É costume da escola celebrar o Dia dos Pais no segundo domingo de agosto. Naquele ano, porém, a data escorreu para um sábado — sábado letivo, esse híbrido curioso que tenta conciliar trabalho e festa, lição e recreio, obrigação e afeto. A proposta era simples: matar dois coelhos com uma cajadada só. Para os alunos, atividades; para os pais, brincadeiras educativas. No fundo, uma aula disfarçada de confraternização.
Vieram poucos. Sábado de manhã não perdoa: muitos pais trabalham, outros correm atrás do que falta em casa. Ainda assim, os que vieram chegaram por inteiro — solícitos, participativos, presentes. A eles, nossa gratidão sincera. Talvez atraídos pelas lembrancinhas, talvez pelo desejo silencioso de confirmar, diante dos filhos atentos, o papel de herói cotidiano. E ali estavam as crianças, aplaudindo com fervor, como se aquele gesto fosse suficiente para organizar o mundo.
Mas a vida não se deixa domesticar por jogos escolares. Nos rostos dos que perderam as competições, os sorrisos se apagavam cedo demais; nos vencedores, a alegria se espalhava larga, quase excessiva. É assim também fora dos muros: para alguns ganharem, outros precisam perder — ainda que ninguém diga isso em voz alta num pátio enfeitado.
Eu observava tudo à distância, junto aos outros professores, enquanto a colega de Educação Física conduzia a programação. Sentia aquela sensação enganadora de dever cumprido, como quem acredita, por instantes, que planejar bem já é quase transformar a realidade. E é curioso como, às vezes, basta tão pouco para acender a felicidade.
Chorei quando uma aluna, pequena e séria, leu o texto que ela mesma escrevera sobre o pai. Ali estava, com uma colher de pedreiro na mão e a camisa dele no corpo, celebrando não o luxo, mas a dignidade do trabalho. Um anjo improvisado, sustentado pelos braços fortes de um homem simples. Naquele instante, a educação deixou de ser teoria e virou gesto. Prometi dois pontos pela atividade de Língua Portuguesa — e nunca uma nota me pareceu tão justa. Foi num sábado, desses que não contam como dia útil, mas que ensinam mais do que muitos outros.
Depois da festa, veio o silêncio.
No mesmo sábado, ao final da programação, ocorreu também a entrega dos boletins dos alunos abaixo da média. Quase nenhum responsável compareceu. Como sempre, permaneceram os pais dos alunos aplicados, presentes mesmo quando não há aplausos. Atendi o nono ano: apenas três boletins foram retirados. Os outros vinte e sete retornaram, mudos, à secretaria, selados em envelopes que pareciam carregar mais ausência do que papel.
O desvio desta crônica é proposital. É no pós-festa que a realidade se impõe. Pergunto-me, ainda hoje, se fui injusto ao considerar aquela turma o pior nono ano que já lecionei. Quis escrever sobre eles — sobre o que vi, ouvi e senti, sobre a forma como me atravessavam diariamente — e falhei. As palavras me faltaram. Talvez não por incompetência, mas por cansaço. Há ausências que secam a inspiração.
Resta-me, então, ecoar a lucidez amarga de Silvia Regina Costa Lima: “Penso que o mundo escolar desabou de uma tal forma que não sei se haverá volta algum dia. É tudo dolorido e sem nenhum interesse em nenhuma das partes. Eu vejo, sinto, leio, analiso e gostaria muito que fosse diferente, como gostaria! A crônica não é ruim... ruim mesmo é este tempo moderno... este tempo...”
Talvez seja isso. A crônica resiste. As circunstâncias, nem sempre.
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Sou seu professor de Sociologia e hoje vamos analisar essa crônica emocionante e realista que nos convida a pensar a escola além dos muros e das festas. O texto aborda temas fundamentais como a relação entre família e escola, a influência do trabalho na vida social e a crise da instituição escolar na modernidade. Preparei cinco questões discursivas para que possamos exercitar nosso olhar sociológico sobre essa narrativa:
1. O Tempo do Trabalho e o Tempo da Escola
O autor menciona que muitos pais não compareceram ao "sábado letivo" porque estavam trabalhando ou cuidando de tarefas domésticas. Do ponto de vista sociológico, como as condições socioeconômicas e a organização do mercado de trabalho atual impactam a participação das famílias na vida escolar dos filhos?
2. A Escola como Espaço de Competição
A crônica observa que, nos jogos escolares, "para alguns ganharem, outros precisam perder". Como essa dinâmica de competição dentro da escola pode ser vista como um reflexo da lógica meritocrática da sociedade capitalista? Explique o conceito de "currículo oculto" presente nessa observação.
3. Trabalho Manual e Identidade Social
A cena da aluna que homenageia o pai pedreiro usando uma "colher de pedreiro" e a camisa dele comove o narrador. De que forma a escola pode atuar tanto como um espaço de reprodução de preconceitos de classe quanto como um ambiente de valorização da dignidade do trabalho braçal?
4. Desigualdade Educacional e o "Pós-Festa"
O narrador aponta uma diferença gritante entre a frequência na festa de Dia dos Pais e na entrega de boletins de alunos abaixo da média. Como o conceito de "capital cultural" (de Pierre Bourdieu) pode nos ajudar a entender por que famílias de alunos com dificuldades escolares tendem a estar menos presentes na instituição?
5. A Crise da Instituição Escolar na Modernidade
O texto termina com uma citação sobre o "desabamento" do mundo escolar e um sentimento de desinteresse generalizado. Quais fatores sociológicos contemporâneos (como a aceleração do tempo ou a mudança nos valores familiares) contribuem para essa sensação de crise e "falta de sentido" na educação mencionada pelo autor?