"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

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MINHAS PÉROLAS

quinta-feira, 29 de julho de 2010

GATO POR LEBRE: O Despertar Tardio (ou a Conveniência do Momento?)


Crônica

GATO POR LEBRE: O Despertar Tardio (ou a Conveniência do Momento?)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

De repente — assim, sem aviso prévio, como quem acorda sobressaltado no meio da madrugada — a classe política brasileira resolveu redescobrir um velho conhecido da educação: a tal da progressão escolar automática. Virou manchete, assunto de debate, combustível de discursos inflamados. Agora, dizem, é hora de enterrá-la com solenidade, quase como quem participa de um funeral cívico para um erro histórico recém-descoberto. Mas a pergunta, teimosa, continua batendo à porta: por que só agora?

A progressão continuada não caiu do céu ontem. Ela atravessou décadas de políticas educacionais e ganhou força sobretudo nos anos 1990, embalada por uma promessa sedutora: reduzir a evasão escolar e democratizar o acesso à educação. No papel, parecia um avanço civilizatório. Na prática… bem, a realidade foi menos elegante.

O país passou a conviver com um paradoxo difícil de engolir: alunos avançam de série, mas muitos chegam ao final do ensino fundamental tropeçando no básico — leitura, interpretação, matemática elementar. E o próprio IDEB repete, ano após ano, o mesmo recado incômodo: avançamos pouco onde deveríamos avançar muito. Ou seja, o problema nunca esteve escondido. Só foi, digamos assim, convenientemente ignorado.

Porque, quando a politicagem pega o volante, a estrada costuma escurecer. Na penumbra da ignorância — cultivada, tolerada ou simplesmente deixada correr solta — fica bem mais fácil conduzir multidões sem muita resistência. Nessas horas, o velho ditado cai como uma luva: “de noite todos os gatos são pardos”. E foi nessas sombras que passamos anos comprando gato por lebre educacional, enquanto relatórios se empilhavam no Ministério da Educação e especialistas alertavam, aqui e ali, para a fragilidade do aprendizado real nas salas de aula. Agora, de repente, descobriram o problema.

Permita-me uma hipótese menos inocente: a escola perdeu autoridade simbólica diante do adolescente. O aluno percebe quando o jogo está armado. Quando entende que passará de ano quase por inércia, o esforço perde o sentido. O desafio evapora — e, com ele, vai embora também o respeito pela própria ideia de estudar.

Enquanto isso, lá no alto das estruturas burocráticas, técnicos altamente titulados produzem diretrizes sofisticadas, cheias de boas intenções, gráficos elegantes e linguagem técnica. Tudo muito organizado no papel. Bonito de ver. Só tem um detalhe: educação não acontece em planilhas. Ela acontece no chão da escola. Naquele instante quase invisível em que um professor tenta, contra todas as probabilidades, ensinar alguém a pensar.

Porque, no fundo, o verdadeiro nó da questão nunca foi apenas reprovar ou promover alunos. O problema sempre foi outro — mais profundo, mais exigente: ensinar o estudante a aprender por conta própria. Sem isso, qualquer política educacional vira maquiagem estatística, dessas que até enganam na foto, mas não resistem à luz do dia.

E aqui aparece um ponto ainda mais espinhoso. Parte dos próprios profissionais da educação — que deveriam ser os primeiros a questionar essas engrenagens — acabou se acomodando. Não por falta de inteligência, mas por excesso de prudência social. Criticar certas políticas virou quase uma heresia pedagógica. Entre preservar a reputação e enfrentar o debate, muita gente preferiu o caminho mais silencioso. O silêncio confortável.

Assim nasceu uma curiosa coreografia institucional. Ontem defendia-se a progressão automática como símbolo de modernidade educacional. Hoje, muitos dos mesmos especialistas começam a recuar discretamente, como quem troca de música numa festa sem admitir que a anterior estava desafinada. Ninguém gosta de admitir erro em público. Só que educação é um terreno onde erros não custam apenas argumentos. Custam gerações.

Quando tentamos medir todos os alunos pela mesma régua burocrática, acabamos esmagando justamente aquilo que deveria florescer: o esforço individual, a curiosidade intelectual, o prazer de descobrir. O “comum”, quando vira regra absoluta, costuma virar também inimigo da excelência.

No fundo — e aqui está o ponto que pouca gente gosta de dizer em voz alta — a disputa educacional brasileira nunca foi apenas pedagógica. Ela é também política. E, em certo sentido, simbólica. Disputam-se números. Disputam-se discursos. Mas, sobretudo, disputam-se mentes. Porque uma sociedade que desaprende a pensar se torna, inevitavelmente, mais fácil de conduzir.

Talvez seja por isso que esse súbito despertar político cause tanto estranhamento. Não sabemos se estamos diante de uma correção sincera de rota ou apenas de mais uma reconfiguração estratégica do discurso. O que sabemos, isso sim, é outra coisa. A escola brasileira precisa recuperar algo que nenhuma lei, decreto ou reforma curricular consegue fabricar artificialmente: o sentido do aprendizado. Sem isso, qualquer reforma será apenas mais um ato nesse velho teatro educacional onde todos falam em nome dos estudantes — mas poucos, pouquíssimos, realmente escutam o que acontece dentro da sala de aula.

E assim seguimos, assistindo à cortina subir e descer sobre novas promessas salvadoras. Só que agora já não dá mais para assistir em silêncio. A inquietação ficou grande demais pra caber na resignação. Não pra descobrir se estamos indo da brasa para o espeto. Mas pra decidir, de uma vez por todas, quem continua alimentando o fogo.


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Como professor de Sociologia, fico muito empolgado quando escrevo um texto que cutuca a ferida das nossas instituições. A escola não é uma bolha; ela reflete as disputas de poder, as desigualdades e as intenções de quem comanda o país. O texto que acabamos de ler é um prato cheio para pensarmos em Educação e Controle Social. Preparei 5 questões discursivas para a gente refletir sobre como a política molda o que acontece dentro da sala de aula.


1. O "Uso Político" da Educação

O texto sugere que a manutenção de uma educação frágil facilita a condução de "multidões sem muita resistência". De que forma a falta de uma educação de qualidade pode ser vista como uma ferramenta de controle social e dominação política?

2. O Papel da Meritocracia e do Estímulo

O autor afirma que, ao perceber que passará de ano "por inércia", o aluno perde o sentido do esforço. Do ponto de vista sociológico, como a ausência de desafios e de critérios de avaliação reais pode afetar a construção da identidade do jovem e sua visão sobre a importância do conhecimento na sociedade?

3. Burocracia vs. Chão da Escola

Existe uma crítica no texto aos "técnicos altamente titulados" que planejam a educação em planilhas, longe da realidade das salas de aula. Explique por que o distanciamento entre quem formula as leis (a elite burocrática) e quem as executa (professores e alunos) pode gerar o que o autor chama de "maquiagem estatística".

4. A Conformidade dos Profissionais

O texto menciona que muitos profissionais da educação se acomodaram por "prudência social" ou medo de "heresia pedagógica". Como as pressões sociais e o medo do cancelamento ou da crítica podem silenciar o debate democrático e impedir melhorias reais nas instituições de ensino?

5. A Escola como Campo de Disputa

Segundo o trecho: "a disputa educacional brasileira nunca foi apenas pedagógica. Ela é também política". Relacione essa afirmação com a ideia de que a escola é um espaço onde se "disputam mentes". Qual é a importância de uma sociedade que "aprende a pensar" para a manutenção da democracia?

Dica do Prof:

Para responder a essas questões, não foque apenas em "certo ou errado". Pense em como as estruturas da sociedade (governo, leis, cultura) influenciam a vida das pessoas. Use exemplos do seu dia a dia na escola para enriquecer seus argumentos!

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sábado, 24 de julho de 2010

OS LESADOS, NÃO DENUNCIANTES (Cursos a distância física e ideológica, indústrias de diploma fáceis, faturando alto.)

Crônica

OS LESADOS, NÃO DENUNCIANTES (Cursos a distância física e ideológica, indústrias de diploma fáceis, faturando alto.)

sábado, 24 de julho de 2010
Claudeci Ferreira de Andrade
        Ouvi pelo rádio sobre uma grande quantidade de cursos a distância que são verdadeiras indústrias de diplomas fáceis, faturando alto. Já na internet, descobri estes dizeres: “SUPLETIVO A DISTÂNCIA SEM FREQUENTAR SALA DE AULA, CERTIFICADO RECONHECIDO EM TODO TERRITÓRIO NACIONAL E VÁLIDO PARA: FACULDADE, CONCURSOS PÚBLICOS, CURSOS TÉCNICOS E PRINCIPALMENTE PARA O MERCADO DE TRABALHO, COM PUBLICAÇÃO EM DIÁRIO OFICIAL , PAGAMENTO FACILITADO . (0**14) 9621.5895.” E contrastei com (http://g1.globo.com/goias/noticia/2016/03/video-mostra-prisao-de-suspeitos-de-vender-diplomas-de-ensino-medio.html) - Acessado em 05/03/2016.
        As pessoas honestas consigo mesmas, estudam de fato. Estas, sim, podem denunciar, reclamar e se sentir injustiçadas com a máfia da educação. Os moderninhos como favorecidos pela falcatrua do sistema educacional paralelo, eles devem não ser muito questionadores. Toda facilidade do sistema educacional oficial proposto, tem em vista "ajudar" as pessoas, e não apenas satisfazer–lhes a vaidade de se anunciar graduados. Como podemos levar os supostos beneficiados a se denunciar e aceitar sua criminalidade, enquanto tem outro tipo que se soma a esses: os compradores? Frequentam paulatinamente o colégio, mas são fracos, e são parceiros! Assim, acabam forçando o fim a justificar os meios.
        Ser conivente com os que escolheram o atalho não atrapalha efetivamente os intelectuais e estudiosos honestos, cumpridores de currículo escolar. Disputar vaga em um concurso é como uma tempestade no mar, coloca em prova a nau. Seja qual for sua situação, garanta-se, lembrando-se também: os diplomas não fazem prova de conhecimento efetivo!
        Eu pertenço à esta terceira classe, fiz verdadeiramente bons cursos, nunca comprei um diploma, mas não denuncio os praticantes, só falo de milagres, deixo os santos no anonimato, prefiro tratar os fracos com mansidão e humildade, estes são os sinais reveladores de minha coerência, fui o primeiro colocado com a nota 9,7 no concurso público da educação estadual, 1998, para esta região, na área de Língua Portuguesa. E o terceiro na educação municipal de Senador Canedo, 2002. Desisti de trabalhar na educação pública municipal de Caldazinha, pois já trabalhara pela manhã e fazia faculdade à tarde, 1998, ali, também, houvera passado em terceiro lugar. Devemos ter todas as boas qualidades: amor, paciência, humildade, bondade, longanimidade; além de conhecimento academicamente sistematizado. Quem sabe, eles resolvem estudar arduamente mesmo depois de ter comprado, no mercado negro, seu diploma! Se você acha que estou dizendo isso tudo ao me exaltar por exaltar, interpretou mal minha crônica! Sabe quais sentimentos ocupam a minha mente? São os mesmos de quem bateu em um bêbado! E quando fracassei tive os piores, seriam, os de quem apanhou de um bêbado!
         Para não deixar em branco aos de "nível avançado", fiquei sabendo que os mestrados e doutorados do Paraguai devem passar pelo teste de equivalência nas universidades daqui. Êta, indústria...! https://extra.globo.com/extra-mobile/fabrica-de-diplomas-escola-com-capacidade-para-100-alunos-teve-12-mil-matriculados-num-ano-23116701.html
Claudeko
Publicado no Recanto das Letras em 23/06/2010
Código do texto: T2337064

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segunda-feira, 5 de julho de 2010

EU EM VOCÊ NO AMANHÃ (O outro lado da pirataria)


Pensamento

EU EM VOCÊ NO AMANHÃ (O outro lado da pirataria)

Claudeci Ferreira de Andrade

          Sou Multipresente através de meus leitores, e quem quiser me copie, favorecendo assim minha expansibilidade. E mais ainda, serei eterno se vocês tirarem meus personagens do texto, vivendo-os. Eles são "pirateados" da vida real E, outras vezes, plagiado da imaginação, esta que ninguém pode impedir voar sobre nossa cabeça, então venha, se a lei da gravidade lhe permitir, e faça ninho.
          Quem vem de cima é sempre o maior! Um benefício barato nunca vale a boa interpretação, por outro lado, a má interpretação é geralmente irresponsável. Leis perfeitas não deixam brechas! Ninguém rouba minhas  ideias na fonte, só depois de expressadas! O ladrão sabe não são dele e se condena, depois me devolve em prestigio moral: remissão natural. "O que dá o prestígio verdadeiro ao artista são os seus imitadores."(Igor Stravinsky). 
          Porém, "O Alheio chora ao seu dono". Que diabo é "Domínio Público"? 
           "O domínio público representa o fim dos direitos patrimoniais do autor sobre a obra intelectual. As obras que ingressam no domínio público passam a “pertencer” à coletividade, podendo ser livremente utilizadas. Uma obra intelectual pode ingressar no domínio público na ocorrência de uma das seguintes hipóteses: (i) decurso do tempo, (ii) o falecimento do autor sem deixar herdeiros ou (iii) ser a obra de autoria desconhecida. Quanto ao decurso do tempo, é necessário que o autor, ou o coautor, no caso de coautoria, tenha falecido há mais de 70 anos. Isso significa dizer que somente após 70 anos da morte do autor ou do último dos coautores é que a obra intelectual pode ser considerada de domínio público. A Lei 9.610/98 prevê uma forma específica para a contagem do prazo de 70 anos para que uma obra intelectual integre o domínio público: o prazo somente começa a fluir a partir de janeiro do ano subsequente ao falecimento do autor. Por exemplo, se um autor morreu em agosto de 2013, o início do prazo se deu a partir de janeiro de 2014. Nessa linha de raciocínio, somente a partir de janeiro de 2084 é que a sua obra ingressará ao domínio público." https://www.meudireitoautoral.com/quando-uma-obra-vira-dominio-publico/
           Quem divulgar textos vinculados a autor Desconhecido é no mínimo um golpista: destrói o que não pode possuir, nega o incompreensível, insulta o invejável. Eu abomino os ladrões de alma!
Claudeko
Publicado no Recanto das Letras em 05/07/2010
Código do texto: T2360356

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domingo, 4 de julho de 2010

"PÕE MORAL, PROFESSOR!" (Um alunado que condena seu professor a um grande sentimento de culpa é um colegiado fútil.)








Crônica

"PÕE MORAL, PROFESSOR!" (Um alunado que condena seu professor a um grande sentimento de culpa é um colegiado fútil.)


Por Claudeci Ferreira de Andrade


         Qual professor ainda não se viu numa sala transtornada em "baderna" e ainda teve de ouvir daquele aluno palhaço querendo aparecer, gritando: "Põe moral, professor"! O imbecil não sabe conceituar moral e que a mesma é intransferível, pois cada um tem a porção construída em casa, no seio da família. Quem não tem moral é o professor ou são os farristas desobjetivados, os quais nem ficam dentro e nem fora da sala ou transitando de carteira em carteira, "matando aula" dentro da própria sala de aula? Essa é Minha pergunta filha da decepção! Em outro momento, pensei: será se esse tolo sabe de fato o quê está sugerindo ao professor? Pois quaisquer pensamentos, desejos ou conduta considerados errados, envolvem questões morais, e ele está comprometido com isso. Por que ele chega a tomar esta atitude? Não posso compreender! Mas, de uma coisa estou certo, ele assume o pior comportamento naquele instante. Há uma multiplicidade de exigências com o apelo dele, afrontando a toda espécie de regras e regulamentos de uma unidade escolar.
         É possível dar tal ênfase à sua própria pessoa, chegando a desviar a atenção do mísero professor, prejudicando qualquer encaminhamento dele rumo à paz, atraindo para o "coitado" mestre os mais deploráveis sentimentos, dos tais não têm princípios, só sentimentos enferrujadores como: ira, ciúmes, inveja, ódio, hostilidade, indolência, malícia. Infelizmente isso é possível!
         Ao acentuar do professor, ali presente, dizendo-lhe não ter moral alguma, tenciona que todos passem por alto a infração do aluno malicioso. Quando um deles faz isso, a sala de aula despeja crescente ansiedade, culpa e condenação, especialmente em quem a dirige. O despreparado indivíduo tira do professor o equilíbrio, e a fria moralidade exigida, tende a tornar-se indistinta e cruel, de modo que os demais alunos duvidem da sinceridade do mestre com suas responsabilidades de líder.
         Um alunado que condena seu professor a um grande sentimento de culpa é um colegiado fútil. 

         Perigo algum é maior, à sociedade, do que alguém está a frequentar o colégio com a aparência de aluno e não ser um aluno de objetivo nobre. Tem preguiça de trazer à escola o livro didático ganhado. Para esse, o convite ao lanche de graça é o maior motivo de largar o professor falando sozinho e sair correndo derrubando as cadeiras e mesas. Esse tipo vai deixar a bicicleta, também ganhada do governo, em casa, e virá à escola a pé com preguiça de pedalar. Outros vão descaracterizá-la disfarçando de não membro do grupo dos tais... Eu nunca vi um ciclista comum de capacete... Vai desperdiçar dinheiro assim lá longe, governo sem educação! Essa é a moral que eles conhecem!
         Alguns evangélicos, mais "fervorosos", ligam o Telemóvel (presente ganhado do pai pelo sucesso do filho nos estudos), obrigando todos da sala a ouvir sua música gospel, e se o professor pede para desligar, é o Satanás o impedindo de fazer o seu trabalho missionário. Na educação, sempre sou forçado a cometer os mesmos erros! As “peças” do sistema não se encaixam. Por isso, talvez, e por tantos outros desencontros, eu lhes pareço não ter moral porque simplesmente não me imponho. Contudo tenho sim, não a moral que eles querem, na medida deles, e é como já disse: ela é comunicável e exemplificável, mas não transferível. Talvez eu seja como um desses livros que o Friedrich Nietzsche disse: "Os leitores extraem dos livros, consoante o seu carácter, a exemplo da abelha ou da aranha que, do suco das flores retiram, uma o mel, a outra o seu veneno." 
Claudeko
Publicado no Recanto das Letras em 04/07/2010
Código do texto: T2358065

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quinta-feira, 10 de junho de 2010

AS FORMALIDADES DA ESCOLA (Escola Sem Aula, Sem Série e Prova: DÁ CERTO?)




Crônica

AS FORMALIDADES DA ESCOLA (Escola Sem Aula, Sem Série e Prova: DÁ CERTO?)

Por Claudeci Ferreira de Andrade


            Deparando-me com este pensamento de Ernesto Sábato: “Creio que a verdade é perfeita para a matemática, a química, a filosofia, mas não para a vida. Na vida, contam mais a ilusão, a imaginação, o desejo, a esperança”. Então, Pensei em como o sistema educacional pretende formar cidadãos inserindo-os na vida, pois com tanto "profissionalismo" ainda está longe do ideal!
            Os alunos são convidados a fazer carreira no mundo, enquanto segue normas que favorecem a predisposição para o fanatismo social, floculação das camadas sociais. As verdades da escola solidificadas  tornam-nos insensíveis.  A violência no ambiente escolar é uma manifestação natural da ilusão, da imaginação, do desejo e da esperança fazendo resistência à verdade tão apreciada por si mesma. A verdade nunca esteve tão distante dela mesma a ponto de precisar está sendo ela mesma a cada instante.
            Como vou continuar ensinando meus alunos a construírem castelos de pedra se os de areia são recomendados pela natureza e remodelados constantemente pelo vento? É a vida tão vulgar assim? Digo vulgar com a mentalidade de professor tradicional, pois ainda sou. Mas, por que têm tantos que são forçados a precisar das verdades do sistema educacional, e outros nem precisam disso para fazer sucesso e viver bem na "Classe A” da sociedade? Aqueles indivíduos convencionais já podem ser descartados do mundo real, pois são luzes, testemunhas poderosas, funcionam como prova de que a escola está vendendo austeridade e apenas isso. Assim, fica difícil crer na escola como a salvadora da sociedade com a educação de seu umbigo. 
            Bons alunos da escola sistematizada são fracos o bastante, comparados com os alunos da escola da vida rotativa, estes corrompem o tradicionalismo e a formalidade, aqueles não, solidificarão mais ainda o sistema engessado presente. E para melhorar o sistema educacional, ninguém, exceto a vida parece saber o que fazer.
         Por que os alunos não têm respeito e consideração às autoridades educacionais da escola? Será se descobriram tarde demais a existência de outro mundo próspero e também real: o mundo da ilusão, da imaginação, do desejo, da esperança? Em meu desespero, pressionado a ser como meus chefes querem, cheguei a pensar isso! Desculpem-me os mais conservadores. Porém, permitam-me só mais uma pergunta. Se a verdade por si só se defende, então qual é a necessidade de dar bicicleta, lanche, uniforme, dinheiro para manter os alunos na escola pública? Um pouco de ilusão não mata ninguém! 
          Se não for atrativo saber sobre o professor, cujo o profissional não deu certo em outras profissões ditosas, então não diremos nada sobre o coordenador inábil como professor? Estou doido, já não sei mais o que é verdade ou ilusão; desejo ou esperança; nem imaginação ou realidade! Salvem-me do fanatismo social, ou da mania de grandeza. Ou Façam-me educado sem a educação. Ou talvez tenha razão o educador português José Pacheco: "TRABALHO HÁ MAIS DE 30 ANOS COM ESCOLA QUE NÃO TEM AULA, SÉRIE E PROVA, E DÁ CERTO". (http://educacao.uol.com.br/noticias/2009/06/30/escola-sem-aula-serie-e-prova-da-certo-ha-mais-de-30-anos-diz-educador.htm) — acessado em 20/02/2016.
           O que o professor José Pacheco não descobriu foi o fato de a educação brasileira ser mero cabide de emprego, e existem coordenadores regulando qualquer ação de professor inovador. Quem ousa deixar de aplicar prova timbrada? Deixar de mostrar "planinhos" escritos para arquivar? E talvez, se esqueceu também sobre o dinheiro destinado à educação, quase não chega à escola.

Claudeko
Publicado no Recanto das Letras em 10/06/2010
Código do texto: T2312363

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (autoria de Claudeci Ferreira de Andrade,http://claudeko-claudeko.blogspot.com). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.

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domingo, 30 de maio de 2010

A EDUCAÇÃO É BELA: Para Além da Catarata da Alma ( A beleza está nos olhos de quem a vê)














Crônica


A EDUCAÇÃO É BELA: Para Além da Catarata da Alma ( A beleza está nos olhos de quem a vê)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Há um tipo de olhar que não se cansa apenas de ver — ele se cansa de viver. São olhos opacos, fatigados, que atravessam o mundo como quem anda por um corredor mal iluminado. E o pior: esse olhar tem o péssimo hábito de matar o entusiasmo diante do que é belo.

Confesso: os meus andavam assim. Até que a medicina — discreta, quase silenciosa — entrou em cena. Depois de duas facectomias bem-sucedidas, algo mudou. Não foi só a visão que clareou; foi o mundo inteiro que pareceu reaparecer. De repente, as formas ganharam contorno, as cores recuperaram sua ousadia, e até as flores — essas velhas companheiras de paisagem — pareciam ter resolvido vestir seus tons mais vivos, como quem diz: “Bem-vindo de volta”.

Falo, claro, da visão física. Do cristalino limpo, das lentes ajustadas, da precisão da cirurgia. Mas cá entre nós: como seria bom se existisse uma operação parecida para o espírito. Uma cirurgia capaz de remover também a catarata da alma — aquela névoa fina que se instala entre nós e o sentido mais profundo das coisas.

Porque ver, no fundo, não é apenas um fenômeno óptico. É um exercício moral. Tem gente que enxerga perfeitamente e, mesmo assim, caminha pela vida como quem tateia num nevoeiro ético. Outros, mesmo em meio às sombras, conseguem perceber o brilho do belo nas miudezas da existência: num gesto gentil, num olhar honesto, numa atitude simples, mas íntegra.

Talvez seja disso que a gente mais precise: destruir essa catarata normativa — essa cegueira branca da rotina que anestesia a sensibilidade e transforma o extraordinário em paisagem banal. Há dias, aliás, em que a vida exige mais do que colírios e lentes corretivas. Exige um verdadeiro transplante de sensibilidade. É preciso reaprender a ver.

Não por acaso, Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, nos oferece uma das metáforas mais inquietantes da literatura moderna. Ali, quando uma sociedade perde a capacidade de ver, não perde só a visão — perde também a dignidade. Uma cegueira chama outra, e outra, e outra… até que o tecido moral se rasgue por completo.

A beleza, portanto, não se revela sozinha. Ela precisa ser aprendida. E é aqui que entra uma figura curiosa nessa história: o professor. O professor vive cercado de visões possíveis. Convive com juventude, expectativas, inteligências em formação. Sua rotina é quase um laboratório humano, onde ideias, sonhos e frustrações circulam como partículas invisíveis no ar.

Mas fica a pergunta: que tipo de olhar ele devolve ao mundo? Porque um professor pode ter a visão física perfeita e, ainda assim, ser míope diante da vida. Pode acumular diplomas, títulos, homenagens — e continuar espiritualmente rudimentar. Há quem se contente em ser respeitado apenas pelo cargo, como se a função fosse uma lente capaz de corrigir todas as imperfeições da alma.

Mas não é bem assim. A autoridade formal até impressiona. Agora, autoridade moral… ah, essa é outra conversa. Ela nasce da coerência silenciosa entre o que se pensa, o que se diz e o que se faz. E isso, convenhamos, não aparece em exame de vista.

O filósofo Francis Bacon já advertia que “não há beleza perfeita que não contenha algo de estranho em suas proporções”. Talvez seja justamente essa pequena imperfeição que nos salve da superficialidade. A beleza verdadeira nunca é totalmente simétrica; ela guarda sempre uma dobra humana, um desvio sutil que lembra que o essencial não se mede com régua.

Há também o perigo oposto: a beleza que engana. Honoré de Balzac foi certeiro ao ironizar: “quando todo o mundo é corcunda, o belo porte torna-se monstruosidade”. Traduzindo em miúdos: quando a mediocridade vira norma, a virtude passa a parecer exagero. Talvez por isso tanta gente prefira não enxergar demais.

Ver exige responsabilidade. Exige justiça, lealdade, paciência — qualidades que pesam nos ombros e raramente recebem aplausos imediatos. Muito mais fácil é dissolver-se na multidão, seguir o fluxo, aceitar a cegueira coletiva como se fosse apenas mais um detalhe da paisagem. Só que a beleza da vida — silenciosa, discreta — continua ali. Não faz alarde, não levanta a voz, mas tem uma força curiosa: às vezes, basta um gesto verdadeiro para quebrar os cristais mais duros da indiferença.

Hoje, com meus olhos recém-restaurados, percebo algo que antes me escapava: enxergar melhor também é uma responsabilidade. Não quero que essas lentes novas sirvam apenas para admirar o lado de fora das coisas. Seria uma ironia danada recuperar a visão e continuar espiritualmente distraído.

Se existe uma estética realmente confiável, ela atende por um nome simples: educação. Não aquela que se exibe em diplomas ou discursos pomposos, mas a que aparece nos gestos miúdos — na forma de tratar o outro, de ouvir, de discordar sem desrespeitar, de conviver. Porque, no fim das contas, é isso que torna alguém verdadeiramente bonito.

A educação. Essa, sim, é a forma mais luminosa de beleza que os olhos humanos podem aprender a reconhecer.


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Como professor, vejo aqui um prato cheio para discutirmos como a nossa percepção do mundo não é apenas "biológica", mas construída socialmente por meio da cultura, da ética e das instituições, como a escola. Preparei cinco questões que conectam as metáforas do texto com conceitos fundamentais da Sociologia, ideais para provocar o pensamento crítico dos alunos do Ensino Médio.

1. A "Catarata da Alma" e a Naturalização do Social

O texto menciona uma "catarata normativa" — uma cegueira causada pela rotina que torna o extraordinário em algo banal. Na sociologia, chamamos de naturalização o hábito de aceitar as coisas como elas são, sem questionar.

Pergunta: De que maneira o "transplante de sensibilidade" sugerido no texto pode ajudar um cidadão a desnaturalizar as injustiças do cotidiano?

2. Visão e Tecido Moral em Saramago

O autor cita a obra Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, afirmando que quando uma sociedade perde a capacidade de ver, ela perde sua dignidade e o "tecido moral se rasga".

Pergunta: Como a indiferença (o "não querer ver") pode afetar a solidariedade entre os indivíduos em uma sociedade urbana e acelerada como a nossa?

3. Autoridade Formal vs. Autoridade Moral

O texto diferencia o professor que tem títulos e cargos (autoridade formal) daquele que possui coerência entre o que pensa e o que faz (autoridade moral).

Pergunta: No contexto da escola como uma instituição social, por que a "autoridade moral" é mais eficaz para a transmissão de valores do que apenas o uso do poder hierárquico?

4. A Estética da Educação e a Alteridade

Ao final, o texto define a educação como a forma mais luminosa de beleza, expressa na maneira de ouvir e tratar o outro. Em sociologia, o reconhecimento do "outro" é chamado de alteridade.

Pergunta: Segundo o texto, por que possuir diplomas não é garantia de que uma pessoa seja "educada" no sentido pleno e social da palavra?

5. A Tirania da Maioria e a Mediocridade

A frase de Balzac citada no texto sugere que, em uma sociedade de "corcundas", quem tem bom porte é visto como um monstro. Isso nos lembra a pressão social para o conformismo.

Pergunta: Como a pressão do grupo (a "cegueira coletiva") pode impedir que um indivíduo tome atitudes éticas ou inovadoras dentro de uma comunidade?

Sugestão de Atividade Complementar:

Professor(a), que tal pedir para os alunos produzirem um pequeno parágrafo sobre qual "catarata" eles acham que a nossa sociedade atual precisa operar com mais urgência? (Ex: a catarata do preconceito, da desigualdade ou do egoísmo digital).