QUEM GUARDA, TEM! ("Ter muito não significa ser muito. Assim como um acumulador não é o mesmo que um colecionador." — Tiago Carossi)
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Tem dias em que a gente resolve fazer um inventário da própria vida. Mas não desses de cartório, com carimbo, firma reconhecida e papel timbrado. Não. Falo daquele balanço silencioso que surge quando a casa sossega, a noite encosta nas paredes e a consciência — danada ela — começa a abrir gavetas antigas.
Foi numa dessas horas, meio sem querer, que me dei conta de uma coisa curiosa: se hoje não sou podre de rico, a responsabilidade é todinha minha. Não nasci com talento pra corrupção, nem com vocação pra essa corrida maluca atrás do dinheiro. Enquanto muita gente corria atrás de cifras como quem corre atrás do último ônibus da noite, eu fui gastando meu tempo com outras coisas — algumas nobres, outras nem tanto, convenhamos.
E aquele casamento difícil, desses que deixam um eco estranho no silêncio da casa? Pois é… também não adianta sair distribuindo culpa. A conta, no fim das contas, é minha. Nunca tive estômago pra manipular ninguém, nem habilidade pra esse xadrez emocional que certos sujeitos jogam com uma frieza quase profissional.
Quanto à saúde, então… ah, essa também não aceita transferência de responsabilidade. Se hoje o corpo protesta — e protesta com certa frequência, diga-se — é porque um dia eu disse “sim” a todos os excessos que apareceram pela frente. Não foi destino, não foi azar, tampouco castigo divino. Foi escolha. Simples assim.
Aqui na praça, aliás, todo mundo me conhece pelo apelido de Claudeko. Um nome meio torto, meio zombeteiro, desses que grudam na gente como chiclete em sola de sapato. Dizem que combina comigo — talvez por causa dessa minha mania incurável de guardar coisas (Cacarecos).
Alguns preferem usar um rótulo mais técnico: acumulador. Eu, cá com meus botões, gosto mais da palavra prevenido. Afinal, o velho ditado não nasceu à toa: quem guarda o que não quer acaba tendo o que precisa. E olha… experiência própria não costuma mentir.
Se alguém quiser entender melhor essa minha filosofia doméstica, basta dar um pulo lá em casa. Sem cerimônia. Abra uma gaveta qualquer, espie os armários, levante a tampa de uma caixa esquecida no canto da sala ou dê uma olhada no porta-malas do meu carro. Aquilo ali é quase uma cartografia do improvável.
Convivem lado a lado parafusos órfãos, cabos de aparelhos que já nem existem mais, papéis sem data, lembranças sem legenda e objetos cuja utilidade talvez só Deus ainda saiba explicar. Até a geladeira — confesso sem orgulho, mas também sem drama — às vezes abriga pequenas relíquias arqueológicas.
E não adianta vir com essas frases de biscoito da sorte ou conselhos de autoajuda do tipo desapegue e seja feliz. Essas máximas me soam vazias demais.
E eu, pra falar a verdade, sempre tive um certo pavor do vazio. Gosto das coisas cheias. Cheias de história, cheias de memória, cheias de possibilidades — mesmo quando ninguém mais acredita nelas. Gosto de prateleiras abarrotadas, gavetas pesadas, caixas que guardam mais perguntas do que respostas. Tem gente que chama isso de bagunça. Eu prefiro chamar de densidade de vida.
No fundo — e isso talvez seja só uma teimosia minha — suspeito que vivo melhor do que muita gente que cultiva o deserto impecável da organização perfeita. Porque o vazio absoluto, esse sim, costuma produzir problemas bem mais difíceis de resolver.
Sou acumulador, confesso sem drama nem pedido de desculpas. Nunca tive muito talento pra jogar fora o que não presta. Talvez por isso também acumule amigos.
Não tenho grande habilidade pra filtrar pessoas, dispensar histórias ou virar as costas pra alguém que cruza meu caminho. Vou juntando gente e tralha pelo mundo afora, como quem recolhe pedaços dispersos da existência na esperança de que, um dia, tudo isso faça algum sentido. Pode ser que não valha grande coisa. Mas também pode ser que valha muito mais do que parece.
No meio desse meu pequeno caos doméstico, sigo acreditando numa verdade simples: às vezes o que a gente guarda não são objetos. São pedaços da própria vida tentando, teimosamente, não desaparecer.
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Como seu professor de Sociologia, fico muito feliz em lhe oferecer uma crônica tão rica em subjetividade e significado social.
Muitas vezes, a gente acha que Sociologia é só falar de grandes estruturas, governos e revoluções, mas a verdade é que ela começa no indivíduo: na forma como a gente lida com as nossas escolhas, com o nosso tempo e com as coisas que a gente possui (ou que nos possuem). O texto é um convite perfeito para discutirmos identidade, consumo e responsabilidade individual.
Preparei estas 5 questões para a gente refletir sobre esse "inventário da vida":
1 Responsabilidade Individual: O autor afirma que a culpa de suas condições atuais (financeira, saúde, relacionamentos) é "todinha dele", recusando o papel de vítima do destino ou da sociedade. Na sua opinião, até que ponto somos realmente donos das nossas escolhas e até que ponto a sociedade "empurra" a gente para certos caminhos?
2 O Valor dos Objetos: No texto, o autor se define como "prevenido" e diz que guarda coisas porque tem "pavor do vazio". Pensando na nossa sociedade atual, que valoriza tanto o descarte rápido e o consumo de coisas novas, por que o ato de guardar objetos antigos pode ser considerado um ato de resistência ou de preservação da memória?
3 Identidade e Estigma: O autor menciona o apelido "Claudeko" e o rótulo de "acumulador". Na Sociologia, um estigma é uma marca ou rótulo que a sociedade coloca em alguém para diferenciá-lo. Como o autor lida com esses rótulos e de que forma ele ressignifica (dá um novo sentido) ao que os outros chamam de "bagunça"?
4 Sociabilidade e Laços Sociais: No final do texto, Claudeko diz que, por não saber "jogar fora o que não presta", acaba acumulando também amigos. Como a forma como lidamos com as coisas (objetos) pode refletir a forma como lidamos com as pessoas em uma sociedade que, muitas vezes, trata as relações como se fossem descartáveis?
5 A Ditadura da Organização: O texto critica a ideia de "deserto impecável da organização perfeita" e das frases de autoajuda. Por que você acha que a sociedade moderna cobra tanto que sejamos pessoas "organizadas", "produtivas" e "desapegadas"? O que se perde quando tentamos eliminar todo o "caos" da nossa história?
Dica do Prof: Galera, foquem na ideia de que "ter" é diferente de "ser". O texto mostra que, mesmo em meio ao caos das gavetas cheias, existe uma identidade muito forte e consciente.
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