"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

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MINHAS PÉROLAS

segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

AS APARÊNCIAS NÃO ENGANAM ("Educação é o que resta depois de ter esquecido tudo que se aprendeu na escola." — EINSTEIN)

 


domingo, 11 de dezembro de 2022

O Diagnóstico das Ruínas: CHORANDO EM VOZ ALTA ("Melhor professor, o fracasso é." — Yoda)

 


O Diagnóstico das Ruínas: CHORANDO EM VOZ ALTA ("Melhor professor, o fracasso é." — Yoda)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Dizem que o fracasso é o melhor professor, mas esqueceram de mencionar que ele cobra a mensalidade em saúde mental e noites em claro. Ignorei as advertências ácidas de Taylor Mali sobre a sanidade de quem escolhe o giz em tempos de barbárie. Hoje, entretanto, o registro não é de submissão, mas de autópsia. Escrevo para nomear os demônios que habitam o cotidiano escolar, transformando o "chorar em voz alta" em um mapa das nossas feridas abertas.

O sistema educacional não apenas falha; ele se sustenta sobre o desarranjo planejado. Precisamos dar nome aos bois: a gestão tecnocrática que nos soterra em burocracias inúteis enquanto a sala de aula desmorona; o esvaziamento curricular que substitui o pensamento crítico por competências rasas; e a negligência familiar, que empurra ao professor a tarefa impossível de forjar o caráter que o lar não estruturou. Responsabilizar o docente pela erosão da autoridade pedagógica é uma transferência de culpa perversa — é exigir que o náufrago tape o buraco do casco com as próprias mãos enquanto os engenheiros do navio brindam no convés.

Muitos colegas calam-se. Não por falta de voz, mas por uma vergonha imposta, um sentimento de fracasso individual diante de um colapso que é, na verdade, estrutural. Estamos no mesmo barco, e ele está furado não por acidente, mas por cupim institucional. Vivemos a "cegueira branca" de Saramago: tropeçamos uns nos outros em corredores que fingem normalidade, onde o "silêncio performático" é a moeda de troca para a sobrevivência.

Não aceito a felicidade fraudada dos hipócritas que gerenciam o caos. Minha zombaria não é deboche; é o riso trágico de quem recusa o papel de cúmplice. Para que a educação que amo respire, é preciso primeiro drenar o pântano das omissões: exigir que a família reassuma sua base moral, que o Estado financie a dignidade e que a escola recupere sua função de instruir, não de tutelar o vazio.

A liberdade só subsiste onde o diagnóstico do real é permitido. E o meu diagnóstico é este: estamos exaustos de consertar os erros dos outros enquanto os nossos próprios lamentos são ignorados. Se a janela está se fechando, que ela prenda, ao menos, o grito de quem não aceita a mediocridade como destino.


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Como seu professor de Sociologia, hoje vamos analisar um texto que toca na ferida das nossas instituições. Ele não fala apenas de "ensinar", mas de como a estrutura da sociedade e da escola pode adoecer quem faz parte dela. Na sociologia, chamamos isso de análise das estruturas sociais e das instituições. Leiam com atenção esta "autópsia" do sistema escolar e respondam às questões abaixo para refletirmos juntos:


1. Problemas Estruturais vs. Fracasso Individual. O autor afirma que muitos professores se calam por "vergonha imposta", sentindo-se fracassados individualmente diante de um colapso que é, na verdade, estrutural. Questão: Explique a diferença entre um "problema individual" e um "problema estrutural" no contexto da educação, conforme apresentado no texto. Por que é perigoso para a sociedade quando o indivíduo assume a culpa por um sistema que já está "furado"?

2. A "Transferência de Culpa" e as Instituições. O texto menciona que a "negligência familiar" empurra ao professor a tarefa de forjar o caráter que o lar não estruturou. Questão: Segundo o autor, o que acontece com a função da escola quando ela é obrigada a assumir o papel da família? Relacione isso com a frase do texto: "exigir que o náufrago tape o buraco do casco com as próprias mãos".

3. Gestão Tecnocrática e Burocracia. O autor critica a "gestão tecnocrática que nos soterra em burocracias inúteis". Questão: Na sociologia, a burocracia deveria servir para organizar. Por que, no texto, ela é vista como um "demônio" que habita o cotidiano escolar? Como o excesso de papelada e regras pode desviar o foco da função principal da escola, que é o ensino e o pensamento crítico?

4. O "Silêncio Performático" e a Cegueira Social. A crônica cita a "cegueira branca" de Saramago para descrever corredores que fingem normalidade, mantendo um "silêncio performático". Questão: O que o autor quer dizer com "silêncio performático"? Por que as instituições (escolas, governos) muitas vezes preferem "fingir que está tudo bem" em vez de enfrentar os problemas reais?

5. O Papel do Estado e da Família. Para que a educação "respire", o autor propõe três ações: a família reassumir a base moral, o Estado financiar a dignidade e a escola recuperar a função de instruir. Questão: De que forma a omissão dessas partes (Estado e Família) contribui para a "mediocridade" do sistema educacional? Em sua opinião, por que o autor defende que a escola não deve "tutelar o vazio"?

Dica do Prof: Pensem na escola como uma engrenagem. Se a peça da família não gira e a peça do governo está quebrada, a peça do professor acaba sofrendo um desgaste impossível de suportar sozinho.

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A BÍBLIA SENDO PALAVRA DE DEUS: Fé, consolo e engrenagens ("Cada ser humano é único; é uma palavra de Deus que não mais se repete." — Karl Adam)


 

A BÍBLIA SENDO PALAVRA DE DEUS: Fé, consolo e engrenagens ("Cada ser humano é único; é uma palavra de Deus que não mais se repete." — Karl Adam)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Hoje, basta atravessar o portão de muitas comunidades religiosas para perceber quem ocupa os bancos com maior constância: os vulneráveis, os cansados da dureza do mundo, os que chegam feridos pela história. Ali, buscam abrigo, sentido e, sobretudo, consolo. Não se pode negar que a fé, em sua dimensão mais íntima, cumpre esse papel. Contudo, é justamente nesse ponto sensível que nasce o paradoxo: o lugar que acolhe também pode anestesiar. A promessa de que “os pobres sempre tereis convosco” soa, não raro, menos como advertência ética e mais como álibi moral para a perpetuação da miséria. O futuro permanece indevassável, enquanto o presente se acomoda, e a igreja, por vezes, transforma-se em um silencioso repositório de autoenganos.

Ser cristão, hoje, parece significar seguir um Cristo moldável, 100% divino e 100% humano conforme a conveniência do púlpito e da plateia. Um Cristo editado, administrado, adaptado às múltiplas ramificações eclesiais que disputam fiéis como quem disputa mercado. Poucos parecem perceber que a sociedade atravessa uma transição profunda, exigindo novas linguagens, novos gestos e novas responsabilidades. Ainda assim, insiste-se em uma gestão da fé que soa antiga, presa a rituais repetidos sem reflexão. A Santa Ceia, por exemplo, ao simbolizar o comer da carne e o beber do sangue de Deus, corre o risco de se esvaziar em gesto mecânico, resvalando num canibalismo ideológico que perdeu sua força simbólica e seu chamado transformador.

A Bíblia, por sua vez, continua a ser proclamada como palavra infalível, apesar de seu percurso humano: traduções, versões, recortes, adaptações. Não se trata de negar seu valor espiritual ou cultural, mas de reconhecer que as palavras, atravessadas por línguas e séculos, carregam fissuras. Talvez, em um horizonte distante — quando os idiomas cessarem suas ambiguidades —, ela alcance a unidade que lhe atribuem. Por ora, o esforço de adequação é visível e revelador: Bíblia da mulher, do pastor, da criança, dos gays, de estudo. Cada título denuncia menos a universalidade do texto e mais a necessidade contemporânea de encaixá-lo em nichos específicos.

Nesse cenário, surgem os chamados profetas do presente, portadores de novas leituras e promessas renovadas. Eles não são um desvio ocasional, mas o sintoma de uma fé que se reinventa para sobreviver. Entre o consolo legítimo e a instrumentalização da esperança, a religião caminha numa corda bamba. A questão que permanece — incômoda e necessária — não é se a fé consola, pois consola. A pergunta é outra: ela desperta para a transformação do mundo ou apenas ensina a suportá-lo em silêncio? É nesse intervalo, entre o alívio e a lucidez, que a crítica se faz urgente — não para destruir a fé, mas para devolvê-la à sua responsabilidade humana e histórica.


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Como seu professor de Sociologia, este texto nos oferece uma análise riquíssima sobre o papel social da religião, o paradoxo entre consolo e anestesia, e a adaptação da fé ao mundo contemporâneo. Ele nos convida a usar o olhar sociológico para entender a religião não apenas como fenômeno íntimo, mas como instituição com implicações sociais e políticas. Preparei cinco questões discursivas simples para analisarmos o papel da religião na manutenção da ordem social, a mercantilização da fé e o dilema entre suportar e transformar o mundo.


1. O Paradoxo do Acolhimento e a Função de Anestesia (Marx)

O texto afirma que os vulneráveis buscam na religião "abrigo, sentido e, sobretudo, consolo", mas alerta que "o lugar que acolhe também pode anestesiar". Utilizando o conceito de "ópio do povo" de Karl Marx , analise sociologicamente este paradoxo. De que forma a promessa de consolo e a esperança em uma recompensa futura, embora legítimas para o indivíduo, podem se tornar um "álibi moral" que desmobiliza os fiéis e contribui para a "perpetuação da miséria" e a acomodação no presente?

2. A Bíblia e o Fenômeno da Adaptação a Nichos

O autor observa que a proliferação de edições como "Bíblia da mulher, do pastor, da criança, dos gays" denuncia menos a universalidade do texto e mais a necessidade de "encaixá-lo em nichos específicos". Discuta este fenômeno à luz da Secularização e da Fragmentação do Social na sociedade moderna. De que maneira a religião, ao focar em edições nichadas, está se adaptando à lógica do Mercado e da Identidade Segmentada, e o que isso revela sobre a capacidade da Bíblia de manter seu caráter de universalidade em um mundo plural?

3. O Cristo Moldável e a Competição por Fiéis

O texto descreve o Cristo atual como "moldável" e "editado", adaptado à conveniência do púlpito, em um cenário onde as ramificações eclesiais "disputam fiéis como quem disputa mercado". Analise essa observação sob a ótica da Teoria da Escolha Racional ou da Economia da Religião. Como a competição por fiéis em um "mercado religioso" pode levar à "adaptação" e à "edição" de figuras e dogmas centrais para atender às demandas de consumo e conveniência da plateia, esvaziando a rigidez doutrinária em favor da popularidade?

4. Rituais Mecânicos e a Perda da Força Simbólica

O autor menciona que rituais como a Santa Ceia correm o risco de se esvaziar em "gesto mecânico", resvalando em um "canibalismo ideológico que perdeu sua força simbólica". Com base na teoria dos Ritos e Símbolos de Émile Durkheim, explique a importância da reflexão e do senso de pertencimento na manutenção da força e do significado dos rituais religiosos. O que acontece com a coesão social de uma comunidade quando seus ritos se tornam meramente repetidos sem reflexão, perdendo seu chamado transformador?

5. Consolo versus Transformação: A Responsabilidade Humana da Fé

A questão final do texto é: a fé "desperta para a transformação do mundo ou apenas ensina a suportá-lo em silêncio?". Discuta a Responsabilidade Humana e Histórica da Fé no contexto sociopolítico. Apresente duas perspectivas sociológicas distintas (por exemplo, uma que vê a religião como agente de mudança, e outra que a vê como força conservadora) para analisar o intervalo entre o alívio e a lucidez que o autor propõe. Qual o papel da crítica, nesse sentido, para devolver à religião sua dimensão de agir no mundo?

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sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

SEM PERSPECTIVA DE FUTURO MELHOR ("Em ciência não existe um erro tão grosseiro que, amanhã ou depois, sob alguma perspectiva, não pareça profético." — Jean Rostand)

 


SEM PERSPECTIVA DE FUTURO MELHOR ("Em ciência não existe um erro tão grosseiro que, amanhã ou depois, sob alguma perspectiva, não pareça profético." — Jean Rostand)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

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quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

O QUE É MELHOR: O MIOLO OU A CASCA? ("A gente deve atravessar a vida como quem está gazeando a aula, e não como quem vai para a escola." — Mario Quintana)

 


O QUE É MELHOR: O MIOLO OU A CASCA? ("A gente deve atravessar a vida como quem está gazeando a aula, e não como quem vai para a escola." — Mario Quintana)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

No chamado velho normal, eu era facilmente rotulado como professor “ruim”, não por incompetência, mas por recusar a encenação da autoridade pela força. Não expulsava alunos da sala nem confundia educação com intimidação. A pedagogia dominante parecia exigir gestos duros para legitimar o ensino, como se o saber precisasse vir acompanhado de medo para ser reconhecido como sério.

Nesse contexto, a coordenadora considerada “boa” era a que patrulhava os corredores sem trégua, empurrando alunos de volta às salas, como se a ordem pudesse ser sustentada apenas pela vigilância constante. A escola operava sob a lógica do controle visível: corpos alinhados, portas fechadas, silêncio imposto. A disciplina valia mais pela aparência do que pela qualidade da experiência educativa que produzia.

O aluno “esperto”, por sua vez, aprendia cedo a jogar com o sistema. Exagerava comportamentos, encenava conflitos, criava rupturas calculadas para chamar atenção e, em seguida, recorria a justificativas bem elaboradas — não para assumir responsabilidades, mas para conquistar complacência. A astúcia era premiada; a reflexão sincera, quase sempre, deslocada para a margem.

Com o advento do chamado novo normal, as estratégias se transformaram, ao menos na superfície. Fala-se em mais tempo pedagógico, em didática refinada, em autonomia mediada por telas. O smartphone tornou-se extensão do processo educativo, e “subir aula” deixou de significar encontro e diálogo para se reduzir, muitas vezes, a um simples upload de conteúdos assíncronos. A inovação passou a ser medida pela tecnologia empregada, não pelo sentido do que se ensina.

Ainda assim, o passado não desapareceu: apenas se reconfigurou. Ele retorna travestido de modernidade, sustentado pela crença confortável no hibridismo como solução universal. Queremos o novo sem abrir mão do velho e, nessa contradição, acumulamos excessos — agora digitais. A internet oferece tudo, mas não garante profundidade; flexibiliza formas, mas não corrige estruturas. Entre a nostalgia da ordem perdida e o fetiche da inovação permanente, a escola insiste em se declarar transformada, quando talvez apenas tenha aprendido a reorganizar, com novas ferramentas, as mesmas ambiguidades de sempre.


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Como seu professor de Sociologia, este texto nos oferece uma excelente oportunidade para discutir como as relações de poder, a disciplina e a modernização se manifestam no ambiente escolar. Ele compara o "velho normal" da autoridade pela força com o "novo normal" da tecnologia, expondo as permanentes ambiguidades da escola. Preparei cinco questões discursivas simples para analisarmos a lógica do controle, a encenação da autoridade e o dilema da inovação tecnológica na educação.


1. O Contraste entre Autoridade pela Força e Incompetência (Foucault)

O autor relata que, no "velho normal", era rotulado como "professor ruim" por "recusar a encenação da autoridade pela força", enquanto a pedagogia dominante exigia "gestos duros para legitimar o ensino". Utilizando a perspectiva de Michel Foucault sobre o Poder Disciplinar , analise por que a escola tradicional associava a eficácia do ensino à intimidação e à "lógica do controle visível". De que forma a recusa em exercer essa autoridade pela força era lida como uma falha ou incompetência profissional?

2. Vigilância, Aparência e a Figura da "Coordenadora Boa"

O texto descreve a coordenadora considerada "boa" como aquela que patrulhava corredores e impunha o silêncio, operando sob a lógica de que a disciplina valia mais "pela aparência do que pela qualidade da experiência educativa". Discuta a relação entre Vigilância e a busca pela Ordem aparente na escola. Como a exigência social por "corpos alinhados e portas fechadas" criava uma "encenação" de eficácia, e por que a manutenção dessa aparência de ordem se sobrepunha ao verdadeiro objetivo da escola, que é a qualidade da experiência educativa?

3. O Aluno "Esperto" e a Astúcia Premiada

O narrador descreve o aluno "esperto" que aprendia a "jogar com o sistema" criando rupturas calculadas, não para assumir responsabilidades, mas para conquistar complacência. Analise, sociologicamente, o comportamento do aluno "esperto" como uma Estratégia de Adaptação (Merton). De que forma a rigidez e a falta de diálogo do sistema escolar levam os alunos a desenvolverem a astúcia — em vez da reflexão sincera — como um meio de sobrevivência e sucesso dentro das regras implícitas da instituição?

4. Tecnologia, Inovação e Redução do Sentido

No "novo normal", o texto aponta que "subir aula" se reduziu a um "simples upload de conteúdos assíncronos" e que a inovação passou a ser medida pela tecnologia empregada, e não pelo "sentido do que se ensina". Discuta a Fetichização da Tecnologia no contexto educacional. Como a priorização de ferramentas digitais e o hibridismo (a "crença confortável" em soluções universais) arrisca descaracterizar a essência da pedagogia (o encontro e diálogo), transformando o processo educativo em mera gestão de conteúdos assíncronos?

5. Contradição Estrutural e Ambiguidade da Transformação

O texto conclui que a escola quer o novo sem abrir mão do velho, "acumulando excessos" digitais, e que ela apenas "reorganizou, com novas ferramentas, as mesmas ambiguidades de sempre". Explique o conceito de Contradição Estrutural na Sociologia da Educação. De que forma a nostalgia da ordem perdida se choca com o fetiche da inovação, e por que a simples mudança de ferramentas (tecnologia) é insuficiente para corrigir as estruturas de controle e autoridade que definem a essência da instituição escolar?

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sábado, 3 de dezembro de 2022

"O BARATO SAI CARO" ("A gratuidade das escolhas nos leva aos abusos das decisões." — Valdeci Alves Nogueira)

 


"O BARATO SAI CARO" ("A gratuidade das escolhas nos leva aos abusos das decisões." — Valdeci Alves Nogueira)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Há algo de silenciosamente corrosivo rondando o jovem contemporâneo — não como culpa individual, mas como sintoma de um tempo confuso. Sua fragilidade não nasce do nada: forma-se entre expectativas infladas e exigências rarefeitas, entre discursos de liberdade e práticas de abandono. A autoestima, antes de ser vaidade, torna-se defesa precária. Desde cedo, ele aprende a receber muito e a esperar pouco de si mesmo, atravessando a escola como quem passa por um corredor sem espelhos, sem reconhecer ali um chamado à responsabilidade ou ao esforço.

Esse jovem não é preguiçoso por natureza; está, antes, exausto de estímulos vazios. Imerso na lógica midiática, consome imagens, tendências e promessas como quem tenta preencher um vazio que não sabe nomear. Confunde autonomia com dispersão porque ninguém lhe ensinou que liberdade exige direção. Quando finalmente lhe dizem “seja você mesmo”, já lhe roubaram as ferramentas para descobrir quem é. Assim, a exposição constante de suas fragilidades, longe de libertá-lo, aprofunda o ciclo de frustração que ele próprio não consegue explicar.

Mas seria injusto falar sobre ele sem escutá-lo. Há, nesse jovem, uma intuição esquecida: a de que aprender ainda pode ser um gesto de sentido. Quando encontra algo que realmente o interpela — um exemplo, uma palavra justa, uma experiência exigente — ele responde. Aprende, às vezes, até sem mestre, porque o desejo verdadeiro antecede o método. O esforço, quando não é imposto como castigo, transforma-se em conquista. Não é a gratuidade em si que empobrece, mas a ausência de significado que frequentemente a acompanha.

Talvez seja isso que Paulo Freire quis dizer ao lembrar que ninguém educa ninguém sozinho, e que a educação acontece no entrelaçamento humano, mediada pelo mundo. Aprende-se menos pelo acúmulo e mais pelo encontro. Em tempos de excesso, a raridade se torna valor. A internet, com sua abundância incessante, não peca por oferecer demais, mas por ensinar pouco a escolher. Como alerta o provérbio, há doçura que cansa e honra que se esvazia quando buscada sem critério.

O problema, portanto, não está simplesmente na escola obrigatória ou gratuita, mas quando ela abdica de sua vocação formativa e se limita a administrar presenças. Educação sem exigência não emancipa; apenas acomoda. O barato, nesse caso, sai caro — não por ser acessível, mas por ser raso. E o jovem, longe de vilão ou vítima passiva, permanece ali, à espera de algo mais: não de facilidades, mas de um convite honesto à construção de si mesmo. Quando esse convite acontece, ainda há esperança de formar sujeitos verdadeiramente livres.


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Como seu professor de Sociologia, o texto aborda a complexa situação da juventude contemporânea, analisando a relação entre fragilidade, excesso de estímulos vazios e a crise da educação que se limita a administrar presenças. O cerne da discussão está na busca por sentido, autonomia e o verdadeiro papel da exigência no processo formativo. Preparei cinco questões discursivas simples para analisarmos a socialização, o consumo midiático e a crise do sentido na educação.


1. Fragilidade, Expectativas Infladas e a Crise da Responsabilidade

O texto afirma que a fragilidade do jovem se forma entre "expectativas infladas e exigências rarefeitas" e que ele atravessa a escola "sem reconhecer ali um chamado à responsabilidade ou ao esforço". Utilizando o conceito de Socialização e Anomia (Durkheim), analise como o desequilíbrio entre o que a sociedade espera (expectativas midiáticas) e o que a educação exige (tarefas e responsabilidades) contribui para a fragilização da autoestima e a ausência de um senso de direção ou dever no jovem contemporâneo.

2. Estímulos Vazios, Dispersão e a Confusão da Autonomia

O narrador argumenta que o jovem está "exausto de estímulos vazios" e "confunde autonomia com dispersão porque ninguém lhe ensinou que liberdade exige direção". Discuta a influência da Lógica Midiática e do Consumo Cíclico na formação da autonomia individual. De que maneira a imersão constante em tendências e imagens (estímulos vazios) gera um "vazio que não sabe nomear" e impede a construção da verdadeira autonomia, que, para ser efetiva, necessita de disciplina e foco?

3. A Crise da Escola e a Administração de Presenças

O texto critica a escola que "abdica de sua vocação formativa e se limita a administrar presenças", concluindo que "Educação sem exigência não emancipa; apenas acomoda". Explique como a Burocratização do Ensino e o foco na "administração de presenças" (o aspecto quantitativo) desviam a escola de sua "vocação formativa" (o aspecto qualitativo). Por que essa acomodação — o "barato que sai caro" por ser raso — impede a emancipação do aluno e o mantém à espera de um convite honesto à construção de si mesmo?

4. Paulo Freire e a Educação como Encontro Humano

O autor evoca Paulo Freire para sustentar que "ninguém educa ninguém sozinho" e que a educação acontece no "entrelaçamento humano, mediada pelo mundo", concluindo que se aprende menos pelo acúmulo e mais pelo encontro. Discuta a Pedagogia do Diálogo e da Mediação de Freire. De que forma o "encontro" entre mestre e aluno (o entrelançamento humano) é essencial para que o jovem encontre sentido no aprendizado, superando a superficialidade do acúmulo de informações e respondendo a algo que "realmente o interpela"?

5. O Paradoxo da Abundância (Internet) e a Crise da Escolha

O texto menciona o paradoxo da internet: ela "não peca por oferecer demais, mas por ensinar pouco a escolher", e que "em tempos de excesso, a raridade se torna valor".

Analise sociologicamente a relação entre Abundância de Informação e a Crise da Escolha (ou sobrecarga cognitiva). De que maneira o excesso de dados (a internet) impede a formação do critério e da autodisciplina necessários para discernir o que é "raridade" (significado) no meio da "abundância incessante"?

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