O Espelho Partido: Entre o Jaleco e a Burocracia ("A primeira fase do saber, é amar os nossos professores." – Erasmo de Rotterdam, teólogo.)
Há um fenômeno intrigante na sala dos professores: o aluno que é silêncio em uma aula e caos em outra. Nessa coreografia de tensões, colega, o que nos fere não é apenas a indisciplina em si, mas a maneira como o sistema nos lança em um jogo perverso de “quem educa melhor”, fragmentando a solidariedade docente. Muitas vezes, o desespero discente — que se manifesta em agressões morais ou denúncias vazias — é o grito de quem foi moldado por uma estrutura que valoriza a nota acima do saber e a disciplina externa acima da ética interior. Ao final, o jaleco branco, símbolo da autoridade intelectual, termina manchado por uma lama que não é dos alunos, mas de uma engrenagem que nos desautoriza.
O sistema educacional padece de uma profunda miopia institucional. Enquanto a Educação trata a “disciplina” como conteúdo formativo, a gestão frequentemente a reduz a mero comportamento dócil. Vive-se, assim, um falso conforto: métodos são sacrificados em nome da manutenção de uma ordem aparente. O professor de Língua Portuguesa, ao constatar o abismo entre ensino e aprendizagem nas redações, encontra-se isolado; se expõe o erro em busca de um caminho comum, é julgado; se silencia, torna-se cúmplice. Como advertia Victor Hugo: "Quem poupa o lobo, sacrifica a ovelha". Nesse cenário, a meritocracia converte-se em ficção, pois não há justiça estrutural que ampare quem atua na linha de frente.
É preciso, com urgência, nomear os responsáveis por esse naufrágio. O problema não é o “diabo” em sala de aula, mas um desígnio sistêmico que se expressa em três frentes principais:
A gestão de fachada, que privilegia o cumprimento de metas burocráticas em detrimento do apoio real diante da violência escolar.
O isolamento docente, no qual a ausência de colaboração entre pares permite que sejamos colocados uns contra os outros.
A instrumentalização do aluno, que aprende precocemente a utilizar o sistema de denúncias para ocultar a lacuna do conhecimento.
Reconstruir o que restou exige mais do que resistência: exige práxis. São necessárias políticas efetivas de saúde mental, uma gestão que compartilhe riscos — e não apenas cobranças — e um currículo que dispense iscas vazias, permitindo que o conhecimento seja desejado por sua própria potência de vida. Goethe estava certo: aprende-se com quem se gosta. Mas, para que o amor retorne à educação, é indispensável que a escola deixe de ser um campo de batalha e volte a ser o espaço onde o humano se reconhece no outro.
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Como seu professor de Sociologia, convido vocês a analisarem este texto que toca em um ponto sensível: a crise de identidade das nossas escolas. O autor nos propõe olhar para além da bagunça em sala de aula e enxergar os problemas de estrutura e gestão que afetam tanto quem ensina quanto quem aprende. Para nossa aula, preparei 5 questões que conectam esse texto aos conceitos de instituições sociais, solidariedade e poder.
1. A Fragmentação da Solidariedade Docente O texto menciona que o sistema coloca professores uns contra os outros em um jogo de "quem educa melhor". Questão: Utilizando o conceito de Solidariedade Orgânica de Émile Durkheim, explique como o isolamento dos professores e a falta de colaboração entre colegas prejudicam o funcionamento da "engrenagem" escolar.
2. Disciplina: Comportamento ou Conhecimento? O autor diferencia a disciplina como "conteúdo formativo" da disciplina como "comportamento dócil". Questão: Quando uma escola foca apenas em manter os alunos quietos (ordem aparente) em vez de focar no aprendizado real, que tipo de cidadão ela está ajudando a formar? Relacione sua resposta à ideia de "gestão de fachada" citada no texto.
3. A Instrumentalização do Aluno. O texto afirma que o aluno aprende a usar "denúncias vazias" para esconder lacunas de aprendizado. Questão: De que forma a troca do esforço pelo saber pelo uso de estratégias de manipulação do sistema reflete uma falha na função social da escola? Por que o autor diz que o aluno é a "primeira vítima" dessa engrenagem?
4. A Crítica à Meritocracia no Sistema Atual. Segundo o texto, a meritocracia na escola atual é uma "ficção" porque não há justiça estrutural para quem está na linha de frente. Questão: Por que não podemos falar em mérito (sucesso por esforço próprio) quando o sistema ignora as dificuldades reais de professores e alunos, priorizando apenas metas burocráticas?
5. Educação como Práxis e Humanização. O encerramento do texto sugere que a escola deve ser um espaço onde "o humano se reconhece no outro". Questão: Baseado na ideia de Educação Libertadora (ou Práxis), como o diálogo e o afeto ("aprende-se com quem se gosta") podem transformar a escola de um "campo de batalha" em um espaço de construção do conhecimento?
Dica do Prof: Ao responder, tente não focar apenas na sua opinião pessoal, mas em como as regras da "engrenagem" (o sistema) influenciam o comportamento das pessoas dentro da escola.


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