O simulacro educacional: entre o cuidado e a fraude ("Nunca conseguirás convencer um rato de que um gato traz boa sorte." — Graham Greene)
Houve um tempo em que a escola confundia zelo com vigilância. O diário de classe exigia explicações minuciosas para cada ausência, como se a vida privada do aluno fosse mera extensão administrativa da sala de aula. Professores, constrangidos, tornavam-se escrivães da intimidade alheia, compelidos a registrar doenças, conflitos familiares ou a falta de um atestado que jamais deveria ser público. A engrenagem só começou a falhar quando a resposta “assunto particular” se generalizou — não por virtude institucional, mas por esgotamento moral. A escola recuou não porque aprendeu, mas porque sucumbiu ao ridículo.
Hoje, paradoxalmente, vivemos o extremo oposto. O controle se dissolveu, não em nome da autonomia, mas da improvisação. A escola já não invade a intimidade; agora atravessa o território doméstico. Surgem as campanhas de “busca ativa”, os mutirões de resgate, o professor convertido em agente simbólico de recuperação da evasão. Buscar o aluno, em si, não é o problema — pode ser gesto legítimo de cuidado pedagógico. O escândalo começa depois: quando esse cuidado dispensa reciprocidade, quando a presença é contabilizada sem aprendizagem, quando o retorno não implica compromisso. O resgate vira encenação; a educação, concessão automática.
É nesse ponto que a fraude se instala. Não se trata de defender reprovações em massa, nem de idealizar um passado seletivo que nunca existiu para os pobres. Trata-se de reconhecer que promover sem ensinar é tão violento quanto excluir. O discurso meritocrático, quando ignora fome, trabalho precoce, trauma, racismo e currículos alheios à vida concreta, converte desigualdade em culpa individual. O discurso oposto — que absolve o sistema de ensinar e o aluno de aprender — produz outra crueldade: a da expectativa rebaixada, da tutela permanente, da escolarização sem saber.
A merenda escolar, nesse contexto, revela a ambiguidade do nosso tempo. Para milhões de crianças, é a refeição mais segura do dia — negá-la seria barbárie. O problema não é alimentar, é desistir de educar. Quando a comida substitui o ensino, o direito degenera em assistencialismo. Quando caminha junto da exigência pedagógica, torna-se política civilizatória. A tragédia começa quando a escola se contenta em saciar o corpo e abandona o espírito.
Há ainda uma confusão conceitual conveniente. A progressão continuada, quando acompanhada de apoio efetivo, funciona; a promoção automática sem suporte é fraude estatística. O Brasil escolheu a segunda e simulou praticar a primeira. Nesse processo, professores, gestores e políticas públicas compartilham responsabilidades. Há docentes que ensinam com rigor e invenção; há outros que apenas cumprem protocolo. Criticar o sistema exige honestidade: ninguém está fora dele, nem acima dele.
Talvez alguns alunos resistam não à educação, mas à escola que domestica, silencia e desqualifica sua cultura. Fugir pode ser sintoma, não vício moral. Ainda assim, romantizar toda evasão como resistência libertária é tão falso quanto tratá-la como preguiça. A escola que educa precisa ser desejável, mas também exigente; acolhedora, sem ser indulgente; justa, sem ser conivente.
Não salvaremos a educação laçando alunos para inflar planilhas, nem simulando sucesso pedagógico para preservar carreiras. Isso não forma sujeitos; apenas administra fracassos. Honrar alguém sem lhe oferecer condições reais de aprender é uma forma refinada de desprezo — não de sabedoria. O Brasil não precisa de estatísticas otimistas, mas de um projeto claro: universalizar a escola com qualidade, sem mentir para si mesmo. Porque o que hoje se chama ensino, quando desprovido de verdade e propósito, não constrói nação alguma — apenas perpetua o simulacro. "Como o que prende a pedra na funda, assim é aquele que dá honra a um tolo." — Provérbios 26:8.
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Como seu professor de Sociologia, fico impressionado com a lucidez deste texto. Ele toca em feridas profundas da nossa estrutura educacional, abordando desde o controle burocrático de Max Weber até as questões de reprodução social e cidadania. Para nossa aula, preparei 5 questões que ajudarão a turma a refletir sobre a função social da escola hoje:
1. Da Vigilância ao Abandono: O texto descreve dois momentos: um passado de "vigilância da intimidade" e um presente de "improvisação e controle dissolvido". Sociologicamente, como a mudança do foco da escola — de registrar faltas para apenas "contabilizar presenças sem aprendizagem" — afeta a formação do cidadão e a qualidade do ensino público?
2. A "Promoção Automática" como Fraude Social: O autor afirma que "promover sem ensinar é tão violento quanto excluir". Relacione essa frase à ideia de desigualdade social: por que a aprovação de um aluno que não aprendeu nada pode ser considerada uma forma de "crueldade" ou "desprezo" por parte do Estado?
3. O Papel Social da Merenda e do Assistencialismo: O texto diferencia a merenda como "política civilizatória" (quando acompanha o ensino) de "assistencialismo" (quando substitui o ensino). Qual é o risco social de a escola passar a ser vista pela comunidade apenas como um local de alimentação e não como um espaço de construção de conhecimento e criticidade?
4. Meritocracia vs. Condições Reais: O autor critica o discurso meritocrático que ignora a fome e o racismo, mas também critica a "tutela permanente" que não exige nada do aluno. Como a escola pode encontrar um equilíbrio entre acolher as dificuldades sociais dos estudantes e, ao mesmo tempo, manter um ensino que realmente os desafie e os prepare para a vida?
5. A Escola como Simulacro: Ao final, o texto menciona que "administrar fracassos" para "inflar planilhas" não constrói uma nação. Na sua visão, por que o governo e as instituições muitas vezes preferem manter estatísticas positivas de aprovação em vez de enfrentar o problema real da falta de aprendizado?
Dica do Prof: Galera, foquem na ideia de que a escola é um espaço de disputa. De um lado, temos o interesse político por números e estatísticas (o "simulacro"); do outro, a necessidade real de vocês de terem uma educação que mude suas vidas. O texto sugere que a "verdade" é o único caminho para uma educação que não seja apenas fachada.
Houve um tempo em que a escola confundia zelo com vigilância. O diário de classe exigia explicações minuciosas para cada ausência, como se a vida privada do aluno fosse mera extensão administrativa da sala de aula. Professores, constrangidos, tornavam-se escrivães da intimidade alheia, compelidos a registrar doenças, conflitos familiares ou a falta de um atestado que jamais deveria ser público. A engrenagem só começou a falhar quando a resposta “assunto particular” se generalizou — não por virtude institucional, mas por esgotamento moral. A escola recuou não porque aprendeu, mas porque sucumbiu ao ridículo.
Hoje, paradoxalmente, vivemos o extremo oposto. O controle se dissolveu, não em nome da autonomia, mas da improvisação. A escola já não invade a intimidade; agora atravessa o território doméstico. Surgem as campanhas de “busca ativa”, os mutirões de resgate, o professor convertido em agente simbólico de recuperação da evasão. Buscar o aluno, em si, não é o problema — pode ser gesto legítimo de cuidado pedagógico. O escândalo começa depois: quando esse cuidado dispensa reciprocidade, quando a presença é contabilizada sem aprendizagem, quando o retorno não implica compromisso. O resgate vira encenação; a educação, concessão automática.
É nesse ponto que a fraude se instala. Não se trata de defender reprovações em massa, nem de idealizar um passado seletivo que nunca existiu para os pobres. Trata-se de reconhecer que promover sem ensinar é tão violento quanto excluir. O discurso meritocrático, quando ignora fome, trabalho precoce, trauma, racismo e currículos alheios à vida concreta, converte desigualdade em culpa individual. O discurso oposto — que absolve o sistema de ensinar e o aluno de aprender — produz outra crueldade: a da expectativa rebaixada, da tutela permanente, da escolarização sem saber.
A merenda escolar, nesse contexto, revela a ambiguidade do nosso tempo. Para milhões de crianças, é a refeição mais segura do dia — negá-la seria barbárie. O problema não é alimentar, é desistir de educar. Quando a comida substitui o ensino, o direito degenera em assistencialismo. Quando caminha junto da exigência pedagógica, torna-se política civilizatória. A tragédia começa quando a escola se contenta em saciar o corpo e abandona o espírito.
Há ainda uma confusão conceitual conveniente. A progressão continuada, quando acompanhada de apoio efetivo, funciona; a promoção automática sem suporte é fraude estatística. O Brasil escolheu a segunda e simulou praticar a primeira. Nesse processo, professores, gestores e políticas públicas compartilham responsabilidades. Há docentes que ensinam com rigor e invenção; há outros que apenas cumprem protocolo. Criticar o sistema exige honestidade: ninguém está fora dele, nem acima dele.
Talvez alguns alunos resistam não à educação, mas à escola que domestica, silencia e desqualifica sua cultura. Fugir pode ser sintoma, não vício moral. Ainda assim, romantizar toda evasão como resistência libertária é tão falso quanto tratá-la como preguiça. A escola que educa precisa ser desejável, mas também exigente; acolhedora, sem ser indulgente; justa, sem ser conivente.
Não salvaremos a educação laçando alunos para inflar planilhas, nem simulando sucesso pedagógico para preservar carreiras. Isso não forma sujeitos; apenas administra fracassos. Honrar alguém sem lhe oferecer condições reais de aprender é uma forma refinada de desprezo — não de sabedoria. O Brasil não precisa de estatísticas otimistas, mas de um projeto claro: universalizar a escola com qualidade, sem mentir para si mesmo. Porque o que hoje se chama ensino, quando desprovido de verdade e propósito, não constrói nação alguma — apenas perpetua o simulacro. "Como o que prende a pedra na funda, assim é aquele que dá honra a um tolo." — Provérbios 26:8.
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Como seu professor de Sociologia, fico impressionado com a lucidez deste texto. Ele toca em feridas profundas da nossa estrutura educacional, abordando desde o controle burocrático de Max Weber até as questões de reprodução social e cidadania. Para nossa aula, preparei 5 questões que ajudarão a turma a refletir sobre a função social da escola hoje:
1. Da Vigilância ao Abandono: O texto descreve dois momentos: um passado de "vigilância da intimidade" e um presente de "improvisação e controle dissolvido". Sociologicamente, como a mudança do foco da escola — de registrar faltas para apenas "contabilizar presenças sem aprendizagem" — afeta a formação do cidadão e a qualidade do ensino público?
2. A "Promoção Automática" como Fraude Social: O autor afirma que "promover sem ensinar é tão violento quanto excluir". Relacione essa frase à ideia de desigualdade social: por que a aprovação de um aluno que não aprendeu nada pode ser considerada uma forma de "crueldade" ou "desprezo" por parte do Estado?
3. O Papel Social da Merenda e do Assistencialismo: O texto diferencia a merenda como "política civilizatória" (quando acompanha o ensino) de "assistencialismo" (quando substitui o ensino). Qual é o risco social de a escola passar a ser vista pela comunidade apenas como um local de alimentação e não como um espaço de construção de conhecimento e criticidade?
4. Meritocracia vs. Condições Reais: O autor critica o discurso meritocrático que ignora a fome e o racismo, mas também critica a "tutela permanente" que não exige nada do aluno. Como a escola pode encontrar um equilíbrio entre acolher as dificuldades sociais dos estudantes e, ao mesmo tempo, manter um ensino que realmente os desafie e os prepare para a vida?
5. A Escola como Simulacro: Ao final, o texto menciona que "administrar fracassos" para "inflar planilhas" não constrói uma nação. Na sua visão, por que o governo e as instituições muitas vezes preferem manter estatísticas positivas de aprovação em vez de enfrentar o problema real da falta de aprendizado?
Dica do Prof: Galera, foquem na ideia de que a escola é um espaço de disputa. De um lado, temos o interesse político por números e estatísticas (o "simulacro"); do outro, a necessidade real de vocês de terem uma educação que mude suas vidas. O texto sugere que a "verdade" é o único caminho para uma educação que não seja apenas fachada.


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