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MINHAS PÉROLAS

quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

O QUE É MELHOR: O MIOLO OU A CASCA? ("A gente deve atravessar a vida como quem está gazeando a aula, e não como quem vai para a escola." — Mario Quintana)

 


O QUE É MELHOR: O MIOLO OU A CASCA? ("A gente deve atravessar a vida como quem está gazeando a aula, e não como quem vai para a escola." — Mario Quintana)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

No chamado velho normal, eu era facilmente rotulado como professor “ruim”, não por incompetência, mas por recusar a encenação da autoridade pela força. Não expulsava alunos da sala nem confundia educação com intimidação. A pedagogia dominante parecia exigir gestos duros para legitimar o ensino, como se o saber precisasse vir acompanhado de medo para ser reconhecido como sério.

Nesse contexto, a coordenadora considerada “boa” era a que patrulhava os corredores sem trégua, empurrando alunos de volta às salas, como se a ordem pudesse ser sustentada apenas pela vigilância constante. A escola operava sob a lógica do controle visível: corpos alinhados, portas fechadas, silêncio imposto. A disciplina valia mais pela aparência do que pela qualidade da experiência educativa que produzia.

O aluno “esperto”, por sua vez, aprendia cedo a jogar com o sistema. Exagerava comportamentos, encenava conflitos, criava rupturas calculadas para chamar atenção e, em seguida, recorria a justificativas bem elaboradas — não para assumir responsabilidades, mas para conquistar complacência. A astúcia era premiada; a reflexão sincera, quase sempre, deslocada para a margem.

Com o advento do chamado novo normal, as estratégias se transformaram, ao menos na superfície. Fala-se em mais tempo pedagógico, em didática refinada, em autonomia mediada por telas. O smartphone tornou-se extensão do processo educativo, e “subir aula” deixou de significar encontro e diálogo para se reduzir, muitas vezes, a um simples upload de conteúdos assíncronos. A inovação passou a ser medida pela tecnologia empregada, não pelo sentido do que se ensina.

Ainda assim, o passado não desapareceu: apenas se reconfigurou. Ele retorna travestido de modernidade, sustentado pela crença confortável no hibridismo como solução universal. Queremos o novo sem abrir mão do velho e, nessa contradição, acumulamos excessos — agora digitais. A internet oferece tudo, mas não garante profundidade; flexibiliza formas, mas não corrige estruturas. Entre a nostalgia da ordem perdida e o fetiche da inovação permanente, a escola insiste em se declarar transformada, quando talvez apenas tenha aprendido a reorganizar, com novas ferramentas, as mesmas ambiguidades de sempre.


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Como seu professor de Sociologia, este texto nos oferece uma excelente oportunidade para discutir como as relações de poder, a disciplina e a modernização se manifestam no ambiente escolar. Ele compara o "velho normal" da autoridade pela força com o "novo normal" da tecnologia, expondo as permanentes ambiguidades da escola. Preparei cinco questões discursivas simples para analisarmos a lógica do controle, a encenação da autoridade e o dilema da inovação tecnológica na educação.


1. O Contraste entre Autoridade pela Força e Incompetência (Foucault)

O autor relata que, no "velho normal", era rotulado como "professor ruim" por "recusar a encenação da autoridade pela força", enquanto a pedagogia dominante exigia "gestos duros para legitimar o ensino". Utilizando a perspectiva de Michel Foucault sobre o Poder Disciplinar , analise por que a escola tradicional associava a eficácia do ensino à intimidação e à "lógica do controle visível". De que forma a recusa em exercer essa autoridade pela força era lida como uma falha ou incompetência profissional?

2. Vigilância, Aparência e a Figura da "Coordenadora Boa"

O texto descreve a coordenadora considerada "boa" como aquela que patrulhava corredores e impunha o silêncio, operando sob a lógica de que a disciplina valia mais "pela aparência do que pela qualidade da experiência educativa". Discuta a relação entre Vigilância e a busca pela Ordem aparente na escola. Como a exigência social por "corpos alinhados e portas fechadas" criava uma "encenação" de eficácia, e por que a manutenção dessa aparência de ordem se sobrepunha ao verdadeiro objetivo da escola, que é a qualidade da experiência educativa?

3. O Aluno "Esperto" e a Astúcia Premiada

O narrador descreve o aluno "esperto" que aprendia a "jogar com o sistema" criando rupturas calculadas, não para assumir responsabilidades, mas para conquistar complacência. Analise, sociologicamente, o comportamento do aluno "esperto" como uma Estratégia de Adaptação (Merton). De que forma a rigidez e a falta de diálogo do sistema escolar levam os alunos a desenvolverem a astúcia — em vez da reflexão sincera — como um meio de sobrevivência e sucesso dentro das regras implícitas da instituição?

4. Tecnologia, Inovação e Redução do Sentido

No "novo normal", o texto aponta que "subir aula" se reduziu a um "simples upload de conteúdos assíncronos" e que a inovação passou a ser medida pela tecnologia empregada, e não pelo "sentido do que se ensina". Discuta a Fetichização da Tecnologia no contexto educacional. Como a priorização de ferramentas digitais e o hibridismo (a "crença confortável" em soluções universais) arrisca descaracterizar a essência da pedagogia (o encontro e diálogo), transformando o processo educativo em mera gestão de conteúdos assíncronos?

5. Contradição Estrutural e Ambiguidade da Transformação

O texto conclui que a escola quer o novo sem abrir mão do velho, "acumulando excessos" digitais, e que ela apenas "reorganizou, com novas ferramentas, as mesmas ambiguidades de sempre". Explique o conceito de Contradição Estrutural na Sociologia da Educação. De que forma a nostalgia da ordem perdida se choca com o fetiche da inovação, e por que a simples mudança de ferramentas (tecnologia) é insuficiente para corrigir as estruturas de controle e autoridade que definem a essência da instituição escolar?

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