A AUSÊNCIA DE RESPEITO SONEGA-LHE O TRONO: O Palavrão que Ficou na Sala dos Professores. ("Ninguém ensina respeito com palavrão na boca e Pai-Nosso na reunião." — Cifa)
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Era quase sete horas da manhã, e a sala dos professores tinha aquele cheiro agridoce de café requentado com pincel marcador de quadro branco — uma mistura que, de tão repetida, já parecia fazer parte da pele da gente. As xícaras esquecidas sobre as mesas davam a impressão de estarem tão cansadas quanto nós. Conversas atravessadas, cadeiras rangendo, suspiros longos… era o retrato exato do início de sexta-feira de quem passa horas tentando acender alguma centelha em mentes que, às vezes, preferem o conforto do apagão. E foi justamente nesse clima morno, entre um bocejo e outro, que o assunto apareceu sem bater na porta: política.
Mais especificamente, Bolsonaro. Bastou o nome cair no ambiente para sala rachar ao meio com a precisão de vidro trincando. E o pior é que ninguém mais se surpreende com isso. De um lado, estavam os defensores da fala sem freio, como se liberdade de expressão fosse licença poética para atropelar qualquer limite. Do outro, um silêncio desconfortável de quem enxergava nos excessos algo mais revelador sobre quem fala do que sobre quem é alvo da fala. No meio daquele fogo cruzado, uma voz começou a dominar o espaço com uma intensidade quase teatral.
Era um colega professor. E ele não queria conversar; queria nocautear. "Burro", "idiota", "lixo", "vagabundo" — os palavrões saltavam da boca dele como pedras atiradas contra vidraça. Cada palavra parecia bater nas paredes descascadas da sala e voltar mais pesada. Uma auxiliar da secretaria concordava com a cabeça, alimentando o coro com a mesma convicção cansada de quem já transformou raiva em rotina. Eu apertava minha xícara sem perceber, sentindo o calor da cerâmica nos dedos, enquanto o ambiente inteiro parecia absorver aquilo numa resignação silenciosa de lugar acostumado a ouvir excessos.
Fiquei quieto. Só olhando. Só ouvindo. Liberdade de expressão, para mim, é coisa séria — séria mesmo. Não abro mão dela nem em dia ruim. Mas, enquanto aquele festival de insultos seguia em frente, comecei a me perguntar se um professor que fala daquele jeito consegue, minutos depois, entrar numa sala cheia de adolescentes e falar sobre respeito olhando nos olhos deles. Porque ensinar nunca foi só despejar conteúdo no quadro. Educar é emprestar postura. E postura a gente ensina muito mais pelos poros do que pelo discurso.
O que me incomodava não era a opinião política. Era o padrão. A percepção amarga de que aquele mesmo colega não tratava muito melhor os alunos, os funcionários ou os próprios companheiros de trabalho. A grosseria não era um momento; era um modo de existir. Uma armadura de espinhos que ele vestia para atravessar o mundo.
Mas, o que realmente me desmontou veio depois. Nas reuniões pedagógicas, o mesmo homem que minutos antes distribuía insultos sem pestanejar abria tudo com uma serenidade quase litúrgica: "Vamos orar o Pai-Nosso para Deus abençoar nosso trabalho".
Aquilo ficou ecoando dentro de mim. Não porque eu me ache dono da coerência — longe disso. A contradição é o pão amanhecido da condição humana, e eu também devo carregar minhas gavetas cheias de incoerências. Mas, havia algo naquela cena que doía de um jeito diferente. Era como se a paixão política tivesse engolido o homem inteiro, triturado sua medida e devolvido ao mundo apenas um militante permanente.
Quando o "giz" é trocado pela bandeira com tanta fúria, existe o risco de o professor virar somente um pregador de certezas. E aluno percebe isso rápido. Muito rápido. Adolescente talvez não domine teoria política, mas sente o cheiro da performance antes mesmo do sinal tocar.
Saí daquela sala sem vontade de discutir com ninguém. Levei comigo apenas uma certeza antiga, dessas que o tempo confirma em silêncio: respeito não é fraqueza, nem submissão, nem concordância automática. Respeito é a única moeda que ainda deveria circular sem perder valor — seja num palácio, numa igreja ou numa sala de professores impregnada de café velho e cansaço. Quem abandona essa moeda perde, devagarinho, a autoridade moral de ensinar qualquer outra coisa que valha a pena.
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Olá! Como seu professor de Sociologia, fico muito satisfeito com a escolha desse texto. Ele nos permite mergulhar em temas fundamentais da nossa disciplina, como a Ética, a Coerência Social e a Institucionalização do Comportamento. O texto é um excelente ponto de partida para discutirmos como as nossas paixões políticas podem afetar o nosso papel dentro das instituições (como a escola) e como a performance muitas vezes substitui a essência nas relações humanas. Aqui estão 5 questões discursivas, com linguagem acessível, para aprofundarmos essa reflexão:
1. A Instituição Escolar e o Papel do Educador
O autor afirma que "educar é emprestar postura". Na sociologia, entendemos que o professor é um agente de socialização. De que maneira o comportamento agressivo de um educador na sala dos professores pode comprometer a sua autoridade moral diante dos alunos e a função social da escola de ensinar a convivência democrática?
2. A "Bolha" da Paixão Política
O texto menciona que a paixão política "engoliu o homem inteiro", transformando-o em um "militante permanente". Como o excesso de ideologia pode dificultar a alteridade (a capacidade de reconhecer o outro como legítimo) e transformar espaços de diálogo em arenas de ataque pessoal?
3. Coerência e Hipocrisia nas Relações Sociais
Existe uma contradição apontada no texto entre o momento dos xingamentos e o momento da oração na reunião pedagógica. Por que, para a sociologia, a coerência entre o discurso e a prática é fundamental para a manutenção da confiança dentro de um grupo social?
4. Liberdade de Expressão vs. Ética Profissional
O cronista defende a liberdade de expressão, mas questiona o modo como ela é usada. Existe um limite ético para a liberdade de expressão dentro de um ambiente de trabalho pedagógico? Justifique sua resposta pensando na diferença entre "opinar" e "agredir".
5. A Percepção do Aluno e o "Currículo Oculto"
O texto diz que os alunos "sentem o cheiro da performance". Na educação, chamamos de currículo oculto as lições que os alunos aprendem através dos exemplos e atitudes dos professores, e não apenas pelo que está nos livros. Quais são as consequências para a formação dos jovens quando eles percebem que seus mestres não praticam o respeito que pregam?
Dica do Prof:
Para responder a essas questões, tente não focar apenas no personagem do texto, mas observe como o mundo ao seu redor — nas redes sociais e nas ruas — tem lidado com o respeito e com as opiniões contrárias. A Sociologia nos convida a ser críticos, mas também a buscar a ponte onde outros só veem o muro. Bom trabalho!
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