"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

Pesquisar neste blog ou na Web

MINHAS PÉROLAS

sábado, 17 de dezembro de 2022

BOBO ALEGRE: O Peso da Consciência e a Pobreza de Espírito ("A verdadeira felicidade está na ignorância. Feliz aquele que pouco sabe." — Marçal Pereira)

 


BOBO ALEGRE: O Peso da Consciência e a Pobreza de Espírito ("A verdadeira felicidade está na ignorância. Feliz aquele que pouco sabe." — Marçal Pereira)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Há uma sedução persistente na ideia de que a felicidade habita o território do não saber. Fernando Pessoa formulou a pergunta com a crueldade de quem não encontra resposta: “Porque é que para ser feliz é preciso não saber?” O Eclesiastes, atribuído a Salomão, ecoa a mesma angústia ao constatar que a sabedoria amplia a dor e que tanto o sábio quanto o tolo caminham para o mesmo fim. Não se trata, porém, de exaltar a ignorância como virtude, mas de reconhecer um paradoxo incômodo: a lucidez cobra um preço alto, e o mundo não recompensa quem vê demais.

Há quem atravesse a vida tropeçando sem notar os obstáculos, protegido por uma inconsciência funcional que anestesia o medo, a culpa e a perplexidade. Não invejo essa felicidade, mas compreendo seu apelo. Como ironiza André Dahmer, a ignorância parece, de fato, gerar uma espécie de paz — não porque seja verdadeira, mas porque não interroga. Pensar dói. Pensar expõe. Pensar dissolve ilusões que sustentavam a alegria fácil.

O meu sofrimento não nasce da dor em si, mas da compreensão dela. Dor moral, dor empática, dor intelectual: a consciência amplia todas. Saber que o mundo não é justo, que a morte é inegociável, que o bem não triunfa automaticamente — tudo isso corrói o conforto da inocência. Ainda assim, não escolho a cegueira. Não desejo a felicidade que depende da omissão do real. Prefiro a lucidez ferida à serenidade artificial.

É nesse ponto que a palavra de Cristo desloca o problema, sem resolvê-lo de modo simplista: “Bem-aventurados os pobres de espírito.” Essa pobreza não é ignorância, nem inferioridade intelectual, nem resignação passiva. É uma forma específica de sabedoria: o reconhecimento consciente dos próprios limites. Trata-se de saber — e não de ignorar — que a razão não basta, que o ego não sustenta o peso do mundo e que a existência não se deixa fechar em sistemas coerentes.

A pobreza de espírito não elimina a dor do conhecimento; ela a transforma. Não promete felicidade fácil, mas oferece um outro tipo de repouso: o abandono da arrogância de compreender tudo. É um esvaziamento que não nasce da alienação, mas da humildade lúcida. Não se trata de negar o pensamento, mas de impedir que ele se converta em tirania sobre a própria alma.

Talvez a paz possível não esteja em saber menos, mas em sustentar o saber sem idolatrá-lo. Não em desistir da consciência, mas em reconhecer que nem tudo o que compreendemos pode ser carregado sozinhos. A pobreza de espírito não cura a lucidez — apenas a torna habitável.


-//-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-


Sou seu professor de Sociologia. Hoje vamos analisar este texto profundo que discute a relação entre conhecimento, sofrimento e humildade. Na Sociologia, estudamos como a consciência da realidade (a "lucidez") afeta o nosso comportamento e a nossa saúde mental dentro da sociedade. Preparei 5 questões discursivas simples para ajudá-los a refletir sobre esses conceitos:


1. O Preço da Lucidez na Modernidade. O texto afirma que "a lucidez cobra um preço alto" e que pensar pode dissolver as "ilusões que sustentavam a alegria fácil". Questão: Do ponto de vista sociológico, como o excesso de informações e o conhecimento crítico sobre os problemas do mundo (desigualdades, guerras, crises) podem gerar a angústia mencionada pelo autor?

2. A "Inconsciência Funcional" e a Alienação. O autor menciona pessoas que vivem protegidas por uma "inconsciência funcional" que anestesia o medo e a culpa. Questão: Relacione o conceito de alienação com essa "felicidade que não interroga". Por que viver sem questionar a realidade pode ser considerado uma forma de proteção individual, mas um problema para a coletividade?

3. Consciência Moral e Empatia. O texto diz que a consciência amplia a "dor moral" e a "dor empática". Questão: Como a capacidade de se colocar no lugar do outro (empatia) e o conhecimento das injustiças sociais transformam a dor individual em uma preocupação coletiva?

4. O Limite da Razão e a Humildade Lúcida. A "pobreza de espírito" é definida no texto como o "reconhecimento consciente dos próprios limites". Questão: Vivemos em uma sociedade que valoriza o "domínio total" e a "certeza". Como a proposta do autor de "abandonar a arrogância de compreender tudo" desafia a ideia moderna de que a ciência e a razão podem resolver todos os problemas humanos?

5. A Espiritualidade como Habitáculo da Lucidez. O autor conclui que a pobreza de espírito não cura a lucidez, mas "a torna habitável". Questão: Em vez de fugir da realidade (cegueira), o texto propõe sustentar o saber com humildade. Como essa atitude pode ajudar o cidadão a ser mais responsável e consciente em sua participação na sociedade, sem cair no desespero?

Dica do Prof: Para responder, pensem em como o que sabemos sobre o mundo muda a maneira como nos sentimos e como agimos com as outras pessoas.

Comentários

Nenhum comentário: