"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

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MINHAS PÉROLAS

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

DEPRESSÃO NÃO MATA, O TEMPO MATA ("Depressão é excesso de amor próprio. O indivíduo se ama tanto que não se aceita minimamente arranhado." — Sintia Lira)

 


DEPRESSÃO NÃO MATA, O TEMPO MATA ("Depressão é excesso de amor próprio. O indivíduo se ama tanto que não se aceita minimamente arranhado." — Sintia Lira)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

O asqueroso avança devagar, como um veneno que se infiltra nos dias. Só os velhos ainda suportam os velhos: juntos, perdem o fogo da aventura, o apetite pelo novo, e se agarram ao passado com unhas frágeis — até que o apego se converta em repulsa por si mesmos. Todo velho carrega, inevitavelmente, um grau de depressão, essa sombra que o tempo cultiva com paciência. Se existisse justiça divina, Deus não nos lançaria ao fim sem preparação: aos poucos, Ele — ou o destino — nos desbota, nos torna insípidos, prontos para o pó que já fomos. O que agrava tudo não é a velhice em si, mas sua aliança cruel com a pobreza e a doença crônica. Mesmo o velho rico, por sua vez, tem motivo para se entristecer; vira presa fácil: parentes calculistas, golpistas sorridentes, todos farejando o que resta da herança.

É duro confessar, mas dói ainda mais admitir que qualquer moleque insolente da vizinhança se impõe sobre mim apenas por me perceber fraco. Ontem, eu era o herói da rua — narrava brigas vencidas, noites que viravam lendas. Hoje, minhas rugas desmontam qualquer bravata: elas gritam a verdade que a boca tenta calar. Sofro duplamente sob o desprezo: primeiro, o dos outros, que me evitam como se eu fosse contagioso; depois, o do espelho embaçado, que me devolve um rosto sem admiração, sem ameaça, sem nada. Aqui estou, reduzido a um “nonada” de mim mesmo — um eco ralo no corredor da existência.

Recordo uma tarde qualquer, há alguns anos. Sentei-me no banco da praça, como de costume, quando um grupo de adolescentes passou rindo alto. Um deles apontou: "Olha o véio aí, falando sozinho de novo". O desprezo me atravessou como lâmina. Naquele instante, o “desprezo de si mesmo” que o tempo semeia tornou-se carne viva: senti o peso de ser invisível, descartável, um estorvo ambulante. Mas, foi exatamente ali que algo se agitou. O tempo na visão pessimista de Schopenhauer — que entende a vida como um processo contínuo de desgaste, em que viver é apenas adiar a morte e permanecer num estado permanente de queda contida — acabou me ensinando a olhar a existência de forma mais profunda, para além das aparências imediatas.

Heidegger lembra que a temporalidade é o horizonte do ser: o futuro se revela no ser-para-a-morte, no reconhecimento da finitude que nos lança à autenticidade. Em vez de me render ao niilismo puro, passei a reconhecer nos chamados “poderes secretos” dos velhos algo real — não magia de reza forte, mas resiliência forjada no fogo da perda. As rezas que conheço não invocam milagres; invocam memória, paciência, a capacidade de suportar o que os jovens ainda evitam. Elas me mantêm de pé quando o corpo vacila.

O que me manteve vivo, afinal, foram as conversas a meu respeito — inclusive as venenosas, as que tentavam me denegrir e desfigurar. Ao menos, eu existia nas bocas dos fofoqueiros; ao menos, era lembrado. Ainda hoje, alguns se afastam quando me veem aproximar. Em vez de me ferir, esforço-me para ler nisso um sinal ambíguo, quase consolador: talvez ainda se protejam de mim. Nessa ilusão — ou meia-verdade — reencontro um resíduo de perigo. Continuo sendo, de algum modo torto, uma presença que inquieta.

Porque os velhos carregam o peso do tempo que os jovens insistem em negar. Sabemos que tudo passa, que o asqueroso chega para todos. E é justamente aí que reside nossa força silenciosa: não na ilusão da eternidade, mas na coragem de encarar o fim sem piscar.

O tempo mata, sim. Mas, enquanto nos devora, também nos ensina a viver o que resta com uma dignidade afiada, dialética — aceitando a decadência sem nos dissolver nela.


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Questões discursivas – Sociologia (Ensino Médio)

Preconceito etário (idadismo)

O texto descreve situações de desprezo e invisibilidade vividas pelo personagem por causa da velhice.

➤ Explique o que é preconceito etário (ou idadismo) e cite um exemplo retirado do texto.

Velhice e exclusão social

O autor afirma que o que mais agrava a velhice não é o envelhecer em si, mas sua relação com a pobreza e a doença.

➤ Explique como fatores sociais e econômicos podem intensificar a exclusão dos idosos na sociedade.

Tempo, finitude e sociedade

A partir das ideias de Schopenhauer e Heidegger, o texto reflete sobre o tempo e a morte.

➤ Por que reconhecer a finitude da vida pode levar a uma forma mais consciente ou autêntica de viver, segundo o texto?

Identidade e reconhecimento social

O personagem afirma que, mesmo sendo alvo de fofocas, sentia algum alívio por ainda ser lembrado.

➤ Explique a importância do reconhecimento social para a construção da identidade das pessoas.

Experiência e resiliência na velhice

O texto afirma que os velhos possuem uma “força silenciosa” baseada na memória e na resistência.

➤ Na sua opinião, qual é a importância da experiência dos idosos para a sociedade? Justifique sua resposta.

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quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

DESGRAÇA TRAZ SORTE: Crônica de uma Moral em Ruínas ("A desgraça de uns é a sorte de outros." — J.R.R. Tolkien)

 


Toda moral que se ergue sobre a repressão termina por ruir sobre os próprios alicerces. Aqueles que a defendem com fervor excessivo costumam ser, paradoxalmente, suas primeiras vítimas. Oscilam entre o papel de carrascos e o de libertinos envergonhados, tornando-se instrumentos dóceis de um espetáculo que fingem condenar. Não raro, quem jamais reconciliou a própria sexualidade sente-se autorizado a interditar a dos outros, convertendo frustrações íntimas em normas públicas. Assim, limitações individuais ganham força de lei, não para curar a sociedade, mas para diluir a culpa em escala coletiva.

Esse teatro moral não se restringe aos quartos fechados: transborda e ocupa as instituições. No discurso público, repete-se a ladainha da decadência dos costumes, enquanto se tenta reorganizar o passado por meio de frases de efeito, como a de Iaponira Barros: “Antigamente a prostituição era profissão, hoje é opção; a mulher não evoluiu, prostituiu-se.” A sentença provoca, mas também revela sua armadilha: privilegia-se o choque retórico em detrimento da análise estrutural. Políticos, atentos à direção do vento, ensaiam atos de autopunição simbólica e escolhem culpados convenientes — quase sempre o cliente, raramente o sistema que mercantiliza tudo, inclusive o corpo e a miséria.

No mesmo compasso, a escola, que deveria ser espaço de mediação crítica, converteu-se em palco ruidoso de disputas ideológicas mal digeridas. Fala-se muito e ensina-se pouco. Não se trata de negar a presença de ideias — elas sempre existiram —, mas de reconhecer que hoje circulam sem filtro, sem contexto e sem responsabilidade pedagógica. O resultado é uma educação que já não educa: terceiriza a formação, ignora o entorno social e transfere ao indivíduo a tarefa solitária de salvar a própria consciência. Aprende-se, quando muito, de dentro para fora, à revelia da instituição que deveria sustentar esse processo.

Pergunto-me, então, o que doutores, técnicos e pedagogos fizeram do sistema educacional. Em vez de enfrentarem a crise, aprenderam a explorá-la. A calamidade tornou-se produto; o fracasso, fonte de receita. Vende-se diagnóstico, nunca transformação. Basta um novo ciclo de isolamento, algumas máscaras — físicas ou simbólicas — para que se revele a fragilidade de uma estrutura sustentada mais por discursos do que por fundamentos.

Confesso: desisti de esperar por melhoras. Não por cinismo barato, mas por lucidez cansada. O padrão já estava posto havia muito tempo. Nas festas juninas, vestíamo-nos de palhaço; nos eventos culturais, o figurino se repetia; nos mutirões de limpeza, lá estava ele outra vez. Tudo igual, sempre igual. E eu me perguntava, em silêncio, onde cabia a minha calça xadrez do cotidiano. O que havia de singular nela, se o mundo insistia em uniformizar até o gesto de participar?

Talvez fosse apenas ciúme — ou talvez a percepção incômoda de que a diferença nunca foi bem-vinda. Lembrei-me, então, da máxima atribuída a Einstein: “Insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes.” No centro dessa engrenagem cansada, nunca consegui fazer a diferença que imaginei possível. Ainda assim, escrevo. Quem sabe alguém consiga onde eu falhei. Ou, ao menos, perceba que a loucura maior não é resistir, mas aceitar o disfarce como se fosse pele.


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Olá! Como seu professor de Sociologia, construi cuidadosamente o texto reflexivo que você leu. Ele aborda temas centrais da disciplina, como instituições sociais (escola e estado), moralidade versus ética, controle social e a mercantilização da educação. Para ajudar você a fixar esses conceitos e desenvolver um olhar crítico sobre a realidade social descrita, preparei estas 5 questões discursivas:


1. A Instituição Escolar e a Crise de Mediação. O texto afirma que a escola "converteu-se em palco ruidoso de disputas ideológicas mal digeridas" e que ela "já não educa". De acordo com a visão sociológica do autor, por que a escola estaria falhando em sua missão pedagógica primordial?

2. Moralidade e Controle Social. O autor argumenta que "toda moral que se ergue sobre a repressão termina por ruir". Como a Sociologia explica a diferença entre uma moral imposta por repressão e uma ética construída através da consciência individual e do diálogo social?

3. Mercantilização da Educação e das Crises. O trecho menciona que "a calamidade tornou-se produto; o fracasso, fonte de receita". Explique, com suas palavras, como o sistema educacional descrito no texto reflete a lógica do mercado (mercantilização) em vez de focar no desenvolvimento humano.

4. A Indústria do Disfarce e a Uniformização. No final do texto, o autor questiona a "uniformização" até mesmo nos gestos de participação (o exemplo do traje de palhaço). Relacione essa ideia ao conceito sociológico de padronização cultural e como ela pode sufocar a individualidade mencionada pela "calça xadrez do cotidiano".

5. Política e Culpabilização Individual. O texto sugere que políticos escolhem "culpados convenientes" (como o cliente) em vez de analisar o sistema estrutural. Por que, do ponto de vista sociológico, é mais fácil para o poder público focar no comportamento individual do que nas falhas das estruturas sociais?

Dica do professor: Ao responder, tente conectar as frases do texto com o que observamos no dia a dia da nossa sociedade. Não busque apenas "respostas certas", mas sim argumentos que demonstrem que você compreendeu a crítica do autor sobre como as instituições moldam nosso comportamento.

Bom trabalho e exercite sua visão crítica!

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quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

IMPORTA A BASE ("É no problema da educação que assenta o grande segredo do aperfeiçoamento da humanidade." — Immanuel Kant)

 


terça-feira, 3 de janeiro de 2023

O PELÉ DA EDUCAÇÃO: A Estética da Loucura em Tempos de Exceção ("O gênio, o crime e a loucura provêm, por igual, de uma anormalidade; representam, de diferentes maneiras, uma inadaptabilidade ao meio." — Fernando Pessoa)

 


Relendo as relações síncronas e assíncronas entre docentes e discentes nos dias de isolamento, constato algo desconfortável: a pandemia não inaugurou nada — apenas acendeu uma luz fria sobre um cenário que já estava montado. O vírus não criou o absurdo; limitou-se a retirar o verniz que o disfarçava. A virtualização forçada escancarou hierarquias, intensificou controles e reduziu o corpo docente a uma presença bidimensional, mais fácil de silenciar, gravar, vigiar e descartar. Sem o corpo, a autoridade se rarefez; sem o encontro, a empatia se diluiu. A tela não humanizou: amplificou o ruído.

Continuam a me chamar de louco. Aceito. Num país em que figuras públicas oscilam entre o título de “mito” e o diagnóstico de “demente”, ser apenas o louco da escola me parece um excelente negócio. A loucura, aqui, não é desrazão — é estratégia. Como em Erasmo, ela concede licença para dizer o que a prudência cala; como em Foucault, permite enxergar o que a normalidade se recusa a ver. A máscara do louco me autoriza a interromper automatismos, a formular perguntas inconvenientes e a recusar consensos morais fabricados. Pedagogicamente, ela opera como ruído fértil: desorganiza expectativas, desarma certezas e expõe o ridículo do que se apresenta como natural.

Não sou o “Pelé da Educação”, mas aprendi alguns dribles essenciais: o da recusa silenciosa, o da ironia precisa e o da desobediência mínima capaz de desestabilizar engrenagens inteiras. Um exemplo basta: nego-me a participar das incessantes “vaquinhas virtuais” escolares, sempre urgentes, sempre nobres na aparência e frequentemente opacas na finalidade. Não é avareza; é recusa ao rebanho. A guerra que travo é branca, cotidiana, quase invisível — contra o assédio moral travestido de coleguismo e contra o oportunismo disfarçado de solidariedade.

Os insultos, aliás, não são novos; na escola, ecoam os mesmos que ouvi na igreja quando ousei questionar o dízimo. “Mão de vaca”, dizem. A ofensa não me fere pelo suposto apego ao dinheiro, mas pela imagem que carrega: a vaca como símbolo do gado, da docilidade acrítica, da obediência em fila. É aqui que Gandhi deixa de ser ornamento e se torna argumento: “O medo tem alguma utilidade, mas a covardia não.” Participar por receio de exclusão é covardia; recusar, mesmo com custo simbólico, é uma forma mínima de coragem. Não contribuir não é negar ajuda — é negar submissão.

O hospício institucionalizado em que trabalhamos não se revela apenas nos grandes discursos, mas sobretudo nos pequenos rituais. Questiono, por exemplo, a lógica da matrícula escolar reduzida a notas e documentos, como se caráter, ética e convivência fossem detalhes irrelevantes. Recebemos sujeitos cujo histórico moral permanece invisível e que, uma vez dentro, sentem-se autorizados a humilhar mestres e doutores, porque o rótulo “apenas professor” nivela todos na base da pirâmide do respeito. A pandemia agravou esse quadro: atrás da tela, a insolência ganhou coragem; sem o olhar direto, o limite perdeu densidade.

Há, contudo, um perigo que precisa ser nomeado com cuidado. Ao denunciar a patologização generalizada, não nego a existência real do sofrimento psíquico — isso seria desumano e injusto. O alvo da crítica é a patologização instrumentalizada: o uso do diagnóstico como álibi moral. Há diferença entre quem sofre e necessita de compreensão genuína e quem se esconde atrás de laudos imaginários para eximir-se de responsabilidade. Quando tudo vira “problema mental”, nada mais responde à ética. O bandido, o político corrupto, o aluno agressivo — todos absolvidos por uma psiquiatria de conveniência. O resultado não é inclusão; é cinismo institucional.

A religião, com seu puritanismo performático, não fica atrás. Produz fanáticos disciplinados, moralmente indignados e eticamente vazios. A pandemia apenas acelerou o processo: lives devocionais, discursos inflamados e a mesma incapacidade de lidar com o outro concreto. Muito zelo, pouca escuta.

É nesse contexto que a máscara do louco se torna não apenas legítima, mas necessária. Se a normalidade crucifica Jesus e solta Barrabás, talvez a sanidade esteja do lado errado da história. A loucura estratégica me permite inverter expectativas, como no episódio banal — e revelador — do banheiro. O aluno pede permissão com uma polidez ensaiada, não porque precisa ir, mas porque deseja ouvir o “não” que nunca ouviu em casa. O sistema espera que eu controle, negue, puna. Eu digo “sim”. Ele sai, foge; a coordenação o caça e o obriga a retornar a um espaço onde finge não querer estar. Eis a farsa: simulamos autonomia para reafirmar o controle; concedemos liberdade apenas para castigá-la. Não é educação — é sadismo burocrático, criando problemas para justificar a própria existência.

E então? Se somos todos loucos dentro de um hospício funcional, resta apenas a sobrevivência cínica? Creio que não. Há, no mínimo, a possibilidade do reconhecimento mútuo. A loucura compartilhada abre brechas de lucidez. Quando os loucos se entendem, como canta MC Ruzika, algo raro acontece: o absurdo perde o monopólio da cena. Talvez não transformemos o sistema de imediato, mas podemos desorganizar sua lógica, produzir pequenas interrupções e ensinar, pelo exemplo, que nem toda obediência é virtude e que nem toda loucura é perda de razão.

A pandemia passará — ou já passou —, mas o estado de exceção permanece. A escolha, então, é simples e dura: vestir a máscara da normalidade e reproduzir o absurdo, ou assumir a loucura consciente que ousa dizer o que não cabe nos formulários. Fico com a segunda. Não por desespero, mas por método.


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Olá! Como seu professor de sociologia, preparei cinco questões discursivas baseadas no texto. O objetivo é analisar como as instituições (escola, igreja, política) moldam nossos comportamentos e como a "loucura estratégica" mencionada pelo autor funciona como uma forma de resistência sociológica.


1. A Visibilidade do Absurdo: O texto afirma que a pandemia "não inaugurou nada", apenas retirou o verniz de um cenário já montado. De que maneira a virtualização das aulas, segundo o autor, alterou a relação de autoridade e a presença física entre professores e alunos?

2. A Loucura como Estratégia: O autor utiliza a "máscara do louco" para questionar a normalidade institucional. Relacionando com o pensamento sociológico, como o ato de "interromper automatismos" e "recusar consensos fabricados" pode ser visto como uma forma de resistência ao controle social?

3. Solidariedade versus Submissão: Ao tratar das "vaquinhas virtuais", o autor diferencia o medo da covardia, citando Gandhi. Explique o argumento do texto sobre por que a recusa em participar de certos rituais escolares pode ser considerada uma "negação da submissão" e não apenas falta de ajuda.

4. Patologização e Ética: O texto critica a "psiquiatria de conveniência", onde comportamentos desviantes (do político corrupto ao aluno agressivo) são absolvidos por supostos problemas mentais. Qual é o perigo sociológico de usar diagnósticos como "álibi moral", segundo a visão do autor?

5. O Sadismo Burocrático: No episódio do pedido para ir ao banheiro, o autor descreve uma farsa educativa onde se "simula autonomia para reafirmar o controle". Como essa dinâmica exemplifica a crise de autoridade na família e na escola mencionada no texto?

Estas questões ajudam a entender que a escola não é apenas um lugar de ensino, mas um campo de forças onde o poder e a ética estão em constante disputa.

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segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

SÃO TANTAS EMOÇÕES!: A Ditadura da Excitação e o Declínio dos Laços ("As emoções são cavalos selvagens." — Paulo Coelho)

 


SÃO TANTAS EMOÇÕES!: A Ditadura da Excitação e o Declínio dos Laços ("As emoções são cavalos selvagens." — Paulo Coelho)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Há algo de paradoxal no entusiasmo pedagógico contemporâneo. Em nome do engajamento, a sala de aula transformou-se em palco de estímulos contínuos, jogos sucessivos e dinâmicas em série. Não se trata de negar o valor da ludicidade — que pode ser profunda, formativa e até libertadora —, mas de reconhecer o risco do excesso, quando a atividade recreativa deixa de ser meio e passa a ocupar o lugar do próprio estudo. Quando tudo precisa divertir, o esforço intelectual perde sentido e a formação cede espaço à excitação. Não é o jogo que compromete a fibra moral e o intelecto, mas sua conversão em substituto permanente do pensamento, como se aprender exigisse anestesia prévia.

O mecanismo é conhecido: estímulos intensos geram habituação. A novidade, quando repetida, esvazia-se rapidamente e exige doses cada vez maiores para produzir o mesmo efeito. O que começa como estratégia pedagógica termina como entretenimento vazio. A lógica é a mesma das redes sociais e dos jogos eletrônicos: uma economia da atenção que vicia pela excitação constante e empobrece a experiência. Não por acaso, o tédio — condição fértil para a reflexão — passa a ser tratado como falha, quase como patologia. Forma-se, assim, um sujeito incapaz de sustentar o silêncio, a leitura lenta ou o conflito interior que todo aprendizado autêntico exige.

Essa fome por sensações extremas transborda para o ambiente digital e contamina os vínculos. Recentemente, uma “amiga” de Facebook escreveu-me: “Pare de me compartilhar suas publicações... nem te conheço”. O curioso não foi a rejeição — bastaria silenciar ou desfazer o contato —, mas a necessidade de agressão explícita. Há uma ironia cruel nisso: as redes nos tornam “amigos” de estranhos, produzem uma intimidade fictícia e, ao mesmo tempo, legitimam a grosseria como forma de autoafirmação. Ao declarar que seu gosto era “diferenciado” demais, ela não buscava diálogo, mas impacto; não comunicação, mas descarga emocional.

O episódio, confesso, perturbou meu sono naquela noite. Com o tempo, porém, a repetição desses microchoques produz outro efeito: o entorpecimento. A emoção, saturada, perde espessura; a ofensa deixa de ser exceção e se torna paisagem. Vivemos algo próximo ao que já foi descrito como sociedade do espetáculo e da transparência tóxica, em que tudo é exposto, reagido, consumido e descartado com tamanha rapidez que até a indignação se banaliza. A agressividade já não escandaliza; ela apenas mantém o fluxo.

Perguntei-me, então, por que essa urgência em transformar o outro em agressor para validar a própria voz. Ao reagir com ironia e optar pelo bloqueio, percebi minha própria cumplicidade nesse ciclo: também recorri a uma “emoção forte” para encerrar o jogo. As redes funcionam assim — prometem conexão, mas treinam o descarte; estimulam a expressão, mas corroem a escuta. É um entretenimento extravagante que afrouxa os laços de respeito, enfraquece a resiliência e substitui o dissenso pelo choque.

Há saída? Talvez ela passe por uma recusa consciente da excitação permanente, pela revalorização do tempo lento e do esforço sem espetáculo, por uma educação que não precise competir com o entretenimento para fazer sentido. Resistir, hoje, pode ser simplesmente isso: reaprender a sustentar relações, ideias e aprendizagens que não gritam, não piscam e não prometem euforia imediata — mas que, justamente por isso, ainda guardam a potência de nos transformar.


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Olá! Como seu professor de sociologia, elaborei cinco questões discursivas que conectam os conceitos sociológicos presentes no texto com a realidade do Ensino Médio. Estas questões visam estimular o pensamento crítico sobre a cultura do imediatismo e as relações sociais na era digital.


1. O Entretenimento como Substituição: O texto argumenta que a ludicidade em sala de aula, quando excessiva, pode transformar o estudo em "entretenimento vazio". Do ponto de vista sociológico, como essa busca por "excitação permanente" pode prejudicar o desenvolvimento da capacidade de reflexão e do pensamento crítico do estudante?

2. Economia da Atenção e Habitação: O autor compara a lógica das dinâmicas escolares à das redes sociais, mencionando que "estímulos intensos geram habituação". Explique como o conceito de "viciar pela excitação constante" se relaciona com a dificuldade contemporânea em lidar com o tédio e a leitura lenta.

3. Fragilidade dos Laços nas Redes: No relato sobre a "amiga" de Facebook, o texto destaca que as redes produzem uma "intimidade fictícia". Como essa falsa proximidade, somada ao anonimato ou distanciamento da tela, pode legitimar a grosseria e a agressão gratuita nas interações digitais?

4. A Sociedade do Espetáculo e o Entorpecimento: O autor menciona que a repetição de "microchoques" e ofensas gera um "entorpecimento" emocional. Utilizando a ideia de "sociedade do espetáculo", explique por que a indignação e a agressividade correm o risco de se tornarem banais no ambiente virtual.

5. Resistência e Contra-cultura: Ao final, o texto sugere que "resistir" hoje pode ser o ato de valorizar o "tempo lento" e o esforço sem espetáculo. Como essa proposta desafia os valores da sociedade de consumo atual, que prioriza a velocidade, o descarte rápido e a euforia imediata?

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domingo, 1 de janeiro de 2023

(DIS)PUTA PARA QUEM? ("Em uma disputa alguém sempre estará errado, pois se houvesse razão em ambos os lados não haveriam vencedores." — Weberson Gomes)