"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

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MINHAS PÉROLAS

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

O PELÉ DA EDUCAÇÃO: A Estética da Loucura em Tempos de Exceção ("O gênio, o crime e a loucura provêm, por igual, de uma anormalidade; representam, de diferentes maneiras, uma inadaptabilidade ao meio." — Fernando Pessoa)

 


Relendo as relações síncronas e assíncronas entre docentes e discentes nos dias de isolamento, constato algo desconfortável: a pandemia não inaugurou nada — apenas acendeu uma luz fria sobre um cenário que já estava montado. O vírus não criou o absurdo; limitou-se a retirar o verniz que o disfarçava. A virtualização forçada escancarou hierarquias, intensificou controles e reduziu o corpo docente a uma presença bidimensional, mais fácil de silenciar, gravar, vigiar e descartar. Sem o corpo, a autoridade se rarefez; sem o encontro, a empatia se diluiu. A tela não humanizou: amplificou o ruído.

Continuam a me chamar de louco. Aceito. Num país em que figuras públicas oscilam entre o título de “mito” e o diagnóstico de “demente”, ser apenas o louco da escola me parece um excelente negócio. A loucura, aqui, não é desrazão — é estratégia. Como em Erasmo, ela concede licença para dizer o que a prudência cala; como em Foucault, permite enxergar o que a normalidade se recusa a ver. A máscara do louco me autoriza a interromper automatismos, a formular perguntas inconvenientes e a recusar consensos morais fabricados. Pedagogicamente, ela opera como ruído fértil: desorganiza expectativas, desarma certezas e expõe o ridículo do que se apresenta como natural.

Não sou o “Pelé da Educação”, mas aprendi alguns dribles essenciais: o da recusa silenciosa, o da ironia precisa e o da desobediência mínima capaz de desestabilizar engrenagens inteiras. Um exemplo basta: nego-me a participar das incessantes “vaquinhas virtuais” escolares, sempre urgentes, sempre nobres na aparência e frequentemente opacas na finalidade. Não é avareza; é recusa ao rebanho. A guerra que travo é branca, cotidiana, quase invisível — contra o assédio moral travestido de coleguismo e contra o oportunismo disfarçado de solidariedade.

Os insultos, aliás, não são novos; na escola, ecoam os mesmos que ouvi na igreja quando ousei questionar o dízimo. “Mão de vaca”, dizem. A ofensa não me fere pelo suposto apego ao dinheiro, mas pela imagem que carrega: a vaca como símbolo do gado, da docilidade acrítica, da obediência em fila. É aqui que Gandhi deixa de ser ornamento e se torna argumento: “O medo tem alguma utilidade, mas a covardia não.” Participar por receio de exclusão é covardia; recusar, mesmo com custo simbólico, é uma forma mínima de coragem. Não contribuir não é negar ajuda — é negar submissão.

O hospício institucionalizado em que trabalhamos não se revela apenas nos grandes discursos, mas sobretudo nos pequenos rituais. Questiono, por exemplo, a lógica da matrícula escolar reduzida a notas e documentos, como se caráter, ética e convivência fossem detalhes irrelevantes. Recebemos sujeitos cujo histórico moral permanece invisível e que, uma vez dentro, sentem-se autorizados a humilhar mestres e doutores, porque o rótulo “apenas professor” nivela todos na base da pirâmide do respeito. A pandemia agravou esse quadro: atrás da tela, a insolência ganhou coragem; sem o olhar direto, o limite perdeu densidade.

Há, contudo, um perigo que precisa ser nomeado com cuidado. Ao denunciar a patologização generalizada, não nego a existência real do sofrimento psíquico — isso seria desumano e injusto. O alvo da crítica é a patologização instrumentalizada: o uso do diagnóstico como álibi moral. Há diferença entre quem sofre e necessita de compreensão genuína e quem se esconde atrás de laudos imaginários para eximir-se de responsabilidade. Quando tudo vira “problema mental”, nada mais responde à ética. O bandido, o político corrupto, o aluno agressivo — todos absolvidos por uma psiquiatria de conveniência. O resultado não é inclusão; é cinismo institucional.

A religião, com seu puritanismo performático, não fica atrás. Produz fanáticos disciplinados, moralmente indignados e eticamente vazios. A pandemia apenas acelerou o processo: lives devocionais, discursos inflamados e a mesma incapacidade de lidar com o outro concreto. Muito zelo, pouca escuta.

É nesse contexto que a máscara do louco se torna não apenas legítima, mas necessária. Se a normalidade crucifica Jesus e solta Barrabás, talvez a sanidade esteja do lado errado da história. A loucura estratégica me permite inverter expectativas, como no episódio banal — e revelador — do banheiro. O aluno pede permissão com uma polidez ensaiada, não porque precisa ir, mas porque deseja ouvir o “não” que nunca ouviu em casa. O sistema espera que eu controle, negue, puna. Eu digo “sim”. Ele sai, foge; a coordenação o caça e o obriga a retornar a um espaço onde finge não querer estar. Eis a farsa: simulamos autonomia para reafirmar o controle; concedemos liberdade apenas para castigá-la. Não é educação — é sadismo burocrático, criando problemas para justificar a própria existência.

E então? Se somos todos loucos dentro de um hospício funcional, resta apenas a sobrevivência cínica? Creio que não. Há, no mínimo, a possibilidade do reconhecimento mútuo. A loucura compartilhada abre brechas de lucidez. Quando os loucos se entendem, como canta MC Ruzika, algo raro acontece: o absurdo perde o monopólio da cena. Talvez não transformemos o sistema de imediato, mas podemos desorganizar sua lógica, produzir pequenas interrupções e ensinar, pelo exemplo, que nem toda obediência é virtude e que nem toda loucura é perda de razão.

A pandemia passará — ou já passou —, mas o estado de exceção permanece. A escolha, então, é simples e dura: vestir a máscara da normalidade e reproduzir o absurdo, ou assumir a loucura consciente que ousa dizer o que não cabe nos formulários. Fico com a segunda. Não por desespero, mas por método.


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Olá! Como seu professor de sociologia, preparei cinco questões discursivas baseadas no texto. O objetivo é analisar como as instituições (escola, igreja, política) moldam nossos comportamentos e como a "loucura estratégica" mencionada pelo autor funciona como uma forma de resistência sociológica.


1. A Visibilidade do Absurdo: O texto afirma que a pandemia "não inaugurou nada", apenas retirou o verniz de um cenário já montado. De que maneira a virtualização das aulas, segundo o autor, alterou a relação de autoridade e a presença física entre professores e alunos?

2. A Loucura como Estratégia: O autor utiliza a "máscara do louco" para questionar a normalidade institucional. Relacionando com o pensamento sociológico, como o ato de "interromper automatismos" e "recusar consensos fabricados" pode ser visto como uma forma de resistência ao controle social?

3. Solidariedade versus Submissão: Ao tratar das "vaquinhas virtuais", o autor diferencia o medo da covardia, citando Gandhi. Explique o argumento do texto sobre por que a recusa em participar de certos rituais escolares pode ser considerada uma "negação da submissão" e não apenas falta de ajuda.

4. Patologização e Ética: O texto critica a "psiquiatria de conveniência", onde comportamentos desviantes (do político corrupto ao aluno agressivo) são absolvidos por supostos problemas mentais. Qual é o perigo sociológico de usar diagnósticos como "álibi moral", segundo a visão do autor?

5. O Sadismo Burocrático: No episódio do pedido para ir ao banheiro, o autor descreve uma farsa educativa onde se "simula autonomia para reafirmar o controle". Como essa dinâmica exemplifica a crise de autoridade na família e na escola mencionada no texto?

Estas questões ajudam a entender que a escola não é apenas um lugar de ensino, mas um campo de forças onde o poder e a ética estão em constante disputa.

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segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

SÃO TANTAS EMOÇÕES!: A Ditadura da Excitação e o Declínio dos Laços ("As emoções são cavalos selvagens." — Paulo Coelho)

 


SÃO TANTAS EMOÇÕES!: A Ditadura da Excitação e o Declínio dos Laços ("As emoções são cavalos selvagens." — Paulo Coelho)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Há algo de paradoxal no entusiasmo pedagógico contemporâneo. Em nome do engajamento, a sala de aula transformou-se em palco de estímulos contínuos, jogos sucessivos e dinâmicas em série. Não se trata de negar o valor da ludicidade — que pode ser profunda, formativa e até libertadora —, mas de reconhecer o risco do excesso, quando a atividade recreativa deixa de ser meio e passa a ocupar o lugar do próprio estudo. Quando tudo precisa divertir, o esforço intelectual perde sentido e a formação cede espaço à excitação. Não é o jogo que compromete a fibra moral e o intelecto, mas sua conversão em substituto permanente do pensamento, como se aprender exigisse anestesia prévia.

O mecanismo é conhecido: estímulos intensos geram habituação. A novidade, quando repetida, esvazia-se rapidamente e exige doses cada vez maiores para produzir o mesmo efeito. O que começa como estratégia pedagógica termina como entretenimento vazio. A lógica é a mesma das redes sociais e dos jogos eletrônicos: uma economia da atenção que vicia pela excitação constante e empobrece a experiência. Não por acaso, o tédio — condição fértil para a reflexão — passa a ser tratado como falha, quase como patologia. Forma-se, assim, um sujeito incapaz de sustentar o silêncio, a leitura lenta ou o conflito interior que todo aprendizado autêntico exige.

Essa fome por sensações extremas transborda para o ambiente digital e contamina os vínculos. Recentemente, uma “amiga” de Facebook escreveu-me: “Pare de me compartilhar suas publicações... nem te conheço”. O curioso não foi a rejeição — bastaria silenciar ou desfazer o contato —, mas a necessidade de agressão explícita. Há uma ironia cruel nisso: as redes nos tornam “amigos” de estranhos, produzem uma intimidade fictícia e, ao mesmo tempo, legitimam a grosseria como forma de autoafirmação. Ao declarar que seu gosto era “diferenciado” demais, ela não buscava diálogo, mas impacto; não comunicação, mas descarga emocional.

O episódio, confesso, perturbou meu sono naquela noite. Com o tempo, porém, a repetição desses microchoques produz outro efeito: o entorpecimento. A emoção, saturada, perde espessura; a ofensa deixa de ser exceção e se torna paisagem. Vivemos algo próximo ao que já foi descrito como sociedade do espetáculo e da transparência tóxica, em que tudo é exposto, reagido, consumido e descartado com tamanha rapidez que até a indignação se banaliza. A agressividade já não escandaliza; ela apenas mantém o fluxo.

Perguntei-me, então, por que essa urgência em transformar o outro em agressor para validar a própria voz. Ao reagir com ironia e optar pelo bloqueio, percebi minha própria cumplicidade nesse ciclo: também recorri a uma “emoção forte” para encerrar o jogo. As redes funcionam assim — prometem conexão, mas treinam o descarte; estimulam a expressão, mas corroem a escuta. É um entretenimento extravagante que afrouxa os laços de respeito, enfraquece a resiliência e substitui o dissenso pelo choque.

Há saída? Talvez ela passe por uma recusa consciente da excitação permanente, pela revalorização do tempo lento e do esforço sem espetáculo, por uma educação que não precise competir com o entretenimento para fazer sentido. Resistir, hoje, pode ser simplesmente isso: reaprender a sustentar relações, ideias e aprendizagens que não gritam, não piscam e não prometem euforia imediata — mas que, justamente por isso, ainda guardam a potência de nos transformar.


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Olá! Como seu professor de sociologia, elaborei cinco questões discursivas que conectam os conceitos sociológicos presentes no texto com a realidade do Ensino Médio. Estas questões visam estimular o pensamento crítico sobre a cultura do imediatismo e as relações sociais na era digital.


1. O Entretenimento como Substituição: O texto argumenta que a ludicidade em sala de aula, quando excessiva, pode transformar o estudo em "entretenimento vazio". Do ponto de vista sociológico, como essa busca por "excitação permanente" pode prejudicar o desenvolvimento da capacidade de reflexão e do pensamento crítico do estudante?

2. Economia da Atenção e Habitação: O autor compara a lógica das dinâmicas escolares à das redes sociais, mencionando que "estímulos intensos geram habituação". Explique como o conceito de "viciar pela excitação constante" se relaciona com a dificuldade contemporânea em lidar com o tédio e a leitura lenta.

3. Fragilidade dos Laços nas Redes: No relato sobre a "amiga" de Facebook, o texto destaca que as redes produzem uma "intimidade fictícia". Como essa falsa proximidade, somada ao anonimato ou distanciamento da tela, pode legitimar a grosseria e a agressão gratuita nas interações digitais?

4. A Sociedade do Espetáculo e o Entorpecimento: O autor menciona que a repetição de "microchoques" e ofensas gera um "entorpecimento" emocional. Utilizando a ideia de "sociedade do espetáculo", explique por que a indignação e a agressividade correm o risco de se tornarem banais no ambiente virtual.

5. Resistência e Contra-cultura: Ao final, o texto sugere que "resistir" hoje pode ser o ato de valorizar o "tempo lento" e o esforço sem espetáculo. Como essa proposta desafia os valores da sociedade de consumo atual, que prioriza a velocidade, o descarte rápido e a euforia imediata?

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domingo, 1 de janeiro de 2023

(DIS)PUTA PARA QUEM? ("Em uma disputa alguém sempre estará errado, pois se houvesse razão em ambos os lados não haveriam vencedores." — Weberson Gomes)


 

sábado, 31 de dezembro de 2022

DEVAGAR QUASE PARANDO ("Escalar colinas difíceis requer um ritmo lento no início." — William Shakespeare)

 


DEVAGAR QUASE PARANDO ("Escalar colinas difíceis requer um ritmo lento no início." — William Shakespeare)

Por Claudeci Ferrfeira de Andrade

Naquela manhã de domingo, enquanto caminhava pelas ruas vazias da cidade, senti o peso do silêncio. As igrejas, outrora cheias de fiéis em busca de conforto espiritual, agora mantinham suas portas fechadas. Ironicamente, no momento em que mais precisávamos de fé e esperança, aqueles que se diziam portadores da palavra divina se escondiam atrás de suas próprias muralhas. Refleti sobre como as instituições que deveriam nos amparar pareciam ter falhado conosco, prometendo milagres e transformações, mas se retraindo em momentos de necessidade.

Passei em frente à escola onde leciono há anos. As salas de aula, antes repletas de vozes animadas e risadas contagiantes, agora ecoavam um vazio ensurdecedor. Pensei em como nós, educadores, nos vimos forçados a reinventar nossa profissão da noite para o dia. Aulas online, videoconferências intermináveis e a constante sensação de que algo se perdia na tradução digital do conhecimento. As escolas, guardiãs do conhecimento e da socialização, foram reduzidas a telas frias de computador.

Continuei meu caminho, observando as pessoas que cruzavam meu caminho. Todas mascaradas, como personagens de um filme distópico que se tornara nossa realidade. Percebi que já não reconhecia rostos familiares, apenas olhos que expressavam uma mistura de medo e resignação. As máscaras, que um dia foram símbolo de proteção, tornaram-se um manto que nos separava ainda mais, sufocando a essência do que somos.

Cheguei ao parque da cidade, meu refúgio habitual. Sentei-me em um banco solitário, contemplando o cenário ao meu redor. As crianças que antes corriam e brincavam livremente agora estavam confinadas em suas casas, privadas da simplicidade da infância. Os idosos que costumavam jogar xadrez ou conversar animadamente agora eram aconselhados a se isolarem para sua própria proteção. Senti-me como um habitante solitário em meio a multidões, preferindo a solidão à agitação que antes me incomodava.

Refleti sobre meu papel nesse grande teatro social. Sempre busquei inovar, mas a inovação é um ato que demanda coragem. Como ensinar criatividade a quem nunca teve a oportunidade de exercê-la? O pobre, em sua essência, é criativo, mas a falta de iniciativa pode transformar essa criatividade em mera frustração. Percebi que minha própria produção no trabalho refletia esse embaraço interno, como se a armadura que vestia fosse tão pesada que me impedia de avançar.

Senti-me cansado, não apenas fisicamente, mas espiritualmente. A máscara que usava não era apenas uma proteção contra o vírus, mas um símbolo de tudo o que havíamos perdido: nossa liberdade, nossos sorrisos, nossa capacidade de nos conectarmos verdadeiramente uns com os outros. Era como se estivéssemos todos presos em uma linha tênue entre o ser e o parecer, entre a ação e a inércia.

Enquanto observava o sol se pôr no horizonte, pintando o céu com tons de laranja e rosa, percebi que, apesar de tudo, ainda havia beleza no mundo. Talvez fosse esse o nosso papel agora: encontrar a luz em meio à escuridão, criar conexões mesmo à distância, e manter viva a chama da esperança. A verdadeira revolução poderia começar quando decidíssemos tirar a máscara e, por um momento, permitir que a vulnerabilidade nos unisse.

Levantei-me do banco, ajustando minha máscara. Amanhã seria outra segunda-feira de aulas online, outro dia de sorrisos escondidos e vozes abafadas. Mas também seria mais um dia de oportunidade para fazer a diferença, mesmo que de forma pequena e aparentemente insignificante. Ao invés de me perguntar o que posso fazer do que fizeram de mim, comecei a refletir sobre o que posso criar a partir dessa dor.

Caminhei de volta para casa, carregando o peso de minhas reflexões, mas também uma centelha de determinação. Se as instituições que deveriam nos guiar haviam falhado, cabia a cada um de nós ser a mudança que queríamos ver no mundo. Afinal, não são as máscaras que definem quem somos, mas sim nossas ações e a compaixão que demonstramos uns pelos outros, mesmo nos tempos mais sombrios. E, quem sabe, esse processo de transformação não comece por nós mesmos, libertando-nos da armadura que nos aprisiona e transformando este mundo em um lugar onde respirar é um ato de coragem, e não de receio. (CiFA


Com base no texto apresentado, elabore respostas completas e detalhadas para as seguintes questões:


O texto inicia com uma descrição da experiência pessoal do narrador durante a pandemia. Qual a importância dessa experiência individual para a compreensão dos impactos sociais mais amplos do período?


Como as instituições sociais, como igrejas e escolas, são retratadas no texto? Quais as críticas implícitas e explícitas à atuação dessas instituições durante a pandemia?


A máscara é utilizada como um símbolo no texto. Quais os diferentes significados atribuídos à máscara ao longo da narrativa?


O narrador reflete sobre a importância da criatividade e da inovação, especialmente no contexto da pandemia. Qual a relação entre esses conceitos e a capacidade de superar desafios?


Qual a mensagem central do texto? Como as reflexões do narrador podem inspirar mudanças individuais e coletivas?


Estas questões abordam os seguintes aspectos do texto:


A experiência individual e o contexto social: A primeira questão busca conectar a experiência pessoal do narrador com os desafios enfrentados pela sociedade como um todo.

Crítica às instituições: A segunda questão analisa a visão crítica do autor em relação às instituições sociais, como igrejas e escolas.

Simbolismo da máscara: A terceira questão explora os diferentes significados atribuídos à máscara ao longo da narrativa.

Criatividade e inovação: A quarta questão aprofunda a reflexão sobre a importância da criatividade e da inovação para superar desafios.

Mensagem central e perspectivas futuras: A quinta questão busca sintetizar a mensagem principal do texto e as perspectivas de futuro apresentadas pelo autor.

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sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

O Estigma e a Máscara da Autoridade ("Quem pode, age. Quem não pode, ensina." — George Bernard Shaw) ("Quem pode, age. Quem não pode, ensina." — George Bernard Shaw)

 


O Estigma e a Máscara da Autoridade ("Quem pode, age. Quem não pode, ensina." — George Bernard Shaw)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

No ensino básico — sobretudo no terreno irregular da escola regular, pública ou privada — o professor ainda é apresentado como o “guardião da sala de aula”. Espera-se dele a autoridade máxima, capaz de manter corpos sentados, bocas fechadas e olhares fixos na lousa. Essa autoridade, porém, é uma máscara mal ajustada. O conteúdo, o ritmo, o volume de avaliações e até os critérios de nota chegam prontos, definidos previamente. A soberania docente termina onde começa a planilha da coordenação. Quando pais e alunos percebem que o professor é apenas o executor de ordens — um mediador treinado para ser “agradável” em nome de uma didática supostamente moderna — o respeito se esvai. Ele deixa de ser referência e passa a ocupar um lugar incômodo: o de bode expiatório, alvo permanente da erosão cotidiana de sua dignidade profissional.

Nesse cenário, a autoridade real desloca-se em silêncio. Já não está na sala, mas nos bastidores: nos fornecedores de materiais, nos discursos pedagógicos de ocasião e, paradoxalmente, nos próprios alunos. Estes aprendem cedo a lógica do jogo: fingem que aprendem e ensinam o professor a fingir que ensina. Instala-se uma vigilância difusa, quase foucaultiana, em que qualquer gesto vira prova e qualquer palavra, processo. O docente vive sob uma CPI permanente, sempre à espera de ser convocado à diretoria por um boato, uma queixa ou uma interpretação enviesada. Se o sistema legitima sua humilhação, por que o aluno haveria de reconhecê-lo como autoridade? Todo acordo de remanejamento ou alteração na dinâmica das aulas esconde, no fundo, uma exigência de subserviência — não pedagógica, mas simbólica.

É nesse ponto que a virada digital, muitas vezes tratada como detalhe técnico, revela seu peso filosófico. A virtualização das aulas não surge como moda, mas como ruptura no regime de presença e vigilância. O corpo do professor deixa de ser o principal campo de controle. Conflitos típicos do espaço físico arrefecem: diminuem os casos de assédio direto, as acusações baseadas na proximidade corporal e o constrangimento gerado pelo contato inevitável. No ambiente digital, a interação passa a ser mediada por registros, horários e telas. A presença de alunos menores nas redes institucionais do professor torna-se comum, e o envio de textos, links ou ilustrações já não carrega automaticamente a suspeita moral que antes pairava sobre qualquer aproximação. A disciplina muda de forma; o olhar vigilante não desaparece, mas se redistribui.

O que, afinal, está em jogo nessa transformação? Não se trata de romantizar o ensino remoto nem de negar seus limites evidentes, mas de reconhecer que a crise — sanitária, social e institucional — expôs a falência de um modelo de autoridade sustentado apenas pela presença física e pelo controle. A aprovação automática, adotada como paliativo, não resolve o problema; apenas reduz o confronto direto e escancara o esvaziamento do sentido avaliativo. O vírus, sem metáforas excessivas, forçou a educação a encarar sua própria contradição: ou repensa a autoridade como responsabilidade compartilhada e reconhecimento mútuo, ou continuará produzindo máscaras cada vez mais frágeis para um poder que já não convence. A reconfiguração está em curso; resta saber se teremos coragem de conduzi-la conscientemente — ou se seguiremos fingindo que tudo ainda funciona como antes.


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Olá! Como professor de sociologia, preparei cinco questões discursivas baseadas no meu texto acima. O foco aqui é estimular a reflexão crítica sobre as relações de poder, as instituições e as mudanças sociais provocadas pela tecnologia no ambiente escolar.


1. A Ilusão da Autoridade: O texto afirma que o professor é visto como o "guardião da sala de aula", mas que essa autoridade é, na verdade, uma "máscara mal ajustada". Explique, com base no texto, por que o autor considera que o poder real do professor é limitado em relação à coordenação escolar.

2. O Fingimento Institucional: O autor descreve uma "lógica do jogo" onde os alunos fingem que aprendem e ensinam o professor a fingir que ensina. Na sua visão, como esse "teatro" prejudica a função social da escola e a formação do indivíduo?

3. Vigilância e Controle: O texto menciona uma "vigilância difusa, quase foucaultiana". Utilizando o conceito de controle social, explique como a "CPI permanente" (boatos, queixas e interpretações enviesadas) afeta o comportamento e a liberdade do docente no exercício de sua profissão.

4. O Impacto do Digital: Segundo o texto, a virtualização das aulas causou uma "ruptura no regime de presença". De que maneira o ambiente digital alterou os conflitos de proximidade física e a suspeita moral que pairava sobre a relação entre professores e alunos menores?

5. Crise e Reconfiguração: O autor conclui que a crise sanitária expôs a falência de um modelo de autoridade baseado apenas no controle físico. O que o texto sugere como alternativa para que a educação não continue produzindo "máscaras frágeis"?

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A TERRA É O INFERNO, MORADA DOS DEMÔNIOS ("Aqueles que repudiaram o seu demônio importunam-nos com os seus anjos." — (Henri Michaux)