Durante muito tempo, confundi silêncio com respeito e atenção com virtude. Talvez porque aprendi assim: a sala como templo improvisado, o professor como oficiante cansado, os alunos como fiéis relutantes. Hoje percebo o equívoco — escola não é altar, é arena; não é liturgia, é conflito vivo, imperfeito, humano.
Nesta semana, em uma aula de Projeto de Vida, vi uma aluna deitada no colo de um colega. Não vi apenas um corpo fora da norma; vi o colapso simbólico da aula que eu acreditava estar oferecendo. Esperei que o constrangimento surgisse por si, como se a regra ainda tivesse força moral suficiente para se impor sozinha. Não teve. E talvez nunca tenha tido.
Por muito tempo chamei isso de rebeldia. Usei palavras duras, rótulos fáceis, até textos sagrados fora de lugar — como se adolescentes entediados fossem equivalentes a hipócritas de poder denunciados nas escrituras. Hoje reconheço: esse tipo de leitura não ilumina, violenta. Adolescente que não escuta não é víbora; é alguém que não encontrou sentido no que lhe é dito.
Também errei ao tentar decifrar almas por gestos: a testa franzida, o corpo inclinado, o rosto fechado. Não eram sinais de perversidade, mas de cansaço, confusão, talvez desinteresse legítimo. A leitura moral do corpo foi, no fundo, projeção da minha frustração. Mais fácil julgar o aluno do que admitir a fragilidade da aula.
Chamei críticas de “mimimi” — palavra preguiçosa, injusta, autoritária. Hoje entendo o perigo desse gesto: quando desqualifico a queixa, recuso a escuta; quando recuso a escuta, preservo meu conforto. Mas e se a reclamação for verdadeira? E se Projeto de Vida, do modo como nos foi imposto, for mesmo vazio, mal pensado, desconectado da realidade dos alunos e da formação dos professores?
A contradição tornou-se insuportável: como falar de autonomia exigindo obediência acrítica? Como ensinar protagonismo silenciando vozes? Transformei uma disciplina que deveria nascer do diálogo em monólogo moral. E depois me surpreendi com a recusa.
Dizia que minha consciência doía pela ineficácia — mas não perguntava por quê. Hoje a dor mudou de lugar: não é mais a rebeldia dos alunos que me inquieta, mas a minha resistência em mudar. Talvez eu também tenha medo — não das “caras feias”, mas do confronto verdadeiro, daquele que questiona métodos, desmonta certezas e ameaça a autoridade construída sobre hábitos antigos.
A indisciplina que vi não é apenas individual. Ela é estrutural. É fruto de currículos impostos, de disciplinas esvaziadas, de salas superlotadas, de professores exaustos e alunos atravessados por fome, violência, trabalho precoce, abandono, angústias que não cabem em planos de aula. Culpar o jovem é conveniente; enfrentar o sistema é mais difícil.
Hoje sei: entre a instrução e a chamada insubordinação existe um abismo — e ele não se atravessa com sermões, mas com escuta. Talvez o verdadeiro projeto de vida comece quando o professor aceita descer do púlpito e sentar, enfim, no mesmo chão instável onde seus alunos já estão há muito tempo.
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Sou seu professor de Sociologia. O texto que acabamos de ler é uma autocrítica corajosa que nos permite discutir como as instituições sociais e as relações de poder funcionam na prática. Ele nos convida a sair do julgamento moral e entrar na análise sociológica. Para nossa aula de hoje, preparei 5 questões discursivas e simples. Vamos exercitar nosso "olhar sociológico"?
1. Escola: Templo ou Arena? O autor diz que antes via a escola como um "templo" e agora a vê como uma "arena" de conflito vivo. Questão: Na sociologia, o conflito é visto como algo natural das relações humanas. Por que tratar a escola como uma "arena de conflito" é mais realista do que esperar que ela seja um lugar de silêncio e obediência absoluta?
2. A Falha das Normas Sociais. O professor esperava que a regra de comportamento (como sentar-se direito) se impusesse sozinha, mas isso não aconteceu. Questão: Quando uma norma social (regra) perde sua "força moral" e deixa de ser seguida pelos indivíduos, o que isso nos diz sobre a crise de autoridade nas instituições atuais?
3. Autonomia vs. Obediência. O texto aponta uma contradição: a escola tenta ensinar "protagonismo" e "autonomia", mas muitas vezes exige uma "obediência acrítica". Questão: Como é possível desenvolver a autonomia de um jovem se o sistema escolar ainda se baseia em monólogos e no silenciamento das vozes dos alunos?
4. Indisciplina Individual ou Estrutural? O autor afirma que a indisciplina não é apenas culpa do aluno, mas fruto de "currículos impostos, salas superlotadas e professores exaustos". Questão: Explique a diferença entre culpar o indivíduo (visão moral) e analisar o problema como algo estrutural (visão sociológica), conforme sugerido no texto.
5. O Significado da Escuta. Ao final, o texto sugere que o "abismo" entre professor e aluno não se resolve com sermões, mas com a escuta e a descida do "púlpito". Questão: De que maneira a escuta ativa pode ser considerada uma ferramenta de democratização das relações de poder dentro da sala de aula?
Dica do Prof: Não busquem respostas "certas" ou "erradas" como se fosse matemática. Busquem argumentos! Usem o texto como base para entenderem que a sociedade é feita de pessoas em relação, e essas relações mudam com o tempo.