Ensaio Teológico VIII(17) A DÚVIDA, A FÉ E A SABEDORIA: A CORAGEM DE PERGUNTAR
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Tinha uns dez anos quando perguntei à professora da escola dominical como podíamos saber se aquilo que ela acabara de afirmar era mesmo verdade. Não era desafio, muito menos rebeldia; era curiosidade pura, dessas que brotam na cabeça da criança antes que alguém lhe ensine a ter medo de perguntar. A resposta, porém, não esclareceu minha dúvida: "Isso a gente não pergunta, a gente crê." Guardei aquela pergunta como quem guarda uma pedra no bolso: pequena, incômoda, mas impossível de ignorar. Agora, tantos anos depois, este ensaio é o momento de tirá-la dali e examiná-la à luz do dia. Desconfio de quem trata a dúvida como inimiga da fé, como se pensar fosse uma espécie de pecado e perguntar, uma afronta a Deus. Ora, Provérbios, livro que tantas vezes usamos como cartilha de obediência, também é um convite à busca. Diz que o Senhor dá a sabedoria (Pv 2:6), mas manda quem a recebe ir atrás dela (Pv 4:7). E vai além: afirma que a glória de Deus é encobrir as coisas, enquanto a dos reis é esquadrinhá-las (Pv 25:2). Veja só que ironia bonita! Se há um Deus que esconde, há também um ser humano chamado a procurar. Talvez a fé não comece quando todas as perguntas se calam, mas quando encontramos coragem para fazê-las.
Preciso, contudo, corrigir minha própria desconfiança. Seria preguiça intelectual colocar "dogma", "credo" e "tradição" no mesmo saco, jogar tudo fora e declarar que nada disso tem valor. Afinal, a preguiça de pensar também pode se disfarçar de liberdade, assim como o dogmatismo pode vestir tanto a roupa da religião quanto a da razão. Entendo o dogma como uma doutrina que determinada comunidade considera fundamental, depois de um longo percurso de reflexão e debate. Já o dogmatismo é outra conversa: é a recusa de olhar novamente, a certeza que se fecha numa redoma e se protege de qualquer evidência capaz de abalá-la. Um pode resultar de séculos de pensamento; o outro pode nascer numa sala de aula, num laboratório ou num púlpito. Ninguém está livre dessa armadilha, nem mesmo quem se orgulha de não acreditar em nada sem provas. Por isso, minha pergunta nunca foi simplesmente "fé ou razão?", como se uma precisasse expulsar a outra de casa. O que realmente me inquieta é outra coisa: o que acontece quando uma certeza se recusa a ser examinada? É nesse ponto que a convicção deixa de ser caminho e se transforma em prisão.
O caso de Galileu Galilei nos ajuda a compreender o tamanho desse perigo. Em 1633, ele foi condenado pela Inquisição romana por defender o heliocentrismo, segundo o qual a Terra gira em torno do Sol. O episódio expôs o conflito entre as observações astronômicas, as interpretações então predominantes de determinadas passagens bíblicas e a autoridade filosófica herdada da Antiguidade. A rigidez com que se sustentou a interpretação contrária acabou revelando a fragilidade de uma postura que não admitia rever suas certezas. Séculos depois, em 1992, o papa João Paulo II reconheceu os erros cometidos no tratamento dado a Galileu. Eis uma lição que não convém esquecer: quando a fé se agarra a uma interpretação humana como se ela fosse a própria revelação divina, corre o risco de ferir justamente aquilo que pretende defender. Mas, calma lá! A história não cabe numa fábula de heróis e vilões, como se a religião estivesse sempre de um lado e a ciência, invariavelmente do outro. Foi o padre Georges Lemaître quem formulou a hipótese do universo em expansão, e foi o frade Gregor Mendel quem estabeleceu bases fundamentais da genética por meio de seus experimentos com ervilhas. Portanto, a fronteira entre a abertura e o fechamento não passa simplesmente entre o templo e a universidade. Passa, sobretudo, por dentro de cada um de nós.
E o ceticismo? Ora, se queremos levar a sério o pensamento crítico, precisamos permitir que ele examine também as nossas próprias certezas. Carl Sagan, em O Mundo Assombrado pelos Demônios (1995), apresentou um "kit de detecção de falsidades", um conjunto de ferramentas para avaliar afirmações e reconhecer falhas de raciocínio. O princípio é simples, embora nem sempre fácil de praticar: submeter ao exame não apenas aquilo de que discordamos, mas também o que gostaríamos muito que fosse verdade. Karl Popper, por sua vez, desenvolveu a ideia de falseabilidade como critério para distinguir teorias científicas: uma teoria precisa admitir, ao menos em princípio, a possibilidade de ser contrariada por evidências. Isso não significa que toda afirmação não falseável seja automaticamente inútil em qualquer campo do conhecimento, mas que não podemos apresentar como científica uma explicação que não se dispõe a correr o risco de ser refutada. Curiosamente, encontro nas próprias Escrituras uma orientação que conversa com essa disposição crítica. Paulo aconselha: "examinai tudo, retende o bem" (1Ts 5:21). E os bereanos são elogiados por verificarem diariamente as Escrituras para conferir se o que ouviam correspondia à verdade (At 17:11). Perceba: não se trata de engolir tudo sem mastigar, mas de examinar antes de acolher. A própria tradição bíblica oferece, assim, elementos para questionarmos uma fé que exige obediência sem reflexão.
Volto, então, à professora da minha infância, mas já não volto com raiva. Talvez ela estivesse apenas protegendo aquilo que aprendera a considerar sagrado, repetindo uma resposta que também lhe haviam ensinado. Quem sabe eu mesmo, hoje, não faça algo parecido em algum canto da vida em que ainda não aprendi a duvidar? A gente costuma enxergar com facilidade as certezas alheias, mas, quando chega a hora de examinar as próprias, o negócio muda de figura. Não proponho trocar a Bíblia pelos cientistas, nem o laboratório pelo templo, muito menos transformar a dúvida em religião e o ceticismo em dogma. Proponho algo mais simples — e, justamente por isso, mais exigente: examinar tudo, inclusive aquilo que usamos para examinar o mundo. Ter fé não precisa significar fechar os olhos; pensar criticamente não exige fechar o coração. O problema não está em acreditar, mas em acreditar que já sabemos o suficiente para nunca mais precisar perguntar. Afinal, a sabedoria não exige que tenhamos todas as respostas. Exige disposição para procurar, humildade para reconhecer os próprios limites e coragem para rever o que julgávamos definitivo. Aquela criança de dez anos continua aqui, com a pergunta guardada no bolso. E talvez seja justamente por ainda não ter desistido dela que continuo aprendendo. Porque, no fim das contas, a sabedoria começa quando a certeza deixa de ter medo da pergunta.


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