Relendo as relações síncronas e assíncronas entre docentes e discentes nos dias de isolamento, constato algo desconfortável: a pandemia não inaugurou nada — apenas acendeu uma luz fria sobre um cenário que já estava montado. O vírus não criou o absurdo; limitou-se a retirar o verniz que o disfarçava. A virtualização forçada escancarou hierarquias, intensificou controles e reduziu o corpo docente a uma presença bidimensional, mais fácil de silenciar, gravar, vigiar e descartar. Sem o corpo, a autoridade se rarefez; sem o encontro, a empatia se diluiu. A tela não humanizou: amplificou o ruído.
Continuam a me chamar de louco. Aceito. Num país em que figuras públicas oscilam entre o título de “mito” e o diagnóstico de “demente”, ser apenas o louco da escola me parece um excelente negócio. A loucura, aqui, não é desrazão — é estratégia. Como em Erasmo, ela concede licença para dizer o que a prudência cala; como em Foucault, permite enxergar o que a normalidade se recusa a ver. A máscara do louco me autoriza a interromper automatismos, a formular perguntas inconvenientes e a recusar consensos morais fabricados. Pedagogicamente, ela opera como ruído fértil: desorganiza expectativas, desarma certezas e expõe o ridículo do que se apresenta como natural.
Não sou o “Pelé da Educação”, mas aprendi alguns dribles essenciais: o da recusa silenciosa, o da ironia precisa e o da desobediência mínima capaz de desestabilizar engrenagens inteiras. Um exemplo basta: nego-me a participar das incessantes “vaquinhas virtuais” escolares, sempre urgentes, sempre nobres na aparência e frequentemente opacas na finalidade. Não é avareza; é recusa ao rebanho. A guerra que travo é branca, cotidiana, quase invisível — contra o assédio moral travestido de coleguismo e contra o oportunismo disfarçado de solidariedade.
Os insultos, aliás, não são novos; na escola, ecoam os mesmos que ouvi na igreja quando ousei questionar o dízimo. “Mão de vaca”, dizem. A ofensa não me fere pelo suposto apego ao dinheiro, mas pela imagem que carrega: a vaca como símbolo do gado, da docilidade acrítica, da obediência em fila. É aqui que Gandhi deixa de ser ornamento e se torna argumento: “O medo tem alguma utilidade, mas a covardia não.” Participar por receio de exclusão é covardia; recusar, mesmo com custo simbólico, é uma forma mínima de coragem. Não contribuir não é negar ajuda — é negar submissão.
O hospício institucionalizado em que trabalhamos não se revela apenas nos grandes discursos, mas sobretudo nos pequenos rituais. Questiono, por exemplo, a lógica da matrícula escolar reduzida a notas e documentos, como se caráter, ética e convivência fossem detalhes irrelevantes. Recebemos sujeitos cujo histórico moral permanece invisível e que, uma vez dentro, sentem-se autorizados a humilhar mestres e doutores, porque o rótulo “apenas professor” nivela todos na base da pirâmide do respeito. A pandemia agravou esse quadro: atrás da tela, a insolência ganhou coragem; sem o olhar direto, o limite perdeu densidade.
Há, contudo, um perigo que precisa ser nomeado com cuidado. Ao denunciar a patologização generalizada, não nego a existência real do sofrimento psíquico — isso seria desumano e injusto. O alvo da crítica é a patologização instrumentalizada: o uso do diagnóstico como álibi moral. Há diferença entre quem sofre e necessita de compreensão genuína e quem se esconde atrás de laudos imaginários para eximir-se de responsabilidade. Quando tudo vira “problema mental”, nada mais responde à ética. O bandido, o político corrupto, o aluno agressivo — todos absolvidos por uma psiquiatria de conveniência. O resultado não é inclusão; é cinismo institucional.
A religião, com seu puritanismo performático, não fica atrás. Produz fanáticos disciplinados, moralmente indignados e eticamente vazios. A pandemia apenas acelerou o processo: lives devocionais, discursos inflamados e a mesma incapacidade de lidar com o outro concreto. Muito zelo, pouca escuta.
É nesse contexto que a máscara do louco se torna não apenas legítima, mas necessária. Se a normalidade crucifica Jesus e solta Barrabás, talvez a sanidade esteja do lado errado da história. A loucura estratégica me permite inverter expectativas, como no episódio banal — e revelador — do banheiro. O aluno pede permissão com uma polidez ensaiada, não porque precisa ir, mas porque deseja ouvir o “não” que nunca ouviu em casa. O sistema espera que eu controle, negue, puna. Eu digo “sim”. Ele sai, foge; a coordenação o caça e o obriga a retornar a um espaço onde finge não querer estar. Eis a farsa: simulamos autonomia para reafirmar o controle; concedemos liberdade apenas para castigá-la. Não é educação — é sadismo burocrático, criando problemas para justificar a própria existência.
E então? Se somos todos loucos dentro de um hospício funcional, resta apenas a sobrevivência cínica? Creio que não. Há, no mínimo, a possibilidade do reconhecimento mútuo. A loucura compartilhada abre brechas de lucidez. Quando os loucos se entendem, como canta MC Ruzika, algo raro acontece: o absurdo perde o monopólio da cena. Talvez não transformemos o sistema de imediato, mas podemos desorganizar sua lógica, produzir pequenas interrupções e ensinar, pelo exemplo, que nem toda obediência é virtude e que nem toda loucura é perda de razão.
A pandemia passará — ou já passou —, mas o estado de exceção permanece. A escolha, então, é simples e dura: vestir a máscara da normalidade e reproduzir o absurdo, ou assumir a loucura consciente que ousa dizer o que não cabe nos formulários. Fico com a segunda. Não por desespero, mas por método.
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Olá! Como seu professor de sociologia, preparei cinco questões discursivas baseadas no texto. O objetivo é analisar como as instituições (escola, igreja, política) moldam nossos comportamentos e como a "loucura estratégica" mencionada pelo autor funciona como uma forma de resistência sociológica.
1. A Visibilidade do Absurdo: O texto afirma que a pandemia "não inaugurou nada", apenas retirou o verniz de um cenário já montado. De que maneira a virtualização das aulas, segundo o autor, alterou a relação de autoridade e a presença física entre professores e alunos?
2. A Loucura como Estratégia: O autor utiliza a "máscara do louco" para questionar a normalidade institucional. Relacionando com o pensamento sociológico, como o ato de "interromper automatismos" e "recusar consensos fabricados" pode ser visto como uma forma de resistência ao controle social?
3. Solidariedade versus Submissão: Ao tratar das "vaquinhas virtuais", o autor diferencia o medo da covardia, citando Gandhi. Explique o argumento do texto sobre por que a recusa em participar de certos rituais escolares pode ser considerada uma "negação da submissão" e não apenas falta de ajuda.
4. Patologização e Ética: O texto critica a "psiquiatria de conveniência", onde comportamentos desviantes (do político corrupto ao aluno agressivo) são absolvidos por supostos problemas mentais. Qual é o perigo sociológico de usar diagnósticos como "álibi moral", segundo a visão do autor?
5. O Sadismo Burocrático: No episódio do pedido para ir ao banheiro, o autor descreve uma farsa educativa onde se "simula autonomia para reafirmar o controle". Como essa dinâmica exemplifica a crise de autoridade na família e na escola mencionada no texto?
Estas questões ajudam a entender que a escola não é apenas um lugar de ensino, mas um campo de forças onde o poder e a ética estão em constante disputa.
Relendo as relações síncronas e assíncronas entre docentes e discentes nos dias de isolamento, constato algo desconfortável: a pandemia não inaugurou nada — apenas acendeu uma luz fria sobre um cenário que já estava montado. O vírus não criou o absurdo; limitou-se a retirar o verniz que o disfarçava. A virtualização forçada escancarou hierarquias, intensificou controles e reduziu o corpo docente a uma presença bidimensional, mais fácil de silenciar, gravar, vigiar e descartar. Sem o corpo, a autoridade se rarefez; sem o encontro, a empatia se diluiu. A tela não humanizou: amplificou o ruído.
Continuam a me chamar de louco. Aceito. Num país em que figuras públicas oscilam entre o título de “mito” e o diagnóstico de “demente”, ser apenas o louco da escola me parece um excelente negócio. A loucura, aqui, não é desrazão — é estratégia. Como em Erasmo, ela concede licença para dizer o que a prudência cala; como em Foucault, permite enxergar o que a normalidade se recusa a ver. A máscara do louco me autoriza a interromper automatismos, a formular perguntas inconvenientes e a recusar consensos morais fabricados. Pedagogicamente, ela opera como ruído fértil: desorganiza expectativas, desarma certezas e expõe o ridículo do que se apresenta como natural.
Não sou o “Pelé da Educação”, mas aprendi alguns dribles essenciais: o da recusa silenciosa, o da ironia precisa e o da desobediência mínima capaz de desestabilizar engrenagens inteiras. Um exemplo basta: nego-me a participar das incessantes “vaquinhas virtuais” escolares, sempre urgentes, sempre nobres na aparência e frequentemente opacas na finalidade. Não é avareza; é recusa ao rebanho. A guerra que travo é branca, cotidiana, quase invisível — contra o assédio moral travestido de coleguismo e contra o oportunismo disfarçado de solidariedade.
Os insultos, aliás, não são novos; na escola, ecoam os mesmos que ouvi na igreja quando ousei questionar o dízimo. “Mão de vaca”, dizem. A ofensa não me fere pelo suposto apego ao dinheiro, mas pela imagem que carrega: a vaca como símbolo do gado, da docilidade acrítica, da obediência em fila. É aqui que Gandhi deixa de ser ornamento e se torna argumento: “O medo tem alguma utilidade, mas a covardia não.” Participar por receio de exclusão é covardia; recusar, mesmo com custo simbólico, é uma forma mínima de coragem. Não contribuir não é negar ajuda — é negar submissão.
O hospício institucionalizado em que trabalhamos não se revela apenas nos grandes discursos, mas sobretudo nos pequenos rituais. Questiono, por exemplo, a lógica da matrícula escolar reduzida a notas e documentos, como se caráter, ética e convivência fossem detalhes irrelevantes. Recebemos sujeitos cujo histórico moral permanece invisível e que, uma vez dentro, sentem-se autorizados a humilhar mestres e doutores, porque o rótulo “apenas professor” nivela todos na base da pirâmide do respeito. A pandemia agravou esse quadro: atrás da tela, a insolência ganhou coragem; sem o olhar direto, o limite perdeu densidade.
Há, contudo, um perigo que precisa ser nomeado com cuidado. Ao denunciar a patologização generalizada, não nego a existência real do sofrimento psíquico — isso seria desumano e injusto. O alvo da crítica é a patologização instrumentalizada: o uso do diagnóstico como álibi moral. Há diferença entre quem sofre e necessita de compreensão genuína e quem se esconde atrás de laudos imaginários para eximir-se de responsabilidade. Quando tudo vira “problema mental”, nada mais responde à ética. O bandido, o político corrupto, o aluno agressivo — todos absolvidos por uma psiquiatria de conveniência. O resultado não é inclusão; é cinismo institucional.
A religião, com seu puritanismo performático, não fica atrás. Produz fanáticos disciplinados, moralmente indignados e eticamente vazios. A pandemia apenas acelerou o processo: lives devocionais, discursos inflamados e a mesma incapacidade de lidar com o outro concreto. Muito zelo, pouca escuta.
É nesse contexto que a máscara do louco se torna não apenas legítima, mas necessária. Se a normalidade crucifica Jesus e solta Barrabás, talvez a sanidade esteja do lado errado da história. A loucura estratégica me permite inverter expectativas, como no episódio banal — e revelador — do banheiro. O aluno pede permissão com uma polidez ensaiada, não porque precisa ir, mas porque deseja ouvir o “não” que nunca ouviu em casa. O sistema espera que eu controle, negue, puna. Eu digo “sim”. Ele sai, foge; a coordenação o caça e o obriga a retornar a um espaço onde finge não querer estar. Eis a farsa: simulamos autonomia para reafirmar o controle; concedemos liberdade apenas para castigá-la. Não é educação — é sadismo burocrático, criando problemas para justificar a própria existência.
E então? Se somos todos loucos dentro de um hospício funcional, resta apenas a sobrevivência cínica? Creio que não. Há, no mínimo, a possibilidade do reconhecimento mútuo. A loucura compartilhada abre brechas de lucidez. Quando os loucos se entendem, como canta MC Ruzika, algo raro acontece: o absurdo perde o monopólio da cena. Talvez não transformemos o sistema de imediato, mas podemos desorganizar sua lógica, produzir pequenas interrupções e ensinar, pelo exemplo, que nem toda obediência é virtude e que nem toda loucura é perda de razão.
A pandemia passará — ou já passou —, mas o estado de exceção permanece. A escolha, então, é simples e dura: vestir a máscara da normalidade e reproduzir o absurdo, ou assumir a loucura consciente que ousa dizer o que não cabe nos formulários. Fico com a segunda. Não por desespero, mas por método.
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Olá! Como seu professor de sociologia, preparei cinco questões discursivas baseadas no texto. O objetivo é analisar como as instituições (escola, igreja, política) moldam nossos comportamentos e como a "loucura estratégica" mencionada pelo autor funciona como uma forma de resistência sociológica.
1. A Visibilidade do Absurdo: O texto afirma que a pandemia "não inaugurou nada", apenas retirou o verniz de um cenário já montado. De que maneira a virtualização das aulas, segundo o autor, alterou a relação de autoridade e a presença física entre professores e alunos?
2. A Loucura como Estratégia: O autor utiliza a "máscara do louco" para questionar a normalidade institucional. Relacionando com o pensamento sociológico, como o ato de "interromper automatismos" e "recusar consensos fabricados" pode ser visto como uma forma de resistência ao controle social?
3. Solidariedade versus Submissão: Ao tratar das "vaquinhas virtuais", o autor diferencia o medo da covardia, citando Gandhi. Explique o argumento do texto sobre por que a recusa em participar de certos rituais escolares pode ser considerada uma "negação da submissão" e não apenas falta de ajuda.
4. Patologização e Ética: O texto critica a "psiquiatria de conveniência", onde comportamentos desviantes (do político corrupto ao aluno agressivo) são absolvidos por supostos problemas mentais. Qual é o perigo sociológico de usar diagnósticos como "álibi moral", segundo a visão do autor?
5. O Sadismo Burocrático: No episódio do pedido para ir ao banheiro, o autor descreve uma farsa educativa onde se "simula autonomia para reafirmar o controle". Como essa dinâmica exemplifica a crise de autoridade na família e na escola mencionada no texto?
Estas questões ajudam a entender que a escola não é apenas um lugar de ensino, mas um campo de forças onde o poder e a ética estão em constante disputa.
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