"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

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MINHAS PÉROLAS

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

O Declínio da Autoridade e o Palanque Institucional: Instrumentos de Controle (“Existem momentos na vida em que a única alternativa possível é perder o controle.” — Paulo Coelho)

 


O Declínio da Autoridade e o Palanque Institucional: Instrumentos de Controle (“Existem momentos na vida em que a única alternativa possível é perder o controle.” — Paulo Coelho)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Houve um tempo — não melhor, apenas distinto — em que a autoridade do professor era menos contestada porque se apoiava em estruturas relativamente estáveis: limites definidos, papéis reconhecíveis, expectativas compartilhadas. Não se tratava de uma virtude moral automática, mas de um arranjo institucional que conferia previsibilidade ao vínculo pedagógico. Esse arranjo se dissolveu. Em seu lugar, não emergiu um diálogo amadurecido, mas uma vigilância difusa, instável e frequentemente desconfiada, na qual todos observam todos, sem que alguém, de fato, sustente a responsabilidade pelo conjunto.

A escola pública tornou-se um espaço atravessado por múltiplas vozes legítimas — famílias, alunos, gestores, políticas públicas —, mas também por um ruído constante. A participação democrática, conquista inegociável, muitas vezes chega sem mediação, sem escuta recíproca e sem clareza de limites. Pais, pressionados por uma vida social extenuante e por um Estado que progressivamente terceiriza suas funções, depositam na escola expectativas que ela não pode cumprir sozinha. Professores, por sua vez, acuados por denúncias reais ou potenciais, passam a ensinar com um olho no conteúdo e outro na autoproteção.

O cotidiano escolar já não é apenas pedagógico: tornou-se também jurídico, estatístico e performático. Ensina-se sob o peso de relatórios, planilhas, registros visuais e evidências preventivas. A aula deixa de ser encontro e converte-se em documento. Não porque o professor se oponha à prestação de contas, mas porque a lógica gerencial — importada do universo empresarial — transformou a confiança em auditoria permanente. A autonomia docente não foi ampliada; foi administrada até o esgotamento.

Nesse cenário de fragilidade institucional, discursos morais e religiosos surgem como substitutos dos limites que a própria escola já não consegue sustentar. Não se trata da fé genuína, que pertence ao foro íntimo e merece respeito, mas de sua instrumentalização: quando símbolos, dogmas ou slogans passam a operar como escudos contra qualquer questionamento, empobrecendo o debate e interditando o conflito educativo. O problema não é a religião em si, mas seu uso como atalho disciplinar ou arma retórica.

Oficialmente laica, a escola oscila entre a omissão e o palanque. Em nome de uma neutralidade impossível, tolera práticas ambíguas; em nome de causas nobres, abre espaço para doutrinações disfarçadas de conscientização. Alunos expressam crenças, militantes disputam narrativas, gestores tentam equilibrar pressões — e o projeto pedagógico se fragmenta. Falta critério, não voz. Falta forma, não participação.

A autoridade que se perdeu não é a do mando silencioso nem a da hierarquia cega, mas a autoridade legítima: aquela que nasce da competência reconhecida, do limite justo e da mediação institucional clara. Sem ela, a escola não se torna mais livre — torna-se vulnerável. E onde tudo é permitido, nada é verdadeiramente educador.

Talvez o desafio não seja restaurar um passado idealizado nem celebrar a dissolução completa das referências, mas reconstruir uma autoridade que não tema o diálogo nem abdique da responsabilidade. Uma autoridade capaz de distinguir crítica de ataque, participação de ingerência, fé de coerção, política de doutrinação. Sem isso, a escola continuará oscilando entre o tribunal e o palco — e o ensino, que deveria ser seu centro, seguirá à margem, tentando sobreviver ao ruído.


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Sou seu professor de Sociologia. O texto que acabamos de analisar é uma reflexão profunda sobre a crise das instituições na modernidade. Ele nos mostra que a escola não é uma bolha, mas um reflexo das tensões da sociedade. Para compreendermos como o poder, a autoridade e a burocracia moldam o ambiente escolar, preparei estas 5 questões discursivas:


1. A Dissolução das Estruturas Institucionais. O texto menciona que a autoridade do professor se apoiava em "estruturas estáveis" que se dissolveram, dando lugar a uma "vigilância difusa". Questão: Do ponto de vista sociológico, como a falta de papéis sociais bem definidos e de expectativas compartilhadas contribui para a sensação de insegurança e desconfiança dentro da escola?

2. A Terceirização de Funções do Estado. O autor afirma que o Estado "terceiriza suas funções" e que os pais depositam na escola expectativas que ela não pode cumprir sozinha. Questão: Explique como a sobrecarga de funções sobre a escola (que passa a ter que resolver problemas familiares, sociais e psicológicos) afeta a sua função principal, que é o ensino e a socialização pedagógica.

3. O Gerencialismo e a "Aula como Documento". O cotidiano escolar é descrito como "jurídico, estatístico e performático", onde a lógica empresarial transformou a confiança em "auditoria permanente". Questão: De que maneira o excesso de burocracia (relatórios, planilhas e registros) pode ser visto como um mecanismo de controle que limita a autonomia e a criatividade do professor?

4. Instrumentalização da Religião e Laicidade. O texto diferencia a "fé genuína" do uso da religião como "atalho disciplinar" ou "arma retórica" para impor limites. Questão: Por que o uso de dogmas religiosos como ferramenta de controle social dentro de uma escola oficialmente laica pode ser considerado um problema para a construção do pensamento crítico e do conflito educativo saudável?

5. Autoridade Legítima vs. Autoritarismo. O autor encerra defendendo uma "autoridade legítima" que não teme o diálogo, em oposição ao "mando silencioso" ou à "hierarquia cega". Questão: Com base nos conceitos de Max Weber sobre os tipos de dominação, como você diferencia a autoridade baseada na "competência reconhecida e no limite justo" (defendida no texto) de uma autoridade baseada apenas na força ou na tradição inquestionável?

Dica do Prof: Pensem na escola como um "campo" de forças onde diferentes grupos (militantes, religiosos, gestores e famílias) disputam poder. A questão central aqui é: como manter a educação como prioridade no meio de tanto ruído?

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domingo, 18 de dezembro de 2022

O Dilema do Cobaia: Entre o Dever e a Desconfiança ("CPI? Como Protelar Investigação?" — Francismar Prestes Leal)

 


O Dilema do Cobaia: Entre o Dever e a Desconfiança ("CPI? Como Protelar Investigação?" — Francismar Prestes Leal)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Houve um tempo em que a palavra "vacina" dispensava adjetivos morais; era um gesto técnico, quase burocrático, que não exigia confissão de fé nem declarações de obediência. A pandemia, porém, dissolveu essa neutralidade. Subitamente, ciência, política e sobrevivência passaram a disputar o mesmo corpo — e a lucidez, sob pressão, deixou de ser um luxo garantido.

Cheguei a esse dilema movido por inquietação, não por ideologia. Leituras de John Le Carré e o impacto de O Jardineiro Fiel aguçaram uma suspeita antiga: quando interesses colossais entram em cena, a verdade costuma chegar escoltada. Mais do que revelar culpados, a CPI da Pandemia descortinou o emaranhado desconfortável entre urgência sanitária, lucro e poder.

Nesse cenário, a exigência institucional impôs-se. Quando o colégio onde leciono iniciou o levantamento do status vacinal, a escolha deixou de ser abstrata: tornou-se condição de permanência. Agi por pragmatismo, como quem teme o desemprego. Submeti-me não por entusiasmo, mas porque o dever civil apresentou-se como cláusula de existência material.

Recordei-me de Chateaubriand: “A ameaça do mais forte faz-me sempre passar para o lado do mais fraco.” Naquela equação, o elo frágil era o indivíduo isolado diante de normas que confundem convicção com conformidade. Fui ao posto de saúde e filmei o ato — um gesto talvez excessivo, mas sintomático de uma era em que o próprio corpo carece de provas.

Não me senti uma cobaia literal; reconheço que a ciência, embora imperfeita, não operava no escuro. Contudo, algo se rompe quando a adesão nasce do constrangimento. A obediência pode ser racional, mas a tranquilidade não se impõe por decreto. Dias depois, um desconforto físico real trouxe à tona um risco sutil: a erosão da confiança, matéria invisível sem a qual nenhuma política pública se sustenta.

A imunidade coletiva é um conceito legítimo e a proteção dos vulneráveis, um imperativo ético. Entretanto, quando a saúde pública silencia a dúvida e converte hesitação em desvio moral, o cidadão deixa de ser sujeito responsável para tornar-se destinatário de protocolos. Onde não há escuta, a adesão é apenas silêncio.

Escrevo para registrar a experiência de quem cumpre, mas não consente plenamente; de quem aceita, mas não celebra. Entre o dever e a desconfiança, resta esta crônica: a memória de um tempo em que muitos se sentiram salvos e outros, como eu, sentiram-se apenas corpos administrados.


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Sou seu professor de Sociologia. O texto que acabamos de ler é um excelente ponto de partida para discutirmos como as instituições sociais (escolas, governos, ciência) interagem com o indivíduo e como o poder é exercido sobre os nossos corpos. Preparei 5 questões discursivas simples para explorarmos esses conceitos sociológicos:


1. A Ciência como Instituição Social. O autor afirma que a vacina deixou de ser um "gesto técnico" para se tornar um campo de disputa política e moral. Questão: Na sociologia, as instituições não são neutras. Como o texto exemplifica que a ciência pode ser influenciada por fatores externos, como a política e a economia (mencionando lucros e poder)?

2. Coerção Social e Institucional. O narrador decide se vacinar para manter seu emprego como professor, descrevendo isso como uma "cláusula de existência material". Questão: Explique como a escola, funcionando como uma instituição social, exerceu coerção (pressão social/normativa) sobre o indivíduo. Por que ele sente que sua escolha não foi inteiramente livre?

3. O Conceito de Biopolítica (Corpos Administrados). Ao final, o autor menciona que se sentiu apenas "mais um corpo administrado" pelo Estado e por protocolos de saúde pública. Questão: Quando o Estado cria protocolos para gerenciar a saúde de toda a população, o cidadão pode se sentir desumanizado. Como o texto descreve a perda da autonomia do indivíduo perante as regras coletivas?

4. A Erosão da Confiança e o Tecido Social. O texto destaca que nenhuma política pública se sustenta sem a "confiança", que ele chama de "matéria invisível". Questão: Do ponto de vista sociológico, qual é o risco para a sociedade quando as pessoas cumprem as regras por medo ou obrigação, mas deixam de confiar nas instituições que criaram essas regras?

5. Conformidade vs. Convicção. O autor cita Chateaubriand para falar sobre a fragilidade do indivíduo isolado diante das normas que "confundem convicção com conformidade". Questão: Qual é a diferença entre uma pessoa que age por acreditar no benefício coletivo (convicção) e uma que age apenas para evitar punições ou exclusão social (conformidade)? Use exemplos do texto.

Dica do Prof: Não foquem apenas na questão da vacina em si, mas em como o poder e a autoridade das instituições moldam o que fazemos e como nos sentimos.

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sábado, 17 de dezembro de 2022

BOBO ALEGRE: O Peso da Consciência e a Pobreza de Espírito ("A verdadeira felicidade está na ignorância. Feliz aquele que pouco sabe." — Marçal Pereira)

 


BOBO ALEGRE: O Peso da Consciência e a Pobreza de Espírito ("A verdadeira felicidade está na ignorância. Feliz aquele que pouco sabe." — Marçal Pereira)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Há uma sedução persistente na ideia de que a felicidade habita o território do não saber. Fernando Pessoa formulou a pergunta com a crueldade de quem não encontra resposta: “Porque é que para ser feliz é preciso não saber?” O Eclesiastes, atribuído a Salomão, ecoa a mesma angústia ao constatar que a sabedoria amplia a dor e que tanto o sábio quanto o tolo caminham para o mesmo fim. Não se trata, porém, de exaltar a ignorância como virtude, mas de reconhecer um paradoxo incômodo: a lucidez cobra um preço alto, e o mundo não recompensa quem vê demais.

Há quem atravesse a vida tropeçando sem notar os obstáculos, protegido por uma inconsciência funcional que anestesia o medo, a culpa e a perplexidade. Não invejo essa felicidade, mas compreendo seu apelo. Como ironiza André Dahmer, a ignorância parece, de fato, gerar uma espécie de paz — não porque seja verdadeira, mas porque não interroga. Pensar dói. Pensar expõe. Pensar dissolve ilusões que sustentavam a alegria fácil.

O meu sofrimento não nasce da dor em si, mas da compreensão dela. Dor moral, dor empática, dor intelectual: a consciência amplia todas. Saber que o mundo não é justo, que a morte é inegociável, que o bem não triunfa automaticamente — tudo isso corrói o conforto da inocência. Ainda assim, não escolho a cegueira. Não desejo a felicidade que depende da omissão do real. Prefiro a lucidez ferida à serenidade artificial.

É nesse ponto que a palavra de Cristo desloca o problema, sem resolvê-lo de modo simplista: “Bem-aventurados os pobres de espírito.” Essa pobreza não é ignorância, nem inferioridade intelectual, nem resignação passiva. É uma forma específica de sabedoria: o reconhecimento consciente dos próprios limites. Trata-se de saber — e não de ignorar — que a razão não basta, que o ego não sustenta o peso do mundo e que a existência não se deixa fechar em sistemas coerentes.

A pobreza de espírito não elimina a dor do conhecimento; ela a transforma. Não promete felicidade fácil, mas oferece um outro tipo de repouso: o abandono da arrogância de compreender tudo. É um esvaziamento que não nasce da alienação, mas da humildade lúcida. Não se trata de negar o pensamento, mas de impedir que ele se converta em tirania sobre a própria alma.

Talvez a paz possível não esteja em saber menos, mas em sustentar o saber sem idolatrá-lo. Não em desistir da consciência, mas em reconhecer que nem tudo o que compreendemos pode ser carregado sozinhos. A pobreza de espírito não cura a lucidez — apenas a torna habitável.


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Sou seu professor de Sociologia. Hoje vamos analisar este texto profundo que discute a relação entre conhecimento, sofrimento e humildade. Na Sociologia, estudamos como a consciência da realidade (a "lucidez") afeta o nosso comportamento e a nossa saúde mental dentro da sociedade. Preparei 5 questões discursivas simples para ajudá-los a refletir sobre esses conceitos:


1. O Preço da Lucidez na Modernidade. O texto afirma que "a lucidez cobra um preço alto" e que pensar pode dissolver as "ilusões que sustentavam a alegria fácil". Questão: Do ponto de vista sociológico, como o excesso de informações e o conhecimento crítico sobre os problemas do mundo (desigualdades, guerras, crises) podem gerar a angústia mencionada pelo autor?

2. A "Inconsciência Funcional" e a Alienação. O autor menciona pessoas que vivem protegidas por uma "inconsciência funcional" que anestesia o medo e a culpa. Questão: Relacione o conceito de alienação com essa "felicidade que não interroga". Por que viver sem questionar a realidade pode ser considerado uma forma de proteção individual, mas um problema para a coletividade?

3. Consciência Moral e Empatia. O texto diz que a consciência amplia a "dor moral" e a "dor empática". Questão: Como a capacidade de se colocar no lugar do outro (empatia) e o conhecimento das injustiças sociais transformam a dor individual em uma preocupação coletiva?

4. O Limite da Razão e a Humildade Lúcida. A "pobreza de espírito" é definida no texto como o "reconhecimento consciente dos próprios limites". Questão: Vivemos em uma sociedade que valoriza o "domínio total" e a "certeza". Como a proposta do autor de "abandonar a arrogância de compreender tudo" desafia a ideia moderna de que a ciência e a razão podem resolver todos os problemas humanos?

5. A Espiritualidade como Habitáculo da Lucidez. O autor conclui que a pobreza de espírito não cura a lucidez, mas "a torna habitável". Questão: Em vez de fugir da realidade (cegueira), o texto propõe sustentar o saber com humildade. Como essa atitude pode ajudar o cidadão a ser mais responsável e consciente em sua participação na sociedade, sem cair no desespero?

Dica do Prof: Para responder, pensem em como o que sabemos sobre o mundo muda a maneira como nos sentimos e como agimos com as outras pessoas.

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sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

A Ilusão da Escolha e a Soberania do Destino: ESCRAVOS BENDITOS versus ESCRAVOS MALDITOS ("Tudo é oposição. Exceto, Deus." — Ediel)

 



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  • A Ilusão da Escolha e a Soberania do Destino: ESCRAVOS BENDITOS versus ESCRAVOS MALDITOS ("Tudo é oposição. Exceto, Deus." — Ediel)

    Por Claudeci Ferreira de Andrade

    A tese do livre-arbítrio colapsa diante da incapacidade humana de prever o amanhã. Se o homem fosse, de fato, o arquiteto de sua história, não haveria tamanha discrepância entre o que se planta e o que se colhe. O desconhecimento do futuro que supostamente construímos revela que o planejamento individual é pouco mais que uma desorganização latente. Essa autonomia é permanentemente sitiada por forças que a anulam: o instinto, o subconsciente, as influências externas e o inexorável finalismo das coisas. Diante desses determinismos, torna-se inútil a tentativa de edificar um destino sobre o qual não se possui domínio nem clarividência.

    Em contraposição à ansiedade dos que buscam a autossuficiência, os predestinados repousam no presente, confiando o amanhã ao Criador. A base bíblica em Filipenses 2:13 — "tanto o nosso querer como o realizar vem de Deus" — sustenta que Ele detém o comando absoluto da existência. Sob essa ótica, a liberdade humana é uma armadilha: ao julgarem-se "deuses de si mesmos", os indivíduos tornam-se ativistas na oposição ao governo divino, operando uma resistência espiritual que os conduz ao distanciamento definitivo da graça.

    A plenitude, portanto, não reside na liberdade, mas na submissão voluntária ao "Senhor do Universo". A servidão sob a égide divina é superior à emancipação humana, aqui interpretada como o pecado original de Lúcifer. Ao liderar o primeiro partido de oposição, o anjo caído introduziu a doutrina da autossuficiência — um eco que ainda ressoa naqueles que acreditam que podem tudo. Essa independência é uma herança de desobediência que subverte a ordem hierárquica do cosmos.

    A minha crítica estende aos que ostentam essa autonomia fictícia, ignorando o propósito definido de cada criatura. Conforme Provérbios 16:4 — "O Senhor criou tudo o que existe com um propósito definido; até mesmo os ímpios para o dia do castigo" —, a existência não é aleatória. A vida não é um campo de possibilidades abertas pela vontade humana, mas um percurso traçado onde até a resistência do ímpio confirma a justiça prevista na engrenagem soberana de Deus.

    O livre-arbítrio revela-se, enfim, um isolamento metafísico que impede o homem de reconhecer seu lugar no universo. Aceitar a predestinação não é uma perda, mas a libertação do fardo impossível de criar o próprio futuro. Ao abandonar as "carteirinhas de autossuficiente" e aceitar o comando superior, o ser humano deixa de ser um "esquerdista do céu" para integrar a harmonia divina. Nesse estágio, a segurança da escravidão a Deus supera qualquer incerteza da liberdade terrena. Receba!


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    Como seu professor de Sociologia, hoje vamos analisar um texto que utiliza uma base teológica para discutir temas fundamentais da nossa disciplina: determinismo, liberdade e a estrutura das instituições. Na sociologia, estudamos como forças externas (leis, cultura, religião) moldam o indivíduo. O texto propõe que o "livre-arbítrio" é uma ilusão e que a verdadeira ordem vem da aceitação de um comando superior. Vamos refletir sobre isso com as questões abaixo:


    1. Livre-Arbítrio vs. Determinismo. O texto afirma que a autonomia humana é "sitiada por forças que a anulam", como o instinto, o subconsciente e as influências externas. Questão: Relacione essa ideia ao conceito de Determinismo Social. De que maneira as estruturas da sociedade (família, escola, classe social) podem limitar a ideia de que somos "arquitetos" totais do nosso próprio destino?

    2. A Crítica à Autossuficiência. O autor descreve os que acreditam no livre-arbítrio como portadores de uma "autonomia fictícia" e "carteirinhas de autossuficiente". Questão: Na visão sociológica de Émile Durkheim, o indivíduo está sempre ligado a uma "Consciência Coletiva". Como o texto justifica que a tentativa de ser independente de uma ordem superior (neste caso, divina) gera desorganização em vez de progresso?

    3. O Papel das Instituições e a Ordem. O texto menciona que a submissão voluntária ao "Senhor do Universo" traz segurança, enquanto a liberdade gera incerteza. Questão: Se pensarmos na religião como uma instituição social, qual é a função da "predestinação" para manter a coesão e o controle social, evitando o que o texto chama de "ativismo na oposição"?

    4. O Significado Político da Obediência. O autor utiliza expressões como "esquerdista do céu" e "partido de oposição" para descrever a rebeldia contra a vontade divina. Questão: Como o texto utiliza metáforas políticas para reforçar a ideia de que a hierarquia e a obediência são necessárias para a manutenção da "harmonia" e da justiça no cosmos?

    5. A Escolha como "Fardo". O parágrafo final sugere que aceitar a predestinação é uma "libertação do fardo impossível de criar o próprio futuro". Questão: Considerando a pressão da sociedade moderna para que sejamos "empreendedores de si mesmos" e totalmente responsáveis pelo nosso sucesso ou fracasso, por que a ideia de um "percurso já traçado" pode oferecer alívio emocional ao indivíduo?

    Dica do Prof: Pensem em como a ideia de que "tudo tem um propósito" (teleologia) ajuda a sociedade a aceitar momentos de crise e desigualdade.

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    quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

    MINHA BELEZA INTERIOR, MINHA VIDA EXTERIOR: Entre o Corpo que Envelhece e o Saber que Permanece! ("Para a aparência existe transformação, mas para o caráter não." — Tumblr)

     


    MINHA BELEZA INTERIOR, MINHA VIDA EXTERIOR: Entre o Corpo que Envelhece e o Saber que Permanece! ("Para a aparência existe transformação, mas para o caráter não." — Tumblr)

    Por Claudeci Ferreira de Andrade

    Quando estudantes passam a solicitar aulas mediadas pela atratividade física da docente, algo mais profundo do que uma preferência juvenil se revela: a suspeita inquietante de que, no imaginário contemporâneo, a inteligência precisa antes ser bela para ser aceita. A pergunta não é trivial — desde quando o saber passou a disputar espaço com a estética, como se o conhecimento precisasse desfilar em passerelles para obter legitimidade? Se o magistério obedecesse aos critérios da moda, a educação já teria colapsado, pois a erudição raramente se curva aos ritmos efêmeros do olhar. Como advertia Ovídio, a beleza é frágil; talvez por isso mesmo, numa cultura que idolatra a juventude visual, o rigor intelectual tenha se tornado um fardo pouco sedutor.

    Esse culto à aparência não nasce no aluno: é herança de uma pedagogia contaminada pela lógica do espetáculo. Redes sociais, plataformas digitais e a indústria do entretenimento educacional converteram o ensino em performance, o professor em personagem e a aula em produto “engajável”. A didática do algoritmo ensina, desde cedo, que valor é visibilidade, e autoridade se mede em likes. Nesse cenário, o envelhecimento docente torna-se um incômodo estético — não por falha moral dos jovens, mas por uma formação cultural que associa juventude à relevância e maturidade ao descarte.

    A tensão se agrava quando um sistema burocrático, rígido e economicamente calculista mantém profissionais em sala muito além do que seria humanamente digno. Reformas previdenciárias — especialmente cruéis com professores e, de modo ainda mais severo, com mulheres — dificultam a aposentadoria e empurram corpos cansados para o front pedagógico. Não se trata de acaso administrativo, mas de um projeto político que economiza direitos às custas do esgotamento docente. O resultado é um convívio forçado entre gerações que já não compartilham a mesma linguagem estética, emocional ou simbólica, produzindo um ambiente de incompreensão mútua que ninguém escolheu, mas todos sofrem.

    Para a mulher docente, o peso é duplo. Enquanto o homem envelhecido ainda pode ser lido como “experiente” ou “distinto”, a mulher madura é frequentemente julgada como “ultrapassada”. Susan Sontag chamou isso de duplo padrão do envelhecimento: aos homens, a dignidade do tempo; às mulheres, a penalidade da aparência. O corpo da professora, então, deixa de ser apenas veículo do saber e torna-se campo de julgamento social — um corpo político, vigiado, avaliado, silenciado.

    É nesse ponto que o espelho deixa de ser objeto banal e se converte em metáfora cruel. O reflexo devolve não apenas rugas e cansaço, mas a internalização de um olhar social que associa envelhecimento à feiura, como se o tempo fosse defeito. Resistir a essa evidência biológica é uma guerra perdida contra o fluxo da natureza. Aceitar o corpo que muda não é resignação; é lucidez. O que adoece não é a idade, mas a tentativa desesperada de competir com um ideal juvenil impossível e injusto.

    A melancolia, inevitável diante do desgaste físico e das frustrações institucionais, pode paralisar — ou transmutar. Quando a resistência cede lugar à consciência, inicia-se uma metamorfose silenciosa. Não um fim, mas um renascimento. Um aniversário íntimo, vivido sem velas, mas com memória. Nesse retorno a si, o professor reencontra aquilo que o sistema tentou apagar: sua história, suas marcas, suas lições. Cada ruga deixa de ser falha estética e passa a ser arquivo vivo — registro de aulas dadas, conflitos atravessados, resistências sustentadas.

    Reconciliar-se com o tempo não significa aceitar a desvalorização social da experiência. São planos distintos: biologicamente, envelhecer é destino; politicamente, desprezar o envelhecimento é escolha. O problema não está em professores maduros ocuparem a sala de aula, mas em uma sociedade que se recusa a reconhecer neles autoridade epistêmica. Quando alunos descredibilizam docentes mais velhos, não estão apenas expressando gosto pessoal — estão reproduzindo um epistemicídio etário, a ideia de que apenas o novo é válido para pensar o presente.

    A verdadeira libertação ocorre quando o professor abandona a armadilha da aparência e recusa disputar um jogo que nunca foi feito para ele. Nesse gesto, a experiência deixa de ser peso e se torna matéria-prima pedagógica. Não se trata de desprezar o cuidado de si, mas de compreender que o oposto da beleza não é a erudição — é a exaustão imposta por um sistema que explora, precariza e depois julga.

    Após a crise, resta o essencial: viver o presente com autenticidade. Quando o saber deixa de pedir permissão ao espelho, o ensino recupera sua dignidade. A recompensa não está no aplauso juvenil nem na aprovação estética, mas no equilíbrio íntimo de quem, enfim, reconciliou o corpo que envelhece com o pensamento que amadurece. Transformar a decadência física em maturidade intelectual não é consolo privado — é ato de resistência.

    Mas essa reconciliação não pode permanecer solitária. Se a experiência docente é digna de ser aceita individualmente, ela precisa ser valorizada coletivamente. O espelho do magistério não deve servir apenas para o autoconhecimento, mas para a denúncia: uma educação que rejeita seus mestres maduros rejeita a si mesma. Envelhecer, no ensino, não deveria ser vergonha — deveria ser patrimônio.


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    Como seu professor de Sociologia, hoje vamos mergulhar em um texto profundo que conecta a filosofia, a estética e as estruturas de poder. O autor nos convida a pensar sobre o etarismo (preconceito de idade) e a sociedade do espetáculo dentro da escola. Para compreendermos como o sistema educacional reflete os valores da nossa sociedade, respondam às seguintes questões:


    1. A Sociedade do Espetáculo em Sala de Aula. O texto menciona que a educação foi contaminada pela "lógica do espetáculo", onde o valor é medido em visibilidade e likes. Questão: Utilizando o conceito de Sociedade do Espetáculo (de Guy Debord), explique como a transformação do professor em "personagem" e da aula em "produto engajável" altera a relação de autoridade entre professor e aluno.

    2. O Etarismo e o "Epistemicídio". O autor utiliza o termo "epistemicídio etário" para descrever o descredito de professores mais velhos. Questão: Por que o ato de considerar um professor "ultrapassado" apenas pela sua idade é uma forma de violência simbólica? Como isso prejudica a transmissão do conhecimento histórico e da experiência entre as gerações?

    3. O Duplo Padrão do Envelhecimento. O texto cita Susan Sontag para falar que homens e mulheres envelhecem de formas "políticas" diferentes na percepção social. Questão: Como as questões de gênero tornam o envelhecimento mais cruel para as professoras mulheres em comparação aos seus colegas homens? Relacione sua resposta à pressão estética exercida sobre o corpo feminino na sociedade.

    4. A Burocracia e o Corpo Docente. O texto aponta que reformas previdenciárias e sistemas rígidos mantêm profissionais exaustos em sala de aula por motivos econômicos, e não pedagógicos. Questão: De que forma a precarização do trabalho e o adiamento da aposentadoria transformam o corpo do professor em um "campo de batalha" político? O problema está no professor que envelhece ou nas leis que ignoram o desgaste humano da profissão?

    5. A Experiência como Patrimônio. Ao final, o autor defende que envelhecer no ensino deveria ser visto como "patrimônio" e não como "vergonha". Questão: Para que a escola deixe de ser um lugar de "julgamento estético" e volte a ser um espaço de "maturidade intelectual", quais mudanças de valores são necessárias na forma como os alunos e a gestão enxergam a trajetória de vida dos mestres?

    Dica do Prof: Ao responder, pensem em como as redes sociais (Instagram, TikTok) moldaram a nossa forma de dar valor às pessoas. Será que estamos tratando o conhecimento como se fosse um filtro de beleza?

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    terça-feira, 13 de dezembro de 2022

    A MÉDIA: O Robin Hood das Sombras ("A pior coisa que você pode ser é média." — Kai Greene). ("Viver na média é consolo para os fracos" — Mikelle Lima)

     


    A MÉDIA: O Robin Hood das Sombras ("A pior coisa que você pode ser é média." — Kai Greene). ("Viver na média é consolo para os fracos" — Mikelle Lima)

    Por Claudeci Ferreira de Andrade

    Que matemática é essa que se apresenta como balança, mas opera como venda nos olhos? A média, celebrada como critério neutro, tornou-se um dos grandes disfarces da pedagogia contemporânea. Ao nivelar os desiguais, dissolve o mérito e apaga o brilho do aluno dedicado no oceano cinzento do desinteresse. Não se trata de um erro ingênuo, mas de uma prática seletiva: a média surge quase sempre para inflar índices e sustentar aparências, revelando que, para o sistema, o número exibido na planilha vale mais do que o conhecimento efetivamente construído.

    Nesse jogo de sombras, a média assume o papel de um Robin Hood às avessas: retira valor do esforço para compensar a negligência. Não corrige desigualdades de origem, apenas aproxima extremos de forma artificial. A justiça, esvaziada de equidade, transforma-se em compensação estatística. É a lógica maquiavélica infiltrada no giz: os fins — a meta cumprida, o bônus assegurado — legitimam os meios — a aprovação vazia. Enquanto os gráficos ascendem, as verbas circulam e as reuniões encenam soluções para problemas que a burocracia do discurso prefere não nomear. Assim, a "embromatologia" se consolida como método.

    A contradição atinge seu ponto máximo no destino do estudante. Ao empurrar o jovem comprometido para o mesmo patamar daquele que opta pela indisciplina ou pelo comodismo, a escola desresponsabiliza o erro e desonra a virtude. E emerge a pergunta incômoda: de quem é a culpa quando alguém ajuda o suicida a se matar? O suicídio, aqui, é o do mérito, conduzido silenciosamente ao abismo da irrelevância por uma instituição que deveria protegê-lo e cultivá-lo.

    Superar essa ficção exige abandonar a ditadura da média aritmética em favor de avaliações mais complexas, capazes de captar processos, trajetórias e progressos reais, e não apenas resíduos numéricos. Se a escola não distinguir o esforço da inércia com responsabilidade, deixará de ser espaço de formação para tornar-se um cartório de registros fictícios. Afinal, uma sociedade que nivela por baixo não constrói igualdade; apenas democratiza o fracasso intelectual.


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    Como seu professor de Sociologia, hoje vamos analisar como as instituições utilizam números e estatísticas para criar realidades sociais. O texto que lemos faz uma crítica severa à forma como a "média escolar" pode ser usada para esconder problemas reais de aprendizado e desigualdade. Para refletirmos sobre o papel da escola e da justiça social, respondam às questões abaixo:


    1. A Média como "Venda nos Olhos". O autor afirma que a média aritmética, embora pareça neutra, funciona como um "disfarce" para o sistema. Questão: Na sociologia, como a busca por metas e números (índices de aprovação) pode acabar escondendo as dificuldades reais de aprendizado e as desigualdades entre os alunos?

    2. O "Robin Hood às Avessas" e a Equidade. O texto menciona que a média retira o valor do esforço para compensar a negligência, sem corrigir as desigualdades de origem. Questão: Explique a diferença entre Igualdade (dar o mesmo para todos, como a média faz) e Equidade (reconhecer as diferenças e necessidades de cada um). Por que o autor diz que a média esvazia o conceito de justiça?

    3. A Lógica Maquiavélica no Ensino. O texto cita que "os fins legitimam os meios", referindo-se a metas batidas e bônus assegurados através de uma "aprovação vazia". Questão: De que forma a pressão do sistema por "resultados bonitos nos gráficos" pode corromper a função ética da escola de formar cidadãos preparados e conscientes?

    4. A Desresponsabilização do Erro. O autor argumenta que, ao nivelar todos por baixo, a escola "desresponsabiliza o erro e desonra a virtude". Questão: Quais são as consequências sociais de uma escola que não distingue o esforço da inércia? Como isso afeta a motivação dos alunos que buscam a mobilidade social através do estudo?

    5. O Suicídio do Mérito e a Função Social. O texto termina com uma metáfora forte sobre ajudar o "suicídio" do mérito, transformando a escola em um "cartório de registros fictícios". Questão: Segundo o autor, o que a escola precisa mudar em sua forma de avaliar para que ela volte a ser um espaço de formação real e não apenas um lugar que emite diplomas sem aprendizado?

    Dica do Prof: Lembrem-se do conceito de Burocracia em Max Weber — às vezes as regras e os papéis se tornam mais importantes do que o objetivo final da instituição (que, no caso, é o seu conhecimento!).

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