pois uma sala com 40 estudantes não tem a mesma eficiência de uma com 15. É fundamental garantir a hora-atividade real, pois planejamento exige tempo, estudo e formação. É urgente investir em estrutura mínima — merenda, ventilação e materiais de qualidade — e oferecer acompanhamento psicológico aos professores, exaustos pela sobrecarga e pela pressão constante.

Essas medidas, embora não resolvam tudo, podem devolver dignidade ao ofício e permitir que o ato de ensinar volte a ser sinônimo de vida. É preciso que a sociedade e os governos entendam que, enquanto tratarem professores e alunos como números, a educação brasileira continuará caminhando para a extinção.


https://web.facebook.com/share/r/171YeaMKLo/ (Acessado em 27/08/2025)


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Como seu professor de sociologia, preparei cinco questões simples e discursivas para ajudar a refletir sobre as ideias presentes no texto. O objetivo é que você analise criticamente a relação entre educação, sociedade e o papel do Estado.


1 - O texto afirma que o professorado no Brasil está se tornando uma profissão de risco. Discuta, com base na sociologia do trabalho, quais fatores sociais e econômicos contribuem para essa insalubridade e perigo no ambiente escolar.

2 - A aprovação automática de alunos sem o devido aprendizado é apontada no texto como uma falha do sistema. Analise essa prática do ponto de vista sociológico, explicando como a maquiagem de estatísticas pode mascarar problemas sociais e impactar a formação da juventude.

3 - O autor do texto critica a visão das escolas cívico-militares como solução para os problemas educacionais. De que forma a presença de militares pode ser vista como uma resposta superficial a questões estruturais da educação, como a falta de recursos e planejamento?

4 - O texto sugere que a educação está "caminhando para a extinção". Explique, usando o conceito de instituição social, por que a desvalorização do professor e a falta de investimento podem levar ao colapso de todo o sistema educacional.

5 - Segundo o texto, a solução para a crise na educação passa por medidas como a redução de alunos por sala e o aumento da hora-atividade. Discuta a importância dessas propostas, sob uma perspectiva sociológica, para a qualidade do ensino e a valorização do profissional da educação.