O asqueroso avança devagar, como um veneno que se infiltra nos dias. Só os velhos ainda suportam os velhos: juntos, perdem o fogo da aventura, o apetite pelo novo, e se agarram ao passado com unhas frágeis — até que o apego se converta em repulsa por si mesmos. Todo velho carrega, inevitavelmente, um grau de depressão, essa sombra que o tempo cultiva com paciência. Se existisse justiça divina, Deus não nos lançaria ao fim sem preparação: aos poucos, Ele — ou o destino — nos desbota, nos torna insípidos, prontos para o pó que já fomos. O que agrava tudo não é a velhice em si, mas sua aliança cruel com a pobreza e a doença crônica. Mesmo o velho rico, por sua vez, tem motivo para se entristecer; vira presa fácil: parentes calculistas, golpistas sorridentes, todos farejando o que resta da herança.
É duro confessar, mas dói ainda mais admitir que qualquer moleque insolente da vizinhança se impõe sobre mim apenas por me perceber fraco. Ontem, eu era o herói da rua — narrava brigas vencidas, noites que viravam lendas. Hoje, minhas rugas desmontam qualquer bravata: elas gritam a verdade que a boca tenta calar. Sofro duplamente sob o desprezo: primeiro, o dos outros, que me evitam como se eu fosse contagioso; depois, o do espelho embaçado, que me devolve um rosto sem admiração, sem ameaça, sem nada. Aqui estou, reduzido a um “nonada” de mim mesmo — um eco ralo no corredor da existência.
Recordo uma tarde qualquer, há alguns anos. Sentei-me no banco da praça, como de costume, quando um grupo de adolescentes passou rindo alto. Um deles apontou: "Olha o véio aí, falando sozinho de novo". O desprezo me atravessou como lâmina. Naquele instante, o “desprezo de si mesmo” que o tempo semeia tornou-se carne viva: senti o peso de ser invisível, descartável, um estorvo ambulante. Mas, foi exatamente ali que algo se agitou. O tempo na visão pessimista de Schopenhauer — que entende a vida como um processo contínuo de desgaste, em que viver é apenas adiar a morte e permanecer num estado permanente de queda contida — acabou me ensinando a olhar a existência de forma mais profunda, para além das aparências imediatas.
Heidegger lembra que a temporalidade é o horizonte do ser: o futuro se revela no ser-para-a-morte, no reconhecimento da finitude que nos lança à autenticidade. Em vez de me render ao niilismo puro, passei a reconhecer nos chamados “poderes secretos” dos velhos algo real — não magia de reza forte, mas resiliência forjada no fogo da perda. As rezas que conheço não invocam milagres; invocam memória, paciência, a capacidade de suportar o que os jovens ainda evitam. Elas me mantêm de pé quando o corpo vacila.
O que me manteve vivo, afinal, foram as conversas a meu respeito — inclusive as venenosas, as que tentavam me denegrir e desfigurar. Ao menos, eu existia nas bocas dos fofoqueiros; ao menos, era lembrado. Ainda hoje, alguns se afastam quando me veem aproximar. Em vez de me ferir, esforço-me para ler nisso um sinal ambíguo, quase consolador: talvez ainda se protejam de mim. Nessa ilusão — ou meia-verdade — reencontro um resíduo de perigo. Continuo sendo, de algum modo torto, uma presença que inquieta.
Porque os velhos carregam o peso do tempo que os jovens insistem em negar. Sabemos que tudo passa, que o asqueroso chega para todos. E é justamente aí que reside nossa força silenciosa: não na ilusão da eternidade, mas na coragem de encarar o fim sem piscar.
O tempo mata, sim. Mas, enquanto nos devora, também nos ensina a viver o que resta com uma dignidade afiada, dialética — aceitando a decadência sem nos dissolver nela.
-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/
Questões discursivas – Sociologia (Ensino Médio)
Preconceito etário (idadismo)
O texto descreve situações de desprezo e invisibilidade vividas pelo personagem por causa da velhice.
➤ Explique o que é preconceito etário (ou idadismo) e cite um exemplo retirado do texto.
Velhice e exclusão social
O autor afirma que o que mais agrava a velhice não é o envelhecer em si, mas sua relação com a pobreza e a doença.
➤ Explique como fatores sociais e econômicos podem intensificar a exclusão dos idosos na sociedade.
Tempo, finitude e sociedade
A partir das ideias de Schopenhauer e Heidegger, o texto reflete sobre o tempo e a morte.
➤ Por que reconhecer a finitude da vida pode levar a uma forma mais consciente ou autêntica de viver, segundo o texto?
Identidade e reconhecimento social
O personagem afirma que, mesmo sendo alvo de fofocas, sentia algum alívio por ainda ser lembrado.
➤ Explique a importância do reconhecimento social para a construção da identidade das pessoas.
Experiência e resiliência na velhice
O texto afirma que os velhos possuem uma “força silenciosa” baseada na memória e na resistência.
➤ Na sua opinião, qual é a importância da experiência dos idosos para a sociedade? Justifique sua resposta.