"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

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MINHAS PÉROLAS

terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

Textos Crônicas QUEM GUARDA, TEM! ("Ter muito não significa ser muito. Assim como um acumulador não é o mesmo que um colecionador." — Tiago Carossi)

 



  • QUEM GUARDA, TEM! ("Ter muito não significa ser muito. Assim como um acumulador não é o mesmo que um colecionador." — Tiago Carossi)

    Por Claudeci Ferreira de Andrade

    Tem dias em que a gente resolve fazer um inventário da própria vida. Mas não desses de cartório, com carimbo, firma reconhecida e papel timbrado. Não. Falo daquele balanço silencioso que surge quando a casa sossega, a noite encosta nas paredes e a consciência — danada ela — começa a abrir gavetas antigas.

    Foi numa dessas horas, meio sem querer, que me dei conta de uma coisa curiosa: se hoje não sou podre de rico, a responsabilidade é todinha minha. Não nasci com talento pra corrupção, nem com vocação pra essa corrida maluca atrás do dinheiro. Enquanto muita gente corria atrás de cifras como quem corre atrás do último ônibus da noite, eu fui gastando meu tempo com outras coisas — algumas nobres, outras nem tanto, convenhamos.

    E aquele casamento difícil, desses que deixam um eco estranho no silêncio da casa? Pois é… também não adianta sair distribuindo culpa. A conta, no fim das contas, é minha. Nunca tive estômago pra manipular ninguém, nem habilidade pra esse xadrez emocional que certos sujeitos jogam com uma frieza quase profissional.

    Quanto à saúde, então… ah, essa também não aceita transferência de responsabilidade. Se hoje o corpo protesta — e protesta com certa frequência, diga-se — é porque um dia eu disse “sim” a todos os excessos que apareceram pela frente. Não foi destino, não foi azar, tampouco castigo divino. Foi escolha. Simples assim.

    Aqui na praça, aliás, todo mundo me conhece pelo apelido de Claudeko. Um nome meio torto, meio zombeteiro, desses que grudam na gente como chiclete em sola de sapato. Dizem que combina comigo — talvez por causa dessa minha mania incurável de guardar coisas (Cacarecos).

    Alguns preferem usar um rótulo mais técnico: acumulador. Eu, cá com meus botões, gosto mais da palavra prevenido. Afinal, o velho ditado não nasceu à toa: quem guarda o que não quer acaba tendo o que precisa. E olha… experiência própria não costuma mentir.

    Se alguém quiser entender melhor essa minha filosofia doméstica, basta dar um pulo lá em casa. Sem cerimônia. Abra uma gaveta qualquer, espie os armários, levante a tampa de uma caixa esquecida no canto da sala ou dê uma olhada no porta-malas do meu carro. Aquilo ali é quase uma cartografia do improvável.

    Convivem lado a lado parafusos órfãos, cabos de aparelhos que já nem existem mais, papéis sem data, lembranças sem legenda e objetos cuja utilidade talvez só Deus ainda saiba explicar. Até a geladeira — confesso sem orgulho, mas também sem drama — às vezes abriga pequenas relíquias arqueológicas.

    E não adianta vir com essas frases de biscoito da sorte ou conselhos de autoajuda do tipo desapegue e seja feliz. Essas máximas me soam vazias demais.

    E eu, pra falar a verdade, sempre tive um certo pavor do vazio. Gosto das coisas cheias. Cheias de história, cheias de memória, cheias de possibilidades — mesmo quando ninguém mais acredita nelas. Gosto de prateleiras abarrotadas, gavetas pesadas, caixas que guardam mais perguntas do que respostas. Tem gente que chama isso de bagunça. Eu prefiro chamar de densidade de vida.

    No fundo — e isso talvez seja só uma teimosia minha — suspeito que vivo melhor do que muita gente que cultiva o deserto impecável da organização perfeita. Porque o vazio absoluto, esse sim, costuma produzir problemas bem mais difíceis de resolver.

    Sou acumulador, confesso sem drama nem pedido de desculpas. Nunca tive muito talento pra jogar fora o que não presta. Talvez por isso também acumule amigos.

    Não tenho grande habilidade pra filtrar pessoas, dispensar histórias ou virar as costas pra alguém que cruza meu caminho. Vou juntando gente e tralha pelo mundo afora, como quem recolhe pedaços dispersos da existência na esperança de que, um dia, tudo isso faça algum sentido. Pode ser que não valha grande coisa. Mas também pode ser que valha muito mais do que parece.

    No meio desse meu pequeno caos doméstico, sigo acreditando numa verdade simples: às vezes o que a gente guarda não são objetos. São pedaços da própria vida tentando, teimosamente, não desaparecer.

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    Como seu professor de Sociologia, fico muito feliz em lhe oferecer uma crônica tão rica em subjetividade e significado social.

    Muitas vezes, a gente acha que Sociologia é só falar de grandes estruturas, governos e revoluções, mas a verdade é que ela começa no indivíduo: na forma como a gente lida com as nossas escolhas, com o nosso tempo e com as coisas que a gente possui (ou que nos possuem). O texto é um convite perfeito para discutirmos identidade, consumo e responsabilidade individual.

    Preparei estas 5 questões para a gente refletir sobre esse "inventário da vida":

    1 Responsabilidade Individual: O autor afirma que a culpa de suas condições atuais (financeira, saúde, relacionamentos) é "todinha dele", recusando o papel de vítima do destino ou da sociedade. Na sua opinião, até que ponto somos realmente donos das nossas escolhas e até que ponto a sociedade "empurra" a gente para certos caminhos?

    2 O Valor dos Objetos: No texto, o autor se define como "prevenido" e diz que guarda coisas porque tem "pavor do vazio". Pensando na nossa sociedade atual, que valoriza tanto o descarte rápido e o consumo de coisas novas, por que o ato de guardar objetos antigos pode ser considerado um ato de resistência ou de preservação da memória?

    3 Identidade e Estigma: O autor menciona o apelido "Claudeko" e o rótulo de "acumulador". Na Sociologia, um estigma é uma marca ou rótulo que a sociedade coloca em alguém para diferenciá-lo. Como o autor lida com esses rótulos e de que forma ele ressignifica (dá um novo sentido) ao que os outros chamam de "bagunça"?

    4 Sociabilidade e Laços Sociais: No final do texto, Claudeko diz que, por não saber "jogar fora o que não presta", acaba acumulando também amigos. Como a forma como lidamos com as coisas (objetos) pode refletir a forma como lidamos com as pessoas em uma sociedade que, muitas vezes, trata as relações como se fossem descartáveis?

    5 A Ditadura da Organização: O texto critica a ideia de "deserto impecável da organização perfeita" e das frases de autoajuda. Por que você acha que a sociedade moderna cobra tanto que sejamos pessoas "organizadas", "produtivas" e "desapegadas"? O que se perde quando tentamos eliminar todo o "caos" da nossa história?

    Dica do Prof: Galera, foquem na ideia de que "ter" é diferente de "ser". O texto mostra que, mesmo em meio ao caos das gavetas cheias, existe uma identidade muito forte e consciente.

  • domingo, 26 de fevereiro de 2023

    TRANSCENDÊNCIA DA FERRUGEM ("A expansão da consciência é um verdadeiro ato de transcendência." — Samuel Ranner)

     


    sábado, 25 de fevereiro de 2023

    OS DESTINADOS PARA O MAL FAZEM O BEM: O Equilíbrio das Sombras e da Luz ("Confiar nos homens é já deixar-se matar um pouco. Louis Céline)


     

    CONTAMINAR-SE É INEVITÁVEL ("Somos carne exposta, Em um mundo putrefato, Tentando ficar imunes a contaminação." — Maicon Fraga)

     


    CONTAMINAR-SE É INEVITÁVEL ("Somos carne exposta, Em um mundo putrefato, Tentando ficar imunes a contaminação." — Maicon Fraga)

    Por Claudeci Ferreira de Andrade

    Se há uma lição que o tempo me ensinou, é que a sabedoria raramente reside nas respostas prontas. Quase sempre, ela se esconde nas perguntas incômodas. Para encontrá-la, é preciso desconfiar das fantasias sagradas, observar com atenção o comportamento das formigas, o voo errático dos pássaros, o modo como as estações se sucedem — e, sobretudo, contemplar o teatro humano com olhos de cronista velho e cético. Foi assim que aprendi a me ler por dentro: como um bicho estranho que empacou no meio do caminho.

    Sim, empacou. Detesto burro que empaca — e, no entanto, sou esse burro. Um paradoxo em carne viva. Um ser em marcha, mas com os pés atolados. Um mar que não se move: Mar-Morto. Tenho consciência da minha contradição e, talvez por isso mesmo, precise estar perto de tudo aquilo que posso contaminar. Produzo venenos, sim — mas até o veneno, em pequenas doses, pode ser remédio. Excesso de gente me sufoca; falta de afeto, me adoece. Ainda assim, aviso logo: não há rota de fuga. Você está lendo isso — agora, não há mais volta.

    Sou assim porque quero tanto viver que a neutralidade me parece um crime. Reajo, mesmo quando seria mais seguro calar. Grito, mesmo quando só esperam silêncio. Os que nada fazem também me ferem. Os que fingem não ver, os que cruzam os braços ou desviam os olhos — esses também merecem minha reação. Às vezes, me torno tóxico, eu sei. Mas não vim ao mundo para passar despercebido.

    O desapego, para mim, é o adeus mais honesto: uma forma de amar sem prender. O esquecimento, esse sim, é traição — pois quem esquece, mata duas vezes. Por isso, parto sem pressa, mas com urgência. Meu curso terminou. Meus colegas me viram passar e levei comigo um pouco de cada um. Em troca, deixei o que sou: uma faísca, um incômodo, uma lembrança que arde.

    E se causei dano, foi só porque insisti demais em ser vivo entre os mortos-vivos. Meu veneno, afinal, é apenas a forma mais sincera que encontrei de continuar sendo. Como uma flor que nasce no esgoto e insiste em perfumar o ar ao redor, mesmo enraizada na podridão, eu sigo contaminando — não por maldade, mas por natureza. Não sou antídoto, nem pretendo ser cura. Sou o toque que arde, o espinho no dedo, o copo d’água que engasga. Quando partirem os que comigo cruzaram caminhos, talvez encontrem em suas lembranças um vestígio ácido, incômodo, mas vivo. E é nessa vivência, nesse rastro de verdade crua, que continuo a existir. CiFA


    A crônica que acabamos de ler nos provoca a pensar sobre nossa própria existência e o modo como nos relacionamos com o mundo. O autor se descreve como um "bicho estranho que empacou", um "Mar-Morto" de inércia, mas que ao mesmo tempo "quer tanto viver" que não aceita a neutralidade. Essa é uma oportunidade e tanto para a gente discutir alguns conceitos fundamentais da Sociologia. Preparados?


    1 - O cronista afirma que "detesto burro que empaca — e, no entanto, sou esse burro." Essa contradição entre o que ele detesta e o que ele é, pode ser analisada sociologicamente? Discuta como as expectativas sociais e as pressões individuais podem gerar contradições no comportamento e na identidade das pessoas.


    2 - O autor se descreve como alguém que "precisa estar perto de tudo aquilo que posso contaminar" e que produz "venenos". Embora use a metáfora, o texto sugere uma influência ativa sobre o ambiente. Explique como os indivíduos, mesmo em suas contradições, atuam como agentes sociais, influenciando e sendo influenciados pelos grupos e pela sociedade em que vivem.


    3 - A crônica declara: "Sou assim porque quero tanto viver que a neutralidade me parece um crime. Reajo, mesmo quando seria mais seguro calar." Relacione essa postura com o conceito de engajamento social ou ação coletiva. Por que, do ponto de vista sociológico, a "neutralidade" pode ser vista como um problema em certas situações?


    4 - O cronista menciona que "os que nada fazem também me ferem. Os que fingem não ver, os que cruzam os braços ou desviam os olhos — esses também merecem minha reação." Essa afirmação pode ser conectada ao conceito de responsabilidade social. Discuta a importância de se posicionar e de não se omitir diante de problemas sociais, segundo essa perspectiva.


    5 - Ao final do texto, o autor reflete sobre sua "partida" e o que ele deixou para seus colegas: "uma faísca, um incômodo, uma lembrança que arde." Pensando no papel do indivíduo na sociedade, como essa ideia de "deixar uma marca" ou "causar dano" (no sentido de impacto ou provocação) se relaciona com o conceito de legado social e a forma como as ações de uma pessoa podem reverberar na vida de outras?

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    quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

    CANCELAMENTO SOCIAL ("A desinformação mata mais gente que qualquer guerra, bomba, arma, vírus ou doença!" — Daniel Torres)

     


    CANCELAMENTO SOCIAL ("A desinformação mata mais gente que qualquer guerra, bomba, arma, vírus ou doença!" — Daniel Torres)

    Por Claudeci Ferreira de Andrade

    Sentado no bar da esquina, observo o vaivém das pessoas na rua. O copo de uísque à minha frente reflete a luz amarelada do estabelecimento, criando um brilho quase hipnótico. Penso em como cheguei aqui, neste ponto da minha vida, onde as palavras parecem ter perdido seu poder. Era uma vez um homem cheio de ideias, ansioso para compartilhá-las com o mundo. Eu era esse homem. Mas o mundo, ah, o mundo tinha outros planos.

    Lembro-me da primeira vez que percebi que minha voz estava sendo sufocada. Foi numa reunião de trabalho, há alguns anos. Apresentei uma proposta inovadora, fruto de noites em claro e litros de café. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Olhares vazios, sorrisos forçados, e então... nada. Como se eu tivesse falado em uma língua estrangeira que ninguém ali compreendia.

    Desde então, notei um padrão se formando. Não era apenas comigo. Era como se a sociedade tivesse decidido coletivamente fazer uma greve de ouvidos. Ouviam, mas não escutavam. As palavras ricocheteavam em paredes invisíveis de indiferença. Viver em sociedade deveria ser um exercício de liberdade, mas, muitas vezes, sinto que estamos presos pela surdez daqueles que nos cercam. É uma repressão silenciosa, uma indiferença disfarçada que nos empurra para o abismo do cancelamento.

    Vi amigos brilhantes sucumbirem a essa surdez social. Alguns, como eu, buscaram refúgio no álcool. Outros se perderam no labirinto das redes sociais, compartilhando informações sem filtro, embriagados pela ilusão de serem ouvidos. Tornamo-nos todos bêbados, de uma forma ou de outra. Bêbados de frustração, de desinformação, de solidão. É uma forma de vingança, um protesto silencioso, uma greve de se expressar.

    O garçom se aproxima, oferecendo mais uma dose. Hesito por um momento, mas aceito. O líquido âmbar desce queimando minha garganta, assim como as palavras não ditas a queimam por dentro. Penso nos jovens lá fora, ainda cheios de esperança e ideias. Quanto tempo até que eles também percebam que estão gritando no vácuo? Quanto tempo até que se juntem a nós, os embriagados silenciosos, que falam "coisas com coisas" porque ninguém realmente se importa com o que dizemos?

    A noite avança, e com ela cresce minha melancolia. Vejo nossa sociedade caminhando para um abismo de autocensura, onde só diremos o que os outros querem ouvir. Uma ditadura silenciosa, imposta por nós mesmos sobre nossas próprias mentes. Em breve, temo que não haverá mais democracia. A sociedade hipócrita, que diz não gostar de armas, nos mata com "línguas de fogo", abafando a voz dos corajosos.

    Mas algo em mim se rebela contra esse destino. Talvez seja o álcool falando, ou talvez seja aquele homem cheio de ideias que eu costumava ser. Levanto-me, cambaleante, e saio para a rua. O ar fresco da noite me atinge como um tapa na cara. Olho para o céu estrelado e, pela primeira vez em muito tempo, sinto vontade de gritar. Gritar todas as verdades que ficaram presas na minha garganta por tanto tempo.

    Porque, no fim das contas, o verdadeiro pecado não é jogar pérolas aos porcos. É deixar que as pérolas se percam dentro de nós, sufocadas pelo medo e pela indiferença. Enquanto caminho para casa, decido que amanhã será diferente. Falarei, mesmo que ninguém escute. Gritarei, se for preciso. Porque o silêncio dos embriagados - seja pelo álcool ou pela apatia - é o primeiro passo para a morte da liberdade.

    Concluo esta jornada noturna com um suspiro de frustração e esperança. Frustração pela situação atual e esperança de que, um dia, possamos voltar a valorizar a verdadeira comunicação, onde ouvir é mais do que apenas escutar. Onde a liberdade de expressão não seja uma batalha constante, mas um direito inalienável. Até lá, continuarei lutando, acreditando que a mudança é possível, mesmo que pareça distante. E quem sabe, com persistência e coragem, possamos finalmente cantar uma nova canção, onde cada voz tenha seu valor e cada palavra, seu peso.

    E eu, por Deus, ainda não estou pronto para morrer em silêncio.

    Questões Discursivas:

    1. O texto apresenta uma reflexão crítica sobre a comunicação na sociedade contemporânea, abordando temas como a dificuldade de se fazer ouvir, a proliferação da desinformação e o crescente risco da autocensura. Através da narrativa do personagem e da metáfora da "surdez social", o autor explora os desafios da comunicação autêntica e da liberdade de expressão em um mundo cada vez mais polarizado. De que forma o autor utiliza a figura do "bêbado" para representar a frustração e o silenciamento daqueles que se sentem ignorados ou marginalizados?

    2. O personagem vivencia um momento de epiêmia, reconhecendo a necessidade de superar o medo e a indiferença e se expressar livremente, mesmo que isso signifique enfrentar o julgamento ou a rejeição dos outros. Como essa mudança de perspectiva se relaciona com a defesa da liberdade de expressão e da busca por uma comunicação mais autêntica e significativa?

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    POR QUE VIVO NA IGREJA: O Equilíbrio da Corda Bamba ("Deus não vive numa igreja, Deus vive em você." — Billy Graham)